quinta-feira, 5 de setembro de 2013

BAILIA A GUIPÚSCOA (Vitorino Nemésio)


Dançarina Ménade, estátua romana (mármore), século II dC, Museu de Antalya
       
       
BAILIA A GUIPÚSCOA

Bailemos no céu de Espanha,
Meninas dos olhos dele,
O triste mais do que nós.
Alegria do poeta,
Seus olhos aves contentes!
Dancemos ora já todas:
Só duas,
Como nas bodas:
Primeiro em cós
E depois nuas.

Nem nuvem nem torreado
Nos vejam sem sapatilha!
Ao relento e de mantilha
Burgos passámos
Noite escura:
Só dor e paramos tocámos,
Só terra dura.

A dedo leve em pé de fogo
O anelinho da cintura
Mingou no giro,
E ali quebrámos.
Dancemos logo!

Com solas de ferro e nardo
Já baila a Lua, bailemos nós!
Olhar, unir é o nosso fardo.
Com que pegada a vida sonha!
QuítaloQuítalo! – (uma voz,
Como nos toiros!). E a peçonha
Do sangue vivo em chão de abrolhos.

Tapai as pernas com vergonha,
Castas meninas dos meus olhos!
           
Vitorino Nemésio, Obras Completas, Vol. II – Poesia
s.l.: Imprensa Nacional da Casa da Moeda, 1989, p. 141
    
             
A herança cancioneiril no Imagismo e no Surrealismo
Nos anos 40, o panorama literário nacional encontra-se hegemonicamente distribuído entre os legatários da herança presencista e os neorrealistas.
No entanto, paralelamente a estas manifestações, encontramos também alguns autores que, repelindo estes rótulos estéticos, procuram trilhar novos rumos. A este propósito, Fernando Guimarães refere o seguinte:
"se estivermos atentos às obras que são suficientemente marcantes para definir esta linha de desenvolvimento da nossa poesia, verificamos que elas se podem estender desde 1938, quando sai o livro de Nemésio Bicho Harmonioso, até aos últimos anos da década ou, mesmo ao limiar da de 50 com a publicação de As Mãos e os Frutos (1948) de Eugénio de Andrade." (Fernando Guimarães, O Modernismo Português e a sua Poética, Porto: Lello Editores, 1999, p. 104)
         
Vitorino Nemésio é, então, um dos autores que traçam um caminho original, através da aliança entre uma imagística pessoalíssima, os jogos de linguagem e o ritmo popular de ascendência tradicional. Como referem Óscar Lopes e António José Saraiva, "Nemésio, quando sente já delidas as imagens do seu éden infantil, consagrou a sua oficina a revivescências do romanceiro, a uma tocante mística pós-heideggeriana, ou a imaginosas associações lúdicas, tirando o melhor e mais imprevisível partido de imagens e do léxico […]" (LOPES, Óscar e SARAIVA, A. José. História da Literatura Portuguesa, 17ªedição, Porto: Porto Editora, 1996, p.1048). Deste modo, Nemésio não ficou alheio à riqueza e às potencialidades dos cancioneiros medievais como fonte de imagens e de formas de expressão, como podemos verificar no poema "Bailia a Guipúscoa".
A exortação à dança pelas enunciantes femininas (“bailemos”/“dancemos ora já todas”/“ dancemos logo”) remete-nos, de imediato, para as bailias de Joan Zorro (“Bailemos agora, por Deus, ai velidas”) e Airas Nunes (“Bailemos nós já todas três, ai amigas”). Além disso, a descrição física e sensual das donzelas aproxima-se do autopanegírico da amiga (“primeiro em cós/e depois nuas”, “a dedo leve em pé de fogo/o anelinho da cintura/mingou no giro”). Assim, esta aproximação ao intertexto trovadoresco é dissonante relativamente à dura realidade da “peçonha do sangue vivo em chão de abrolhos”. Ao nível formal, encontramos a repetição estratégica do exortativo, estruturas paralelísticas e variações sinonímicas que evocam o aparato formal e fraseológico do texto trovadoresco subliminar.
Sílvia Marisa dos Santos Almeida Cunha
Universidade de Aveiro- Departamento de Línguas e Culturas, 2008, pp. 38-39
            
            
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/05/bailia.a.guipuscoa.aspx]
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