segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO (Natália Correia)


NATÁLIA CORREIA (Furnas, 1975)
in Retratos de Família, Ana Isabel Serpa, Ângela Furtado Brum, Eduarda Silva Melo,
José Maria de Aguiar Carreiro, Mário Félix do Couto,
Ponta Delgada, Escola Secundária Domingos Rebelo, 2008
            
            
          
          
            
          
POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha 
Onde o Amor por fim tenha recreio.
         
Natália CorreiaPassaporte. Lisboa, Ed. Gráf. Portuguesa, 1958
         


       
LINHAS DE LEITURA
        
“E que o mar dê o fruto duma ilha 
Onde o Amor por fim tenha recreio.”
Na Ilha de Natália, assim como numa certa Ilha referenciada em Os Lusíadas,habita o Amor.
“De longe a Ilha viram fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Para onde a forte armada se enxergava;
[…]” (IX, 52, 1-4)
Repare-se em certos sentidos que ambos os poemas comungam:
‑ No poema de Natália, o campo lexical de “navegação” comunica com o de Camões: “estrela”, “navio em movimento”, “ave”, “vê-la” (parónimo de vela de uma embarcação), “vento”, “céu”, “mar”, “ilha”.
‑ O ponto de ancoragem é comum: uma ilha onde se recreia o Amor: a formosa ilha alegre e deleitosa” (IX, 54, 4), onde “Vénus com prazeres inflamava” (IX, 83, 6).
A Ilha de Natália, “Onde o Amor por fim tenha recreio”, é vista como um “fruto”, uma compensação (“por fim”) desejada.
Num domingo, normalmente destinado a relaxar (v.13), a poetisa mostra-se confiante no devir (“Baste o que o tempo traz na sua anilha”, v. 17), de modo que assim “Como uma rosa traz Abril no seio” (v.18) também ela antevê o seu fruto merecido: a ilha (mitificada no ideário de Natália Correia).
O eu poético está consciente do aqui e agora do poema: “Na discreta ambição do meu novelo // Só há espigas a crescer comigo” (vv. 8-9). Repare-se no estado de introspeção e ensimesmamento (“meu novelo”, “crescer comigo”) que leva a poetisa a desejar evadir-se com o mínimo de estímulos externos: “Bastam-me as cinco pontas de uma estrela /E a cor dum navio em movimento” (vv. 1-2), “Basta-me a lua ter aqui deixado / Um luminoso fio do cabelo” (vv. 5-6); “Baste o que o tempo traz na sua anilha” (v.17): “o fruto duma ilha” (v. 19).
Para enriquecer esta leitura, proponho ao leitor que proceda à interpretação de marcas espiritualistas no poema de Natália Correia. (Sugiro também como leitura extensiva os estudos sobre os valores espiritualistas portugueses e a sua tradução na cultura portuguesa com incidência no culto do Espírito Santo.)

José Carreiro
         
   

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 O panteísmo pentecostal de Natália Correia e o culto do Espírito Santo nos Açores: análise de um inédito, Ângela Almeida, 2005. (Tese de doutoramento apresentada no Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade de Lisboa) 



   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/02/04/PoemaDestinadoAHaverDomingo.aspx]