quinta-feira, 4 de outubro de 2012

NA MÃO DE DEUS (Antero de Quental)

   

          
            
NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
        
Antero de Quental
      
            
TEXTOS DE APOIO
        
          

Texto 1          
Enviando «Na mão de Deus», desde Vila do Conde, a um amigo, escrevia-lhe Antero: «O meu pessimismo tem-se desvanecido com esta vida contemplativa no meio da boa natureza». Com o presente poema convém confrontar as seguintes palavras, que são de outra carta: «a nossa vida… verdadeiramente é só a vida da nossa alma, do misterioso e sublime eu que somos no fundo: ora esse Eu ou essa alma tem a sua esfera na região do impessoal: o seu mundo é o da abnegação, da pureza, da paciência e do contentamento: na renúncia do indivíduo natural e de tudo quanto o limita, algema e obscurece é que consiste a sua misteriosa individualidade». É esta renúncia que transluz dos versos:
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita;
porém, o conjunto do soneto não se harmoniza com a primeira parte do citado trecho, muito mais luminosa do que ele é: e para justificar que se classifique o poema como de evasão basta notar que o coração, aí, vai para a mão de Deus, é verdade ‑ mas para nela dormir eternamente.
          
António Sérgio, Sonetos de Antero de Quental
        
          
Texto 2     
NA MÃO DE DEUS ‑ Vai este soneto traduzir poeticamente o que Antero afirma no Opúsculo «A dignidade das Letras e as literaturas Oficiais»: «Só quem, dissolvendo a própria vontade na vontade absoluta e Identificando-se com ela, renuncia ao eu limitado e a tudo quanto é dele ‑ o seu egoísmo, as suas paixões, o seu erro profundo e a sua inenarrável miséria ‑ só esse alcançou a vida eterna... entrou no ilimitado, no inalterável, e subsiste com ele eternamente».
O soneto responde a este juízo crítico, como vemos. Rejeitada «A forma transitória e imperfeita» do Ideal e da Paixão, cujo pensamento sublinhámos na transcrição precedente, finalmente livre, «Dorme na Mão de Deus eternamente», «alcançou (como disse) a vida eterna». Mas não há amor por este Deus. Procurou-opara descansar e nada mais. Daí a ideia de paz e não de confiança em Deus. O soneto oferece-nos a imagem do Antero sombrio, noturno.
         
Literatura Prática (sécs. XIX-XX) 11º Ano, Lilaz Carriço, Porto Editora, 1986 (4ª ed.)
           
           
Texto 3         
São muitas as deceções de Antero de Quental. Não consegue libertar-se das adversidades. Resta-lhe uma última esperança – o pensamento no divino – embora sempre demarcado das conceções religiosas tradicionais. O pensamento de Deus surge, frequentemente, associado à morte, mas, de novo persegue um ideal que agora se confunde com o Bem Supremo.
Desiludido do mundo, procura refúgio em Deus.
Em O Palácio da Ventura, Antero de Quental perseguia o sonho, mas tudo acabou em desilusão e nada. Agora afirma que “Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita”, ou seja, “passo a passo”, desiludido, deixou essa viagem atrás da ilusão, procurando o descanso “Na mão de Deus, na sua mão direita”.
O pessimismo, que resultara do fracasso da luta e da vida, leva o poeta e pensador a desejar evadir-se para além do que existe e do sofrimento. Neste soneto, perante a impossibilidade de concretizar o sonho, abranda a sua ação (descansando, depondo, dormindo), desiste da luta e procura o sono “na mão de Deus eternamente!”.
A mão de Deus surge como lugar de descanso, e pode sugerir uma conceção dúbia como imagem da Criação, dada ao longo dos tempos. Deus, ao contrário do que sucede noutros textos, já não é aqui o Deus da inteligência, que racionalmente tenta explicar. É visto como um refúgio, um meio de evasão, e esta imagem do descanso na sua “mão direita” pode ser tradutora do contacto com o Supremo Bem, o reencontro com a Força Primeira criadora.
           
Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira, Hilário Pimenta. Porto, Porto Editora, 2000. (Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame nacional – 12º ano)
        
        
Texto 4           
É de salientar a presença de marcas do catolicismo nas expressões “Na sua mão direita” e “escada estreita”, esta última semelhante à “porta estreita” referida por São Lucas e São Mateus. Assim como Cristo se sentava à direita de Deus-Pai também agora o poeta, ao necessitar de paz, deposita o seu coração na mão direita de Deus, como se dessa forma a proteção fosse maior. Por outro lado, ao ter descido do "palácio encantado da Ilusão", não o fez pela escada larga antes desceu compassadamente, veja-se o verbo de ação no pretérito perfeito que indica uma atitude já concluída, associado à expressão adverbial "passo a passo", que transmite um movimento lento e, provavelmente, reflexão. É pela escada estreita que caminham os sofredores e os justos:
''Entrai pela porta estreita porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida." (Mateus ‑ 7, 13 e 14)        
Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra, Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Estoril, Edição da papelaria Bonanza.
             




         




             
QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
             
1. Compare o sentido dos versos 1-2 com o dos versos 13-14.
2. Que outros dois versos sintetizam o mesmo sentido de renúncia?
3. Relativamente à ideia de renúncia, de resignação, selecione:
- os verbos que melhor a traduzem;
- as comparações que a reforçam.
4. À renuncia contrapõe António Sérgio o desejo de evasão (cf. texto 1). Discuta esta interpretação.
5. Relacione sono e morte.
6. Confronte a temática deste poema com a do soneto “Solemnia Verba”.
                 
Adaptado de Poesias de Antero de Quental (Maria Madalena Gonçalves, Editorial Comunicação) e de Ser em Português 12ºA (coord. A. Veríssimo, Areal Ed.,1999).
                       

           
     
Mão de Deus, Fotografia de Rogério Pacheco, Ilha da Madeira, 2016-01-24





INTERTEXTUALIDADE
             
             
EN LA MANO DE DIOS
           
Na mão de Deus, na sua mão direita 
ANTHERO DE QUENTAL: Soneto.
              
Cuando, Señor, nos besas con tu beso
que nos quita el aliento, el de la muerte,
el corazón bajo el aprieto fuerte
de tu mano derecha queda opreso.

Y en tu izquierda, rendida por su peso
quedando la cabeza, a que revierte
el sueño eterno, aún lucha por cogerte
al disiparse su angustiado seso.

Al corazón sobre tu pecho pones
y como en dulce cuna allí reposa
lejos del recio mar de las pasiones,

mientras la mente, libre de la losa
del pensamiento, fuente de ilusiones,
duerme al sol en tu mano poderosa.
       
Miguel de Unamuno
             
         ANTERO DE QUENTAL + UNAMUNO
          
           
A PERIGOSA MÃO DE DEUS


Deus é maneta
diz Saramago
só tem a mão direita
à direita da qual todos se sentam.

Eu canto a outra mão de Deus
a que traz o Diabo pela trela
a que por vezes puxa para o outro lado
e escreve sempre por linhas tortas
a mão esquerda de Deus
a mão de sobra a mão do medo
a mão do nada
a mais perigosa mão de Deus
aquela que de repente solta o espírito
o enxofre a guerra o vento mau.
É a mão esquerda de Deus que aperta o coração
acelera o pulso
desarticula o ritmo.
Os poetas estão sentados à esquerda da mão esquerda
de Deus
até mesmo Antero.
           
Manuel Alegre, Livro do Português Errante
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001
        


Mão de Deus, Fotografia de Rogério Pacheco, Ilha da Madeira, 2016-01-24


A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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 "«Na mão de Deus»: um percurso pelo universo religioso dos «Sonetos Completos» de Antero", Mário Garcia. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 123/124, janeiro de 1992, p. 143-149.

"«Na mão de Deus»: Quental e Unamuno", Manuel Lázaro. Filosofia e Poesia - Congresso Internacional de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2016.
            
             
Mão de Deus, Fotografia de Rogério Pacheco, Ilha da Madeira, 2016-01-24



    

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/10/04/NA.MAO.DE.DEUS.aspx]
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