sábado, 8 de junho de 2013

REGINALDO

              
Os rimances têm, naturalmente, diversas versões, consoante a região ou a pessoa que os canta. Os próprios títulos variam, como é o caso de «Reginaldo» que, em Trás-os-Montes é «Gerineldo».
As versões atuais resultam quase sempre, da justaposição de excertos de vários rimances. A 7ª sequência de «Reginaldo» (Canção) é exemplo disso. Na verdade, trata-se da «Canção do Órfão» do rimance «O Prisioneiro». Tal é verificável, até, pela fuga à rima em -i.
                

        
              
                   REGINALDO
          

1

– «Reginaldo, Reginaldo,

2

Pajem del-rei tão querido,

3

Não sei porquê, Reginaldo1

4

Te chamam o atrevido.»

5

– «Porque me atrevi, senhora,

6

A querer o defendido.»2

7

– «Não foras tu tão covarde

8

Que já dormiras comigo.»

9

– «Senhora zombais de mim

10

Porque sou vosso cativo.»3

11

– «Eu não no digo zombando,

12

Que deveras te lo digo.»

13

– «Pois quando o quereis, infanta,

14

Que vá pelo prometido?»

15

– «Entre las dez e las onze4

16

que el rei não seja sentido.»5

  

                     

17

Inda não era sol posto,

18

Reginaldo adormecido:

19

As dez não eram bem dadas,

20

Reginaldo já erguido.

21

Calçou sapato de pano,

22

Que el rei não fosse ouvido,

23

Foi-se à câmara da infanta,

24

Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.

25

«Quem suspira a essa porta,

26

Quem será o atrevido?

27

– «É Reginaldo, senhora

28

Que vem pelo prometido.»

29

– «Levantai-vos minhas aias,

30

Que assim Deus vos dê marido!

31

E ide abrir mansinho a porta

32

Que el-rei não seja sentido.»

33

Vela o pajem toda a noite...

34

Por manhã é adormecido;

35

Chamava o rei que chamava6

36

Que lhe desse o seu vestido:

37

– «Reginaldo não responde,

38

alguma tem sucedido!

39

Ou está morto o meu pajem

40

Ou grande traição há sido.»7

41

Responderam os vassalos8

42

Que tudo tinham sentido:

43

– «Morto não é Reginaldo,

44

de sono estará perdido.»

45

Vestiu-se el-rei muito à pressa,

46

E leva um punhal consigo9

47

Vai correndo sala e sala,

48

Abrindo porta e postigo,

49

Chega ao camarim da infanta,

50

Entrou sem fazer ruído.

51

Dormiam tão sossegados

52

Como mulher e marido.

  

                       

53

De nada do que se passava

54

De nada davam sentido.

55

Acudiram os vassalos,

56

Que viram a el-rei perdido:

57

– «Nunca vossa majestade

58

Mate um homem adormecido.»10

59

Tira el-rei seu punhal de oiro,

60

Deixa-o entre os dois metido,

61

O cabo para a princesa.

62

Para o Reginaldo o bico.

63

Ia-se a virar o pajem,

64

Sentiu-se cortar no fio:11

65

– «Acorda já, bela infanta,

66

Triste sono tens dormido!

67

Olha o punhal de teu pai

68

Que entre nós está metido.»

69

– «Cala-te daí Reginaldo,12

70

Não sejas tão dolorido;13

71

Vai já deitar-se a seus pés,

72

Que el-rei é bom e sofrido.14

73

Para o mal que temos feito

74

Não há senão um castigo;15

75

Mas se el-rei mandar matar-me,

76

Eu hei-de morrer contigo.»

77

– «Donde vens, ó Reginaldo?»16

78

– «Senhor, de caçar sou vindo.

79

– «Que é da caça que caçaste,

80

Reginaldo o atrevido?»

81

– «Senhor rei, da caça venho,

82

Mas não a trago comigo;

83

Que o trazer caça real17

84

A vassalo é defendido.

85

Só vos trago uma cabeça,

86

A minha: dai-lhe o castigo.»

87

– «Tua sentença está dada,

88

Morrerás por atrevido.»

89

Vedes hora o bom do rei

90

Dando voltas ao sentido:

91

– «Se mato a bela infanta,

92

Fica o meu reino perdido...

93

Para matar Reginaldo,

94

Criei-o de pequenino...

95

Metê-lo-ei numa torre18

96

Por princípio de castigo.»

97

– «Dizei-me vós, meus vassalos,

98

Pois tudo tendes ouvido,

99

Que mais justiça faremos

100

Deste pajem atrevido?»

101

Respondem os condes todos,

102

E muito bem respondido:

103

– «Pajem de rei que tal faz,

104

Tem a cabeça perdido.»19

105

Já o metem numa torre,20

106

Já o vão encarcerar.

107

Mas ano e dia é passado,

108

E a sentença por dar.

109

Veio a mãe de Reginaldo

110

O seu filho a visitar:

111

– «Filho, quando te pari

112

Com tanta dor e pesar,

113

Era um dia como este,

114

Teu pai estava a expirar.

115

Eu coas lágrimas nos olhos,

116

Filho, te estava a lavar;

117

Cabelos desta cabeça

118

Com eles te fui limpar.21

119

E teu pai já na agonia,

120

Que me estava a encomendar:22

121

Enquanto fosses pequeno

122

De bom ensino te dar,

123

E depois que fosses grande

124

A bom senhor te entregar.

125

Ai de mim, triste viúva,

126

Que te não soube criar!23

127

A el-rei te dei por amo,

128

Que melhor não pude achar:

129

Tu vais dormir coa Infanta,

130

De teu senhor natural!24

131

Perdeste a cabeça, filho,

132

Que el-rei ta manda cortar!...

133

Ai! meu filho, antes que morras,

134

Quero ouvir o teu cantar.»

135

– «Como hei-de eu cantar, mi madre25

136

Se me sinto já finar?»

137

– «Canta, meu filhinho, canta,

138

Para haver minha bênção,

139

Que me estou lembrando agora

140

De teu pai nesta prisão.

141

Canta-me o que ele cantava

142

Na noite de São João;

143

Que tantas vezes mo ouviste

144

Cantar co meu coração.»

  

                   

145

– «Um dia antes do dia

146

Que é dia de São João,

147

Me encerraram nestas grades

148

Para fazer penação.26

149

E aqui estou, pobre coitado,

150

Metido nesta prisão,

151

Que não sei quando o sol nasce,

152

Quando a lua faz serão.»27

  

                        

153

De suas varandas altas

154

El-rei estava a escutar;

155

Já se vai onde a Princesa,

156

Pela mão a foi buscar:

157

– «Anda ouvir, ó minha filha,

158

Este tão lindo cantar,

159

Que ou são os anjos no céu,

160

Ou as sereias no mar.»

161

– «Não são os anjos no céu,

162

nem as sereias no mar,

163

mas o triste sem ventura

164

a quem mandais degolar.»

165

– «Pois já revogo a sentença

166

E já o mando soltar;

167

Prende-o tu, Infanta, agora,

168

Pois contigo há-de casar.»
             
Romanceirovolume II, 1852, Almeida Garrett
Mem-Martins, Europa-América, 1992, p, 107, s.
           
_____________________________
(1) A lição da Estremadura e muitas outras omitem estes seis versos, e completam a primeira cópia com estes outros dois:
Bem puderas, Reginaldo
Dormir um dia comigo.
A adotada no texto é do Alentejo.
(2) querer o defendido ‑ querer o proibido.
(3) vosso cativo – criado; preso de amor.
(4) Entre la uma e as duas
Quando el-rei esteja dormindo
. – Alentejo.
(5) seja sentido – sinta.
(6) Lá por sobre a madrugada
Pede el-rei o seu vestido.
 – Alentejo.
(7) Ou traição tem cometido. – Estremadura.
Ou traição me há cometido. – Beira Alta.
(8) Acode dali um pajem
Que é de Reginaldo amigo:
«Não é morto Reginaldo
Nem traição tem cometido.
Então está Reginaldo
Com a princesa dormindo». 
– Beira Baixa.
(9) Leva um traçado consigo. – Estremadura.
(10) Dê num homem adormecido. – Minho.
(11) no fio – no gume do punhal.
(12) Vai-te deitar, Reginaldo,
A seus pés muito rendido:
Que el-rei tem bom coração
E te há-de casar comigo. – 
Beira Baixa, Estremadura.
(13) dolorido ‑ assustado
(14) sofrido – com experiência; compreensivo.
(15) um castigo. Mas – o casamento. Mas
(16) Estas três coplas são omissas em todas as lições, salvo na do Alentejo e em uma das do Porto.
(17) caça real – a princesa.
(18) A lição do Alentejo termina o romance aqui com esta copla.
– «Levanta-te, ó Reginaldo,
Reginaldo atrevido,
O castigo que te dou
É que seja seu marido.»
Quereria o pérfido menestrel pôr um epigrama na boca de sua real majestade?
Outra lição da mesma província continua ainda depois:
Responderam os vassalos,
Que Reginaldo tem tido!
Que tudo tinham sentido:
Até aqui pajem del-rei,
– «oh! Quem teria a fortuna
Agora filho querido!
 – Alentejo.
(19) tem a cabeça perdido – perdeu a cabeça.
(20) Só as versões do Ribatejo trazem este episódio da torre.
(21) Pensamento favorito dos menestréis populares, que se encontra repetido em muitos dos nossos romances e xácaras.
(22) encomendar – recomendar.
(23) Ensinar. – Ribatejo.
(24) de teu senhor natural –filha do teu senhor.
(25) Mãe minha. – Ribatejo.
(26) sofrer penação – sofrer castigo.
(27) Em uma lição ultimamente vinda da Beira Alta vem o episódio da prisão com mais uma copla neste cantar do preso. Aqui ponho a dita copla por sua singularidade, apesar de se conhecer nela visível interpolação, e desarmonia de estilo e sentido. Imagino que será fragmento de outra xácara ou cantiga segundo tantos encontram em muitas delas:
Tenho aqui dois passarinhos
Que me trazem alcanfores;
Eles vão e eles vêm
Com novas dos meus amores,
Alcanfores? e trazer alcantores? quid?
    
     
         
TEXTO DE APOIO
       
Será este Reginaldo ou Eginaldo, o galante Eginard francês que os nossos traduziram assim, bem como de Bernard fizeram Bernal e Bernaldo, de Gerard Giraldo? E é este o celebrado secretário do Imperador Carlos Magno, de cujos muito românticos, porém mui poucos platónicos, amores com a filha de seu augusto amo, estão cheias as histórias da Meia-Idade? Tema constante de trovadores e poetas até quase aos nossos dias em que a suave e melancólica musa de Millevoye ultimamente o remoçou no seu mais admirado poema.
Se deste é que aqui se trata – e eu creio que sim – vemos que o romance popular conta o caso mui diferente do que os poetas e escritores do norte o referem. É bem sabido que, segundo esses, a namorada princesa, quando o feliz Eginaldo saía da sua câmara, um dia de madrugada de inverno e com a neve alta e recém-geada pelos átrios e jardins do palácio, o tomara ela aos ombros para que não ficassem impressas na neve as delatoras pegadas do amante. O que descobrindo por acaso o Imperador, que se levantara antes do sol, por tal modo se enternecera com aquela prova de generosa dedicação, que logo lhes perdoara a ambos, casando o ditoso secretário com a namorada princesa.
Talvez o que primeiro contou a história ao nosso povo e lha rimou para seus cantares, omitiu a cena da neve por menos familiar e comum nestes climas do sul; ou talvez a ignorasse, ou porventura não era ainda tão popular por lá como depois veio a ser. Fosse como fosse, este Reginaldo parece ser o Eginard de Carlos Magno, esta infanta a princesa sua filha, este rei o Imperador seu pai. A troco da bela cena da neve que nos falta, temos a visita da mãe de Reginaldo à prisão, e o lindíssimo solau que lhe ele canta. O que tudo parece composto nos mais ternos e desgarrados modos de Bernardim Ribeiro, ou de Crisfal. E temos por fim o rei chamando a filha ao balcão para ouvir cantar o preso: cena verdadeiramente homérica e de uma graça tão simples e tocante como não há outra que o seja mais.
Estou que nos veio de França este romance: não se encontra nas coleções castelhanas; e entre nós é dos que andam mais desfigurados e corruptos. Eu tive de reunir vários fragmentos para o restituir. No Alentejo chamam-lhe Generaldo, no MinhoGirinaldo; Eginaldo diz uma cópia da Beira, e outra que me veio do Porto trazia por título – Girinaldo o atrevido.
As variantes não são muitas, porque não pude considerar como tais as ligaturas absurdas com que partes do romance andavam cosidas a partes igualmente desconjunta das de outros, dos quais tive de o estremar para reunir o que felizmente achei que acertava e quadrava num todo completo.
São infinitas e muito disparatadas as variantes que desprezei na maior parte ao emendar conjeturalmente o romance. Também não valia a pena de as mencionar em nota. Fiz somente exceção a favor de algumas que juntei por mais consideráveis.
Na citada coleção do bispo Percy* vem uma balada inglesa que tem por títuloLittle Musgrave and Lady Barnard, história bastante diferente desta, mas há no princípio uns dizeres tão semelhantes aos nossos, que mais me confirmam nesta crença em que estou de que o verdadeiro romance antigo era de todos os países, como a todos pertencia o menestrel, o trovador, o cavaleiro andante, cuja pátria era o mundo. Fosse onde fosse, era sua a terra ou o castelo onde havia façanhas que fazer ou celebrar – aventuras para correr ou cantar. O romance Inglês é dos que reconhecem por mais antigos os coletores daquela nação.
          
Almeida GarrettRomanceirovolume II, 1852,
Mem-Martins, Europa-América, 1992, p, 107, s.
          
______________
Percy's Reliques, XL sece. III, book the first.
           
                               
            
ANÁLISE DO RIMANCE
             
«Reginaldo»
Da responsabilidade de Almeida Garrett, 1852 

Romanceirovolume II, Mem-Martins, Europa-América, 1992, p, 107, s.
            
Trata-se de um romance tradicional ou rimance, na versão trabalhada por Almeida Garrett.
Os rimances são poemas de características épico-líricas que se costumavam cantar, acompanhados de instrumentos de corda, ora em danças corais, ora em reuniões de recreio ou trabalho. Ficaram na tradição oral e cada um deles tem inúmeras versões, espalhadas pelas mais diversas zonas do país e da Península.
tema Amor, tratado em «Reginaldo», desenvolve-se abordando as relações amorosas pré-matrimoniais e suas consequências:
Uma princesa convida um pajem a dormir com ela. Apanhados em flagrante pelo rei, o «atrevido» é preso numa masmorra. Mas, sensibilizado ao ouvir um diálogo (cantado) entre o cativo e a sua mãe ‑ que o visitara na prisão ‑, o rei liberta-o e dá-o em casamento à filha.
Vejamo-lo mais pormenorizadamente, através do resumo das várias sequências narrativas:
1. Sedução. A infanta, apaixonada por Reginaldo, convida-o a dormir com ela, provocando-o na sua valentia (v. 1 a 16).
2. Encontro. À hora combinada, Reginaldo vai ter ao quarto da princesa e passam a noite juntos (v. 17 a 34).
3. Descoberta. Desconfiado, o rei entra no quarto, verifica o que se passa e deixa um punhal entre eles (v. 35 a 62).
4. Despertar. Quando acordam, Reginaldo fica aterrorizado. Ela está disposta a tudo (v. 63 a 76).
5. Interrogatório. O rei interroga Reginaldo que lhe responde, ambiguamente, ter ido à caça (v. 77 a 78).
6. Dilema. O rei, perturbado, pede conselho e manda-o encerrar numa torre-prisão, como «princípio de castigo» (v. 89 a 104).
7. Canção. A mãe de Reginaldo vem visitá-lo e pede-lhe que cante, antes de morrer (v. 105 a 152).
8. Decisão. O rei, ouvida a canção, decide-se pelo casamento da princesa com o pajem (v. 153 a 168).
espaço onde decorre a ação é referido sem preocupações descritivas. Trata-se de um palácio real com torres (v. 95) que servem de prisão gradeada e escura (v. 150 s.), «varandas altas» (v. 153), salas com «porta e postigo» (v. 47 s.) e aposentos diversos (da infanta ‑ v. 23 31; 49 ‑ e suas aias; do rei e seus vassalos -‑v. 35 s.).
Evidenciam-se, em termos de espaço social, os valores tradicionais da corte medieval, a harmonia e a fidelidade, aqui com esbatimento de barreiras hierárquicas, sugerindo, por exemplo na conduta do rei, uma certa vivência democrática.
A história, que se dá num período de poucos anos, contempla momentos de passagem lenta do tempo, em que predomina o psicológico (ansiedade de Reginaldo quando se apercebe de que foram descobertos (v. 65); do rei, que dá «voltas ao sentido» (v. 90); e da mãe, ao recordar as tristezas familiares (v. 111 s.), e de passagem rápida, ou melhor, dita em poucas palavras (elipse), «ano e dia é passado/ e a sentença por dar», igualmente com grande carga psicológica (v. 107 s.).
As personagens que dão vida a esta história são: umas, principais -‑ Infanta, Reginaldo e Rei; outras, secundárias -‑ mãe de Reginaldo – e simples figurantes -‑ aias e vassalos.
A sua caracterização física direta fica-se por referências mínimas, quase nulas: a infanta era «bela (v. 65), Reginaldo usa «sapato de pano» (v. 21). Deduz-se, no entanto, (caracterização física indireta) que a infanta e o pajem eram jovens saudáveis e que a mãe deste usava cabelos compridos (v. 117 s.).
Infanta. Sedutora, quebra os tabus, alicia o pajem (v. 7 s.) e «compra» cúmplices na figura das aias (v. 30). Lúcida, reconhece o mal feito (v. 73). Responsável, assume as consequências do ato realizado (v. 74). Decidida, dispõe-se a morrer, caso tal aconteça ao parceiro (v. 76), e enfrenta o pai, acusando-o de mandar «degolar» um «triste, sem ventura », o pajem da sua paixão (v. 166 s.).
Reginaldo. Pajem, querido do rei (v. 2), é conhecido como «atrevido » (v. 4). Voluntarioso, reconhece o facto (v. 5 s.) e aceita o desafio da infanta (v. 13 s.; 21; 33). Responsável, assume as consequências do ato praticado (v. 85 s.), embora lamentando a sua sorte (v. 135 s.; 145 s.).
Rei. Assumindo o seu papel de senhor (v. 35 s.), pai (v. 59 s.) e juiz (v. 88 s.), investiga e torna conhecimento direto do sucedido (v. 45 a 50), aceita a opinião dos vassalos (v. 57 s.) e decide com moderação, protelando (v. 59 s.). «Bom e sofrido» (v. 72), ouve o réu (v. 77 s.), decreta a sentença de morte (v. 88), mas, compenetrado do seu triplo papel, dá «voltas ao sentido» (v. 90), escuta de novo os conselheiros (v. 103 s.) e ordena, «por princípio de castigo» (v. 95 s.) a prisão do pajem. Por fim, rende-se às lamentações expressivas do réu (v. 145 s.) e ao posicionamento crítico da filha: «Prende-o tu, infanta, agora,/pois contigo há-de casar» (v. 167 s.).
linguagem utilizada no texto, transcrito e retocado por Almeida Garrett, reflete bem as marcas do tempo da escrita, sem, no entanto, esconder a origem tradicional do rimance, com seus traços característicos. Por detrás desta roupagem romântica, é evidente uma mentalidade consentânea com o Humanismo Renascentista, a recordar, por exemplo, o Auto da Índia, de Gil Vicente, no que respeita à capacidade de iniciativa da mulher.
O efeito mágico do canto liberta Reginaldo, de acordo com o reconhecimento cultural da função estética e social da arte (vv. 152-167).
Este rimance, pertencendo, embora, ao género narrativo – conta uma história -‑, reúne num único texto os três géneros literários. O jogo conotativo dá-lhe, definitivamente, o tom e a melodia típicos e necessários ao prazer de ler.
           
António Moniz e Olegário Paz, Ler para ser. Percursos em Português B. 10º AnoLisboa, Editorial Presença, 1993, pp. 42-44
             
 
           
                 

Pan-Hispanic Ballad Project
Proyecto sobre el Romancero pan-hispánicoArchivo Internacional del Romancero pan-hispánicoUna base de datos de versiones de romances antiguos y modernos 
          
0023:129 Gerineldo (í-o)            (ficha nº: 7194) 

Versión de S. Miguel (isla de S. Miguel, AçoresPortugal).   Recogido antes de 1869. Publicada en 
Braga 1869, (y Braga 1982), 265267. Reeditada en Hardung 1887, I. 103106; Soares de Sousa 1902, 323326; RGP I 1906, (reed. facs. 1982) 201-204; RTLH 6-8 (1975-1976), 53-54; Cortes-Rodrigues 1987, 175177 y Carinhas 1995, II. 57 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1244, pp. 461-462. © Fundação Calouste Gulbenkian.  082 hemist.  Música no registrada.


    

--Gerenaldo, Gerenaldo,    pajem do rei bem querido,

  2  

porque não falas de amores    que estás aqui só comigo?

    

--Por eu ser vosso vassalo,    senhora, zombais comigo?

  4  

--Gerenaldo, eu não zombo,    falo deveras contigo.

    

--Vós quando quereis, senhora,    que vá ao vosso serviço?

  6  

--Das dez horas para as onze,    quando o rei `stiver dormindo.--

    

Ainda não eram dez horas,    Gerenaldo já erguido,

  8  

sapatinho descalçou,    a fim de não ser sentido,

    

foi à sala da infanta,    deu um ai mui` dolorido.

  10  

--Quem é esse cavaleiro,    das armas tão atrevido?

    

--É Gerenaldo, senhora,    que vem ao vosso serviço.

  12  

--Levanta os cortinados,    vem-te aqui deitar comigo,

    

de beijinhos e abraços,    hás-de ser mui` bem servido,

  14  

nada mais t` eu não prometo    que entre nós será sentido.--

    

Dali mais a poucochinho,    o rei andava erguido,

  16  

chamando por Gerenaldo    que lhe desse o seu vestido.

    

Andou de sala em sala,    de postigo em postigo.

  18  

--Gerenaldo não me fala,    Gerenaldo é falecido,

    

ou Gerenaldo é morto,    ou traição tem cometido,

  20  

ou me está com a infanta,    a prenda que eu mais estimo.--

    

Alevantou-se o bom rei,    o seu vestido vestiu,

  22  

seus sapatos na mão,    p`ra o passo não ser sentido.

    

Fora de passo em passo,    de castilo em castilo,

  24  

foi à cama da princesa,    aonde ele nunca ia,

    

estavam cara com cara,    como mulher com marido.

  26  

--Para matar Gerenaldo,    criei-o de pequenino,

    

para matar a infanta,    meu reino fica perdido.--

  28  

Pegara do seu punhal,    entre eles ficou metido.

    

--Acordai, senhora infanta,    que o nosso mal é sabido,

  30  

o punhal de vosso pai,    entre nós está metido.

    

--Cal`-te, cal`-te, Gerenaldo,    que meu pai é meu amigo,

  32  

se ele te mandar matar,    aplico que és meu marido,

    

se ele te mandar prender,    não hás-de ser mal servido,

  34  

se ele te perguntar,    não lhe negues o partido.--

    

--Donde vens, ó Gerenaldo    que vens tão descolorido?

  36  

--Venho de regar a horta,    pela manhã do rocio.

    

--Não me mintas, Gerenaldo,    que nunca me hás mentido.

  38  

--Venho de caçar a rola,    da outra banda do rio.

    

--A rola que tu caçaste,    já ta tinha prometido,

  40  

pois toma-a por tua mulher    e ela a ti por marido,

    

se queria outro mais alto,    tivera ela juízo.--
     
Variantes: -6b estiver (1906); -15a daí (1906).
     
                     


                     
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Para a sociologia da música tradicional açorianaJ. M. Bettencourt da Câmara, Lisboa, ICALP – Coleção Biblioteca Breve, 1984.
Canções Populares AçoreanasHarmonizado para coro misto por Manuel Emílio Porto. Ponta Delgada, Signo, 1994.
Música nos Açores”, Enciclopédia Açoriana, Ana Gaipo, Isabel Albergaria Sousa. © 2011 Direção Regional da Cultura, Centro de Conhecimento dos Açores.
Musica Tradicional Açoriana”, Açoriano Oriental, Wellington Nascimento, 2012-06-03.
Proyecto sobre el Romancero pan-hispánico


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