terça-feira, 6 de agosto de 2013

A PORTUGAL (Jorge de Sena)





             
A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de ter nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a m erda o seu anonimato;
terra - museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser's minha, não.
           
Jorge de Sena
“Tempo de Peregrinatio ad Loca Infecta (1959-1969)” 
in 40 Anos de Servidão, Lisboa: Edições 70, 1989, pp. 85-86. Apesar de a obra ter sido publicada postumamente, em 1979, o poema “A Portugal” tem como data da sua elaboração o ano de 1961.
                 
                 

Ao iniciar com um verso de Os Lusíadas de Camões – “Esta é a ditosa pátria minha amada.” (canto III: 21) ‑, esperar-se-ia que a imagem de Portugal que iria ser registada fosse positiva ou não pertencesse o mencionado verso ao momento em que Vasco da Gama enaltece a pátria ao rei de Melinde1; porém, ela colapsa sobre si própria inclusão, no final do verso, desse rotundo advérbio de negação: “Não”. Após a rejeição do conceito de pátria que se vislumbra na obra camoniana, o sujeito poético enumera as razões que motivam a sua opção. A desconstrução da imagem é feita a partir de uma construção anafórica que inclui o advérbio de negação “Nem” associado a cada um dos vetores do verso de Os Lusíadas: “ditosa”, “minha amada” e “pátria minha” que incute sistematicamente essa relação intertextual com a visão traçada no canto III por Camões. Portugal não “merece” ser chamado de pátria, menos ainda de “amada” já que a característica que lhe é imputada é ser “só madrasta” (conceção que assume aqui um cariz amplamente depreciativo não só pelas conotações do substantivo “madrasta”, mas da sua relação com o advérbio de exclusão “só”). Além disso, o sujeito poético encara como “pouca sorte” ter nascido nele uma vez que considera “não [merecer]” tal destino. Após esta sucessão de orações causais, aparece uma nova rejeição; neste caso, da glória do passado dado que o que resta é uma “baixeza tanta/quanto esse arroto de passadas glórias” que não permite ao sujeito manter uma ligação afetiva com o país.
Com o intuito de desmistificar a imagem gloriosa do Portugal de antigas eras, traça-se uma visão diacrónica dos povos que habitaram o país bem como se alude aos aspetos geográficos característicos. Numa extensa terceira estrofe (vinte e sete versos) que, inclusivamente, se prolonga na última quadra, surge uma enumeração caótica, numa cumulação de sentidos que gera a ideia de uma país destituído de qualquer traço positivo. Portugal aparece como um “Torpe dejecto”, uma “babugem”, uma “salsugem porca/de esgoto atlântico”. A quase ausência de formas verbais e o encavalgamento existente na maioria dos versos cria um ritmo acelerado que culminará na apóstrofe do fim da estrofe: “Ó terra de ninguém, ninguém, ninguém”, em que a repetição do pronome indefinido reitera o mote de o país não ser a pátria de nenhum português. Ao longo deste devastador retrato, desta longa sucessão de epítetos, são mencionados diversos traços caracterizadores ou que, pelo menos, foram entendidos como tal ao longo dos séculos e que Jorge de Sena subverte. Depois da destruição da imagem de Os Lusíadas, aparece o implodir da apologia que Fernando Pessoa fizera na Mensagem. A esse “rosto com que fita é Portugal”, que assumia a simbologia da antevisão do futuro, do sonhar acordado, contrapõe Jorge de Sena a “irrisória face/de lama, de cobiça, e de vileza,/de mesquinhez, de fátua ignorância”; esse rosto sonhador cede perante o aviltamento dos valores, da ausência de cultura que se consuma na com a assunção de que Portugal é “terra de escravos” – na medida em que se vive prisioneiro de um passado que gera a inatividade – ainda à espera de ouvir a “nau do Encoberto”. A própria seleção do verbo onomatopaico “ranger” incluído numa conjugação perifrástica intensifica o envelhecimento de um povo e dos seus ideais, enferrujados como a própria nau. Jorge de Sena procura, dessa forma, realçar que o mito do sebastianismo em nada contribuiu para o progresso do país, bem pelo contrário, aprisionou-o numa espera infindável de um passado que jamais retornará, mas que contribuiu para criar a esperança de que, um dia, Portugal voltará a ser o timoneiro da Europa. É nestas circunstâncias que Miguel Real enfatiza que o profetismo se tornou “um estado de demência” que faz parte da personalidade dos portugueses; sempre que se vive um momento de crise, ele reergue-se “em forma de ilusão redentora”2 para contrariar o presente mesquinho e sem objetivos de um país que só se reconhecesse nos heróis do passado. À semelhança do poema “L’Été au Portugal” também em “A Portugal” é feita referência aos elementos humanos que povoam a pátria. Mais uma vez, Portugal parece limitar-se aos “funcionários” e às “prostitutas” que polarizam a sua existência em torno da hipocrisia religiosa – “devotos todos do milagre, castos/nas horas vagas de doença oculta” ‑, aos “heróis” de guerra que ascenderam a esse estatuto porque foram comprados ou morreram – “ terra de heróis a peso de ouro e sangue”. A casa portuguesa, tão enaltecida pelo Estado Novo, surge aqui na alusão à “terra triste/à luz do sol caiada, arrebicada, pulha”; nesse espaço fabricam-se falsos comportamentos já que a afabilidade é apenas “para os estrangeiros”. O país que é construído nestes falsos moralismos torna-se o símbolo do passadismo – é a “terra de monumentos”, “terramuseu” ‑, da estagnação e improdutividade – “pedras esburgadas, secas” – e da ausência de condições mínimas de salubridade já que “se vive ainda / com porcos pela rua, em casas celtiberas”. Para esta situação contribuíram os “poetas tão sentimentais” que calam, que omitem e permitem que os “oito séculos” de história se transformem na manutenção dos vícios, o que se alterou foram apenas os seres que lhes dão corpo “de roubos e patrões, barões ou condes”.
Se até ao momento o retrato elaborado pelo sujeito poético parece ser uma visão distanciada de alguém que apresenta o cartão de visita do país – postal negativo, subentenda-se ‑, na última estrofe há uma mudança de interlocutor: o sujeito poético dirige-se diretamente à sua própria terra para a insultar numa enumeração de atributos profundamente pejorativos, que se transformam em acusações irrebatíveis por parte do destinatário: Portugal. Consciente de que pertence a este país, o sujeito poético recusa-o por ser uma terra “cabra”, “badalhoca”, “mais que cachorra pelo cio”, “peste e fome e guerra e dor de coração”; decorrente desse quadro tão destrutivo, conclui que “[Ele lhe] pertence: mas [ela ser sua], não”.
Jorge de Sena constrói este rosto de Portugal como se de alguma forma o estivesse a mostrar ao Portugal que ele idealizaria; este destinatário último, que é implicado no final do poema, é já indiciado no título tão semelhante a uma dedicatória: “A Portugal”. Contudo, no final deste trajeto, Portugal surge como um local disfórico, minado pela “peste e fome e guerra e dor de coração”, baluarte de tudo o que é indesejável e que o polissíndeto acentua. […]
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005.
                   
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(1) A inclusão desse verso representa a referência à imagem de Portugal que o Estado Novo procurou assumir e impor aos portugueses.
(2) Cf. REAL, Miguel - Portugal: Ser e representação, Algés: DIFEL, 1998, pp. 126 – 127.
            
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/06/jorge.de.sena.a.portugal.aspx]
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