quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS (Sophia Adresen)


  A Pomba, de uma série de gravuras dedicada aos pássaros, foi utilizada em um cartaz do Congresso pela Paz em Paris, e a partir de então tornou-se um símbolo universal.  
         
                 
                 
A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos
                    
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Em Memória” (1972) in Dual
                    
                    
Sophia de Mello Breyner vai metaforicamente aludir às situações de opressão e de injustiça que proliferavam em Portugal.
Utilizando intertextos religiosos vai apelar à “paz sem vencedor e sem vencidos”, a que “nasce da verdade”, “da justiça”, da própria “liberdade” de forma a que o “reino” de Deus seja instituído em Portugal. Será nesse tempo “novo” que a nação poderá recomeçar dominada pela “esperança e justiça”. Para que tal suceda urge que “a paz seja de todos”, que cada ser consiga “ler melhor a vida” e entenda o “mandamento” de Deus. Sophia deixa, então, implícito que é necessário abolir a situação de injustiça que domina a sociedade da época, mas que tal só será frutífero se uma situação de injustiça não for substituída por outra. Estes dois textos são um dos muitos exemplos do ato de solidariedade que é a escrita, da sua função de ser um relatório entre a criação e a sociedade bem como da sua ambivalência já que esse ato nasce do confronto do escritor com a sociedade e, ao mesmo tempo, procura interferir ou pelo menos projetar-se nessa sociedade que lhe deu origem, estabelecendo uma circularidade, um “transfer tragique” como lhe chamou Barthes entre texto/escritor/sociedade. A poesia assumiu para o homem da época a dimensão de “um ato total”, a partir dela era possível relacionar a situação do próprio homem com a da sua criação poética.
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 75-77.
           
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/14/a.paz.sem.vencedor.e.sem.vencidos.aspx]
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