quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CRIAÇÃO VELHA


      
      
          
              
CRIAÇÃO VELHA
          
I
          
Movem-se quilhas pelas ribanceiras
os putos elevam areias, brincam com os forcados
e por guloseimas trocam as fisgas.
            
No caminho vertem, sacodem as ancas as raparigas.
Colhem olhares, ditos e manguitos que se fazem entre os rapazes.
Soletram-se as carnes com gestos desajeitados.
Nos quintais há o odor a rosmaninho,
uma emanação volátil dos corpos.
            
Passo os dias sem mais nada
apenas um ligeiro cuspir nas mãos antes de pegar na enxada.
Aguardo que o boi tresmalhado se erga e desfigure em gente.
Pareço estar separado dos ritos dos mitos
e das estações.
O que eu sei.
Perla ou imago pode o limo parecer.
          
Por vezes repelidos do chão em ardência
revivemos os lastros dias
imensos desejos.
Por vezes sonhamos
e não fazendo disso um árduo sentido
levamos horas infindas a lavar a escoroar
levamos e trazemos e desculpamos as vociferias.
           
Aqui faz sentido agora a toda a hora
na nossa pressa e gentes
o bafio dos sótãos
a palha quente nas arribanas.
      
II
      
– É aqui que a gente passa o tempo
cordialmente e sem muito o que fazer
é aqui que a gente ri muito muito desmesuradamente
ah a gente ri, faz festas, tudo é assim
muito cordialmente
é assim que a gente gosta
leva o nosso homem para casa e
faz muito amor muito
é assim que a gente gosta.
              
Virgínia deu seu seio
Virgínia sofre por suma
aquela boca imaculada impoluta.
Ó ribeiro manso.
Ali, mesmo junto às pedras,
aquecidas as mãos pousadas sob o dorso, o campo rigoroso.
            
Na metalurgia antiga, a liga, a obra fundida interminada
cobre sem que se possam separar o metal e o fel.
No lugar da Criação Velha
a mulher do ferreiro não diz as antigas lendas.
Se a mulher terminar na montanha a liga, o lugar no casal
é porque se deu a união no forno no cadinho do ferreiro e dela.
             



In Arraianos nºVIIA vida nas aldeas
Santiago de Compostela, Alvarellos Editora, Janeiro 2008, p. 123.
      
      








[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/10/11/lugares1.aspx]