segunda-feira, 30 de julho de 2012

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS (Natália Correia)


  


            
QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

             
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
            
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
            
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
            
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
            
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
            
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
            
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
            
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
            
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
            
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
            
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
            
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.
            

Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
            
            
QUESTIONÁRIO SOBRE « QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS»
          

1. Recordando que este poema foi escrito em 1957, época em que a censura, em Portugal, era sinónimo de ausência de liberdade, o que te sugere o título?

2. Explica de que forma a construção repetitiva do poema se conjuga com o título.

3. Propõe uma interpretação para o poema, tentando descodificar a sua linguagem profundamente metafórica.
3.1Escolhe o(s) verso(s) que, na tua opinião, melhor retrata(m) os constantes atentados cometidos, naquela sociedade, contra a formação e afirmação da individualidade. Justifica.
            


CHAVE DE RESPOSTAS
         
1. O título pretende sugerir que o poema é um lamento dos jovens a quem impediram de ser livres.

2. A construção repetitiva acentua o tom de queixa, de lamento.

3. O poema utiliza a 1ª pessoa do plural que determina a natureza coletiva de quem se lamenta. De facto, pode ser entendido como o relato triste de toda uma geração que foi obrigada a receber uma educação ("ir à escola) destinada a produzir bonecos("manequins", de "corda") sem alma ("nossa ausência", "vazios"), sem ideias próprias("penteiam-nos as crânios com as cabeleiras dos avós"), sem identidade ("onde não vem a nossa idade"), sem nada. Uma educação que procurava fazer dos jovens cadáveres adiados (" a nossa dimensão, /não é a Vida nem a Morte").
            
(Plural 10, Elisa C. Pinto, Paula Fonseca e Vera S. Baptista, Lisboa, Lisboa Editora, 2010, p. 268)
            
            



COMUNICABILIDADE E LITERARIEDADE DO POEMA
            
Um bom exemplo da comunicabilidade de sua poesia pode estar no poema “Queixa das almas jovens censuradas”, originalmente publicado na antologia “O Nosso Amargo Cancioneiro”, organizada por José Viale Moutinho. Em 1971, o poema foi musicado pelo português José Mário Branco, e entoada como “hino da juventude censurada”. O músico não mudou nenhum verso do poema, mantendo-o intacto. Com o facilitador das rádios portuguesas, seu poema ficou conhecido na voz de José Mário Branco, comunicando as dores da censura artística ao seu país.

A antítese “lírio/canivete”, na primeira estrofe, anuncia que duas ideias estarão em permanente tensão no poema: vida e morte. Tensão já anunciada no título por “almas jovens censuradas”: a juventude é já por si revolucionária, seja no corpo ou nos ideais; enquanto a censura esgota-se em seus paradigmas num terreno infértil. A liberdade revela-se cerceada no poema: “e uma alma para ir à escola”. Se a alma é, desde Platão, sinônimo de desprendimento, a escola adquire o significado de educação, pedagogia, uma espécie de condicionamento da alma.

A indeterminação do sujeito que “dá” repete-se em quase todas as estrofes, afora duas das doze, fazendo com que o leitor subentenda ser o sujeito de “dão-nos” os próprios censores. Ao final da primeira estrofe, ganha-se um “letreiro”, com a promessa que ele se metamorfoseará em uma flor: “raízes, hastes e corola”. A aparição de metamorfoses de elementos inanimados no poema é herança do surrealismo. Natália Correia fez parte do grupo surrealista português, organizando em 1973 a antologia O surrealismo na poesia portuguesa. A aparição do manequim, na terceira estrofe, caracteriza fortemente essa estética. Em se tratando das artes plásticas, os pintores metafísicos - precursores do surrealismo - pintavam manequins em seus quadros como estratégia de impessoalização do homem, com o objetivo de “coisificar” a imagem humana. São exemplos os pintores Carlo Carrá e George De Chirico.

O poema não dispensa a plasticidade com que os elementos são descritos, ainda que seja através de deformações, como ocorre na nona estrofe: “Dão-nos um cravo preso à cabeça / E uma cabeça presa à cintura”. Esse esquartejamento de partes do corpo também pode ser compreendido como uma deformação do próprio sujeito censurado, como podemos observar na quinta estrofe: “Penteiam-nos os crânios ermos / Com as cabeleiras dos avós / Para jamais nos parecermos / Connosco quando estamos sós.” O adjetivo “ermos” empregado para o substantivo “crânios” adquire dois sentidos válidos: ermo pode designar tanto algo desértico como uma crosta escamosa que se forma na cabeça das crianças. Ambos significados aniquilam a identidade do sujeito jovem que se vê penteado como a “cabeleira dos avós”. Mais uma vez a noção de vida e morte faz-se presente no poema. Ao final, a dimensão do eu lírico revela-se outra: nem vida, nem morte, mas numa condição exilada “com carimbo no passaporte”.

Os elementos que conferem a literariedade à linguagem poética estão fortemente presentes neste poema de Natália Correia. Conferir lirismo a esse poema não implicou em recusa do mesmo em relação a sua comunicabilidade, afinal, o poema teve forte receção em seu país, principalmente devido ao engajamento político pelo qual sua mensagem foi elaborada.
              
Gabriel da Cunha Pereira e Josyane Malta Nascimento, Arquivos do 25 de Abril: O Diário de Natália Correia
 in Anais do XXII Congresso Internacional da ABRAPLIP,
Salvador - Bahia - Brasil13 a 18 de setembro de 2009, pp. 
1663-1666
              
              



O PORTUGAL SALAZARISTA E O SEU PODER CASTRADOR
         

Esse ato castrador, cerceador dos textos, que a todos procura controlar pelo uso imposto dos sentidos das palavras é realçado por Natália Correia em “É preciso avisar toda a gente”1. Nesse texto, a autora manifesta a urgência em alertar as pessoas para o facto de os textos não serem publicados de acordo com os originais; os textos impressos foram retalhados, cinzelados pela censura transmitindo, apenas, a sua interpretação daquele texto encarado, após a tortura a que foi sujeito, como inócuo:

«É preciso avisar. Avisar o público contra os salteadores da prosa que, agachados nas moitas de certos suplementos literários (não sei se todos) saltam sobre a prosa alheia que querem depradar, reduzindo-a, com a ajuda da tesoura, ao texto que melhor se afeiçoa aos seus rancores que burilam em pateada crítica. […]
Mas entremos nos factos, já que sem eles, poderão as ratazanas da tesoura continuar a ter o beneplácito do leitor cristalinamente ignorante das agulhas que fazem este croché das transcrições retalhadas pelo bisturi clandestino dos cirurgiões da deturpação programada.»
       
Para referir esse ato corrosivo da censura, Natália Correia utiliza a metáfora dos salteadores, do croché e dos cirurgiões. À semelhança de um salteador, também os censores se apoderam da escrita alheia para a submeter aos seus caprichos. Contudo esse é um ato praticado na penumbra, eles estão “agachados nas moitas” como um qualquer salteador, só que a sua atividade é mais ignóbil na medida em que a vítima é a prosa alheia que eles querem “depradar” de acordo com os rancores que os dominam no momento da captura. Depois dessa depuração, o texto é novamente tricotado de forma a que o leitor não se aperceba das omissões, dos cortes efetuados pelo “bisturi” que o poder central usou para eliminar as palavras que não interessavam ao Estado. Esses salteadores iniciam, assim, um processo de animalização já que se tornam em “ratazanas da tesoura”, nessa metáfora tão violenta indiciando a perda de todas as capacidades humanas2. Consciente do poder da censura, que é feita na escuridão, no anonimato, a autora acusa o censor de ser uma espécie de “travesti”, continuamente sem imagem própria, que se limita a reproduzir os ideais do Estado mesmo que isso implique falsear os textos:

«Do que o travesti não gostou foi de que eu dissesse que a máscara que transfigura o cortador da prosa alheia em beata de sacristia literária, comprou-a ele à custa dos manipuladores de fundos que se divertem muito com este Carnaval dos puritanos.
Aplausos e assobios chama o ocluso glutão da mesa censória à sua oficina de rapinagem. Mas não assina. Não dá a cara. Porque a não tem. Tem focinho de cão de guarda das informações comprometidas nas aspas com que assinala o beatério do seu “engagement”. Compreende-se que não queira exibi-lo.
Quem gostar de censores que vá à missa do rapinante. Frequente-lhe omentidero. Mas não me venha dizer que é contra a censura, a outra, a visível que um dia há-de acabar. Porque esta é que não acaba.»
       
É nesse “mentidero”, nessa “oficina de rapinagem” que esse ser sem rosto forja novos textos, deturpando, senão mesmo subvertendo, os originais para que eles funcionem como um discurso apologético do regime. Esse “glutão” continua a agir como se fosse um animal comandado, sem livre arbítrio, daí ter “focinho de cão de guarda” e o que lhe compete guardar ferozmente é a imagem difundida pelo Estado, mesmo que para tal tenha que se dedicar a engolir as palavras alheias. Neste fragmento, a autora repreende também aqueles que assumem ser contra a censura, mas que são coniventes com essa atuação; também eles devem frequentar o “mentidero” e assistir à “missa do rapinante” (nessa alusão à união entre a Igreja e o Estado).
              
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais.
Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005.
         
________________
(1) Cf. CORREIA, Natália – A estrela de cada um, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004, pp. 47 a 50.
(2) Também Miguel Torga, em A Criação do Mundo, salienta que esses agentes do Estado eram ainda mais prisioneiros do que o resto da população. A instituição que representavam sugara-lhes a personalidade, tornando-os em “Títeres de vontades alheias, a força que cuidavam encarnar vencera-os primeiro.” (Cf. TORGA, Miguel – Op. Cit., pág. 412).
          


          
SUGESTÕES
            
 CD "Natália Correia - A defesa do poeta", editado pela EMI/Valentim de Carvalho. Inclui o poema "Queixa das almas jovens censuradasmusicado e cantado por José Mário Branco poemas declamados pela própria Natália Correia.


   
                     

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/07/30/QueixaDasAlmasJovensCensuradas.aspx]
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