sábado, 15 de setembro de 2012

MARGARIDA CLARK DULMO

                
           
Antígona – […] Tais são os factos, e em breve mostrarás se tens carácter ou se da tua nobreza fizeste vileza. […]
Ismena – é preciso lembrarmo-nos de que nascemos para ser mulheres, e não para combater os homens; e, em seguida, que somos governadas pelos mais poderosos, de modo que nos submetemos a isso, e a coisas ainda mais dolorosas. […]
Antígona – é mais longo o tempo em que devo agradar aos que estão no além do que aos que estão aqui. É lá que ficarei para sempre; e tu, se assim te parece, desonra aquilo que para os deuses é honroso.
Ismena – Eu não faço nada que não seja honroso, mas sou incapaz de actuar contra o poder da cidade.
        
Antígona, Sófocles
(Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, INIC, 1984)
          
                 
                 
Para quem se preza e já não tem ilusões, [o casamento] é a grande âncora. Com o hábito e um forte sentimento como o que sinto pelo André, ser uma mulher casada é ser como um daqueles veleiros que se deixavam apodrecer meses e meses na Horta, amarrados a uma boia da Doca; ou, se quisermos puxar as comparações ao trágico: como um morto que encontra a paz e a luz perpétua numa sepultura que os seus compraram e que trazem asseadinha...
         
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal,
Capítulo XXXVII – Epílogo (Andante; Poi Allegro, Non Troppo)
        
       
            
"Mulher a 4 chaves", João Câmara, 1971

            
            
        
MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio
    
Caracterização da personagem Margarida Clark-Dulmo
    
    
PERSONAGEM TRÁGICA:
Margarida Clark-Dulmo, de Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.
     
Personagem caracterizada por um sentimento de falha, arrastando a existência em contínuos desencontros sociais e permanentes frustrações individuais, compensados por um forte desejo de fuga para a frente, gerador de novas iniciativas, rapidamente goradas. É a tragédia atual, pela qual os desencontros, os acasos, as perfídias subterrâneas, as pequeninas vaidades humanas, desembocam na mais pura e inviolável das rotinas: a anemia social, a indiferença, a passividade, o absentismo e, sobretudo, a resignação e a renúncia ao sonho. Margarida casa com André Barreto, salvando da falência e da ruína a casa dos Dulmos. Em troca, Margarida abafa os sonhos singulares de juventude, resignando-se a uma existência rotineira, parasitária, uma existência vazia. É nesta ausência de futuro ‑ que não seja o futuro do tédio ‑ que reside o elemento trágico da existência de Margarida. Neste caso, a tragédia não reside na vontade de lutar ou no desejo de desafiar, mas na sua renúncia e na consequente interiorização de um profundo luto pela vida que nunca se terá. A tragédia ‑ a pior das tragédias atuais – evidencia que, depois do seu casamento com André, Margarida não tem biografia, deixou de haver História para Margarida, estará viva para os filhos e para a sociedade e morta para si própria. Qual a diferença entre a nova existência de Margarida e a existência de Antígona entaipada?
    
Miguel Real, “Cinco personagens que gostaria de ter criado”,
http://www.portaldaliteratura.com/cronicas.php?id=71, 21-11-2011
   
    
*
     
Espantoso retrato psicológico duma mulher, a personagem que transporta esse nome é simultaneamente tão verosímil e tão diferente das outras personagens do romance que o leitor se intriga e pergunta se Margarida não é simplesmente mais uma «ilha perdida» no horizonte insular do autor. Margarida é verosímil enquanto criação psicológica, sendo, por assim dizer, a cúpula daquela veneração que Nemésio dedica quase sempre às personagens femininas que povoam a sua obra. Margarida é, no entanto, diferente de todas as outras personagens de Mau Tempo no Canal,personagens que refletem em maior ou menor grau os condicionalismos geográficos, socioeconómicos e culturais do meio que serve de pano de fundo ao romance. Margarida, porém, supera esses condicionalismos. Não é apenas uma jovem, produto duma classe e dum tempo, dotada de sensibilidade a condizer e frustrações e sonhos igualmente condizentes. É mais do que isso. É o próprio «irreal» com rosto de realidade, é apenas a verosimilhança duma personagem saída da pena dum grande escritor. Porque Margarida, em termos de «realismo» - ou seja, de qualquer adequação rigorosa entre o meio e o produto humano por ele produzido -, Margarida não existe. Isto é, existe tão pouco quanto a ilha perdida supostamente descoberta por Fernão Dulmo.
[…]
Margarida é a polarização dum desejo insaciável, criatura que o criador suscita à comparência fascinante. Se outras mulheres da Horta - «meio mesquinho», no dizer do tio Roberto Clark - perpassam com a graça um tanto superficial de seres que, para além de estagnarem, vivem num tempo de «piano e francês» (ou outra língua, dado um certo cosmopolitismo da Horta de então), Margarida não se lhes pode comparar. Escapa à superficialidade. Condescende mas não se identifica. É a «deusa» criada à altura do «deus» omnisciente que criou o livro.
Margarida Clark Dulmo, aparentemente tão real, é um ser insatisfeito e fugidio. O autor coabita com a intimidade dela. Logo no capítulo II, escreve: «Nunca tinha gostado de ninguém. Sentia não sei quê que podia muito bem sem a recordação de rapazes, mas que a presença deles tornava tão agradável dentro dela que chegava a doer-lhe o peito. O que quer que fosse não era maior com João Garcia do que com outro qualquer. Talvez nem tanto... Mas se não a pusera, por exemplo, na exaltação em que o Álvaro de Bettencourt a deixara ao ir para a África, agora apossava-se dela por uma porta que nunca se abrira em si, uma entrada secreta, sem acessos a grandes desejos de ser levada, como tinha pelo outro, mas de ser quem era e ficar fechada no quarto, com o vergão da vergasta no corpo.»
Se Gustave Flaubert proferiu a célebre declaração «Madame Bovary, c'est moi», não escandalizará supormos que Margarida Clark Dulmo é Vitorino Nemésio. É claro que o «c'est moi» de Flaubert tem de ser lido de forma restritiva: Madame Bovary é a revolta, a ânsia de evasão, a busca dum amor que ultrapasse a mesquinhez quotidiana - revolta e anseios sentidos por Flaubert. Igualmente a nossa afirmação «Margarida Clark-Dulmo é Vitorino Nemésio» deve ser entendida de forma restritiva: Margarida é o julgamento da clausura insular, o desejo de fuga, a viagem eterna ao encontro da ilha perdida – julgamento e desejos que integram o carácter de Nemésio. Repare-se, por exemplo, na enorme capacidade afetiva («chegava a doer-lhe o peito») contrariada pela impossibilidade de amar os seres na sua realidade («Nunca tinha gostado de ninguém»). Note-se ainda a contradição (se é que contradição existe) entre a fuga («desejo de ser levada») e a vontade de solidão («ficar fechada no quarto, com o vergão da vesgasta no corpo»). E não será de somenos importância essa marca da vergasta, dor e desilusão, colhida a partir da hostilidade do mundo... Também o protagonista de Varanda de Pilatos, sedento de aventuras, deseja ficar para sempre a bordo, maI o barco chega a Lisboa: «Seria aquela a toca fantasiável para viver toda a vida.»
A ilha perdida e Margarida são, para o narrador, como a relação do «mais-que-perfeito» com o «perfeito» quando essa relação se estabelece no capítulo II de Mau Tempo no Canal. Ser para além do seu acabamento, a ilha perdida é a perfeição que não pertence ao mundo material. Margarida, pelo contrário, é um passado perfeito, «acabado» - aquela construção superior que o autor traz na mente -, mulher que traz nos olhos «um não sei quê que nem parece ser deste mundo» (cap. IV). Mas esse «acabamento», ou perfeição, de Margarida coloca-a, pelo próprio excesso, acima das coisas terrenas. Na verdade, Margarida - não escapando neste aspeto à lei geral de toda a personagem - é um texto, possivelmente um texto imortal. Arrancada ao real e ao sonho, é na simbiose da vida com a morte que adquire essa extraordinária e estranha dimensão. Ela é Vitorino Nemésio a contas com o futuro da obra escrita - a contas com o espírito de Vitorino Nemésio depurado de amores passageiros, do seu amor pela ilha na sua realidade física, da sua paixão pela terra e pelas gentes; depurado do efémero para ser letra, página, poema, enredo, cântico superior à morte.
[…]
José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978, pp. 84-87)
   
    
*
    
À complexidade humana que a transforma num ser autêntico e vivo, lutando corajosamente contra os preconceitos, em luta pela sua liberdade individual, vem Nemésio acrescentar algumas dimensões artísticas da época. Tal atitude eleva a jovem à categoria de mulher universal, tornando-a ao mesmo tempo evocadora da realidade açoriana, que ela sintetiza de forma inequívoca. Mas o autor não se contenta em dar dela a imagem verdadeira de uma mulher de fibra; associa também aspetos míticos que lhe enriquecem o perfil psicológico - a pérola que o nome «Margarida» evoca (cf.margarita, em latim) e a serpente cega do seu anel de sonhos, que se torna de tragédia quando André Barreto lhe oferece uma réplica daquele, mas com as duas esmeraldas olhando o vazio que, doravante, será a vida de Margarida, e que, num gesto de desespero, o lança ao mar quando, após o casamento, empreendem uma viagem à Europa.
Margarida fora criada num ambiente cosmopolita, onde outras jovens, tal como ela, procuravam evadir-se às opressoras convenções insulares; o esquema do estilo de vida destas moças inconformistas, desempoeiradas e desportistas, surge na crítica escandalizada de personagens como D. Carolina Amélia e Januário Garcia «…o Faial tem mudado muito; já não há aquela distinção... muitos costumes soltos! Se até já há raparigas que tomam banho com fato de malha em Porto Peru!» (cap. VI).
Margarida Dulmo é, pois, uma jovem de 20 anos; bonita, vigorosa e esclarecida, modelo das aspirações femininas da classe rica açoriana de então.
Apesar de revelar ainda alguns acessos da «soberba dos Clark» (cap. I) - por exemplo, quando em conversa clandestina com João Garcia, ele lhe fala do Praetextado, e ela se lembra que ele é homossexual -, Margarida revela por palavras e atos que não venera as figuras de parentes ancestrais, só porque pertencem à família, não revela qualquer desdém aristocrático para com membros das outras classes sociais; esboça um namoro com João Garcia cuja continuação só ele foi responsável por não se tornar uma realidade; convive alegremente com os baleeiros do Pico, usando a sua própria linguagem; tem palavras de ternura para Cândia Furôa, cuja casa visita sem preconceitos. Por outro lado, faz trabalhos caseiros que lhe não competem - no dizer da mãe e das tias -, torna-se enfermeira do criado, Manuel Bana, (cap. XXII) e ambiciona empregar-se numa clínica em Londres.
Nestas atitudes de marcado individualismo, a jovem surge-nos como uma heroína romântica. E, no entanto, há nela também características «realistas» e «simbolistas» que a tornam uma síntese da época e da própria açorianidade.
Nas suas tendências de autoafirmação e rebeldia contra as convenções familiares e sociais, o isolamento e a melancolia com que chega ao final da obra são evidentemente a sua feição romântica. Desaparecida a sua última esperança de libertação com a morte de Roberto, Margarida abandona por fim a busca do seu ideal de felicidade: o amor livremente escolhido.
E, finalmente, revela claramente a intensidade da sua tragédia pessoal, nas últimas páginas do romance (cap. XXXVII, 2ª parte). Mas as características realistas desta personagem são também visíveis na forma dramatizada como «corta» com João Garcia, como se relaciona com Roberto, como pratica desporto e faz tarefas domésticas, fazendo dela sempre uma personagem que nos parece autêntica. Há também nela uma reserva emocional de uma grande dignidade, revelada com os seus pretendentes, que a torna quase inibida; por isso, não pode perdoar ao pai, de quem se distancia pelo seu autocontrolo, os seus desmandos sexuais e alcoólicos.
Esta é uma personagem que reúne em si todas as linhas de força do romance, ao mesmo tempo que se revela como a multifacetada realidade açoriana: um solo de vulcões (como vimos no Pico); o mar real de barcos e baleias, de tempestades e bonanças; a fauna e a flora com cenas pastoris de ordenha de vacas e cavalgadas desportivas...
Talvez possamos, então, concluir que Vitorino Nemésio concentrou nela um mundo de realidades insulares e universais que simbolizam a experiência pessoal da sua própria vida.
    
Maria da Conceição Coelho e Maria Teresa Azinheira, Apontamentos Europa-América explicam Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1995.
    
     
    
    
SUGESTÕES
      
   
[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/15/Margarida.Dulmo.aspx]
Enviar um comentário