quinta-feira, 19 de setembro de 2013

CANTIGA DE AMIGO (Adriano Correia de Oliveira)


 
         
           
CANTIGA DE AMIGO


Se sabedes novas do meu amigo
É que venho perguntar:

Que ao que levou meu amigo
Há de a noite encarcerar
Dentro de fel e vinagre
Sua boca há de fechar.

Com sete chaves de treva
E fechaduras de neve
Que ao que levou meu amigo
Há de a febre devorar.

Se sabedes novas do meu amigo
É que venho perguntar:

Sobre a parede mais fria
Suas tripas há de o dia
Pendurar em argolas de veneno
Sua carne há de queimar.

Com carvões de acetileno
Mai-lo sangue que há de arder
Que ao que levou meu amigo
Há de a noite decepar
Há de o dia ver morrer.

Se sabedes novas do meu amigo
É que venho perguntar:

Sobre a parede mais fria
Suas tripas há de o dia
Pendurar em argolas de veneno
Sua carne há de queimar
Com carvões de acetileno.

Se sabedes novas do meu amigo
É que venho perguntar.
            
Adriano Correia de Oliveira, Gente de aqui e de agora (álbum musical), 1971
            

            
Através da recuperação e glosa do verso “se sabedes novas do meu amigo”Adriano Correia de Oliveira entra num jogo intertextual com a cantiga de amigo Ai flores, ai flores do verde pino”, do rei-trovador D. Dinis.

Repare-se no recurso a alguns processos formais próprios da poesia trovadoresca medieval, tais como: o verso curto, uso de arcaísmos (“sabedes”,“Mai-lo”); o refrão composto apenas por um dístico; o paralelismo estrutural com recurso à transposição de alguns versos entre estrofes (alteração da ordem). É possível também reconhecer ecos intertextuais do romanceiro popular português, a propósito do uso recorrente da construção com o verbo havercomo auxiliar, seguido da preposição de e de um verbo no infinitivo:


“Dentro de fel e vinagre
Sua boca há de fechar.”


“Pendurar em argolas de veneno
Sua carne há de queimar.”
            


(“Cantiga de Amigo”, A. C. de Oliveira)


A mesa donde comeres,
logo se há de escachar;
e a cama donde dormires,
em fogo s’há de abrasar.”
            


(romance tradicional “Floresvento”)
           
Detetam-se também algumas coincidências temáticas com o cancioneiro de amigo: o uso do distintivo de género quer no título quer no primeiro verso (“amigo”); o tema da separação e espera ansiosa por parte da amiga; a intuição da figura do mensageiro a quem a amiga transmite os seus recados e de quem espera receber notícias.
Aliadas a estas marcas trovadorescas, encontramos a mensagem ideológica deAdriano Correia de Oliveira, através da crítica e denúncia da repressão do regime que atua pela noite (alusão metafórica do próprio regime e da PIDE) por meio de detenções (“encarcerar”, “Com sete chaves de treva / E fechaduras de neve”, “parede mais fria”, “argolas”, “carvões de acetileno”, “decepar”, “queimar”).
Deste modo, Adriano Correia de Oliveira, à semelhança do que faz, por exemplo,Manuel Alegre no poema Como ouvi Linda cantar por seu amigo José”, utiliza o motivo frequente do cancioneiro de amigo para adaptá-lo à situação político-social de Portugal na época em que foi redigido o texto, intervindo para denunciar e expor as atrocidades perpetradas por uma ditadura desumana e desumanizante.
             
           
Bibliografia / sugestões de leitura:
           
Cantigas medievais galego-portuguesas – projeto Litteraa presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).


Un Chant Novel: A inspiração (neo)trovadoresca na poética de Jorge de Sena,Sílvia Marisa dos Santos Almeida CunhaUniversidade de Aveiro- Departamento de Línguas e Culturas, 2008.




[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/19/gente.de.aqui.e.de.agora-.aspx]
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