segunda-feira, 4 de maio de 2009

O SONETO É UMA CASA POÉTICA

       
«Falemos de casas
[…]
pensamentos nas pedras de alguma coisa
celeste como fogo exemplar    
       
Herberto Hélder, A Colher na Boca
Apud Poesia TodaLisboa, Assírio & Alvim, 1990

     
    
    
     
«O soneto é uma casa poética. Em nenhuma outra forma fixa o lirismo sabe conter-se tão amoldado, tão justo na medida que o veste e tão livre nos movimentos de respiração e de gesto que lhe apontam o exterior de que é abrigo e olhar. Medidas e casas são gosto e desejo de cada um, mas sempre se pode determinar o maior ou menor espaço que delimita o canto habitável e a maior ou menor folga que define a propriedade ou o empréstimo. Formas de rigor no estar livre, em suma. Com as adaptações subjectivas que sempre condicionam a liberdade dos outros (a do género) pela nossa e lhe conferem o rigor do exacto momento que vivemos. Assim o soneto, depois da grande fortuna clássica e simbolista que soube conquistar, se preterido pelas formas anárquicas da des-“ocupação do espaçocontemporâneo, num sistema de substituições[…]».

Mª Alzira Seixo, Discursos do Texto,
Amadora, Livraria Bertrand, 1977, pp. 283-284.
     
*

«[…] o soneto é uma estrutura e é uma unidade de tratamento da linguagem poética, constituindo uma descida vertical na pesquisa e na construção do poema considerado como um objecto.»               

E. Melo e Castro, depoimento a O Tempo e o Modo, 59, p. 383.

*

O que há no soneto? Uma unidade perfeita: desenha-se cada ideia parcial deper si, mas não tão independente das outras que não haja entre elas relação, até que afinal, juntando tudo num só se apresenta por todos os lados simultaneamente como em resumo, o fecho – chave de ouro! Dai, a unidade. E simplicidade? Toda: as partes conservam estreito laço entre si, é só um sentimento, só uma ideia; não são várias, mas vários lados: a unidade final funde-os num todo.

Antero de Quental, «Prefácio à Edição dos Sonetos de 1861». In: Antero de Quental, Sonetos, Organização, introdução e notas de Nuno Júdice, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002, p. 230.







1988

Observem que o poema de Avelino de Araújo só usou palavras no título. O texto, em si, é construído na associação visual da imagem que compõe o corpo do poema com as duas palavras do título. Analisando esta combinação temos o desenho de uma cerca de arame farpado, a palavra apartheid e a palavra soneto. E a indicação do contexto histórico da produção do texto remonta ao ano de 1988. A leitura mais imediata que o texto provoca  – entre outras possíveis – é a que relembra o significado de apartheid, o regime político de segregação racial que imperou na África do Sul até os anos 90. No apartheid eram determinadas as áreas das cidades em que os negros poderiam viver e em quais eles poderia circular. Se ultrapassassem os limites estabelecidos eram violentamente reprimidos pela polícia. A palavra soneto, por sua vez, evoca a forma fixa mais clássica de poesia: o poema com 14 versos, distribuídos em duas estrofes de 4 versos (dois quartetos) e duas estrofes de 3 versos (dois tercetos). É a forma em que estão distribuídas as linhas que formam a imagem do corpo do texto. Linhas que são fios de arame farpado, objeto usado para fazer cercas que delimitam propriedades… ou que formam cercados para animais.
Com a associação da imagem do arame farpado disposto numa cerca de quatro-quatro-três-três às palavras apartheid soneto Avelino de Araújo nos diz muito sobre o regime doapartheid: esse regime segregacionista, ao confinar seres humanos a áreas restritas, trata-os como animais. Três palavras e uma imagem foram suficientes para construir este sentido.
https://literarizando.wordpress.com/2009/03/08/gabaritos-2009-ficha-2/



PROPOSTA DE ESCRITA RECREATIVA, EXPRESSIVA E LÚDICA:

O soneto seguinte foi escrito por Florbela Espanca, mas encontra-se incompleto.
Completa-o de forma lógica, mantendo o tom poético (linguagem conotativa) e respeitando as seguintes características:
Os versos são decassilábicos;
O esquema rimático é ABAB BABA CCD EED;
Os versos encontram-se agrupados em quatro estrofes (duas quadras e dois tercetos);
O último terceto termina com chave de ouro.



Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que _________________,
Que tem a inspiração _________________,
Que reúne num _________________ a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher _________________! E que de leita
Mesmo aqueles que morrem de _________________!
Mesmo os de alma profunda e _________________!

_________________ que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de _________________ vasto e profundo,
Aos pés de quem _________________ anda curvada!

E quando mais no céu eu vou _________________,
E quando mais no alto ando _________________,
Acordo do _________________... E não sou _________________...
Florbela Espanca


(Para)Textos. Caderno de AtividadesLíngua Portuguesa 8.º Ano. Ana Miguel de Paiva, Gabriela Barroso de Almeida, Noémia Jorge, Sónia Gonçalves Junqueira. Porto Editora, 2012, p. 71.




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Poesia lúdica barroca, Folha de Poesia, José Carreiro, 2010-11-04.
           

    
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