quinta-feira, 27 de setembro de 2012

VELUT UMBRA (Antero de Quental)


   ANTERO DE QUENTAL


          
          
VELUT UMBRA1

Fumo e cismo. Os castelos do horizonte
Erguem-se, 
à tarde, e crescem, de mil cores,
E ora espalham no céu vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte...

Depois, que formas vagas vêm defronte,
Que parecem sonhar loucos amores?
Almas que vão, por entre luz e horrores,
Passando a barca desse aéreo Aqueronte2

Apago o meu charuto quando apagas
Teu facho, oh sol... ficamos todos sós...
É nesta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Ocidente, oh cousas vagas,
Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,
Beleza e altura se me vão em fumo!
          
1863
Antero de Quental, Primaveras Românticas
          
__________________
VELUT UMBRA (expressão latina): como sombra.
Aqueronte: rio que as almas devem atravessar para chegarem ao reino dos mortos (mitologia grega).
          
          
COMENTÁRIO DE TEXTO
          
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- estruturação do texto em partes lógicas;
- marcas de subjetividade presentes na descrição do «céu»;
- recursos estilísticos e aspetos formais significativos;
- caracterização do estado de espírito do sujeito poético.
          
          
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
          
Estruturação do texto em partes lógicas
O poema pode estruturar-se em duas partes lógicas.
Na primeira, constituída pelas duas quadras, é descrito o espetáculo de cor e de movimento das nuvens num céu de poente, contemplado pelo sujeito poético que, fumando e cismando, nele projeta o seu mundo interior.
Na segunda, formada pelos dois tercetos, regista-se o apagar do charuto, em simultâneo com o desaparecer do «sol», e o comentário do «eu», que se entrega à solidão, assinalando a identificação entre os seus sonhos e a beleza do crepúsculo, pois ambos desaparecem, esfumando-se.
          
Nota - É admissível uma outra divisão do texto, desde que devidamente fundamentada.
          
Marcas de subjetividade presentes na descrição do «céu»
O céu é descrito segundo a perspetiva do sujeito poético que o contempla, cismando.
Na primeira quadra, as metáforas «castelos do horizonte» e «vulcões de estranho monte» evidenciam o carácter fantasmagórico que as formas das nuvens adquirem aos olhos do sujeito.
Na segunda quadra, a subjetividade acentua-se, pois as «formas vagas» que o «eu» contempla representam-se como materializações de sonhos de «loucos amores» e da própria morte.
Na verdade, à medida que a luz solar se desvanece, intensifica-se a perceção fantasmagórica e insinua-se uma visão negativa da realidade: o céu torna-se a imagem do rio («aéreo Aqueronte») por onde se efetua a travessia das «Almas» até ao reino dos mortos, «por entre luz e horrores». Em síntese, a descrição do céu constitui uma projeção dos desejos e medos mais profundos do «eu».
          
Recursos estilísticos e aspetos formais significativos
De entre os recursos estilísticos presentes no texto, destacam-se os seguintes:
- a homonímia entre a primeira e a última palavra do poema, produzindo um efeito de aparente circularidade que representa a própria situação do sujeito poético, partilhado entre o sonho e a realidade;
- as metáforas («castelos», «vulcões de estranho monte») e a acumulação de formas verbais («Erguem-se», «crescem», «espalham», «fumam», «vêm», «parecem sonhar», «vão», «passando»), descrevendo o céu, e dando conta do espetáculo das nuvens em movimento;
- a interrogação retórica (vv. 5-6), insinuando uma inquietação que anuncia a transição para um estado de espírito disfórico;
- as apóstrofes, conjugadas com a personificação («oh sol», «Oh nuvens do Ocidente, oh cousas vagas» - vv. 10 e 12), criando um efeito dialógico que aproxima o sujeito dos seus interlocutores imaginários, com os quais se identifica;
- …
          
Quanto aos aspetos formais significativos, salientam-se:
- a utilização da forma clássica do soneto, com versos decassílabos, rimas emparelhadas e interpoladas nas quadras (abba abba) e interpoladas nos tercetos (cde cde);
- o recurso a cesuras, marcadas em alguns versos (nomeadamente vv. 1 e 10), instaurando uma oscilação melódica (que reflete a inquietação íntima do «eu»);
- …
          
Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro aspetos (estilísticos e/ou formais).
          
Caracterização do estado de espírito do sujeito poético
Entregue ao devaneio, o sujeito contempla, primeiro como que encantado, depois com progressiva inquietação, o espetáculo das nuvens.
Ao apagar o charuto, o «eu» anuncia o fim do seu devaneio, estabelecendo implicitamente uma relação entre este e a luz do Sol ao crepúsculo. A personificação do Sol - que apaga o seu «facho» - salienta a influência da luz crepuscular no estado de espírito do sujeito poético. Na ausência dessa luz, o «eu» entrega-se a um profundo sentimento de solidão, que é o da própria condição humana («ficamos todos sós» - v. 10), sentimento esse que o conduz à consciência infeliz de si mesmo («É nesta solidão que me consumo!» - v. 11).
De facto, tanto as formas etéreas das nuvens como o esfumar das mesmas, quando o «sol» desaparece no horizonte, constituem imagens do próprio sujeito que vive entre um sentimento exaltante de «Beleza e altura» e um estado de abatimento e de solidão.
          
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano (plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)Curso Geral – Agrupamento 4. 2000, 1ª fase, 2ª chamada.
          
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/27/VELUT.UMBRA.aspx]
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