terça-feira, 18 de agosto de 2009

CONSCIENCIA





  
  
[…] a investigação da consciência é uma investigação àquilo que nos torna humanos, à forma como sabemos aquilo que sabemos. Ou pensamos que sabemos. Seremos nós animais ou máquinas, ou uma combinação das duas coisas, ou alguma coisa diferente de cada uma delas? Compreender a consciência, ocorreu-me este fim-de-semana, é para a ciência moderna o que a pedra filosofal foi para a alquimia: a última maravilha na demanda do saber.
  
A busca de uma substância capaz de transformar em ouro o vil metal era, claro está, uma busca vã, porque não existe um tal composto, nem pode ser fabricado; mas, no decurso do processo experimental, muitas descobertas genuínas foram feitas — da porcelana à pólvora. Talvez nunca cheguemos a compreender cabalmente a consciência — sei que há especialistas que têm esta perspectiva, e devo dizer que a acho intuitivamente apelativa — mas o esforço para o conseguir já deu azo a muitas descobertas fascinantes sobre o cérebro e a mente […].
  
Foram, porém, muito poucas as referências feitas à literatura durante os trabalhos. O que me surpreende, porque a literatura é um registo escrito da consciência humana, porventura o mais rico que possuímos. Vou radicar as minha observações num pequeno texto literário, um poema — ou, para ser mais exacta, três estâncias do meio de um poema. O poema chama-se O Jardim, foi escrito por Andrew Marvell, um poeta inglês do século XVII, e é uma espécie de ode extasiada à alegria de se experimentar a natureza cultivada. A primeira dessas três estâncias descreve os prazeres sensuais de um jardim ideal. […]
  
  
Que doce Vida levo aqui neste lugar!
Maduros Pomos me cercam a balouçar;
Voluptuosos cachos, qual miragem,
Na minha boca em vinho se desfazem;
Os damascos e os pêssegos, curiosos,
Para as minhas mãos se estendem, ansiosos;
Tropeço nos melões, meu passo erra,
Enleado em flores caio por terra.
What wondrous life is this I lead! 
Ripe apples drop about my head ; 
The luscious clusters of the vine 
Upon my mouth do crush their wine ; 
The nectarine and curious peach 
Into my hands themselves do reach ; 
Stumbling on melons as I pass, 
Insnared with flowers, I fall on grass.
  
  
Ouvimos falar muito dos qualia […]. Vejo que as opiniões se dividem quanto a serem uma proeza do cérebro ou uma proeza da mente, fenómenos na primeira pessoa, eternamente inacessíveis ao discurso científico na terceira pessoa, ou padrões regulares da actividade neurológica que apenas se tornam problemáticos quando os traduzimos para a linguagem verbal. Não sou competente para arbitrar neste assunto. Mas deixem-me chamar a vossa atenção para um paradoxo contido na estância de Marvell, o qual se aplica à poesia lírica em geral. Embora fale na primeira pessoa, Marvell não está a falar apenas em seu nome. Ao lermos esta estância extrapolamos para a nossa experiência dos qualia de fruto e de fruição. Vemos o fruto, sentimos-lhe o gosto e o perfume, e saboreamo-lo com aquilo que foi designado por a excitação do reconhecimento, embora o fruto não esteja presente, embora seja apenas a realidade virtual de um fruto invocada pelos qualia do próprio poema, uma combinação única e subtil de sons, ritmos e significados, que eu poderia tentar analisar se houvesse mundo e tempo que chegassem, para citar um outro poema de Marvell — mas não há.
  
Na próxima estância Marvell volta-se para a natureza privada, subjectiva, da consciência. […]
  
  
Enquanto isto, a Mente, de Prazer esgotada,
Recolhe-se à Felicidade encontrada:
A Mente, esse Oceano onde cada ente
Logo encontra o seu equivalente,
Cria porém, transcendendo todos,
Outros Mundos e outros Mares a rodos;
Reduzindo tudo o que foi criado
A um conceito verde em verde sombra olhado.
Meanwhile the mind, from pleasure less, 
Withdraws into its happiness : 
The mind, that ocean where each kind 
Does straight its own resemblance find ; 
Yet it creates, transcending these, 
Far other worlds, and other seas ; 
Annihilating all that's made 
To a green thought in a green shade.
  
  
Há uma alusão no quarto verso a uma crença bizarra, mas muito comum na época, de que todas as criaturas tinham os seus correlativos no mar, o que coloca o poema numa era pré-científica. Mas isto não passa de um tropo, o que não afecta, creio eu, a validade da proposição central da estância: que a consciência humana é a única capaz de imaginar aquilo que não é fisicamente apreensível pelos sentidos, capaz de imaginar coisas que não existem, capaz de criar mundos imaginários (como os romances) e capaz de ter pensamentos abstractos — de distinguir por exemplo a ideia de cor (um conceito verde) da sensação de cor (em verde sombra olhado).
  
É isto dualismo? Bem, se qualquer distinção entre mente e corpo é dualismo, então suponho que é, se bem que me pareça difícil evitá-lo, tão profundamente enraizado está na linguagem e hábitos de pensamento. Mesmo os mais tenazes opositores da teoria do espírito dentro da máquina acabariam, contrariados embora, por nos deixarem usar os termos, mente e corpo, desde que ficasse entendido que a primeira é uma função do segundo e dele inseparável.
  
Todavia, Marvell, como todos os homens da sua época, era dualista num sentido muito mais forte do que esse, o que se torna evidente na estância seguinte. […]
  
  
Aqui, nas Fontes de pedra escorregadia,
Ou entre as Arvores que o musgo acaricia,
Do Corpo a Veste enfim despindo
Minha Alma para os ramos vai subindo:
Neles pousa, como um Pássaro e, trinando,
As argentinas Asas com o bico vai alisando;
E, até estar preparado para voo mais alongado,
Reflecte em suas Plumas os Matizes variegados.
Here at the fountain's sliding foot, 
Or at some fruit-tree's mossy root, 
Casting the body's vest aside, 
My soul into the boughs does glide : 
There like a bird it sits and sings, 
Then whets and combs its silver wings ; 
And, till prepared for longer flight, 
Waves in its plumes the various light.
  
  
Descartes, segundo tenho ouvido dizer, acreditava na imortalidade da alma, porque era capaz de imaginar a sua mente a existir separada do corpo. Marvell expressa essa ideia na belíssima imagem do pássaro. Ele imagina a sua alma a deixar temporariamente o corpo para se empoleirar no ramo de uma árvore, onde alisa as penas e se prepara para o voo final até ao céu. Não estou à espera de vos levar com ele até lá. Uma tal ideia da alma seria hoje fantasiosa, mesmo para os cristãos mais crentes. Mas a ideia cristã da alma está ligada à ideia humanista do eu, isto é, o sentimento de identidade pessoal, o sentimento de que a vida mental e emocional tem uma unidade, uma extensão no tempo e uma responsabilidade ética por vezes denominada consciência.
  
A ideia do eu está hoje debaixo de fogo, não só em grande parte do debate científico sobre a consciência, mas também nas humanidades. Dizem-nos que é uma ficção, uma construção, uma ilusão, um mito. Que cada um de nós não passa de um saco de neurónios, ou de uma encruzilhada de discursos convergentes, ou de um computador a funcionar sozinho em paralelo, sem operador. Como ser humano e como escritora, considero essa visão da consciência abominável — e intuitivamente nada convincente. Quero continuar agarrada à ideia tradicional de um eu autónomo e individual. Tanto do que prezamos na civilização parece depender dela — a lei, por exemplo, e os direitos humanos — incluindo os direitos de autor. Marvell escreveu O Jardim antes de ter surgido o conceito de direitos de autor, mas uma coisa é certa, mais ninguém o poderia ter escrito e mais ninguém voltará a escrevê-lo — excepto na acepção trivial de o copiar palavra por palavra.
  
O poema é uma celebração, centra-se na consciência como um estado de felicidade. É um poema acerca da felicidade plena. Há, porém, uma dimensão trágica na consciência que também quase não foi aflorada nesta conferência. Há a loucura, a depressão, a culpa e o pavor. Há o medo da morte — e, mais estranho que tudo o resto, o medo da vida. Se os seres humanos são as únicas criaturas vivas que realmente sabem que vão morrer, são também as únicas que, conscientemente, põem termo à vida. Para certas pessoas, em certas circunstâncias, a consciência torna-se tão insuportável que se suicidam para lhe pôr fim. Ser ou não ser? é uma pergunta peculiarmente humana. A Literatura também nos pode ajudar a compreender o lado negro da consciência.
  
  
In Pensamentos Secretos, David Lodge, Porto, Ed. Asa, 2002, pp. 339-343
tradução do original inglês (Thinks…, 2001) por Ana Maria Chaves e Rita Pires.
  
  
  
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