quinta-feira, 15 de agosto de 2013

TU, QUE ORA VENS DE MONTEMAIOR (Gil Sanches, séc. XIII)


              
A simples hipótese da separação da sua dama lança o poeta no desespero, “os seus olhos não mais dormirão”.
              

               
                      





Tu, que ora vens de Montemaior,

tu, que ora vens de Montemaior,

digas-me mandado de mia senhor,

digas-me mandado de mia senhor;

5

       ca se eu seu mandado

       nom vir, trist'e coitado

       serei; e gram pecado

       fará, se me nom val;

       ca em tal hora nado

10

       foi que, mao-pecado!,

       amo-a endoado,

       e nunca end'houvi al!

Tu, que ora viste os olhos seus,

tu, que ora viste os olhos seus,

15

digas-me mandado dela, por Deus,

digas-me mandado dela, por Deus;

       ca se eu seu mandado

       nom vir, trist'e coitado

       serei; e gram pecado

20

       fará, se me nom val;

       ca em tal hora nado

       foi que, mao-pecado!,

       amo-a endoado,

       e nunca end'houvi al!
                       
Dom Gil Sanches (CA 332 / CBN 22)
              
                 
Glossário e notas:
v. 1: ora – agora.
v.1: Montemaior ‑ Cantiga de amor que, ao contrário do que acontece habitualmente com as composições deste género, pode ser datada com alguma precisão. Na verdade, a referência a Montemor remete-nos indiscutivelmente para um dos espaços centrais do prolongado conflito que o rei D. Afonso II manteve com suas irmãs Teresa, Sancha e Mafalda a propósito do testamento de seu pai, D. Sancho I. Montemor-o-Velho foi, de facto, a praça forte de D. Teresa, a mais ativa das infantas, tendo sido inclusivamente cercada pelas tropas do monarca seu irmão em 1213, no que constituiu um dos principais episódios bélicos do conflito. Este facto levou D. Carolina Michaellis a sugerir que a composição de D. Gil Sanches teria sido composta nessa data. Como Resende de Oliveira (Gil Sanchez", in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, Lanciani, Giulia e Tavani, Giuseppe (org.), Lisboa, Editorial Caminho, 1993), pensamos, no entanto, que a juventude do trovador à época parece contrariar esta datação. Mais plausível é a hipótese, avançada por este investigador, de ela ter sido composta em 1223, aquando da assinatura do tratado de paz entre o novo monarca, D. Sancho II, e suas tias, tratado esse confirmado exatamente em Montemor por D. Garcia Mendes d´Eixo, pai de D. Maria Garcia de Sousa, a donzela com quem D. Gil Sanches se ligou (e que poderá ser a destinatária da cantiga). ©2011-2012 Littera - FCSH
v. 3: mandado - notícia, mensagem; digas-me mandado – dá-me notícias.
v.5: ca - pois, porque
v. 7: serei – ficarei
v. 9: ca em tal hora nado – porque em tão má hora nasci.
v. 10: foi – fui
v. 10: mal/mao pecado - infelizmente, por mal dos meus pecados
v. 11: endoado - inutilmente, em vão
v. 12: ende - disso, daí
v. 12: al (em frases negativas) - mais nada
vv. 9-12: pois nasci em tal hora, que, por minha infelicidade, amo-a em vão e nunca obtive outra recompensa.
                 
Descrição dos processos formais de versificação:
Cantiga de refrão paralelística composta por duas estrofes singulares: dois dísticos monorrimos, de versos iguais (paralelismo popular), decassílabos e hexassílabos, e um longo refrão palaciano, segundo o esquema rimático: 10a   10a   10a   10a   6’B   6’B  6’B   6C   6’B   6’B   6’B   6C
                 
Sugestão temática:
Saudade da mulher amada, através de alguém que vem de Monte-Maior.
            
Quanto ao assunto:
O trovador está triste e maldiz a hora em que nasceu, pois a sua “senhor” não lhe mandou recado de Monte-Maior, e lastima-se nunca ter recebido nada dela.
              
Leitura interpretativa:
Coitado do trovador! Interpela alguém que vem de Monte-Maior e que pode trazer novas da sua amada: “digas-me mandado de mha senhor”.
É que está tão infeliz!... Maldiz a hora em que nasceu: “pois en tal hora nado foi”. Ama-a em vão.
E muito à maneira dos cantares de amigo, o poeta recorre ao paralelismo de construção e semântico e anafórico, a primeira estrofe com versos iguais dois a dois, seguidos de um refrão bastante pouco usual, pois é muito grande, expande-se por oito versos, numa tensão amorosa sem tamanho. É mesmo o sofrer de amor, a saudade pela “senhor” que está em Monte-Maior.
O pronome “tu”, apóstrofe, logo no princípio, remete-nos de uma forma muito natural e espontânea para alguém que chegou e lhe pode dizer novas da dona.
E, no refrão, tenta explicar, desabafar a sua dor: é que se ele não trouxer recado dela, “se seu mandado não vir”, “triste e coitado” ficará. A dupla adjetivação a dar-nos a dimensão da sua dor. E ela far-lhe-á muito mal se não vier em seu auxílio. Então maldita seja a hora em que ele nasceu. Para sua infelicidade, ama-a sem jeito, em vão, e nunca recebeu dela outra coisa.
O ritmo marca também a agonia do sujeito, predominando os sons abertos, como num grito de desabafo. O polissíndeto, utilizado no refrão, marca o desespero do poeta, num queixume de dor, num imenso suspiro que não para… A anáfora “ca” tem valor explicativo.
E ele continua a interpelar a pessoa que, vindo de Monte-Maior, viu os olhos da sua amada, e pede-lhe, por Deus, que lhe dê notícias dela.
Novamente num tom obsessivo, diz-lhe que, se não trouxer recado dela, ficará muito triste e maldiz a sua sorte, pois tal amor foi em vão, nunca recebeu nada dela.
Como vemos, nesta cantiga de amor, temos toda a estrutura da cantiga de amigo. O refrão é demasiado grande, mas fora isso, temos o paralelismo semântico e de construção anafórico, as ideias repetem-se obsessivamente.
(Adaptado de A Lírica Trovadoresca, Maria José Barbosa, Mem Martins, Edições Sebenta, [1997])
           
           
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