sexta-feira, 12 de julho de 2013

DAWN (Rui Knopfli)

         
DAWN


Agónica noite estremece
e despedaça-se
lá fora em chuva
nas vidraças.
Das sombras, das solidões
dos recantos recônditos
da noite e da chuva
saem homens.
Pela crosta da terra passa
um frémito de arrepio.
Chove.
Chove em África.
É noite
É noite em África.
Mão desmedida ergue-se
no breu,
corpo da terra que as águas
fecundam, impregnam.
Silêncios, hesitações,
sono de séculos, jugos,
racham em surdina.
Jogamos bridge na tepidez
do living,
reclinamo-nos na morna
penumbra erótica
dos cinemas,
ou dormimos em calma
digestão.
Para lá
da noite angustiada
monótono acalanto ergue
a voz.
No inescrutável, nas sombras,
nos recantos recônditos de agónica noite
África desperta...
              
Rui Knopfli, O País dos Outros, 1959
                          
                          
           
«[…] os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais»
Cesário Verde
             
             
LINHAS DE LEITURA:
                          
  • No poema «Dawn», de Rui Knopfli, o sujeito poético entrega-se a uma visão lúgubre, personificando com tons agrestes a terra africana.
  • Note-se a antítese entre um nós, colonizadores, descendentes de PrósperoJogamos bridge na tepidez / do living, / reclinamo-nos na morna /penumbra erótica /dos cinemas, /ou dormimos em calma / digestão.») e os «homens» que estão «Para lá /da noite angustiada». E com eles está a própria terra africana («Mão desmedida ergue-se / no breu, / corpo da terra que as águas / fecundam, impregnam.»).
  • A noite é simbolicamente propícia a um ambiente de congeminação de revolta («Silêncios, hesitações, / sono de séculos, jugos, / racham em surdina.»).
  • O conjunto das imagens e metáforas simboliza o declínio de uma era por oposição ao nascimento de outro ciclo.
  • As reticências finais reforçam o estabelecimento de um paralelo entre o «amanhecer» («Dawn») e o «despertar» nacionalista de África.
  • No cômputo geral, a imagística criteriosa que estrutura o poema revela a posição anticolonial do sujeito de escrita.
           
           
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