quinta-feira, 30 de agosto de 2012

NAVIO DE SAL (Vitorino Nemésio)


                   
              


             
NAVIO DE SAL          
                    
Quando eu era pequeno, vinha o navio de sal,
Era um acontecimento!
E meu tio António Machado ia sempre ao areal
Com o seu óculo de alcance desencanudado a barlavento.
Era um iate cheio de cordas e de velas,
Chamado Santo Amaro, Veloz ou o 
Diligente,

E, como trazia o sal, que é o sabor das panelas,
Era esperado tal qual como se fosse um ausente.
Na barra do horizonte era um ponto sozinho,
Mas crescia no vento a sua vela crua,
E o sol, ao morrer, tingia-lhe de vinho
A proa que vestia a pau a vaga nua.
Ali vinha, do Alto, sem sextante nem erro,
Enchendo devagar as previstas derrotas,
E plantava no fundo a sua raiz de ferro
Fazendo abrir no céu como flores as gaivotas.
As raparigas sãs da ribeira do mar,
Que traziam na pele um aroma silvestre,
Punham os olhos muito compridos, a cismar,
Nas cordas que secavam as roupas íntimas do Mestre.
Os pescadores mediam com a linha das pestanas
O tamanho do Audaz, a sua popa alceira:
Nunca tinha arribado àquelas praias insulanas
Tanto pano de verga, tanto oleado, tanta madeira!
Por isso a Vila, abrindo nas rochas duras
A branca humanidade das suas nocturnas casas,
Se encostava ao bater daquelas velas escuras
Como o corpo de um pássaro se deixa levar pelas asas.
………………………………………………………………...
Ah, se ele fosse salgar os caldos já tragados,
Tornar incorruptível a mocidade já verde,
Interessar o óculo do velho tio e os vidros suados
Da janela que ao longe este horizonte perde!
Se fosse encher de branco as paragens insossas,
Manter o gosto a vida aos dias moribundos,
Conservar as faces às moças
E o movimento aos mares profundos,
Então sim! levaria a porto e salvamento
A sua carga.
Na dúvida, Capitão, espera o vento,
Iça as velas e larga!
          

Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso (1938)



     
     
LINHAS DE LEITURA
     

Observe, no poema, as seguintes linhas de leitura:

 a memória da infância;

 a representação de um mundo concreto, de raiz marítima;

 o carácter descritivo/narrativo da 1ª parte do poema; o carácter expressivo da 2ª parte;

 sal: agente e símbolo da conservação (dos alimentos, da memória);

 a linguagem metafórica; outros recursos estilísticos;

 a utilização livre da métrica e da rima.

         
Plural 12, E. Costa, V. Baptista, A. Gomes, Lisboa Editora, 1999.
       


       
SUGESTÃO
      
   


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/08/30/navio.de.sal.aspx]
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