segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A VIDA É TEMPO (Vitorino Nemésio)


Nabucodonosor II, Rei de Babilónia. Pintura de William Blake, c. 1805.
Nabucodonosor II, rei da Babilónia, visto por William Blake, 1805



A VIDA É TEMPO

Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro,
Será será o meu passado
Como da hera se faz o muro
Mais que da pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo,
Nada nasceu, tudo é que é,
Haja ou não haja Sartre e o mundo
Deus Tudo-Nada havido em fé.

Que ele é Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão assente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue, e me desmente.

     
Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte, Lisboa, Moraes Editora, 1959, p. 22.
    


    
TEXTO DE APOIO | LEITURA ORIENTADA
     
Em «A Vida É Tempo», em quatro quadras octossilábicas, a dialética Tudo-Nada, independentemente do niilismo existencialista de Jean-Paul Sartre, assume particular significado.
Nas duas primeiras quadras, após a carac
terização elementar do homem em termos que articulam o idealismo ao dinamismo da luta («Com alma, ideias, tempo, luta»), o sujeito proclama a sua liberdade imperfectiva, expressa quer através da imagem críptica da gruta, quer a partir da comparação gramatical do pretérito imperfeito, que exprime uma ação inacabada. Então, o futuro constrói-se com a luta nunca terminada («De era se faz o meu futuro»), assumindo o jogo da homofonia (era/hera) um trocadilho surpreendente, já que na comparação entre hera e muro aquela adquire paradoxalmente maior valor, talvez para indiciar a relevância, aparentemente pouco significativa, do passado em ordem ao futuro.
Nas restantes duas quadras, a noção desconcertante da erosão do Tempo, simbólica da Morte, é caminho para a descoberta do Absoluto, como Tudo-Nada, independentemente de ser admitido ou negado, escutado ou contestado, já que a Sua essência permanece.
        
António Moniz, “O Ser e o não Ser”
 in Para uma leitura de sete poetas contemporâneos, 
Lisboa, Editorial Presença, 1997, p. 79.
    
         


SUGESTÃO
      
   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/10/vida.tempo.aspx]
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