quarta-feira, 8 de maio de 2013

VAIS A CASA DA NATÁLIA?


    
    
Em maio de 1960, um velho americano toca à porta do 5.º andar do 52 da Rodrigues Sampaio, rua paralela à Avenida da Liberdade, perto do Marquês. “Natália Correia?”, certifica-se quando lhe abrem a porta. “Henry MilIer?!”, responde a anfitriã, surpreendida.
Miller, o escandaloso autor de Trópico de Câncer, vai parar ao serão mais famoso da cidade por indicação do crítico literário João Gaspar Simões, que terá encontrado numa livraria da Avenida de Roma. “A Natália ficou ufana. Era uma grande honra”. recorda o jornalista Fernando Dacosta, testemunha dessa noite. Estão também presentes o poeta David Mourão-Ferreira e o crítico Delfim Santos, que há-de escrever sobre isso em O Jornal. Discute-se o Amor. E Miller junta-se à conversa. A dada altura, comenta que já tinha estado na Grécia, mas que fora “preciso vir a Lisboa para conhecer uma deusa grega”, lembra Dacosta.
A poetisa açoriana tinha-se mudado para aquela casa em 1953. Os serões foram ganhando fama e no final da década de 50 são já um marco incontornável da vida intelectual lisboeta. Sem dia nem hora marcados — às vezes uma vez por semana, outras mais: quase sempre depois do jantar —reúnem-se ali cinco, 10, 20 amigos. É uma honra fazer parte do grupo. Declama-se poesia, discute-se política, conspira-se contra Salazar. “Sempre de forma exaltada, porque a Natália era exaltada e exaltava tudo à volta dela”, lembra a poetisa Maria Teresa Horta. O escritor Urbano Tavares Rodrigues há-de recordar “experiências de magnetismo” com Almada Negreiros. Também há apresentações de livros e outras ocasiões semipúblicas, incluindo a primeira representação de uma peça de Sartre em Portugal: Entre Quatro Paredes/ Huis Clos.“Conheci-a num serão sobre poesia do século XVIII”, conta o encenador Carlos Avilez. “Ela eslava deitada numa chaise-longue como uma deusa. Achei-lhe piada, ela achou-me piada.” Tornam-se grandes amigos.
Onde quer que Natália esteja, é Natália quem manda. Em casa, de permanente boquilha, senta se num trono, uma poltrona de costas muito altas ao fundo do salão principal — há outros dois, contíguos —, rodeada pela magnífica biblioteca, um busto de si própria, várias pinturas e outras representações suas oferecidas por artistas que a admiram. “Era uma mulher lindíssima. Tinha sido a paixão de metade dos intelectuais de Lisboa”, assegura Maria Teresa Horta.
Os artistas plásticos Almada Negreiros e Nikias Skapinakis são presenças frequentes. Mourão-Ferreira também. O editor Ribeiro de Mello consegue penetrar no círculo. E Ary dos Santos torna-se indissociável daquelas noites. “Eram uma referência no Portugal culto, o que mais se aproximava dos salões do século XIX em Paris. Tudo muito exuberante, muito divertido. Não tinha nada a ver comigo”, explica Horta. “Depois arrependi-me de não ter ido mais vezes.” Dacosta acrescenta: “Era uma feira popular, um misto de intelectuais e de bisbilhotice. Muito bem servido. A Natália tinha a mania do champanhe francês.” “Às quatro da manhã, mandava vir o seu bife”, lembra Avilez. A ceia, que também inclui marisco, chega do Hotel Império, na mesma rua, dirigido pelo marido, Alfredo Machado. Os serões, bem regados, bem vividos, com música em fundo, duram até o sol raiar.
“A Natália”, interpreta Dacosta, “não sabia estar sozinha. Tinha de estar sempre com a sua corte.” Estas reuniões prolongam -se até 1971, altura em que não acabam, mas mudam de casa. Vão para o Largo da Graça, onde Natália acaba de abrir um bar, O Botequim.
           
In Lisboa, anos 60
Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowoski,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2012, p. 24.
   
             
 
               
             
RETRATO DE NATÁLIA

Hierática     cromática     socrática
passas branca de neve pela sala
nebulosa da pele     via láctea
do único percurso que nos falta.

No teu andar há ventres há tecidos
de leve lã      circuitos do brocado
duma seda tecida na manhã
dos raios dos teus olhos deslumbrados.

Nos teus quadris há cisnes há pescoços
de virgens degoladas     há indícios
do alabastro quente dos teus ossos
iluminando claros precipícios.

É isso. Uma vestal iluminada
uma deusa rangendo uma secreta
porta barroca aberta para o nada
que é o docel da cama do poeta

Ali deitas crianças      animais
gemidos e maçãs      vagidos e atletas
pois que amas as coisas naturais
com a tua carne impúbere e erecta.

Porém tu acalentas      tu alentas
nossa senhora lenta      mãe do escândalo
ave de carne      lírio de placenta
com aroma de nardos e de sândalo.

Desinfectante e amante eis que transformas
em teus olhos de cânfora as orgias
e o teu corpo ânfora é a forma
em que a lira da noite vaza o dia.

               
                   José Carlos Ary dos Santos, Fotos-Grafias, 1970
                   
                  
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