terça-feira, 2 de julho de 2013

O CAMPO (Rui Knopfli)


micaia e capim em Moçambique
             

O CAMPO

Saio para o campo. O campo
aqui não é o campo, mas a savana
eriçada de micaias e capim
feio e desigual. Habitantes
do seu mundo, os negros ignoram-me,
empenhados em suas tarefas quotidianas.
Olho para as coisas abandonadas,
latas escuras de ferrugem, lonas
pardas de pneus, ferros
retorcidos sem jeito. Entre isso
o capim espreita, descolorido, espigado
e hirsuto. Nada me sugere a face
aveludada de uma paisagem pastoril,
rosto tranquilo de criança sonhando.
Mas eles estão no seu mundo,
e eu passeio no campo.
           
Rui Knopfli, Reino Submarino, 1962
             
                  
TEXTOS DE APOIO | LEITURA ORIENTADA
                   
I
«Habitantes / do seu mundo, os negros ignoram-me» no «capim / feio e desigual.» «Mas eles estão no seu mundo, /e eu passeio no campo.»
Implicitamente há a oposição entre eles negros vs eu branco e, consequentemente, entre estratos sociais moçambicanos. Este sujeito poético é o branco que se passeia no ambiente dos negros, cujas «tarefas quotidianas» e mesmo «coisas abandonadas, / latas escuras de ferrugem, lonas /pardas de pneus, ferros / retorcidos sem jeito» parecem não fazer parte do seu modus vivendi.
Esta dicotomia carateriza o estado de coisas binário que se vivia na África colonial. Ademais, a corrente que ganhava força na inteligentsia da época era a negretudinista e Knopfli, por força das circunstâncias, por mais que esteja solidário com os injustiçados, só entende falar com substância o seu próprio eu: «Eu não posso assumir dores que não sinto. Eu posso reconhecer uma injustiça social larguíssima ou uma injustiça mais que social, que é a injustiça da situação colonial, que não direi que era criminosa, mas que era anómala ‑ que é uma coisa de que eu me apercebi muito cedo, na adolescência, como é que é possível a existência das colónias, como é que há povos que têm dependências e que governam outros povos ‑ mas eu não posso vir falar do ponto de vista dos injustiçados. Só do meu ponto de vista.» Rui Knopfli. Longe, em sítio nenhum», entrevista e fotografias de Francisco José Viegas para a revista LER. Livros & Leitores nº 34. Primavera 1996, p. 55.)
Rui Knopfli, ao longo da sua obra,  afirma-se enquanto indivíduo culturalmente miscigenado. O seu ajuste identitário faz lembrar o depoimento de uma personagem deMayombe, obra em que se nota a dificuldade que há na construção de uma identidade nacional num país de grande pluralidade étnica, sociopolítica e cultural:
«Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim e não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.» (Pepetela,Mayombe, 1971.)
              
Dizia Rui Knopfli em 1972 (entrevista à revista Tempo, aquando da reedição deMangas Verdes com Sal):
«Nós vivemos aqui (em Moçambique) uma realidade extremada entre dois pólos e, no espaço compreendido entre eles cabe um sem número de gradações. Aí, algures em silêncio, habita uma voz que é a da tolerância e do bom senso, que procura olhar em redor sem preconceitos e despida de juízos apriorísticos, que quer reclamar-se da inocência e da objetividade. É a ela que me tenho esforçado por dar corpo, mesmo que o preço e o risco valham; a solidão e o isolamento em que incorre quem se descompromete da coesão das diversas seitas.»
       
José Carreiro, 2013-07-02. 
TEXTOS DE APOIO
II
A distinção entre os dois espaços, uma distinção que começa ao nível da sua nomeação ‑ logo ao nível da concetualização semântico-linguística ‑ «O campo/aqui não é o campo, mas a savana» ­, revela uma diferença porventura irreconciliável entre dois mundos ao nível sociológico e cultural, se não ontológico: «Habitantes/do seu mundo, os negros ignoram-me».
[…] Aqui, especificamente, a relação entre um colonizado que sintomaticamente «ignora» a presença do colonizador, e o «colonizador ‑ ou assim percebido pelo «negro/outro» no poema ‑ que «passeia» intrusivamente no espaço do colonizado. Osdiferentes significantes «campo» e «savana», correspondem a nomeações conflituantes, e descobrem a disputa pela ocupação do «mundo dos negros» por dois agentes culturais e históricos cujos percursos são opostos e não comunicantes entre si.
A ausência de comunicação entre o sujeito poético e o «negro habitante do seu mundo» sugere neste poema, além do mais, estarmos em presença não só duma oposição linguística e sociológica, mas sugere ainda estarmos em presença duma relação de subalternidade e dominação ‑ a dominação pelo mundo com o qual o sujeito poético é identificado no poema, o do colonizador, e subalternidade do mundo daquele que o «ignora», o do colonizado. Sendo o negro «aqui» «habitante do seu mundo», deverá entender-se o ato de «ignorar» pelo negro de quem «passeia» no seu mundo, como o propósito de ser criada uma identificação do sujeito poético ao «intruso» nesse espaço. Implícito é ainda que a identidade racial não negra do sujeito poético é o signo que a priori lhe desmascara o caráter invasor.
[…] No entanto, ao contrastar duas tradições culturais e linguísticas distintas, bem como as distintas formas de as mesmas fazerem entrar uma mesma realidade no seu diverso universo linguístico e cultural, Knopfli resgata a diferença e o direito a ela do sujeito colonial. (in O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli, Fátima Monteiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 60-61)
            
III
Knopfli marca ainda uma diferença de mundos, o dos negros que o ignoram e o seu. O mundo do poeta é intermediário. Não pode ser europeu pois toda a sua vivênciase deu em meio àquela terra. Portanto, o campo não pode jamais ser o campo europeu. Porém, ele também não pode aspirar a savana dos negros que o ignoram, pois não saberia como dizê-la. Fazendo isso, o poeta nos diz que a savana está para ele como o campo está para os poetas europeus.
Com tudo isso o poeta corrobora quando diz:
Pessoalmente devo confessar que nunca terei escrito um verso, ainda quando roubo a Camões, ou colho em Shakespeare, em que Moçambique não esteja presente. Se digo Tamisa, ou escrevo Aron, penso Incomati ou Limpopo, rios que emolduram e glorificam a minha infância, a minha formação, inicial e definitiva, desde uma Moamba longínqua onde meu pai sedimentaria uma amizade, sempre reafirmada e nunca traída, com o excepcional patriarca Raul Honwana, ambos, a seu diferente ou oposto modo, funcionários da administração colonial. A partir de qualquer fonte determinante e original, da Moamba, por exemplo – e porque não? –, o criador é sempre o resultado da sua inteligência, sensibilidade e cultura, irremediavelmente agravadas pelo seu circunstancialismo, e tanto pode produzir um Luís Bernardo como... um Rui Knopfli, até porque nem no lugar e na época os circunstancialismos coincidiam. Por mim não pude escapar ao meu, como se verifica pelo juízo da crítica portuguesa que, mesmo quando me estima e acarinha, não sabe onde inserir-me ou arquivar, e a moçambicana, hesitando perplexa entre a pura rejeição e a parcial, quase envergonhada ou marginal aceitação.
Por tal motivo me espanta que se ressuscite, ainda hoje, a querela gratuita da nacionalidade literária que, de facto, não existe. Na verdade aquela é uma evidência e não um decreto, não surge de imposições externas, mas das coordenadas especiais que nos conjuraram ao discurso criador no espaço que nos foi consignado. ("Carta para Moçambique / O denominador comum", Rui Knopfli. In: Revista Colóquio/Letras. Cartas, n.º 110/111, Jul. 1989, p. 20)
                  
Neste trecho de sua comunicação, Knopfli busca outra comparação. Agora, isso se dá com o escritor Luis Bernardo Honwana. O contexto no qual estava o poeta inserido não o impedia de viver as coisas de África. Assim como não impediam Luis Bernardo. A diferença está nos aspetos que levaram Knopfli a levar mais em conta sua subjetividade, isto é, seu contato com as culturas e literaturas que tinham como centro o sujeito mais que a comunidade, como é de praxe nas culturas ocidentais. Assim, o circunstancialismo ao qual Knopfli se refere é justamente esse contato com culturas diferentes durante a sua formação que o levaram para caminhos diferentes, e fica ainda a dúvida do próprio poeta se seriam “opostos”, ainda que partilhassem um território e uma época. No mesmo período de tempo e compartilhando o mesmo espaço geográfico, Knopfli e Honwana vivenciaram experiências diferentes, sejam elas culturais ou não, que deixaram “cicatrizes” que os fizeram imprimir “tripas” aos seus escritos. Passadas, por tanto, pelo filtro da experiência, suas obras não poderiam ser senão diferentes.
Mesmo em um contexto em que a subjetividade toma conta desses espaços de enunciação em poesia, Knopfli também tem dificuldade para se enquadrar. Parar provar esse argumento, o poeta utiliza a crítica literária portuguesa, que também não encontra, senão às margens, um local onde inserir a literatura produzida por ele. Nos espaços de onde julgava-se vir o discurso de Knopfli, ele também não poderia ser completamente aceite. Esses problemas eram tanto de ordem nacionalista, isto é, Knopfli é moçambicano, portanto não podia ser aceito totalmente por Portugal, como orbitavam o aspeto ideológico, sabendo que Knopfli desde seu primeiro livro afirmava-se africano. A solução encontrada pelo poeta para resolver esse sobre nacionalismo foi o de assumir como facto de que nasceu em Moçambique e sua literatura não poderia, portanto, pertencer a outro lugar, a despeito de sua qualidade ou conteúdo. Assim também o faz quando cita a literatura de colonos produzida em território moçambicano. Cita exemplos de colonos que denunciavam os abusos de colonizadores e também de colonos que escreviam buscando animalizar os “nativos”. A ambos ele confere o mesmo estatuto. Ambos pertencem à História de Moçambique e é preciso lê-los para saber de onde vêm os moçambicanos e, conhecendo o seu passado, decidir para onde vão. Criando portanto uma tradição com a produção literária e histórica que se deu ali.
Diante dessas afirmações de Knopfli, subjaz um sentimento de pertença àquele país. Mas um sentimento que se despe de correntes ideológicas, como desvelou a rosa durante a sua obra. Assim, aquele espaço toma conta de seus versos não como pátria, não como nação, mas como espaço. Ainda, ao falar em “denominador comum”, Knopfli reafirma a sua pertença a uma tradição maior que a moçambicana, mas também não isento dela. Defendendo a língua como Pátria, ele escapa às querelas que só o conduziriam a um discurso que lhe seria externo, tendo sido o poeta também forjado pelos elementos que já citamos.
Tendo em vista estes aspetos, podemos entender melhor a visão do próprio poeta quanto ao seu espaço, quanto a sua “classificação”. É possível vislumbrar a ideia que Knopfli fazia de seu lugar de enunciação. Assim, negando em seus versos o nacionalismo, ele não nega sua nacionalidade. Entrega-se a algo que, em sua visão, excede, extrapola esse conceito. Dizer-se africano é uma forma de resistir a essa ideologia que tomava conta de Moçambique, mas, ao mesmo tempo, mostrar a sua ligação com aquela terra. (A poética da sinceridade de Rui Knopflitese de mestrado de Gabriel Madeira Fernandes, São Paulo, USP - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2012, pp. 45-48)
                   

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