segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MÃE (Antero de Quental)


Leontina d'Aguiar, 2014

Mãe ‑ que adormente este viver dorido.
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem – dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!
              
Antero de Quental


           
LINHAS DE LEITURA
           
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- caracterização da existência do eu poético;
- desejo expresso pelo eu-lírico, atendendo ao valor semântico e à pontuação;
- tom confessional e autocrítica da expressão «minha estéril ciência»;
- destinatário do poema;
- relação do texto com a evolução literária do autor.
           
           
COMENTÁRIO DE TEXTO (PROPOSTA DE CORREÇÃO)
           
O poema apresentado, da autoria de Antero de Quental, intelectual cuja atuação marcou uma viragem na literatura portuguesa, a partir da célebre Questão Coimbrã, de que foi líder, traduz a angústia do poeta e a necessidade de se sentir protegido, para dela se poder afastar.
Com efeito, neste soneto, o eu-poético mostra-se dececionado com a vidacom a sua existência, ao ponto de desejar ser levado pela "mãe", acompanhá-Ia no sono eterno, para poder voltar viver em paz, acarinhado por ela e desprezando a sabedoria que adquiriu enquanto adulto. Manifesta o desejo de voltar a ser criança para ser feliz, porque só assim seria inconsciente e poderia voltar a dormir em paz.
O poema constitui um todo coeso, porque nele se reflete o desejo de o sujeito poético alcançar a tranquilidade nos braços daquela que identifica como mãe e que, neste sentido, o podia acarinhar e proteger.
Desde o inicio se deteta um tom dorido e pessimista e a aspiração ardente de largar tudo o que a vida terrena lhe oferecera, para atingir a paz que a sua alma tanto ansiava. Por isso, os vocábulos utilizados denotam um valor negativo, como no caso de "viver dorido", "noite de tal frio", "pobre existir", “sítio mais sombrio", reforçado pelas frases reticentes, a traduzir um estado emotivo de deceção, característico de alguém que não consegue traduzira turbilhão de emoções que atormentam o seu espírito. Aliás, este poema adquire um tom plangente que reflete de forma surpreendente o eu-lírico.
É graças a esta projeção do íntimo do sujeito lírico que o poema adquire um tom confessional, traduzindo uma espécie de lamento por ter levado uma vida que o conduziu ao desespero. Daí que a autocrítica se evidencie particularmente quando fala da sua "estéril ciência", ou seja, a sua sabedoria, os seus conhecimentos, que não produziram qualquer efeito positivo, muito pelo contrário, o abalaram-no tão fortemente ao ponto de o levarem, agora, a procurar a morte, sob a proteção da "mãe", de forma a dar descanso a um espírito que viveu na ilusão.
O estado de espírito conturbado é ainda percetível na escolha do destinatário. Começa por apelar à "mãe"; dirige todos os apelos a este ser protetor; mas, porque se sente confuso, acaba por identificá-la com a mulher amada, talvez porque fosse esta a estar presente, a escutá-lo. Parece, pois, que a figura morta da mãe encarnou na pessoaviva da amada, facto que revela uma certa confusão mental, característica do momento em que o poeta procura a figura materna para consolo e minimização dos seus problemas.
Esta confusão involuntária entre a mãe e a amada explica, de certa forma, a impossibilidade de concretizar o desejo emitido. É que, apesar do amor que uma mulher possa dar a um homem, este nunca será igual ao amor de mãe. Só ela poderia adoçar o seu sofrimento e, por isso, ele emprega as orações condicionais e o pretérito imperfeito do conjuntivo, modo este que traduz a noção hipotética, a verbalização do desejo, ao contrário do modo indicativo que se reporta a ações concretas.
Tendo em conta a evolução ideológica de Antero de Quental, é possível detetar-se, embora de forma incompleta, a trajetória do poeta: o período da ciência, do orgulho de ser homem, quando fora combativo e lutara por uma transformação social, orientado pela verdaderazão, justiça, liberdade, até ao momento do desalento, do pessimismo, da consciência de que o seu lutar fora inútil e, por isso, apela ao não-ser, aspira ao sono e à morte, para, enfim, alcançar a paz e a tranquilidade.
              
Dossier Exame ‑ Português A, 12º ano, 
Maria José Peixoto, Célia Fonseca, Edições ASA, 2003
ISBN: 972-41-3415-6
              
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/10/01/mae.aspx]
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