terça-feira, 14 de novembro de 2006

UT PICTURA POESIS

        
“Desde a Antiguidade, críticos literários e filósofos compararam muitas vezes as artes […]. A definição mais antiga e mais célebre é a de Simonide, para quem a poesia é uma pintura falante e a pintura uma poesia muda. A estas fórmulas podem juntar-se as da arquitectura, música petrificada, e a da música, arquitectura fluida, fórmulas inventadas, segundo Walzel(1917), na época do romantismo. No interior da literatura, é principalmente a poesia a ter o privilégio de se ver comparada às artes: são perceptíveis aproximações com a música, fundamentalmente graças a certas analogias ao nível da prosódia, com a arquitectura, mas em primeiro lugar, com a pintura” (A. Kibédi Varga, Teoria da Literatura, 1981)
        
Assim, a comparação entre a poesia e a pintura foi realizada sob diferentes ópticas por literatos e investigadores de todos os tempos, que se servem, com muita frequência, da famosa formulação horaciana do v. 361 da Ars poética: “ut pictura poesis”. A poesia é como a pintura.
        
Segundo Carlos de Miguel Mora, da Universidade de Aveiro, “os pontos que permitem estabelecer a comparação são basicamente dois, insinuados de maneira implícita pelo poeta: a técnica do engano e a falta de utilidade” (Os limites de uma comparação: ut pictura poesis”, Ágora. Estudos Clássicos em Debate 6, 2004; www.dlc.ua.pt/classicos/pictura.pdf).        
                
        


        
      ALEGORIA
        
      
        Francisco Oliveira e Silva, Alegoria, micropintura, Ponta Delgada, 2003.
       
       
       


       
SEGREDO ABERTO
       
Caminha a dualidade sexuada da frase
suspensa na sua entrega e abandono.
O que leva o homem a colocar-se na partida e
na razão masculina de si?
       
Implacável a radiação do tempo na superfície cósmica
que a força da mão pretende gastar
quase anular através de reminiscências aquáticas,
enlameadas e em coagulação elementar.
Em relativo distanciamento uma trama quase desvenda uma corporização.
É de trama, porém, a corporização e o seu interior é inane.
Trama irresolúvel, corporização não inteirada,
não assumida na sua propriedade nem na sua conformidade.
Convivência tensiva de si para si.
E, mesmo assim, o artista está em convite aceso
a espreitarmos os traslados da sua fundura ôntica.
Requalifica-se em sua própria rebentação.
       
José Maria de Aguiar Carreiro
Chuva de ÉpocaPonta Delgada, 2005.
       


       
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