sábado, 29 de setembro de 2012

NOCTURNO (Antero de Quental)


       
       
NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo1 da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga2 e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua3,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o etemo Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da noite, e mais ninguém!
      
Antero de Quental
      
     
_______________
esquivo: fugidio.
2 voga: flutua.
que tumultua: que está em tumulto, que se inquieta.
      
      
      
            
COMENTÁRIO DE TEXTO
      
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- características atribuídas pelo sujeito poético ao «tu»;

- descrição do estado psicológico do «eu»;

- aspetos formais e recursos estilísticos relevantes (apresente no mínimo dois de cada);

- Importância do segundo terceto para a construção do sentido do texto.
      
     
     
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
      
Características atribuídas pelo sujeito poético ao "tu"

O "tu" é caracterizado pelo sujeito poético como uma entidade:
- incorpórea, etérea, fugidia e noturna, apresentando a configuração de uma entidade transcendente ("Espírito que passas", "Filho esquivo da noite", "Génio da noite" - vv. 1, 3 e 14);
- clarividente e compassiva, distinguindo-se pela capacidade excecional de compreensão do drama íntimo do sujeito de quem é confidente ("Tu só entendes bem", "A ti confio o sonho", "tu entendes o meu mal", "Tu só [...] e mais ninguém" - vv. 4, 9, 12 e 14);
- reconfortante e balsâmica, apaziguando o sujeito ao proporcionar-lhe o "esquecimento" do seu "tormento" interior ("Sobre o meu coração que tumultua,/ Tu vertes pouco a pouco o esquecimento" - vv. 7-8);
- …
    
  
Descrição do estado psicológico do "eu"
Debatendo-se com um profundo e doloroso conflito emocional, ciente do seu isolamento, o sujeito poético busca consolo na atmosfera tranquila da noite ("quando o vento/ Adormece no mar e surge a lua" - vv. 1-2). Atormentado, dirige-se à noite-confidente (o "Espírito" que passa, "Filho esquivo da noite"), a qual não só compreende a sua dor, como a apazigua, fazendo descer o "esquecimento" sobre o seu "coração" tumultuado. A serenidade daqui resultante vai-se instalando progressivamente ("pouco a pouco") e o "eu" confia à entidade que interpela (o "Génio da noite") a natureza do seu drama, isto é, o "sonho" de romper a "treva", movido por "Um instinto de luz", na busca ("entre visões") do "eterno Bem".
      

Aspetos formais e recursos estilísticos relevantes

De entre os recursos estilísticos presentes neste poema, salientam-se os seguintes:
- a apóstrofe ("Espírito que passas", "Filho esquivo da noite", "Tu só", "Tu só, Génio da noite" - vv. 1, 3, 4 e 14), evidenciando a interpelação do sujeito poético ao "Espírito" da noite, reiteradamente feita no poema;
- a personificação ("quando o vento/ Adormece" - vv. 1-2), conferindo um valor humano ao "vento";
- a comparação ("Como um canto longínquo" - v. 5), sublinhando a dimensão melódica encantatória da noite, que propicia o "esquecimento";
- a anáfora ("Tu") entre os versos 4, 8 e 14, marcando claramente o valor singular do "Espírito", do "Génio da noite", enquanto confidente;
- a antítese ("eterno Bem" vs "meu mal"; "luz" vs "treva"), revelando o carácter paradoxal da busca do "eu", a qual, visando atingir o "Bem", se constitui como o "mal" que atormenta intimamente o sujeito poético;
- o vocabulário associado à noite ("lua", "noite", "treva", "Génio da noite"), reiterando e amplificando o sentido anunciado pelo título do poema: "Nocturno" (temporal, mas também psicológico);
- as reticências, instalando a noção de suspensão do discurso e de prolongamento interior do pensamento;
- …
      
Em relação aos aspetos formais, temos, nomeadamente:
- composição poética: um soneto (duas quadras e dois tercetos, sendo o último destes a chave do poema);
- verso decassílabo;
- esquema rimático: ABBA/ ABBA/ CCD/ EED/; rima interpolada e emparelhada;
- …

      
Importância do segundo terceto para a construção do sentido do texto

O segundo terceto é a chave do soneto, reiterando o papel tutelar da noite-confidente (já apontado no final da primeira quadra), mas, sobretudo, clarificando a natureza do "tormento" do "eu".
Iniciada pela coordenativa "E", esta estrofe marca a continuidade em relação ao discurso anterior, tendo como objetivo reforçar a importância do "tu" enquanto única instância capaz de compreender o "mal sem nome" que domina o sujeito: "Tu só [...] e mais ninguém". Este facto é visível tanto no recurso, por duas vezes, ao pronome 'tu', como no modo de nomeação dessa entidade por "Génio da noite".
Além disso, reitera-se o objeto da busca do "eu", isto é, o "ideal", o anseio do sumamente perfeito, "o eterno Bem", que provoca ao sujeito um sofrimento psicológico e físico, que é associado à doença ("febre", "que me consome").
      
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Curso Geral – Agrupamento 4. 2006, 1ª fase
      
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/29/noturno.aspx]
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