quarta-feira, 28 de agosto de 2013

OS OLHOS DO POETA (Manuel da Fonseca)


  MANUEL DA FONSECA
            
               
OS OLHOS DO POETA

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da Terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando como contos de fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas prò mar amaldiçoando a tempestade:
‑ todas as cores, todas as formas do mundo se agitam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas,
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.
                
Manuel da Fonseca, “Rosa dos Ventos” (1940)
in 
Obra Poética, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, 7ª ed. revista pelo autor.
                  
            
LINHAS DE LEITURA DO POEMA «OS OLHOS DO POETA»
           
No seu olhar estão:
- “estrelas luzindo na penumbra dos bairros de miséria”
- “silhuetas escuras dos meninos vadios”
- “rugas maceradas das mães que perderam os filhos” (luto)
- “gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas”
- “a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram”
- “os trapos negros das mulheres dos pescadores”
                
O “seu olhar […] é um farol erguido no alto de um promontório”, iluminando a “penumbra dos bairros de miséria”.
                      
A dicotomia LUZ / ESCURIDÃO evidencia os aspetos neorrealistas do poema:

Dias claros inundados de vida

           

- as coisas boas da vida

- o normal da sociedade

perdem o brilho nos olhos do poeta

           

- não interessam ao poeta

- não tem de se preocupar com isso

             

          

Escreve poemas de revolta com tinta de sol

            

- traz à luz do dia

- desmistifica

- deve preocupar-se com isso

             

              

na noite de angústia

         

- os problemas da vida

- as injustiças da sociedade

                  
                
               
LEITURA ORIENTADA DO POEMA «OS OLHOS DO POETA»
            
Assim, se por um lado a vida desejada é aquela invocada, com maiúscula, por outro lado há a outra vida, sem maiúscula, “organizada em formas sociais que contrariam e esmagam o que há de mais instintivo e intuitivo no poeta” (DIONÍSIO, 1998, p. 33). Poeta esse que possui um olhar percuciente e abrangente sobre o mundo que o circunda, como é descrito no poema «Os olhos do poeta», no qual através da retórica o poeta procura propagar sua voz de modo a ecoar como um apoio sólido. Desse modo, o poema apresenta uma relativa regularidade nos versos e uma cadência monótona que tornam os versos versículos que formam o poema. O poema apresenta também uma estrutura formal mais livre, com versos brancos.
O título do poema não apresenta dificuldades para o entendimento do leitor. Sugere que o poema descreverá a forma como o poeta vê as coisas. Desse modo, surgem algumas perguntas: qual é a visão de mundo que o poeta tem? Quais suas atitudes em relação a essa forma de ver o mundo? As atitudes e a visão de mundo se integram ou divergem entre si? Já no primeiro verso o eu-lírico, em terceira pessoa do singular, responde a primeira pergunta, pois afirma que “o poeta tem olhos de água”, ou seja, através dessa metáfora ele declara que seus olhos são transparentes como a água e assim conseguem refletir todas as cores do mundo.
No segundo verso o eu-lírico continua sua descrição do olhar, que segundo ele é bastante abrangente e exato, conseguindo enxergar até mesmo o que os sábios desconhecem, ou seja, é um olhar muito perspicaz. No decorrer dos versos do poema ocorre uma enumeração do que o olhar do poeta consegue alcançar, representada pela preposição “e”, a qual aparece ao longo do poema inteiro, totalizando treze vezes, como forma de causar o efeito de adição as características do olhar do poeta.
As cores refletidas nos olhos do poeta não são de “dias claros, inundados de vida”, mas sim aquelas que retratam “a angústia que pesa no mundo”. Com o olhar que vê a “miséria”, “as rugas”, as dores, “o gesto desolado dos homens”, “a sombra das pálpebras das noivas que não noivaram”, “os trapos das mulheres dos pescadores”, o poeta apresenta como atitude a revolta que se torna evidente nos seus poemas, com o intuito de trazer esperança para os corações dos homens. Dessa forma, esse olhar é comparado a um “farol erguido no alto de um promontório” que com sua luz e sua posição privilegiada tem a missão de ser uma “estrela” dentro das “trevas”, “estrelas luzindo na penumbra”. Isso parece ser uma forma de demonstrar a relevância do olhar do poeta na sociedade em que se insere.
Como o olhar do poeta deve refletir “todas as cores do mundo”, há no decorrer do poema a presença constante de vocábulos e adjetivações que de algum modo representam as cores, a maior parte deles referem-se a cores sombrias como: “penumbra”, “silhuetas escuras”, “sombra das pálpebras”, “trapos negros”, “trevas”, “noite de angústia”. Significando dessa forma que as cores predominantes no mundo são negativas, devendo o poeta ser uma “estrela” a trazer brilho e esperança a esse mundo tomado pelas “trevas”.
Os olhos do poeta revelam-se assim não como olhos que apenas choram ou lamentam a realidade que o circunda, mas sim como olhos que se abrem para a realidade social e são capazes de recriar esse real. São olhos que revelam que o poeta possui uma especial propensão para auscultar os males que afetam os homens, uma sensibilidade que se reflete no lirismo da sua poesia e por isso consegue descrever e interpretar o espaço geográfico e humano do Alentejo, permeado de dores e sofrimentos. Ou seja, o seu compromisso é o de escrever “poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo”, pois no seu olhar “todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam”, implorando que sejam escutadas e comunicadas aos homens.
                 
Dissertação de mestrado de Rosilda de Moraes Bergamasco, 
Universidade Estadual de Maringá, 2012, pp. 85-87.
               
              
PERFIL LITERÁRIO DE MANUEL DA FONSECA
                
Escritor português, vulto destacado do Neorrealismo, nasceu a 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, e morreu a 11 de março de 1993, em Lisboa.
Partiu ainda jovem para Lisboa para realizar estudos secundários, tendo desempenhado posteriormente na capital diversas atividades profissionais no comércio, na indústria e no jornalismo. Antes de colaborar em Novo Cancioneiro, com Planície, coleção onde se afirmariam algumas coordenadas da estética poética Neorrealista numa primeira fase, editou, em 1940, Rosa dos Ventos, obra pioneira do neorrealismo poético português, nascida do convívio com um grupo de jovens escritores, entre os quais Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes e Armindo Rodrigues, unidos numa "obstinada recusa de ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do Homem, ela teria um papel estimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação de um mundo podre" (DIONÍSIO, Mário - prefácio a Obra Poética de Manuel da Fonseca, 1984, p. 21). Não existindo descontinuidade entre a poesia e a prosa de Manuel da Fonseca, nem entre ambas e o escritor, que as impregna de um cariz autobiográfico, alimentado por recordações da convivência com o homem alentejano, ficção e obra poética interpenetram-se na evocação de personagens, narrativas, romances, paisagens alentejanas. Mário Dionísio (id. pp. 32-33) vê na oposição cidade/vila, recorrente na obra de Manuel da Fonseca, a oposição entre o que é "apaixonado e violento, desgraçado e heroico, profundamente humano, grave, limpo" e o que é ridículo, repugnante, mesquinho, "de ambição medíocre, de preconceitos míseros, que desvirtuam e lentamente asfixiam uma imagem ideal de vida que, na poesia de Manuel da Fonseca, quase sempre se identifica com tudo o que a infância e a adolescência têm de ingénuo e generoso e transparente e que a vida embacia, adultera e destrói." Autor de uma obra ancorada na realidade e eivada de um apontado regionalismo, a escrita de Manuel da Fonseca ultrapassa a contingência histórica de que nasceu, por um enaltecimento da vida, compreendida como intrinsecamente livre das imposições, frustrações, mentiras e condicionamentos impostos pela sociedade, ânsia de libertação, simbolizada, por exemplo, na repressão sexual imposta a algumas figuras femininas ou na admiração de figuras marginais como o "maltês" ou o vagabundo. Cerromaior (1943), O Fogo e as Cinzas (1951) e Seara de Vento (1958) são algumas das suas obras mais emblemáticas.
                
Manuel da Fonseca. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. Disponível na www: http://www.infopedia.pt/$manuel-da-fonseca>.
                
                
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