quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CRÓNICA DE ABRIL (SEGUNDO FERNÃO LOPES)


 
              
                
CRÓNICA DE ABRIL
(Segundo Fernão Lopes)

A rosa a espada o Tempo a lua cheia
entre Abril e Abril memória e ato
este oculto invisível coração.
E a trote dos cavalos os blindados
(quem me acorda no meio do meu sono?)
«Lisboa está tomada». A rosa e a espada.
Subitamente às três da madrugada.

Andando o Povo levantado andando
Álvaro Pais de rua em rua: «
Acudam
ao Mestre cá ele é filho d
El-rei. D.
Pedro
». Entre Abril e Abril. Memória e ato.
Verás florir as armas: lua cheia.

Saiu de Santarém o Capitão
já o Mestre matou o Conde Andeiro
e Álvaro Pais nas ruas cavalgando:
Matam o Mestre nos Paços da Rainha.

E o microfone às três e tal. E as gentes
que isto ouviram saíram pelas ruas
a ver que coisa era. E começando
a falar uns com outros começavam
a tomar armas. 
Aqui Posto de
Comando
. E soavam vozes de arruído
pela cidade. E assim como viúva
que rei não tinha se moveram todos
com mão armada. E Álvaro Pais gritando:

Acudamos ao Mestre meus amigos
Acudamos que o matam porquê.


E o rouxinol cantou. Ouvi dizer
que na torre soaram badaladas.
O doce cheiro a terra. O respirar
da amada. «E sobre cada povo (Nietzche)
está suspensa uma tábua de valores».
Verás florir o Tempo. A rosa e a espada.
Nel mezzo del camin di nostra vita.
Subitamente às três da madrugada.

E começava a gente de juntar-se
e tanta que era estranha de se ver.
Não cabiam nas ruas principais
cada um desejando ser primeiro
e todos feitos d
um só coração.

Não sei se a História tem um fio se
não tem. Mas já de Santarém partiu
o Capitão. De negro vem vestido
em cima da Chaimite. Ouves? É o trote
das lagartas. Cavalos e cavalos.

O exército da noite e seus blindados.
Ó com quanto cuidado e diligência
escrever verdade sem outra mistura.

Andando o Povo levantando andando
um Major aos seus homens perguntando:
Adere ou não adere? É só. Mais nada.
E o segundo-sargento perfilando-se:
Há vinte anos que espero este momento.

Verás florir o Tempo. E as armas de-
sabrochadas: às três da madrugada.

Soem às vezes altos feitos ter
começo por pessoas cujo azo
nenhum povo podia imaginar.
E pois assim aveio que em Lisboa
um cidadão chamado Álvaro Pais:

Onde matam o Mestre? Que é do Mestre?
De cima não faltava quem gritasse
que o Mestre estava vivo e o Conde morto.
Mas isto já ninguém o queria crer.

Continuidade. Descontinuidade.
E o que é rutura? E a História? Um caos de acasos.
Kairos (dizem os gregos). Conjunturas
favoráveis.
                     Verás florir as armas.

E já o Capitão entra na Praça
andando o Povo levantado andando
apoiando a coluna quando avança
para cercar o Carmo às doze e trinta.

Traziam uns carqueja e outros lenha
alguns pediam escadas e bradavam
que viesse lume para porem fogo
e queimarem o traidor e a aleivosa.

E em tudo isto era o tumulto assim
tão grande que uns aos outros não se ouviam
e não determinavam coisa alguma.

E o trote dos cavalos os blindados.
(Quem te acorda no meio do teu sono?)
Verás florir o Tempo: rosa e espada.
Subitamente às três da madrugada.

De cortinas corridas está o Carmo.
Da torre da Chaimite uma rajada
saltam vidros e cal da frontaria
e o tempo vai correndo sem resposta.

E não parava gente de juntar-se.

Onde matam o Mestre? Que é do Mestre?
De cima não faltava quem gritasse
que o Mestre estava vivo e o Conde morto.
Se está vivo mostrai-o e vê-lo-emos.

E a gente não parava de juntar-se.
Quem fechou estas portas? perguntavam.

E já o blindado toma posição.
O Capitão olha o relógio e conta
e antes que diga três irrompem vivas.

Verás florir o Tempo: espada e rosa.

Já saiu a cavalo Álvaro Pais
já o Mestre matou o Conde Andeiro
está caído no Paço trespassado
ó Lisboa prezada venham ver
o Capitão em cima do blindado
Arraial Arraial. E então o Mestre
assomado à varanda a todos diz:

Amigos sossegai: estou vivo e são.
E o rouxinol cantou. Olhai as armas
desabrochadas. Cravo a cravo (ouvi
dizer). Andando o Povo levantado.

E não vereis na crónica senão
(sem falsidade) a certidão da História.
              
Manuel Alegre, Atlântico, 1981
             
             
Não deve haver área da vida portuguesa recente que não se caracterize e defina pela agora já clássica forma de “antes” ou “depois” do 25 de Abril. Reflexões contemporâneas no âmbito da sociologia, história, política, literatura e tantos outros campos de estudo utilizam esta barreira temporal como metodologia inicial de abordagem. Daí que, como Maria de Lourdes Pintasilgo assinalou na sua “Deambulação pelo Espaço/ Tempo do 25 de Abril,” possamos apontar o 25 de Abril de 1974 como um momento fundador, ou seja, como que um ato inicial de todas as histórias possíveis num sentido individual e coletivo. Esta visão do 25 de Abril como um momento novo e fecundo na sua novidade é aliás corroborada e sintonizada com a nossa história coletiva em textos como Ora Esguardae, de Olga Gonçalves ou no poema de Manuel Alegre “Crónica de Abril”, escrito pela pena de Fernão Lopes, com Álvaro Pais nos Paços da Rainha e Salgueiro Maia no Largo do Carmo lado a lado. Por seu turno em Ora Esguardae, título retirado da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, abre-se “(…) uma dimensão ritual que coloca o tempo-origem visado primordialmente em Ora Esguardae‑ o 25 de Abril de 1974 ‑ no horizonte arquetípico da nova dinastia inaugurada por D. João I, horizonte que, por sua vez, é representificação mítica de uma nova fundação da nacionalidade” (Luís Mourão, Um Romance de Impoder ‑ a paragem da história na ficção portuguesa contemporânea. Braga-Coimbra: Angelus Novus, 1996, p. 100). Entendia-se assim o 25 de Abril como o momento-símbolo de início de um novo tempo na história de Portugal, em que todos os sonhos, frustrações passadas e ansiedades seriam compensados.
 in Portuguese Literary & Cultural Studies 1 ‑ Borders Fall 1998
             
             

   
             
Atlântico, de 1981, é um divisor de águas em sua obra. Se antes, em sua poética, a Memória era possuída pelos fantasmas da Ditadura, a partir daí a História poderá ser reencontrada em sua plenitude e destituída dos referenciais míticos sustentados pelo Estado Novo.
[…]
Em Atlântico a História emerge como reconstrução. A Memória, perdida, comprometida, durante o século XX, com os aparelhos ideológicos do Estado salazarista e alimentada por uma História que tinha a ruína como fundamento, revertida através da indicação explícita do real que era encoberto pelo mito, passa, agora, a indiciar que a História precisa ser recontada, necessita ter seus mitos redimensionados. No projeto poético de Manuel Alegre, Atlântico dará a definitiva forma que os mitos deveriam tomar nessa nova perspectiva a partir da realidade após a Revolução de 25 de Abril.
É preciso, entretanto, antes de se avançar, reafirmar que o projeto de Manuel Alegre é derivado de uma tensão entre Memória e poesia. Se for retomado o processo poético desenvolvido até Atlântico, está-se diante de uma busca clara de uma redefinição da função da Memória na sociedade portuguesa que atravessa o momento histórico da guerra na África, o fim do fascismo, a descolonização e a democracia. A dimensão atlântica pretendida, como era de se esperar, não segue a anterior vocação atlântica da perspectiva salazarista, nem daquela pensada na Comunidade Lusíada por António Spínola (SPÍNOLA, 1974). Há um deslocamento temático por uma geografia definida pela dispersão da língua portuguesa no mundo – a publicação de Nova do Achamento (1976), remontando ao momento da Descoberta do Brasil, pela releitura da Carta de Pero Vaz de Caminha, é tomada como uma primeira referência de refundição do universo da Língua Portuguesa e da relação que o Portugal democrático deve manter com a terra americana, a África comparece como o lugar da emergência de uma nova História para Portugal. Situar o Oceano Atlântico como o espaço geográfico português por excelência não é mais a retomada das glórias imperiais, mas é, sobretudo, o redimensionamento daquela História que centrava Portugal numa vocação atlântica ufanista de um novo império. Atlântico redimensiona a condição histórica portuguesa, dos atos de bravura às trágicas derrotas. Com isso, percebe-se que um diálogo intertextual claro com as duas obras anteriores da série literária portuguesa que buscaram dar conta da relação direta entre Portugal e o mar: Os Lusíadas Mensagem.Questionar a ordem poética, ou, melhor, problematizar a herança cultural e literária é a perspectiva de Atlântico.
[…]
A Memória individual faz da História uma outra História em que passam a coexistir discursos além dos convencionados. A História dos manuais negada em Praça da Canção e em O Canto e as armas é, agora, outra – não basta mais ela negar os mitos, mas afirmá-los a partir do cotidiano individual. A História, assim, precisa ser tomada em sentido lírico, já que somente pela Memória individual poderia advir a dimensão pretendida na alegoria da reconstrução da Torre do Tombo.
A condição do lírico que estabelece a pluralidade de vozes comparece definitivamente. Se, na obra anterior a Atlântico, a intertextualidade estava a serviço de uma problematização e redimensionamento do épico, em Atlântico, progressivamente, por efeitos da proposição do poema inicial, “A lição do arquiteto Manuel da Maia”, a condição épica é degradada por efeito do lírico. O poeta estabelece a dialética pretendia por Benjamin entre Memória e História, através da implosão do sujeito épico. Não há mais unidade épica a ser seguida para Portugal.
O lírico pode deslocar-se, assim, da interrogação à História para o redimensionamento da Memória. O sujeito poético pode tomar uma nova Memória diversa daquela fora posta em função do evento de Alcácer-Quibir. A História que se compreende aqui é uma construção lírica que não está em função mais de um poder único e centralizador. Há que se perceber que a História se relativiza na distância que se tem dos seus instantes de perigo, como dissera Walter Benjamin, “cada segundo era a porta estreita pela qual poderia entrar o Messias” (1987, p. 232), e o Messias só poderia entrar quando a História tivesse sentido e seu continuum tivesse sido explodido, não se caracterizando mais pelo tempo homogêneo e vazio. Teria sido o 25 de Abril este momento? O poema “Crónica de Abril (segundo Fernão Lopes)” busca responder tal provocação. Aqui, a Revolução de Avis, de 1383, é aproximada a 1974:
A rosa a espada o tempo a lua cheia
entre Abril e Abril memória e acto
este oculto invisível coração.
E o trote dos cavalos os blindados
(quem me acorda no meio do meu sono?)
“Lisboa está tomada”. A rosa e a espada.
Subitamente às três da madrugada. (...)
Continuidade. Descontinuidade.
E o que é ruptura ? E a História? Um caos de acasos.
Kairos (dizem os gregos). Conjunturas
favoráveis. (...)
E não vereis na crónica senão
(sem falsidade) a certidão da História

É explícita a intertextualidade com Fernão Lopes, já indicada pelo subtítulo do poema – continuidade, descontinuidade, de Abril a Abril, o poeta retoma a movimentação da arraia miúda dos lisboetas. A ação histórica que implode o seu próprio continuum é uma ação que a poesia transforma em coletiva. Com a certidão da História, o atestado e o testemunho fazem uma nova Memória ressurgir. O coletivo não provém da retomada do épico, mas de uma recuperação do atestado dado pelo testemunho do guardião da Memória, o poeta. Daí confluir os tempos para que oMessias penetre, e se dê a reversão do tempo vazio e homogêneo em dinâmica temporal, em História. O lírico é reafirmado, reverenciando-se a Memória, guardiã da experiência, no sentido de Walter Benjamin. O poeta canta a História, em seus múltiplos aspectos, em seus acertos e desacertos, em suas glórias e quedas. O fluxo do Tempo, como experiência histórica, volta a seguir da Memória para a História, não pelo reverso como operara a Ditadura: “entre Abril e Abril memória e acto/ este oculto invisível coração (...) Um caos de acasos...”este fluxo seria capaz de deixar que o tempo passasse como experimentação, como forma de recoletivização da experiência histórica. A História é compartilhada entre tantos, ela não é mais o objeto detido por uma classe, por um ponto de vista, por um sentido de permanência – é, enfim, coletiva. Será por isso, no poema “Pais em inho”, que o poeta radicalizará a dimensão histórica portuguesa, nas suas contradições. A exaltação histórica dá lugar à ira, ao reconhecimento do tamanho e das características de um país de contrastes em que otrauma não terá sido superado, como afirmara Eduardo Lourenço: “Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constânciao país habitável de todos, sem esperar do eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal” (Eduardo Lourenço, O labirinto da saudadepsicanálise mítica do destino português. 4.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 47).
Mário César Lugarinho, 
 Manaus, AM: UEA Edições, 2012, pp. 79-81, 87-89
          
            
             
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/18/cronica.de.abril.aspx]  
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