segunda-feira, 15 de outubro de 2012

LACRIMAE RERUM (Antero de Quental)




      
      
LACRIMAE RERUM

(A Tommazzo Cannizzarro)

      
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!

Aonde são teus sóis, como corte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas...
      
(entre 1860 e 1884)
Antero de Quental, Sonetos Completos
      



       
TEXTO DE APOIO / LINHAS DE LEITURA
       
«Lágrimas das Coisas». Cf. Virgílio, Eneida, I462: «Sunt lacrymae rerum» (As próprias coisas humanizadas vertem lágrimas). – Note-se o sentido virgiliano, aliado à conceção cristã, expressa em São Paulo, Epístola aos Romanos, VIII, 22. – Cf. V. 20. – É um dos sonetos mais pessimistas de Antero de Quental.

v. 1. Cf. o v. 1 do soneto «Hino à Razão».

vv. 7-14. A Noite torna-se uma personagem do drama anteriano, um interlocutor mudo, mas cuja presença é poeticamente real. A ela se dirige o «monólogo interrogativo», mas cuja presença é poeticamente real. A ela se dirige o «monólogo interrogativo» do poeta (2ª quadra), sem que obtenha resposta para as suas dúvidas (1º terceto). No último terceto, resume-se o tema do soneto: perante a incapacidade da inteligência humana para desvendar o mistério, o ignoto, só resta ao homem o mundo das aparências que a sua curiosidade tenta desvendar.

Toda a estrutura do soneto repousa num alegorismo ainda renascentista e bocagiano. Repare-se ainda que a adjetivação nada tem de sensorial nem de variada: é mesmo monótona. Mas o ritmo é novo – há uma alternância de ritmos frásicos, um jogo de timbres, uma linha melódica que se alarga, espraia-se e vem morrer, quebrada, no último terceto, adaptando-se fielmente ao ritmo psicológico e à situação sugerida.
      
Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, 
Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.
        


       
COMENTÁRIO DE TEXTO
       
Analise o poema, tendo em conta os seguintes tópicos:

·         a aproximação Noite/Razão/Morte;
·         a relação Noite («verbo», «oráculo»)/Destino;
·         relação eu/noite (interrogar inquietante vs. mudez);
·         sentimentos do eu;
·         características românticas.
      
Ser em Português 12ºA (coord. A. Veríssimo, Areal Ed.,1999).
      
        

        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/10/15/lacrimae.rerum.aspx]
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