sábado, 7 de dezembro de 2013

ESVELTA SURGE! VEM DAS ÁGUAS, NUA (Camilo Pessanha)



  "O nascimento de Vénus", de Botticelli

          

A mulher, só por excepção em «Esvelta Surge!» e, até mesmo, em «Vénus», se aproxima da pintura erótica de um Boticelli, ela também aqui como uma Sílfid, a lembrar-nos Camões.. A sua presença, em Camilo Pessanha, é marcada por um certo idealismo,  resultante do seu sentido de frustração até no amor, frustração que no soneto «Esvelta Surge!» é vencida por um assomo de coragem.


Lilás Carriço, Literatura Prática 11º Ano. Porto, Porto Editora, 1986 (4ª ed.), p. 355. (1ª ed. 1977)

            
              
CAMILO PESSANHA
              
           
            
            
              
ESVELTA SURGE! VEM DAS ÁGUAS, NUA
              
Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! — para o expor à Morte...
Mas que ora — a infame! — não se te anteponha.

A hidra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.
         
Camilo Pessanha
          
            
QUESTIONÁRIO

1. A figura feminina é caracterizada em dois momentos de forma diferente.
1.1. Faça a sua caracterização nesses dois momentos.
1.2. Que consequências se retiram dessa dupla caracterização?

2. Comente o esquema:


                    

3. A relação entre o eu e o tu é dada em termos de luta.
3.1. Destaque o vocabulário que refere essa luta.
3.2. Que se pode concluir dessa relação?

4. O sujeito poético despreza as convenções de ordem moral.
4.1. Qual a frase que indica esse desprezo?

5. Que elementos simbólicos se encontram neste texto?

6. Qual será o tema do soneto?

(Aula Viva. Português A. 12º Ano, J. Guerra e J. Vieira. Porto Editora, 1999, p. 314)
          
         
TEXTOS DE APOIO
            
PSEUDO-ÁPICE

Para a nossa leitura interessa frisar que esta invocação-convite a uma mulher de formas perfeitas, bem definidas e sedutoras, feita pelo “formoso, moço e casto, forte” gladiador — desdobramento do eu num espaço mitológico — não existe senão no plano do desejo (repare-se como as noções de futuro se enlaçam no Presente do Indicativo). Esta mulher, Andrómeda ou Vénus Anadiómena, como diz Óscar Lopes (Lopes, 1973, p. 386), com quem anseia compartilhar um orgasmo, seria a configuração sublimada de todos os seus ideais de comunicação, de amor, de perfeição, de plenitude, que já vimos pouco a pouco destruídos nos passos anteriores. O surpreendente é que mesmo neste campo do imaginário não falta a ameaça da Morte — “A hidra torpe” — e só mesmo aí, no sonho, a sua destruição, enquanto princípio de caducidade, seria possível, de modo a permitir a perenidade da plenitude. E se tudo isto transcorre numa esfera onírica, a distância para a concretização torna-se incomensurável.


Camilo Pessanha em dois tempos, Gilda Santos e Izabela Leal, Rio de Janeiro, 7Letras, 2007, p. 57.
           
           


            
           
             
           
           
           
PAISAGENS DO DESEJO E DA MELANCOLIA

Em “Desce em folhedos…” temos uma paisagem campestre, dominada pela vegetação; em “Esvelta surge!...” uma cena marinha. Em ambos, a voz lírica se dirige a uma figura feminina que surge do seio dos elementos naturais, de uma forma que é, entretanto, muito diferente em cada um deles.
[…]
Como no antecedente, o desejo materializa uma figura feminina com quem o sujeito deseja unir-se.

Isolado, como veio nas várias edições em livro, não aparecia reforçada essa direção de leitura, nem se opunha este soneto tão vigorosamente aos dois outros sonetos que o poeta intitulou justamente “Vénus”. Lido este em conjunto com o anterior, permite que vejamos os dois blocos como dois momentos complementares da invocação da deusa da formosura, do amor e dos prazeres. Neste díptico, no contexto integrativo, é ela imagem do desejo de comunhão com a paisagem natal, de recuperação da origem. Naquele outro díptico, pode ela ser vista como uma figuração dos efeitos adversos do exílio: primeiro, como decomposição do ideal amoroso; depois, como recomposição, sob o efeito da nostalgia, do ideal desfeito. De facto, o primeiro soneto da série “Vénus”, que também parece aludir ao conhecido quadro de Botticelli (“De pé, flutua, levemente curva, / Ficam-lhe os pés atrás, como voando…”), celebra não o nascimento ou a conquista, mas a morte da beleza. Ela não é, ali, uma figura inteira, oferecida à contemplação, como no quadro ou no soneto “Esvelta surge!...“, mas um “esboço na marinha turva”6. Não há belas formas, nem anseio de posse7. A forma perfeita está ali reduzida a carne apenas, que se desfaz e exala um odor que embebeda e atrai8. E a dissolução final do orgânico na mineralidade das “conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos” não permitirá, pela eliminação do desejo carnal, a contemplação da “impecável figura peregrina” — da beleza ideal invocada na primeira quadra do segundo soneto de “Vênus”— mas apenas a sua perceção como uma “fúlgida visão”, uma “linda mentira”. À perspetiva em que triunfa o tema do ideal perdido e a afirmação da inutilidade dos esforços de reconstrução ou recuperação, que caracteriza os sonetos do díptico “Vênus” já nos temos dedicado, porém, em outros momentos deste trabalho. Não nos estenderemos, pois, na sua análise. À nossa leitura interessava, aqui, apenas o realce dos contrastes, para afirmar a singularidade dos sonetos “Desce em folhedos…” e ”Esvelta surge!...” nos quais acreditamos identificar o momento eufórico da imaginação produzindo o desejo de comunhão total com o mundo.
Na nossa leitura de “Esvelta surge!...”, a imagem feminina é também, portanto, projeção ou criação do desejo de comunhão. Mas é certo que até o quarto verso, a leitura é ambígua: tanto podemos ler os verbos dos dois primeiros no imperativo, quanto podemos lê-los no presente do indicativo. Isto é: como expressão de um desejo, ou como narração. O quarto verso, ao estabelecer um diálogo da voz lírica com essa figura, nos leva a reler os três primeiros, reforçando o entendimento dos verbos como imperativos. Ambas as leituras, porém, permanecem ainda possíveis: o poeta descreve o surgimento, das águas, de uma figura feminina e então a ela se dirige; a voz do poeta deseja esse surgimento, comanda-o num discurso em que todas as ações se deixam ler no condicional. É esta última a nossa leitura preferencial, reforçada principalmente pela sequência dos dois sonetos, que nos faz ler no mesmo modo verbal “Esvelta surge! Vem das águas...!” e ”Oh vem! De branco! [...] Os ramos, leve, a tua mão aparte”. Por sua vez, a leitura deste segundo soneto implica a releitura do primeiro, pois aqui a convencionalidade da representação mitológica, a morte metaforizada em monstro clássico e a reiterada afirmação da castidade do sujeito obrigam-nos a afastar a clave realista que ainda podia persistir naquele.

Nostalgia, exílio e melancolia: leituras de Camilo Pessanha, Paulo Elias Allane Franchetti, São Paulo, Edusp, 2001, pp. 74, 79-83. ISBN 10: 85-314-0563-7. ISBN 13: 978-85-314-0563-1

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(6) A apresentação do momento de decomposição da forma física como similar ao momento de criação de um quadro, o seu esboço, lembra o célebre poema ”Une Charogne”, de Baudelaire. Lemos ali: “Les formes s’effaçaient et n’étaient plus qu’un réve / Une ébauche lente à venir, / Sur la toile oubliée, et que l’artiste achève / Seulement par le souvenir”. Seria interessante desenvolver uma leitura comparativa entre o díptico Vénus e o poema Une Charogne. Em ambos, a contemplação do corpo morto se faz de modo a associá-lo ao momento de origem da vida, à cópula: no de Baudelaire, mais diretamente, pois logo na segunda estrofe a carniça, de pernas para cima, é comparada a uma mulher lúbrica, numa imagem forte, que repercutirá ao longo de todo o poema; no de Pessanha, de modo apenas insinuado, na descrição do movimento da água do mar:”Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,/ Que a onda, crassa, num balanço alaga, / E reflui (um olfato que se embriaga) / Como em um sorvo, múrmura de gozo”.
(7) Não importa muito à análise, mas registe-se que, caso se trate mesmo aqui de uma alusão ao quadro de Botticelli, ela opera uma confusão, comum a outras obras do período (por exemplo, “Ouro sobre Azul”, de Raimundo Correia), de Afrodite Urânia e Afrodite Pandémia. Uma explicação para essa assimilação, que atribui uma carga erótica inesperada à construção alegórica renascentista, poderia talvez encontrar-se na erotização finissecular da beleza frígida e distante.

(8) Além do verso já referido — v. 6: E reflui (um olfato que se embriaga) —, lemos ainda nesse soneto: v. 3: O cheiro a carne que nos embebeda! E já que aludimos, em nota anterior, ao poema de Baudelaire, talvez valha a pena notar que o cheiro do corpo decomposto, que lá comparece apenas como elemento negativo (como puanteur) tem no poema de Pessanha um sentido muito mais ambíguo, pois parece trazer ao sujeito contemplativo alguma espécie de prazer, de transporte dos sentidos.
           
           
            
           

                                         
Aphrodite betritt die Augeninsel  © Ernst Fuchs
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AMOR, COMPANHEIRISMO E CONHECIMENTO INTERSUBJETIVO

Um ardor ainda mais intenso vibra no soneto «Esvelta surge». Mas este frémito sucessivamente erótico e guerreiro tem como diástole o soneto anterior em que «a chama do furor declina». Não por acaso, a terceira edição (1969) de João de Castro Osório inverteu esta ordem. Lidos à luz desta reordenação, do primeiro para o segundo soneto como que se descreve uma curva térmica descendente, um abrandamento em que o objecto do desejo se desmaterializa, se espiritualiza. Este esbatimento do «furor» que se opera de um para o outro soneto está perfeitamente em ordem com a teoria do desejo de cariz schopenhaueriano (o desejo acarreta inevitavelmente frustração e sofrimento, por consequência é sábio extinguilo), enunciada explicitamente por Pessanha, já anteriormente referida. Assim, a decisão deste leitor (real) que se propõe interpretar conjuntamente os dois sonetos, iluminandoos reciprocamente, fundase na filosofia do desejo explicitamente propugnada pelo escritor.
Os sonetos [“Esvelta surge! Vem das águas, nua” e “Desce em folhedos tenros a colina”] contrastam no cenário, no tipo de mulher e na postura do sujeito. É marítimo no primeiro, campestre e bucólico no segundo. A mulher, de Vénus, transfigurase em sílfide. Ao desejo ardente, imperioso, sucede um apelo suavíssimo, uma súplica doce.
Cenário, mulher e modalidade do desejo harmonizamse perfeitamente. Na verdade, a primeira quadra do primeiro soneto onstitui uma descrição de Vénus, enquanto, no segundo, só na segunda quadra é que são introduzidos alguns, leves, traços da mulher. Ambas surgem em movimento, Vénus timonando uma concha, a sílfide impelida pela brisa (se no primeiro verso o sujeito gramatical é «colina», dada a ambiguidade cultivada pelo poeta em que palavras e versos se cooptam, podese supor como sujeito subentendido a sílfide e «a colina» como complemento directo). Neste pressuposto, a unidade com a paisagem é sublinhada pela preposição em folhedos tenros, em vez da mais lógica por.
A primeira nota de Vénus é «esvelta»40, enquanto a da sílfide é «de branco». Uma nota sensual versus uma nota espiritualizante.
A Vénus «surge» de chofre num espaço aberto, inteira. A sílfide aparece paulatinamente, rodeada pelo misterioso chiaro-oscuro do arvoredo, afagada pela blandícia dos tenros folhedos (o arranhão da silva é um ósculo…), levada, acariciada pela doce brisa. É a essência feminina dimanada da verdura aprazível e bucólica, «do imo da folhagem», «do imo do arvoredo».
Diversamente, Vénus emerge das águas do mar («Vem das águas, nua»), ressumbrando sensualidade («os rins FLexíveis e o seio fremente…»), concitando as vagas do desejo carnal («morreme a boca por beijar a tua.»).
As atitudes do sujeito são diametralmente opostas. Irrompe enérgico, decidido, pujante de força «Eisme formoso, moço e casto, forte.» quebrando as barreiras do «vil pudor» e da «vergonha», certo de a fazer «desmaiar de amor» sob o seu másculo amplexo, pelo vigor do seu «pulso de jovem gladiador»41. O que torna este soneto enigmático é a intromissão da mortehidra, que sem ela constituiria uma celebração gaia do amor físico. Parece que Pessanha não consegue abstrair nunca do espectro da morte, aqui do monstro da morte. Parece que eros traz no seu rasto o seu indesejável irmão, thanatos.
Mas, julgamos, uma leitura freudianamente ortodoxa veria neste desejo hercúleo de esmagar a morte a vitória de eros, do desejo da vida sobre a atracção pela morte. Pelo amplexo sexual o poeta está a afugentar, a defenestrar a morte, mas uma leitura mais ambivalente está mais de acordo com a psique de Camilo. É na mesma rocha em que a hidra é esmagada que a cabeça de Vénus pousará para «ir inclinarse, desmaiar de amor». Para ser verdadeiramente disjuntiva, o local da eliminação da morte não deveria ser o mesmo daquele da consumação amorosa. Já antes, logo depois de se autocaracterizar nos termos mais eufóricos, acrescenta «Tão branco o peito! – para o expor à Morte…» como intuindo de antemão que aqueles predicados não são suficientemente fortes para resistir ao poder da morte. Por ora, todavia, não obstante a vitória da morte ser inelutável, que não se coloque entre si e a amada pois o poeta é suficientemente hercúleo para a vituperar e despedaçar («Mas que ora – a infame! – não se te anteponha. A hidra torpe! … Que a estrangulo … Esmagoa»).
Outra leitura, que diverge desta intromissão estranha da morte, é desenvolvida por Ester de Lemos que vê no impulso amoroso e no impulso guerreiro duas faces do mesmo sentimento: «da ideia de amor que, num belo primitivismo, leva o homem a exporse, em todo o esplendor da sua juventude, aos olhos da mulher, passase insensivelmente a uma ideia de guerra e força, sem se perder de vista o primeiro impulso»42. Mas se ligarmos o presente soneto com «Vénus» (conjunto mais congruente para Óscar Lopes do que o díptico que prevaleceu), a imagem sadia do guerreiro que merece, por provada bravura, a aquiescência da amada desmoronase. Com efeito, a «esvelta» e soberba Vénus é verdadeiramente estraçalhada por feras ondas (último terceto), o objecto do amor é aniquilado pelo desejo que suscita. Na interpretação de Anna Klobucka, esta subversão da alvinitente Anadiómede apresenta inequívocos traços de aniquilamento sádico, de que o próprio sujeito tem consciência («Em que desvios a razão se perde»): «A penetração do ventre pútrido, «azul e aglutinoso», da afogada pela onda (logo desdobrada em ondas: a cópula transformase em rapto múltiplo) produz intenso prazer tanto nos agentes do combate sexual quanto no sujeito falante do poema que, testemunhando a cena, se situa no papel de um voyeur ou, antes, de um senteur delirante de gozo («o cheiro a carne que nos embebeda»)»43. Portanto, nesta pulsão necrófila que se deleita com a decomposição do corpo que possui, amor e morte estão misturados, não separados.
Assim, se o primeiro soneto palpita de acção, o segundo é contemplativo. São agora os olhos a sinédoque do sujeito. Toda a aspiração do poeta está em olhar platonicamente a imagem da sílfide («Meus olhos querem desposarte,/ Reflectirte virgem a serena imagem»). A palavra virgem tanto pode referirse à mulher como ao olhar do poeta e o verbo desposar traduz um anseio unitivo, uma unidade a realizar por meio dos olhos, contemplativamente44. Só que não é uma mulher concreta, é mais um esprit du lieu, a emanação feminina e etérea do imo, do fundo, da essência dos campos, das florestas. É a sua imagem serena que os seus olhos querem reflectir, não a sua presuntiva realidade. É um ser quase lendário, composto de alma de silfo e carne ou corpo de camélia.
Desta maneira, o fogo passional, os arranques de forcado dão lugar a um devaneio semionírico, que os «tons adormecidos» dos folhedos sugerem. Para nós, o elo de ligação dos dois sonetos reside nos «olhos ardidos» pela «chama do furor», em que se retoma o primeiro soneto no segundo. A vontade retesada pelo desejo físico e pelo desafio da morte não tem forças para suportar esta tensão por muito tempo, aspirando ao repouso, ao sossego bucólico da amenidade campestre entificado numa espécie de fada contemplada, espelhada pelos olhos à distância. Não já a dura rocha e o fragor do estrondear das ondas.

Sentimento e Conhecimento na Poesia de Camilo Pessanha, João Paulo Barros de Almeida, Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2009, p. 91-95.

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(40) Mário Garcia, em «Sobre Camilo Pessanha», in Brotéria, Vol. 122, Nº 4, Abril 1986, p. 388, assinala o slancio que Barbara Spaggiari descobre no v (em vez do b) deste adjetivo, contribuindo para o frisson sensual do seu surgimento
(41) No poema, já referido, «Se medito no gozo que promete», ferve sem rebuço o desejo físico: «Desejo, nuns transportes de gigante, / Estreitála de rijo entre meus braços, / Até quase esmagar nestes abraços/ A sua carne branca e palpitante;»; mas com laivos de morte, como se depreende, mais que do verbo «esmagar», da invocação da serpente no símile desenvolvido na terceira quadra. Talvez seja digno de nota constatar que este poema inaugural oscila entre a atracção pelo amor erótico e pelo amor, à falta de melhor palavra, narcotizante, esvaído em devaneio semihipnótico e aconchegante: «Eu quisera também, adormecido, / Dos fantasmas da febre ver o mar,/ Mas sempre sob o azul do seu olhar,/ Envolto no calor do seu vestido; Como os ébrios chineses delirantes/ Aspiram, já dormindo, o fumo quieto/ Que o seu longo cachimbo predilecto/ No ambiente espalhava pouco antes…». Neste símile final, subentendese que o ardor sensual das três quadras iniciais é assimilado ao estado de hiperexcitação causado pela droga, e que, ao expressar nas últimas três quadras finais (a estrutura do poema é dividida ao meio, em partes simétricas) esse outro amor amodorrado, o poeta intenta mostrar a sua preferência pelo letargo. Como a mulher em «Interrogação» o protege da perturbação do crepúsculo, assim também é timoratamente que o sujeito se coloca sob as «saias» da mulher, para ousar «ver o mar», espaço de aventura, risco e prova. Teríamos assim in nuce alguns dos vectores da vivência do amor do poeta.
42 Lemos, op. cit., p. 49.
(43) Anna Klobucka, «A (de)composição de Vénus : reflexões sobre dois sonetos de Camilo Pessanha», in Colóquio/ Letras, nº n.º 104/105,1988, p. 39.

(44) É devido a este anelo de identificação, de se unir e de perder na união (como também se viu em «Se andava no jardim») que permite a Esther de Lemos arriscar que por vezes o poeta parece um místico «…arriscaremos que Pessanha nos aparece às vezes como um místico, pela força com que deseja fundir sujeito e objecto: simplesmente o objecto nunca é Deus.», Lemos, op. cit., pp. 31, 32.


            
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