sábado, 13 de julho de 2013

KWELA PARA AMANHÃ (Rui Knopfli)



http://worldmusic.nationalgeographic.com/view/page.basic/genre/content.genre/kwela_744_en_US
http://electricjive.blogspot.pt/2014/11/tin-whistle-jive-and-roots-of-kwela.html

Kwela Boy -Tretchikoff Painting:
Kwela Boy -Tretchikoff Painting
         
              

KWELA PARA AMANHÃ

Mil e tal crianças negras
fazem bonecos de lama
no coração do slum.
Mil e tal rapazes atléticos,
loiros, vermelhuscos, vestidos de caqui,
erguem para o ar o brilho das culatras
nos Union Grounds.
Há dois minutos precisos, o bus de Mayfair
atropelou um mineiro
e o sangue abre-lhe a vermelho, na fuligem do rosto,
uma rede caprichosa de carreiros.
Um milhão de pessoas,
à hora matutina do rush,
move-se automaticamente
na longa fita de asfalto,
ao comando dos sinais luminosos
automáticos.
Houve a noite passada
quatro assaltos à mão armada,
três sangrentas brigas de rua
e uma mulher matou a golpes de machado
o marido, porque tinha relações incestuosas
com a filha.
O sr. Du Prez conferenciou
com o sr. Potgieter e subiram
as acções da Companhia Diamantífera.
Desde a madrugada já se trataram no hospital
cento e duas emergências
e a juventude de blue jeans
dorme de manhã o onírico sono
da dagga.
Os pássaros passam de largo
e recusam-se ao cimento e ao asfalto
da cidade hostil.
Os poucos que pousam no silêncio arborizado
do Joubert Park
são neurasténicos,
olham o edifício do museu estupidamente
e fazem caca nos bancos das áleas.
O rosto das pessoas
é sólido e impenetrável
como o monumento dos Voortrekers.

Apesar disso

insólito som sobe
arabescos na manhã.

Apesar do cimento armado, dos números,
do sangue inútil
e do niquelado dos automóveis de luxo,
insólito, sobe o som na manhã.

Apesar disso,
com a nostalgia verde do veld
e do rebanho na montanha,
Spokes Mashiyane, dum pedaço de lata,
faz um kwela para amanhã.
              
    
Rui Knopfli, O País dos Outros, 1959
           
             
Glossário e notas:
Kwela: nos anos 1950 o primeiro grande fenómeno pop sul africano veio ao mundo: o pennywhistle jive, também conhecido como kwela. O estilo baseado em flautas, originário da música dos vaqueiros negros e com as estruturas do jazz e do marabi, era tocado por grupos de músicos que se apresentavam nas áreas brancas de Johanesburgo, que muitas vezes eram presos por isso. Os jovens brancos mais rebeldes adotaram o kwela, e o artista Spokes Mashiyane popularizou o estilo com o hit ‘Ace Blues’, e Black Mambazo, com ‘Tom Hark’, canção muito regravada. (http://cwbdeluxe.blogspot.pt/2010/06/copa-e-pop.html)


            

Kwela comes from the Xhosa and Zulu word khwela, meaning "climb on," a term used to get performers involved in a show and also widely used by police to get them onto police vehicles. It's also related to the Zulu/Xhosa word ikhwelo which means a shrill whistle. The kwela music that developed during the '40s and '50s almost always featured the pennywhistle, a cheap and reliable (tin flute) instrument that served as the lead voice. Early music by Willard Cele caught the ears of many, and the 1951 movie The Magic Garden also played a role. Spokes Mashiyane (And His All Star Flutes) were wildly popular by 1954. The harmonies of the kwela are simple and cyclical in nature, usually C-F-C-G7; the music combines a rapid ostinato foundation with elements of African-American jazz-swing forms. – Banning Eyre, Courtesy Afropop Worldwide: www.afropop.org (Apud
Le jazz sud-africain: Dans les townships de Gauteng, le kwela se joue avec des petites flûtes métalliques, les penny whistles. Le style s'est développé dans les années 1950, avec nottamment  l'album à succès Ace Blues de Spokes Mashiyane. Paul Simon a utilisé le kwela dans son son disque sud-africain Graceland, avec les guitares tricoteuses de Ray Phiri et les chorales du Black Mambazo. Le jazz sud-africain est né en 1930, avec une base kwela et les trois accords du marabi, base des premiers rythmes urbains noirs. Saluons la mémoire de Kippie Moeketsi et les vocalistes Dorothy Masuka... et Dolly Rathebe qui, en 1949, apparaissait dans Jim comes to Jo’Burg, le premier film sud-africain joué uniquement par des Noirs. Dans les années 1950, des prêtres du Mozambique importent les sonorités tropicales du marimba, dérivées du balafon et du xylophone utilisé pour accompagner les chorales d’Afrique portugaises. Le mbaqanga, le son inventé en 1962 par West Nkosi et popularisé en 1964 par Simon Mahlathini, connaîtra également son heure de gloire internationale. Dans les années 1960 et 1970, le groupe Mahlathini and the Mahotella Queens (le chanteur et ses «claudettes» Nobesuthu, Hilda et Mildred) enflammait les scènes des cités noires. Avec la vague disco, on vit ensuite émerger le Mpantsula Groove et ses vedettes Brenda Fassie, Yvonne Chaka Chaka, Rebecca Malope et Chicco. C’était le style dit «bubble-gum». (Afrique du Sud 2012-2013 (avec cartes et avis des lecteurs), Dominique Auzias, Jean-Paul Labourdette)
                 
Slum: favela urbana.
Caquifazenda de algodão, amarelada ou acastanhada, usada em fardamentos militares ou afins.
Culatraparte posterior e/ou fecho do cano de arma de fogo.
Mayfair e Joubert Park: subúrbios de Joanesburgo, África do Sul.
Rush: agitação, correria, pressa.
Dagga: droga, cannabis sativa.
Voortrekerspioneiros que durante os anos 1840 e1850 saíram da Colónia Britânica do Cabo, para o interior do que é hoje a África do Sul, num movimento designado "Die Groot Trek" (a grande caminhada).
Veld, veldt: estepe, savana (África do Sul).
              
                                        
                 
                 

LINHAS DE LEITURA

São-nos apresentados em alternância contrastante no poema dois mundos que coexistem mas não coabitam.
De um lado, «Mil e tal crianças negras / fazem bonecos de lama / no coração do slum.» ‑ o sujeito poético começa e acaba com esta cena de favela urbana cujas crianças simbolizam crescimento e transformação.
O poeta empresta a sua voz poética ao negro sul-africano, quer de forma coletiva nas «vozes» de «mil e tal crianças negras» fazendo «bonecos de lama / no coração do slum», quer de forma individualizada em «Spokes Mashiyane», que surge envolvido na composição dum canto celebratório ‑ a Kwela. O poeta enaltece, assim, a capacidade de criar do nada do jovem negro que recupera a sua humanidade através da criação artística: «Apesar disso, / com a nostalgia verde do veld / e do rebanho na montanha, / Spokes Mashiyane, dum pedaço de lata, / faz um kwela para amanhã.»
Por outro lado, o jovem branco é apresentado em absoluta alienação de si, apesar do privilégio que lhe é outorgado: «Mil e tal rapazes atléticos, / loiros, vermelhuscos», erguem «para o ar o brilho das culatras / nos Union Grounds».
A cidade sul-africana representada é um espaço cujo contexto sociopolítico é deapartheid e onde a presença «bóer» (primeiros colonizadores neerlandeses da África do Sul) é sinónimo de poder e arbitrariedade: «O Sr. Du Prez conferenciou / com o Sr. Potgieter e subiram / as acções da Companhia Diamantífera.»
O espaço construído pelos idealizadores do apartheid simboliza, em última instância, a loucura das suas motivações insondáveis: «O rosto das pessoas / é sólido e impenetrável como o monumento aos Voortrekers»; «Os pássaros passam de largo / e recusam-se ao cimento e ao asfalto / da cidade hostil. / Os poucos que pousam no silêncio arborizado / do Joubert Park / são neurasténicos.»
O poema inscreve-se pois, visivelmente, numa discursividade «militantemente» nacionalista africana. A «Kwela para amanhã» é essa nota de esperança: «insólito, sobe o som na manhã».
(Adaptado de: O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli, Fátima Monteiro. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 91-92)
                 

 
                 
                 
TEXTO DE APOIO

In fact, Rui Knopfli, a great jazz aficionado, was acquainted with the jazz sceneboth in Lourenço Marques and in Johannesburg, where he lived for a few years. His most famous jazz poem “Kwela para Amanhã” [Kwela for Tomorrow], which was translated into English by the poet himself, is about the South African ‘kwela’ jazz of the 1950s. The poem was included in O País dos Outros, which came out in 1959. The poem is largely an account of the oppressiveness and morbidity of life in apartheid Johannesburg, yet it ends in the high note of hope provided by a kwela tune by Spokes Mashiyane: «Apesar disso, / com a nostalgia verde do veld / e do rebanho da montanha, / Spokes Mashiyane, dum pedaço de lata, / faz um kwela para amanhã.»
The world of jazz is a constant presence in Knopfli’s work, and it is a presence that very often harks back to America, although in a very different form from the way America is viewed in the work of more ‘nationalist’ poets like, say, Noémia de Sousa and Agostinho Neto. Fernando J. B. Martinho, in article on the figure of America in Rui Knopfli’s poetry, argues that for Knopfli jazz functions primarily as a ‘cultural reference’ and as an index to Anglo-American culture (“America” 119), as a sign of high culture, in other words. Despite this very individual appropriation of the concept of jazz, it certainly is true that the idea of jazz — and, by extension, America — was widely disseminated through Knopfli’s poetry. But this interest in jazz was also mediated, as we saw from the kwela poem, by the South African township reinventions of jazz (marabi, kwela, etc.). (The image of American in southern african literatureDissertação de Mestrado em Estudos Americanos apresentada à Universidade Aberta por João Luís Rafael Mitras, 2006.)
                 
                 
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