terça-feira, 31 de julho de 2012

O ESPÍRITO (Natália Correia)


Pomba de Espírito Santo (foto de Sara Luís)
            
       


O ESPÍRITO
       
Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
       
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
       
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
       
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
       
Natália Correia, Sonetos Românticos, 1990
       
                 

Vocabulário:
Indemne: que não sofreu perda ou dano; incólume.
Núncio: anunciador.
       

     
   
TÓPICOS DE ANÁLISE    
    
                
• a simbologia da ave e da andorinha em particular;

• a inevitabilidade da partida (vv. 1-2);

• a metáfora de Outono (vv. 3-4);

• brevidade da vida versus eternidade;

• o amor "mais alto", "ileso ";

• significado do último verso ("Impermanente" como as andorinhas ando ao sabor do tempo: vou, mas volto sempre anunciando a Primavera).
       
(Entre Margens | Português 10º Ano, Olga Magalhães e Fernanda Costa, Porto, Porto Editora, 2010, p. 129)
                 


               
           
TEXTOS DE APOIO
          
Estamos, portanto, perante uma poeta que se confronta com a proximidade da morte. Novidade nenhuma a morte na poesia de Natália. No livro anterior, publicado cinco anos antes, a morte era quase assunto omnipresente. Mas aqui não se trata da morte, mas sim da nitidez com que agora esta é vista. É, pois, alguém que sente o fim a chegar. O fim de tudo. Até da Obra Poética, a sua culminação.
[…]
A proximidade de um fim, efectivamente, pode induzir o poeta a querer esclarecer em definitivo a sua poesia, ou pelo menos, assim parece acontecer aqui.
É interessante aqui um parêntesis para um paralelismo: Luiza Neto Jorge, outro dos nomes desta “onda”, manteve características surrealistas no grosso da sua obra entre 1960 e 1973. “A Lume”, livro póstumo publicado em 1989, no entanto, surgia com uma outra clareza de discurso, uma linguagem mais depurada e mais simplificada onde também se notava a consciência do declínio do corpo e da vida a esmorecer aos poucos.
O declínio do corpo faz-se sentir raramente aqui, mas, mais à frente, no soneto “O Espírito”, sente-se, porque “cruentas/ Rugas me humilham. Não mais em estilo brando.”
      
      


      
Escritos sob os desígnios de Eros, os três sonetos - "o corpo", "a alma" e "o Espírito" - aqui insertos, irrompem de uma paixão corpórea arrebatadora e violenta, cujo ritmo, no primeiro, através de um sugestivo tom anafórico, insinua o da cópula norteada, esta, por "uma estrela insaciável" (p. 37).
Todavia este excesso, ou não sejam estes sonetos românticos, convoca a infelicidade gerada nas incongruências amorosas naquele jogo de ocultação / desvendamento que, erotizando os sentidos - "Esquivo-me: o teu sonho mais instigo. / Fujo-te: a tua chama mais provoco" -, induzem a tristeza anímica - "E de ser tão amada eu fico triste" (p. 38). Na senda de G. Bataille, a poeta sabe e sente que a posse total só é possível pelo aniquilamento no outro e, sem pudor, o revela: "Num beijo infindo queres morrer comigo." (p. 38) Assumindo o seu romantismo - "Eu sou romântica" (p. 39) - sente a erosão causada pela passagem do tempo, mas é no Espírito que confia para um eterno retomo - "Pensa-me eterna que o eterno gera / Quem na amada o conjura." (p. 39). Sendo os únicos sonetos que, ao longo da obra, possuem título, apenas a palavra Espírito aparece maiusculada dando consistência à demanda espiritual que enforma Sonetos Românticos, metamorfoseada numa demanda também física, já que o número três se converte, segundo Freud, num símbolo sexual. O erotismo não é tão só o mero impulso vital para se inscrever numa união íntima e espiritual "núncia de perene primavera" (p. 39).
   
Entre Eros e Thanatos (em torno de Sonetos Românticos de Natália Correia)”, Isabel Vaz Ponce de Leão in Natália Correia 10 anos depois, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2003, p. 64 
    
    
*
           
   
A última das vozes natalianas — a d’ "O dilúvio e a pomba" (1979), d’ "O armistício" (1985) e de "Sonetos românticos" (1990) — traduz um acontecimento decisivo da vida da poetisa: a gratífica consciencialização do excepcional dom ou favor que merecera do Espírito, entidade agora dominante, devotadamente elevada a princípio dos princípios. À medida que o tempo foge e o Eterno a intima, Natália quer ser mais do que musa ou vate eméritos; quer encontrar uma via que aprofunde e sobreleve o Mistério e a Tradição antes cantados; quer, por assim dizer, tornar-se "sófica", votar-se por inteiro à sabedoria, que outra coisa não há que melhor distinga a sua condição de eleita. Aqui chegados, é evidente que já se não está a falar de uma qualquer poesia espiritual; está-se perante uma poesia de carácter eminentemente gnóstico e salvacionista, sujeita a graus de iniciação, consciente das provas prestadas e das provas ainda a prestar — sobretudo consciente do objectivo maior a atingir: fazer cair "o véu do mistério final" (I, p. 387), habitar enfim "o céu futuro que houve dantes" (I, p. 392). Em definitivo convicta de que o poeta e o sacerdote são um só, como nas origens o haviam sido, Natália pugna pela harmonia universal das coisas e dos seres, pela confluência de mitos regressivos e projectivos, pela diluição das galvanizantes vivências do porvir nas longínquas experiências do passado (Unido o fim ao começo / Espírito encontra a morada", II, p. 170). Será, de resto, na Ilha, na volta à "Ilha do Arcanjo", com tudo o que ela simboliza (perdido mundo da infância, deusa-mãe primitiva, memória de arcanos, sacro lugar de refúgio, "centro inviolável" da actividade espiritual, etc.), que a poetisa verdadeiramente se inteira da colombina "citação" e do seu real significado: o reencontro com o Espírito Santo, com as velhas lições guardadas em lendas e rimances, com a certeza de que o amor da sabedoria conduz naturalmente à sabedoria do amor. Assim se compreende o seu final joaquimismo, a esperança no breve advento de uma terceira idade, a sua muito propalada conversão ao Páraclito ou à gnose pentecostal. Uma conversão, todavia, muito particular, já que ela tem como base "a festa da descrucificação", a denúncia intransigente do monoteísmo, a pagã reabilitação de todos os deuses — daí o maior comedimento, nesta fase, da imaginação criadora e o óbvio enfeudamento de numerosos poemas (com relevo para os de "Armistício") a formas e temas clássicos.
[…]
Quem quiser compreender a poesia de Natália não poderá nunca prescindir do seguinte: de que se trata de uma obra gerada, do princípio ao fim, sob o signo do amor ao Todo (chame-se ele Natureza, Universo, Ser, Deus, Vida, Alma ou Espírito...). É por isso que acertadamente ela se define como romântica: em primeiro lugar, porque liberta da apertada malha dos universais literários; em segundo lugar, porque jubilosa de cooperar na grande obra da criação; em terceiro lugar, por saber que a cada momento nela se renova a tradição literária, vale dizer, que a cada momento nela se refaz a odisseia de um espírito determinado pela íntima necessidade de perdurar ("Em mim se resolve / o alto sentido / do fruto na árvore / incontido", I, p. 95).
     
O sol na noite e o luar nos dias, de Natália Correia: romance, a três vozes, de uma ocidental”,
Fernando Vieira-Pimentel, Ponta Delgada, Outubro-Novembro de 1997.
                     
     

        
SUGESTÃO
            
       
            
         
   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/07/31/NataliaCorreiaOESPIRITO.aspx]
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