segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SONHO ORIENTAL (Antero de Quental)

   
ANTERO DE QUENTAL
           

           
SONHO ORIENTAL

Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite é balsâmica1 e fulgente2 
E a lua cheia sobre as águas brilha... 

O aroma da magnólia e da baunilha 
Paira no ar diáfano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha3... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descansas debaixo das palmeiras, 
Tendo aos pés um leão familiar.
          
Antero de Quental, Sonetos
          
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Balsâmica: odorífera, apaziguadora, consoladora.
Fulgente: brilhante.
Escumilha: espuma miúda.
          
          

TEXTOS DE APOIO
          
EXPRESSÃO LÍRICA DO AMOR IDEAL
       
Repare-se na inspiração bíblica deste soneto e do seguinte [“Ideal”], que constituem exceções na obra de Antero pelas características parnasianas que os distinguem: a descrição pictórica e colorida; o visualismo completado pelas sensações auditivas e olfativas (aroma da magnólia e da baunilha; lambe a orla dos bosques, vagamente, / o mar...); o recorte severo do verso; a sugestão do cenário exótico e nobre (varanda de marfim; debaixo das palmeiras; tendo aos pés um leão familiar). Assim, este soneto, em que não se reconhece objetivo pragmático ou transcendente, aproxima-se da pintura e da conceção da arte pela arte. Assinala, portanto, um momento de transição: o da convergência do som e da cor, do poder sugestivo da musicalidade das palavras, que o poeta abandonará definitivamente.
      
Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.
        
*
       
Este soneto, como indica Júdice, inserido no período de entre 1862-1866, conta formalmente com uma sonoridade muito destacável de jogos com as vogais /o/ e /a/ ao longo da composição. E é que Martins, no famoso Prefácio, já avisa que se trata “da série de sonetos psicologicamente menos original, mas sendo, artisticamente, a mais brilhante.” 
A voz poética vê-se numa ilha lá no Oriente que tal qual ele o imagina suscita um aparente ambiente agradável (“balsâmica”) e cheio de luminosidade, devido a ação da lua cheia. As comparações, neste último sentido, como estereótipos românticos são inevitáveis. No segundo quarteto evoca-se o aroma de prantas aromáticas (“magnólia e da baunilha”) dando uma sensação de vaguidade e de formas não muito claras (“o ar diáfano dormente”) ao tempo que se dão, como no primeiro terceto, pinceladas de sumptuosismo turrieburnista (“marfim”) para reincidir na meditação evasiva da voz poética. Há uma referência a uma segunda pessoa (“meu amor”) que repousa num jardim de claras evocações românticas, novamente, ao tempo que elementos exóticos (“ palmeira”, “leão”) partilham esse cenário que a voz poética semelha visualizar com olhos de serenidade libertadora.
António Sérgio situa este soneto no Ciclo “Da expressão lírica do Amor Paixão” devido, supomos, a essa referência a essa segunda pessoa que a voz poética denomina como “meu amor”. Contudo, também nos atreveríamos a situar esta composição fazendo parte do ciclo que se refere ao desejo de evasão na terminologia achegada por Sérgio, sobre tudo tendo em conta umas declarações de Antero adicadas a Castelo Branco por volta de 1865 e que Joel Serrão recolhe no seu exemplar deGénese e Devir dos Sonetos de Antero:
          
“[...] Ainda no ano da publicação de Odes Modernas (1865), em Setembro-Outubro, Antero confidencia a António de Azevedo Castelo Branco, um dos seus maiores amigos de então: “O cenobistismo e a contemplação, o misticismo, se quiseres, são na sua inércia aparente, os mais rijos obstáculos que a liberdade de espírito pode opor à brutalidade invasora das condições fatais do mundo; são a maior vitória consciência, o maior triunfo, com esta arma invisível e silenciosa – a indiferença, o desdém.- Todas as vezes que a alma humana, sufocada pelo abraço bestial da natureza, se tem visto em perigo de morrer, não lhe tem valido nem a paixão nem a luta ruidosa e dramática, mas só o desprezo, a abstinência, a contemplação. Esta é que é a base das religiões como das filosofias: e Cristo e Buda vão nisto (que é o essencial) de acordo com Sócrates e Epicteto. Crê que a grandeza de alma estava em resistirmos, conservando-se cada um no meio hostil em que o acaso o deixou cair, em resistir na imobilidade duma consciência a quem o mundo não pode ferir porque não depende dele para nada; mas só do ideal ou do espírito se quiseres. Enfim, tudo isto sabes tu melhor do que eu, que és acabado moralista – e eu sei também que tudo isto é uma questão doutrinal, de valor quase só científico e nada prático, para nós, porque não somos heróis nem mártires, mas só homens aspirando a viver segundo a justiça e a razão, o que não é pouco já. Para quem aspira e não são precisas condições: é que sem elas não fora o que só vê como ideal. E se isto, assim posto, por um lado é uma confissão de fraqueza, de doença mesmo, por outro lado é a justificação de todos os esforços que esses doentes morais fazem para sair dacorrente de ar mefítico, em que não podem respirar, para chegarem a alguma colina aonde o pulmão, e o coração também, se dilatem e sirvam enfim para alguma coisa. [...]” (Serrão,1999: 29-30)
          
Semelha haver uma aposta clara pela contemplação e as formas de cultura orientais, preferentemente budistas, para se evadir, desfazer do desajuste em que nos mergulha, às vezes, o meio hostil. Um meio adverso, supomos, muito em sintonia com o que se referia no anterior soneto que analisamos: o longo conflito entre o ideal e o real. Aqui, com respeito ao anterior poema, Antero semelha querer evoluir, superar-se numa luta que transcenderá através de toda a sua vida poética e dos seus ciclos evolutivos. Detrás da fachada da aparência plácida que suscita este soneto de formas suaves, temos um Antero fortemente convulsionado.
          
“[...] E fraco, por tanto? Não. A vontade, em obediência à qual, e com esforço, se faz colérico, fá-lo também forte – dessa força persistente, raciocinada e na aparência plácida, como a superfície do mar em dias de bonança. O oceano, porém, é interiormente agitado pelo gulf stream quente e invisível: encobre ondas aflição que sobem até aos olhos e rebentam em lágrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade. [...]” (Martins em Sérgio, 1976: LXVI)
          
“[...] O poeta é por isso um místico, e o crítico um filósofo. O misticismo e a metafísica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a inteligência, combatem-se às vezes dilacerando-se. Eis aí a explicação desta poesia que é o retrato vivo do homem. [...]” (Martins em Sérgio, 1976: LXVII)
          
          
Castelo Branco, em Vila Franca do Campo, com a Lagoa das Furnas ao fundo. Ilha de São Miguel - Açores
          
QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
          
1. Divida o soneto nas partes lógicas que o constituem, justificando a sua resposta.
2. Enumere os elementos descritivos que evocam o Oriente.
3. Indique qual o papel da distância na construção do sentindo geral do poema.
4. Mostre como é sugerido, no texto, um ambiente de sonho.
5. Explicite de que modos são representados o «eu» e o «tu».
          
          
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
          
1. As duas quadras, por um lado; os dois tercetos, por outro. As duas partes são unidas por um «E» integrativo; a primeira refere o lugar, o tempo e o ambiente na ilha, e a segunda a presença do «eu» e do «tu» num espaço que apesar de ainda marcado como exterior, é já o de uma casa, ou um palácio: «varanda», «jardim».
          
2. Os principais elementos descritivos pelos quais no poema se representa o Oriente são:
- «aroma da magnólia e da baunilha»
- «a orla dos bosques […] / O mar»
- «varanda de marfim»
- «palmeiras»
- «leão»
          
Também poderão aceitar-se como válidos os elementos:
- «ilha»
- «mares do Oriente»
- «noite […] balsâmica»
- «ar diáfano»
- «profundo jardim».
          
3. A distância é sublinhada desde o segundo verso, «Muito longe», e depois é referida pelo «Oriente», pela «varanda de marfim» e pelo «leão familiar», que são outros tantos sinais dessa distância, dessa estranheza ou desse exotismo.
A distância é um elemento importante para a caracterização deste «sonho oriental», que está situado num mundo tão longínquo que nada tem a ver com o mundo em que é sonhado.
A distância convida à divagação, á fantasia, ao onirismo.
          
4. A impressão de sonho consolador, num ambiente paradisíaco, é transmitida pelos elementos visuais da noite luminosa e pelos odores balsâmicos, bem como pelo clima de paz e de silêncio (o ar é «dormente», o «eu» está «absorto», o «tu» divaga «ao luar» ou descansa) e, ainda, pela imagem do leão deitado aos pés da mulher, em harmonia perfeita.
Nota – Também se pode elaborar a resposta a esta questão a partir de expressões do texto, tais como:
- noite «fulgente»; «a lua cheia sobre as águas brilha»; «ar diáfano»; «a orla dos bosques»; «O mar com finas ondas de escumilha»; «varanda de marfim»; «profundo jardim pelas clareiras»; «debaixo das palmeiras»; «aos pés um leão familiar»;
- noite «balsâmica»; «aroma de magnólia e de baunilha».
          
5. «Eu»: «rei», encostado à varanda, «absorto num cismar sem fim»…
«Tu»: ou «divagas ao luar» no jardim ou «descansas debaixo das palmeiras, / Tendo aos pés um leão familiar».
O «eu», que é quem sonha, é representado imóvel, num espaço quase-interior.
O «tu» é representado no exterior, em movimento ou descanso; ao ser figurado «debaixo das palmeiras» com um «leão familiar» aos pés, o «tu» mais que o «eu», torna-se uma imagem do poder real, quer porque o leão é um símbolo de realeza, quer porque a mansidão com que se lhe deita aos pés mostra que o «tu» tem poder sobre ele.
          
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 139. Prova Escrita de Português B, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. 1998, 1ª fase, 2ª chamada.
          
        

        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/24/sonho.oriental.aspx]
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