sábado, 24 de agosto de 2013

MENTIDERO (Natália Correia)


A ação cívico-literária de Natália Correia no Portugal sob a égide da ditadura

               
 Natália Correia (Furnas, ilha de São Miguel, Açores, 1975)
               
“O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados”
Natália Correia: 1959
         
                           
Em janeiro de 1970, Mário Cesariny, Luís Pacheco, Ary dos Santos e Natália Correia são acusados de “presumível delinquência” pela publicação (no final de 1965) do livro Antologia da poesia portuguesa erótica e satírica, a qual foi considerada um “abuso de liberdade de imprensa”. […]
Será durante a Primavera Marcelista que se publicam as Novas Cartas Portuguesas, da autoria daquelas que ficaram conhecidas como as três marias: Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, esta última incluída neste estudo. Em 1972, por um curto período de tempo, o livro está disponível nas livrarias portuguesas uma vez que a DGS se encarrega de apreender os vários exemplares, juntando o livro à lista das obras proibidas. As autoras (e a editora Natália Correia) irão responder em tribunal à acusação de “ofensa à moral pública e abuso de liberdade de imprensa” num processo que se arrasta até 1974.
A emergência das Mulheres repórteres nas décadas de 60 e 70Dissertação de mestrado de Isabel Ventura, Universidade Aberta, 2007, pp. 39-40.
               
           
CORREIA (Natália).— ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA. (Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade).

           
                      
           
CENSURA – RELATÓRIO Nº 9462 (26 DE MAIO DE 1972) RELATIVO A “NOVAS CARTAS PORTUGUESAS” DE MARIA ISABEL BARRENO / MARIA TERESA HORTA / MARIA VELHO DA COSTA
           
           
                                
             
Natália Correia, uma dessas muitas vozes, salienta que “Poetizar as mais fundas aspirações humanas arrancando-as do peito dos homens distraídos é o que se deve entender por mensagem do poeta”1 e que “[Pertence] ao número dos que atribuem à poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo”.[…]
Num país silenciado pelo regime, impossibilitado de exprimir livremente a sua opinião3, o uso do poder simbólico das palavras foi o único recurso que estava disponível para não compactuar com o falso rosto de Portugal que o regime procurava impor dentro e fora do país. Gastão Cruz considera, inclusivamente, que a poesia – que faz uso dessa capacidade metamorfoseadora das palavras ‑ foi “a mais moderna das armas. Ou seja, a mais obstinada nas suas buscas, a mais inquieta na organização do seu discurso.”4 Também Natália Correia encara a poesia como algo essencialmente moral, um “ramo mais florido da ética” que, através do uso de determinadas características formais e fónicas, transmite de modo mais “fascinante” e “eficaz” esses princípios inerentes a si própria. A poesia “ouve [ o ] apelo da sua química recôndita, sempre que na sua relação dialética com o mundo tem que se apresentar como uma antítese desse mundo hipermoralizado (ver a rigidez de um código moral asfixiante) ou desmoralizado (ver uma situação moral caótica em que a liberdade se fundamenta na irresponsabilidade e não o contrário).”5
A poesia assumiu, nessa altura, uma dupla função: o seu conteúdo continuava a permitir a expressão de emoções e experiências do foro pessoal, mas dado o seu impacto sobre a comunidade envolvente desenvolvia uma componente de intervenção social. […]
Decorrente desse procedimento, os escritores necessitaram de criar formas de manifestarem o seu repúdio pelos valores instituídos que pudessem iludir a máquina censória e viabilizar a publicação dos textos6. Sempre que o não fizeram, voluntariamente, as obras foram impedidas de ser publicadas, como foi o caso de Casa Sem Paz (1947) de Maria Archer, Comunicação (1959) de Natália CorreiaO Canto e As Armas (1967) e Praça da Canção (1968) de Manuel Alegre ou Novas Cartas Portuguesasde Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Hortas e Maria Velho da Costa (1972), Pátria, Lugar de Exílio (1972) de Daniel Filipe, entre muitos outros.
Os jornais enviavam as provas com antecedência para serem aprovadas pela censura. Por essa razão, na página de rosto aparecia a indicação de que tinham sido visados pela censura [ver a seguinte imagem de Domingo Ilustrado]. Os escritores que assumiam publicamente serem contra o regime, foram “mortos” pela comunicação social. Quer a atuação quer as obras de autores como Sophia de Mello Breyner, José-Augusto França, Natália Correia ou Alexandre Pinheiro Torres eram automaticamente silenciadas; outros conseguiam, por vezes, sair dessa morte imposta como foi o caso de Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis ou Fernando Namora. Da perspetiva de Oliveira Marques, a censura foi o mecanismo repressivo mais eficaz do regime dado que “nenhuma palavra ou imagem podia ser publicada, pronunciada ou difundida sem prévia aprovação dos censores.” (Cf. MARQUES, A. H. de Oliveira - História de Portugal, vol. III, 3.ª ed., Lisboa: Palas Editores, 1986, pág. 426). […]
            

Cf. VIEIRA, Joaquim (dir.) - Portugal Século XX: Crónica em Imagens (1920-1930), s/l: Círculo de Leitores, 1999, pág. 205.
         
           
A atuação da censura e a forma nefasta como ela truncava os textos e cerceava a vontade criadora e libertadora do poeta é bem evidente nas palavras de Natália Correia(1959):
Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. (...) O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados7.
           
Este fragmento de prosa poética revela a capacidade que o poeta tem, enquanto ser criador, de intervir na sociedade que o rodeia e, neste caso, usando uma sátira corrosiva, apesar de camuflada, enfatizar todo o processo castrador que rodeava a criação poética, o uso da palavra. A incapacidade em nomear, em identificar a origem da opressão é, desde logo, notória no uso do pronome indefinido “Tudo” que, mais tarde será substituído pelo substantivo “tirano”, a origem da tensão e da negatividade. A própria atuação desse poder opressivo é visível na forma como ele se faz sentir sobre os seres: chega “pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia”. Porém esse “Tudo” acaba por ser segmentado e nomeado a partir da sua face visível: “os esbirros”. O sentido pejorativo inerente a este vocábulo é intensificado pelo seu poder destrutivo já que eles são capazes de amordaçar a luz. Devido a esse facto, o poeta – aquele que tem o poder da palavra – é forçado a esconder nos bolsos a fonte da luz – as “estrelas” – para que seja ainda possível sonhar “uma pátria de brancura e paz”. A esse sonho contrapõe-se a forma como “os esbirros” arrastam para a treva o poema e “os estranguladores das palavras constroem o silêncio”. A palavra do poeta é, neste contexto, submetida a uma lenta tortura que a consoante dupla presente no verbo “arrastar” permite visualizar, ato esse praticado na escuridão pelos “estranguladores”. O processo da censura é encarado como uma descida ao “inferno” da qual o poema não sai ileso: “alguns dos seus sons ficaram queimados”, no entanto, o poder castrador não atingiu o seu objetivo: remetê-lo ao silêncio.
O ambiente característico desse inferno, que equivale ao do próprio país, assemelha-se a uma alienação coletiva, construída pelo autocomprazimento do “tirano” perante essa realidade que ele próprio gerou. Os “estranguladores” levam o poema para “o silêncio da sala de espelhos” e a pluralidade do espelho, refletindo e distorcendo as imagens, sugere esse cenário diabólico em que não é possível descobrir qual é, de facto, a imagem real. Esta alienação advém não só da impossibilidade de identificar uma imagem una e fidedigna, mas do silêncio que é construído nesse local onde “o tirano se masturba”, onde sozinho festeja o resultado dessa opressão e censura que conduziram ao silenciamento das vontades, das iniciativas para o destronar. […]
Esse ato castrador, cerceador dos textos, que a todos procura controlar pelo uso imposto dos sentidos das palavras é realçado por Natália Correia em “É preciso avisar toda a gente”8. Nesse texto, a autora manifesta a urgência em alertar as pessoas para o facto de os textos não serem publicados de acordo com os originais; os textos impressos foram retalhados, cinzelados pela censura transmitindo, apenas, a sua interpretação daquele texto encarado, após a tortura a que foi sujeito, como inócuo:
É preciso avisar. Avisar o público contra os salteadores da prosa que, agachados nas moitas de certos suplementos literários (não sei se todos) saltam sobre a prosa alheia que querem depradar, reduzindo-a, com a ajuda da tesoura, ao texto que melhor se afeiçoa aos seus rancores que burilam em pateada crítica. (…)
Mas entremos nos factos, já que sem eles, poderão as ratazanas da tesoura continuar a ter o beneplácito do leitor cristalinamente ignorante das agulhas que fazem este croché das transcrições retalhadas pelo bisturi clandestino dos cirurgiões da deturpação programada.
          
Para referir esse ato corrosivo da censura, Natália Correia utiliza a metáfora dos salteadores, do croché e dos cirurgiões. À semelhança de um salteador, também os censores se apoderam da escrita alheia para a submeter aos seus caprichos. Contudo esse é um ato praticado na penumbra, eles estão “agachados nas moitas” como um qualquer salteador, só que a sua atividade é mais ignóbil na medida em que a vítima é a prosa alheia que eles querem “depradar” de acordo com os rancores que os dominam no momento da captura. Depois dessa depuração, o texto é novamente tricotado de forma a que o leitor não se aperceba das omissões, dos cortes efetuados pelo “bisturi” que o poder central usou para eliminar as palavras que não interessavam ao Estado. Esses salteadores iniciam, assim, um processo de animalização já que se tornam em “ratazanas da tesoura”, nessa metáfora tão violenta indiciando a perda de todas as capacidades humanas9. Consciente do poder da censura, que é feita na escuridão, no anonimato, a autora acusa o censor de ser uma espécie de “travesti”, continuamente sem imagem própria, que se limita a reproduzir os ideais do Estado mesmo que isso implique falsear os textos:
Do que o travesti não gostou foi de que eu dissesse que a máscara que transfigura o cortador da prosa alheia em beata de sacristia literária, comprou-a ele à custa dos manipuladores de fundos que se divertem muito com este Carnaval dos puritanos.
Aplausos e assobios chama o ocluso glutão da mesa censória à sua oficina de rapinagem. Mas não assina. Não dá a cara. Porque a não tem. Tem focinho de cão de guarda das informações comprometidas nas aspas com que assinala o beatério do seu “engagement”. Compreende-se que não queira exibi-lo.
Quem gostar de censores que vá à missa do rapinante. Frequente-lhe o mentidero. Mas não me venha dizer que é contra a censura, a outra, a visível que um dia há-de acabar. Porque esta é que não acaba.
           
É nesse “mentidero”, nessa “oficina de rapinagem” que esse ser sem rosto forja novos textos, deturpando, senão mesmo subvertendo, os originais para que eles funcionem como um discurso apologético do regime. Esse “glutão” continua a agir como se fosse um animal comandado, sem livre arbítrio, daí ter “focinho de cão de guarda” e o que lhe compete guardar ferozmente é a imagem difundida pelo Estado, mesmo que para tal tenha que se dedicar a engolir as palavras alheias. Neste fragmento, a autora repreende também aqueles que assumem ser contra a censura, mas que são coniventes com essa atuação; também eles devem frequentar o “mentidero” e assistir à “missa do rapinante” (nessa alusão à união entre a Igreja e o Estado).
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais.
Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, j
ulho de 2005, pp. 26-27, 31, 37-38, 40-42
               
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NOTAS:
(1) Cf. SOUSA, António de et alii - Entrevistas a Natália Correia, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004, pág. 20 (esta entrevista foi concedida a Bruno da Ponte e publicada no Jornal de Letras e Artes a 22 de Novembro de 1961 com o título A minha poesia está ligada aos grandes momentos da vida colectiva).
(2) Cf. Ibidem, pág. 36 (entrevista concedida a Dórdio Guimarães e publicada no Correio do Ribatejo,Suplemento Portas do Sol, n.º 41 a 2 de fevereiro de 1963 com o título O signo do poeta é o da liberdade).
(3) No Dicionário da História de Portugal, António Barreto e Maria Filomena Mónica salientam que Salazar unificou-se a partir da junção da tríade Deus-Pátria-Família “concebidos dentro de uma cultura católica” e que aglomerou à sua volta um conjunto de personalidades a quem não foi permitido pensar em demasia para não interferirem na rota que o ditador traçara para Portugal (Cf. BARRETO, António e MÓNICA, Maria Filomena (coord.) - Dicionário de História de Portugal, vol. IX, suplemento P/Z, Lisboa: Livraria Figueirinhas, 2000, pág. 288). Também nas entrevistas efetuadas por António Ferro, Salazar explicita que a liberdade varia na proporção inversa à evolução do homem, que é ao Estado que compete administrar e defender essa liberdade; daí o papel necessário da censura enquanto meio para combater o discurso doutrinário “subversivo” que procura opor-se à vontade ideológica do Estado (Cf. FERRO, António – Salazar: O Homem e a Obra, s/l: Empresa Nacional de Publicidade, 1933, pp. 49-50).
(4) Cf. CRUZ, Gastão – A Poesia Portuguesa Hoje, 2.ª ed. corrigida e aumentada, Lisboa: Relógio de Água, 1999, pág. 212.
(5) Cf. CORREIA, Natália - A estrela de cada um, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004, pág. 258.
(6) Cândido de Azevedo menciona que também os jornalistas recorreram a uma linguagem de “fingimento, de disfarce, de fabulação” para conseguirem fornecer ao seu público ideias opostas às do regime de forma a desmontar a falsa imagem que o regime criara do país (Cf. AZEVEDO, Cândido de ‑Censura: de Salazar a Marcelo Caetano, Lisboa: Editorial Caminho, 1999, pág. 30).
(7) Cf. CORREIA, Natália - “Comunicação” (1959) in Poesia Completa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, pág. 173.
(8) Cf. CORREIA, Natália – A estrela de cada um, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004, pp. 47 a 50.
(9) Também Miguel Torga, em A Criação do Mundo, salienta que esses agentes do Estado eram ainda mais prisioneiros do que o resto da população. A instituição que representavam sugara-lhes a personalidade, tornando-os em “Títeres de vontades alheias, a força que cuidavam encarnar vencera-os primeiro.” (Cf. TORGA, Miguel – A Criação do Mundo (1937-1981), 2.ª ed., Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, pág. 412).
                
             
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/24/mentidero.aspx]                
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