quarta-feira, 26 de junho de 2013

O EUROMOÇAMBICANO RUI KNOPFLI

Rui Knopfli
              

NATURALIDADE

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
Rui Knopfli, O país dos outros, 1959


             
              
TÓPICOS DE ANÁLISE
• europeu por educação, africano pelo coração;
• raízes de África: vv. 11-16, vv. 16-22;
• símbolos de "africanidade": "agrura das micaias"/"silêncio longo e roxo das tardes"; "savanas de aridez"; "planuras sem fim "; "longos rios langues e sinuosos"; "fita de fumo vertical"; "negro"; "viola estalando".
(in Entre Margens. Português 10º ano, Olga Magalhães e Fernanda Costa, Porto Editora, 2010)
           

LINHAS DE LEITURA
             
O poema é assim uma autodesconstrução em que o sujeito poético se mantém distanciado, enquanto lança um olhar de crítica objetividade sobre a projeção em si de uma identidade imaginada num contexto conceptual europeu. […]
O sujeito poético de «Naturalidade» é assim um sujeito que se assume mais do que binário, híbrido, mas que ao assumir esse hibridismo subverte a «ordem hierárquica» tradicional das componentes que integram a sua identidade. Se, por um lado, a feição europeia da identidade do poeta é aceite como destino incontornável, a feição emotiva-afetiva africana ganha relevo ontológico e existencial reconhecendo-se aí O verdadeiro alicerce da subjetividade humana desse sujeito. Não é surpreendente, portanto, que em depoimentos extraliterários, Knopfli tenha (mesmo quando insiste na sua ascendência europeia) feito questão de se dissociar dum espírito de lusitanidade, tanto durante como após o período colonial, não reconhecendo em Portugal uma pátria, mas um ponto de referência histórica e linguístico-literária. Em Moçambique, no caso, sinédoque de África por oposição a Europa, Knopfli estabelece, inversamente, a sua mátria, na Ilha de Moçambique mais precisamente, onde a hibridização mais intensa e complexa do espaço colonial português ocorre, ganhando a «Ilha» em Knopfli a dimensão de símbolo da própria hibridização colonial luso-africana em A llha de Próspero. Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 108-110.
                 
         
QUESTIONÁRIO
1.      Com base no poema, justifica a seguinte afirmação do sujeito poético: «Europeu, me dizem. / […] mas africano sou».

2.      Explica a utilização do verbo eivar (v. 2).

3.      Procura, no dicionário, os vários significados do vocábulo «Iangues». Escolhe aquele que, no teu entender, melhor se adequa à palavra no contexto da frase.

4.      Relaciona o título do poema com o tema nele desenvolvido.

5.      Consideras que se trata de um tema atual? É pertinente debatê-lo? Porquê?
(in Português dez. Caderno de exercícios de português, Brígida Trindade et alii, Lisboa Editora, 2010)
         
DEPOIMENTOS DO AUTOR
           
I
«Não há nenhuma voz que exprima o descontentamento, o desgosto da situação colonial como a minha. Se me disseres ‘E o Craveirinha?’, Não. Isso é do ponto de vista deles. Nenhum intelectual português deu testemunho como eu dei. Estiveram lá outros, escreveram versos sobre as palmeiras oscilando ao vento e as ancas da vendedeira e não sei quê, puro exotismo, o que não quer dizer que não tenha sido sensível ao fascínio, ao exótico daqueles climas e daquelas coisas.
A verdade é que eu nunca poderia sentir como um europeu. Porque eu era só filho de europeus. A Europa para mim era só uma ideia, uma miragem, e todas as minhas vivências, aquelas que me tocavam mais de perto o coração, a não ser as culturais, eram todas de origem africana. O meu poema «Naturalidade», se não me engano, começa assim: «Rosas não me dizem nada...», e um certo número de anos depois eu escrevi um poema contraditando este, que passou despercebido, que se chama «A descoberta da rosa», e que leva, como epígrafe, o primeiro verso daquele poema: «Rosas não me dizem nada», um poema em que eu faço o elogio da rosa, flor europeia por excelência, poema escrito em África. Está no meu segundo livro.
Eu nunca reivindiquei a nacionalidade moçambicana, só reivindiquei um facto, que ainda hoje reivindico, de ser africano.
Eu nunca reivindiquei a nacionalidade moçambicana, só reivindiquei um facto, que ainda hoje reivindico, de ser africano.» | Rui Knopfli (in Vozes Moçambicanas, Patrick Chabal, Lisboa, Vega, 1994, p. 200.)
                 
II
«Não sou eu que tenho que falar ou protestar, fingindo, fazendo batota na situação dos contratados. Fingindo, mas não é o fingir poético...
[…] Eu não posso assumir dores que não sinto. Eu posso reconhecer uma injustiçasocial larguíssima ou uma injustiça mais que social, que é a injustiça da situação colonial, que não direi que era criminosa, mas que era anómala ‑ que é uma coisa de que eu me apercebi muito cedo, na adolescência, como é que é possível a existência das colónias, como é que há povos que têm dependências e que governam outros povos ‑ mas eu não posso vir falar do ponto de vista dos injustiçados. Só do meu ponto de vista.
[…] O José Craveirinha tem uma importância na África de língua portuguesa a que eu não posso aspirar, nem deveria mencionar. Não sou mulato, não sofri na carne as humilhações, o preconceito, a discriminação... O que é que pretendiam, quando vinham lá com essa história das influências, a falar deste e daquele como fontes, geralmente moçambicanas, onde eu ia beber a inspiração? Que eu viesse fingir isso? Como é que eu posso fingir em verso o negro humilhado que não sou?
[…] Para essa preocupação americana do politicamente correto, estou-me nas tintas.
[…] Foi uma alegria que o Harold Bloom me deu agora, ao ler a porrada que dá no prefácio do novo livro a esses gajos todos... A vitimização, essa treta […].
O meu primeiro livro chamava-se O País dos Outros, já em 1959, por alguma razão. Aquilo não era para brancos.
[…] Quando a FRELIMO tomou conta do poder, o inimigo era o português, estou convencido disso. Claro que havia um certo racismo, aliás compreensível mas, mesmo aí, os brancos eram identificados com os portugueses.» «Rui Knopfli. Longe, em sítio nenhum», entrevista e fotografias de Francisco José Viegas para a revista LER. Livros & Leitores nº34. Primavera 1996, p. 55.
             

INTERTEXTUALIDADE
               
A DESCOBERTA DA ROSA
«Rosas não me dizem nada…»

Dez anos de poesia, fora a gaveta
e descubro que, a não ser ocasionalmente
e em ar de troça, jamais me debrucei
deveras sobre o tema da rosa. De resto
eram para mim, creio, marginais as flores.Vícios de formação e juventude,
uma tão intensa preocupação do humano
que olvidei a discreta angústia da rosa.
Outros, não o ignoro, nela tiveram seu princípio
para a deixarem depois esquecida entre as páginas
de um qualquer velho livro, tão cheios eles,
de ternura e simpatia fraternas, coisas
que já eludem este coração envilecido.
Salvo o devido respeito por tudo quanto é útil
e estimável nesta terra, faltam-me o tempo
o ânimo para as empreitadas mais ingentes.o pouco que me sobra tenciono aplicá-lo
em tarefas humildes como o cultivo
destes versos, algum súbito amor inadiável
a lenta e minuciosa descoberta da rosa.

Rui Knopfli, Mangas Verdes Com Sal, 1969
              
           
O TEMA DA ROSA EM RUI KNOPFLI
              
I
A epígrafe do poema «A descoberta da rosa» não deve ser lida como uma cópia de per si, uma tentativa fracassada de reescrita do poema «Naturalidade». Mas, uma leitura paralela dos dois poemas revela que se trata de uma intertextualidade endoliterária e que os dois textos tratam do tema da flor com finalidades diferentes.
Se em «Naturalidade», Knopfli encontra-se angustiado, melancólico, devido a distância que o separa da sua terra e a problemática identitária que ele buscava fundamentar, as rosas desempenham um papel fundamental para opor duas cosmovisões. De forma trágica, apresenta-se o estigma do (des)enraizamento espacial, oscilando entre a pertença ao mundo europeu e ao africano.
Porém, a convocação da flora, nomeadamente a oposição rosas micaias,legitima dois mundos que permitem identificar a naturalidade do sujeito poético. As rosas, belas, sensuais, símbolo do amor, estão associadas ao mundo europeu, desde o seu cultivo para fins de ornamentação e, mais precisamente, para presentear as mulheres – hábito que é mais ocidental do que africano. As rosas, associadas a todos estes hábitos culturais europeus não dizem nada ao poeta. Apesar dos dois [o poeta e as rosas] partilharem o mesmo espaço geográfico, o sujeito poético está desenraizado deste espaço, pois, como diz (…) caso-me mais à agrura das micaias // (…) Mas dentro de mim há savanas de aridez / e planuras sem fim / com longos rios langues e sinuosos.
Como se pode ver, em «Naturalidade» há um sentimento de distanciamento, estranhamento em relação a rosa, o que já não acontece no poema «A descoberta da rosa».
O título sugere um achamento de segundo grau, como justificariam os portugueses a sua chegada ao Brasil, pois o tema da rosa não é totalmente novo, apenas descobriu-se uma nova forma de encarar as rosas.
Inicialmente, na juventude, ao abordar esta temática, o poeta tinha um estranhamento em relação às flores e rosas e ele desprezava-as: «(…) jamais me debrucei / deveras sobre o tema da rosa. De resto / eram para mim, creio, marginais as flores.» Esta evitação astuciosa da rosa já não encontra razão de ser na fase adulta, pois o distanciamento da terra natal e o isolamento que causou uma angústia existencial ao sujeito poético traçaram-lhe um único destino: «(…) a lenta e minuciosa descoberta da rosa».
Pois, fora da sua terra natal, apenas cabe ao sujeito poético o destino da descoberta da rosa, do mundo ocidental. Lembrando que esta evitação da rosa no início da carreira pode ter sido estratégica, numa tentativa de afirmação da identidade do poeta. Agora, após um longo exílio, cabe ao sujeito poético, com o devido respeito, descobrir este mundo ocidental. Aliás, a rosa também faz parte do Cosmo e é necessário respeitar o que é útil e estimável na terra.
Esta aparente contradição entre os dois poemas em análise ou entre as fases da vida do poeta inscritas em «A descoberta da rosa» salientam o carácter trágico da poesia de Knopfli que se funda no estigma do (des)enraizamento temporal e espacial, associado a oscilação do sentimento de pertença a dois universos (europeu e africano).
Como se pode depreender desta breve análise, a atividade sábia de descobrir lenta e minuciosamente a rosa catalisa a luta individual do poeta em descobrir o absoluto e o indivíduo, submetendo-se a este conflito pessoal que atravessa a sua poesia. | Alberto Mathe, «O tema da rosa em Rui Knopfli», Universidade de Aveiro, Curso de Especialização de longa duração em Língua Portuguesa e Literaturas de Expressão Portuguesa. Disponível na www: http://pt.scribd.com/doc/92979352/O-Tema-Da-Rosa-Em-Rui-Knopfli>, 05/09/2012.
               
II
Para uma compreensão mais profunda da poesia de Knopfli anterior a Mangas Verdes com Sal, é importante entender o porquê da «negligência da rosa» pelo autor. Como é admitido pelo próprio, essa «negligência» constitui uma resistência, no período inicial da sua expressão poética, em confrontar-se o eu com a simbologia contida notopos literário da «rosa». Mais precisamente, a resistência consistirá, sustentaríamos,na recusa pelo sujeito poético knopfliano inicial em aceitar fatalisticamente um destino etno-cultural ou nacional, viesse esse «destino» na forma duma tradição literária escrita, viesse na forma duma cultura materna/paterna, genealogicamente herdada. Ao contrário dum percurso esteticista e duma identidade «fataliticamente superimposta», o sujeito poético knopfliano opta antes, particularmente após Mangas Verdes com Sal,pela autoconstrução da sua «nova» identidade e pela eleição dum percurso literário de enfoque ético: «Vícios de formação e juventude, / uma tão intensa preocupação do humano / que olvidei a discreta angústia da rosa.»
O poema é pois um depoimento através do qual o sujeito poético knopfliano renuncia à «rebeldia» dos «verdes anos» e à «ansiedade de contaminação de europeidade», para tomar o hábito da maturidade. Por isso, «A descoberta da Rosa» constitui um rito de passagem duma fase de maior polaridade de identidade do sujeito knopfliano, para outra de aceitação da sua valência híbrida. | Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, p. 111.
           
           
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Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Rui Knopfli, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo. Disponível em: https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/Lit-Afric-de-Ling-Port/Lit-Mocambicana/Knopfli, 2020 (3.ª edição).

 

“Knopfli’s melody”, por Maria de Santa-Cruz;  “Entre dois mundos”,  por Francisco Belard. In: jornal  Expresso, 1998-01-03

           



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/06/26/euromocambicano-.aspx]

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