segunda-feira, 8 de outubro de 2012

HINO À RAZÃO (Antero de Quental)

Thomas Lerooy

          


       
     HINO À RAZÃO
     
     Razão, irmã do Amor e da Justiça,
     Mais uma vez escuta a minha prece,
     É a voz dum coração que te apetece,
     Duma alma livre, só a ti submissa.
     
     Por ti é que a poeira movediça
     De astros e sóis e mundos permanece;
     E é por ti que a virtude prevalece,
     E a flor do heroísmo medra e viça.
     
     Por ti, na arena trágica, as nações 
     Buscam a liberdade, entre clarões; 
     E os que olham o futuro e cismam, mudos,
     
     Por ti, podem sofrer e não se abatem, 
     Mãe de filhos robustos, que combatem 
     Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
          
(1874-1880)
Antero de Quental
      
          
TEXTOS DE APOIO / LINHAS DE LEITURA
        
Lutando furioso contra a desilusão, caindo esmagado pelo aniquilamento, Antero de Quental ensimesmou-se (para usar de uma feliz expressão espanhola) meteu-se dentro de si, a sós consigo, apelou para as energias do seu instinto de homem, e foi isso o que lhe inspirou o belo «Hino à Razão».
          
Oliveira Martins, «Prefácio» in Os sonetos completos de Anthero de Quental, Porto, Livraria Portuense, 1886
         
                       

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Thomas Lerooy
         
                      
                      
                       
Numa primeira leitura, poderá causar estranheza o facto de o poeta irmanar conceitos tão díspares como a Razão, o Amor e a Justiça. No· entanto, estes três substantivos abstratos não poderiam deixar de estar associados, uma vez que a Razão é sinónimo de fraternidade e solidariedade, o Amor significa fraternidade e a Justiça tem subjacente a igualdade. Ao conciliar a Razão e o Amor, conceitos à partida antagónicos, pois a Razão aparece aliada à reflexão, à inteligência, enquanto o Amor se identifica com sentimento e emoção, o poeta pretende chamar a atenção para o facto de que só será possível atingir o Bem, a Liberdade, a Virtude, em suma, a Justiça, se a Razão e o Amor caminharem lado a lado. Ainda na 1ª quadra, que constitui uma espécie de introdução, o eu lírico revela-se uma alma inteiramente livre, apesar de submeter-se aos ditames da Razão.
Ora, com explicar então esta antítese? Afigura-se-nos fácil, tendo em conta o que anteriormente foi dito, compreender o sentido desta aparente contradição, pois o poeta, embora seja um ser livre, para atingir o seu Ideal terá de se subjugar à Razão, a qual mostra o verdadeiro caminho a seguir. Esta é o suporte das lutas e da mudança, daí nas três estrofes seguintes, através da repetição anafórica "Por ti" e de sucessivas enumerações, o poeta reforçar toda a sua crença na Razão. É por ela que "...na arena trágica, as nações / Buscam a liberdade, entre clarões", é ela que dá incentivo aos revolucionários, aos combatentes ("filhos robustos"),que através da sua luta, sempre movidas pela Razão, fazem prevalecer a virtude e o heroísmo:
"E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça. "
A importância que o poeta atribui à Razão manifesta-se igualmente no uso constante de:
-        polissíndeto, na 2ª e 3ª estrofes;
-        verbos no imperativo ("escuta");
-        verbos no presente (''permanece'', "prevalece", "medra", " viça", "buscam" , etc.) que apontam a intemporalidade da mensagem transmitida;
-        metáforas (“… na arena trágica... ", "Mãe de filhos robustos, que combatem/Tendo o teu nome escrito em seus escudos!");
-        encavalgamento, associado à vírgula, que transmite a fluidez de pensamento do poeta ("E os que olham o futuro e cismam, mudos/ Por ti, podem sofrer e não se abatem");
-        o ponto de exclamação do último verso revela o estado emocional do sujeito poético, que, embora presente ao longo de todo o poema, se expressa mais nítida e entusiasticamente no final do soneto.
          
Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra, Estoril, Edição da papelaria Bonanza, [Edição/reimpressão: 2006]
                                

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Thomas Lerooy
                       
                               
                       

O poeta considera a Razão «irmã do Amor e da Justiça», porque é a voz do sentimento («a voz do coração», v. 3; «duma alma», v. 4).
Procurando o sentido da vida e da dor, o poeta tenta unir a razão ao coração. Compara a razão a um a«mãe de filhos robustos», v. 13, o que contrasta com a voz do coração (v. 3) a que se submete. A antítese «livre»/«submissa» (v. 4) confirma a antinomia entre a razão de fundo ateísta e o amor e a prece de raiz católica. O poeta tenta resolver esta aparente oposição considerando que a submissão por amor se torna dignificante. Daí que «a virtude prevaleça / E a flor do heroísmo medra e viça» (vv. 7-8).
A anáfora «Por ti» remete para a luta travada pelo Homem, ao longo da História, em nome da razão. Esta luta é presente/passado e futuro (presente histórico). Pela Razão, ainda, permanece a harmonia no universo (vv. 5-6), por ela se mantém a virtude e se desenvolve o heroísmo (vv. 7-8), por ela as nações procuram encontrar a liberdade (vv. 9-10), por ela se sofre, se combate para que o futuro seja livre e melhor (vv. 11-14). A anáfora reforça a importância da Razão para o Homem se realizar no mundo e realizar o próprio mundo.
Só com a Razão se manifesta o Amor, se consegue a justiça e se atinge a liberdade, o último fim que ansiosamente busca «entre clarões» (v. 10). A atracção pela Liberdade que se apresenta como autodeterminação do se não invalida a liberdade humana condicionada. Por isso, afirma  que a prece «è a voz [] duma alma livre, só a ti submissa» (vv. 3-4). A «alma livre» é considerada pela Razão, mas é por esta mesma Razão que as nações buscam a Liberdade, como fim último.
Amor, Justiça, Liberdade são três valores que ressaltam deste soneto. Ao tornar a Razão irmã do Amor e da Justiça, o poeta revela-se preocupado em harmonizar conceitos.
Cabe à Razão levar o Homem a saber que só o Amor e a Justiça podem criar a harmonia e levar à Liberdade.
          
      
QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
        
1. Poderá identificar a «Razão», cantada neste poema, com a «Ideia», exaltada no poema  Tese e Antítese I? Justifique baseando-se na mensagem dos poemas.
2. Que expressividade encontra na repetição de «por ti», em lugar de destaque?
3. Transcreva dois versos que sugiram que a Razão se identifica panteistamente com a Ideia Universal, uma espécie de alma do mundo que comanda a História.
4. Com base na repetição de «por ti», demonstre que a dimensão histórica enforma o sentido global do poema.
     
António Afonso Borregana, Antero de Quental, o texto em análise – ensino secundário, Lisboa, Texto Editora, 1998.
        

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SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/10/08/hino.a.razao.aspx]
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