sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

ÁGUA MORRENTE (Camilo Pessanha)



‘While I am digging for the truth, so much happens to it that instead of discovering the truth I dig up a heap of, pardon… I’d better not name it.’Stalker (1979)





ÁGUA MORRENTE
          
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.
        
Verlaine
      

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente
      
Camilo Pessanha
   

        
INTERPRETAÇÃO TEXTO
      
1. Identifique a visão fragmentária da realidade.

2. Explicite o tema sugerido, a partir das relações simbólicas presentes.

3. Faça o levantamento de elementos que exprimem ou intensificam o gosto pelo vago e indeterminado.

4. Comente as sugestões musicais que resultam dos elementos fónicos (aliterações, rimas, ritmo...).
http://testesdeportugues.blogspot.pt/2010/06/agua-morrente.html
      
5. No conhecido poema de Camilo Pessanha, o Sujeito reserva a si uma atitude passiva diante do mundo, fazendo sentir sobre si os efeitos da paisagem natural; desse modo, há um desequilíbrio existencial sugerido através de uma metáfora. A esse propósito marque a opção correta.
A imagem do Homem que emerge do caos sugere a resistência ao tempo, o desejo de sobreviver a ele.
A submersão sugere que, existencialmente, o Homem vê-se desgastado e empurrado para o Fim.
O navegar por entre águas insinua a busca humana por novos desafios que lhe dê sentido à vida.
O desejo de emergir em meio a águas agitadas sugere a vontade humana de acompanhar as mudanças socioeconômicas do início do século XX.
Todo o ambiente criado no poema impressiona pelo misticismo vaporoso que sugere o mistério para além da materialidade.

     
      
TEXTOS DE APOIO
       
Clepsidra, uma via de leitura. Gilda Santos e Izabela Leal (2007)
Semelhanças e diferenças entre os poemas “Il pleure dans mon coeur” de Verlaine e “Meus olhos apagados” de Pessanha. Jacinto do Prado Coelho (1976)

A construção do sujeito poético e a noção de tempo na poesia de Paul Verlaine e na de Camilo Pessanha. Melissa Andrea Marietti (2008)








         
Il pleut doucement sur la ville 
(Arthur Rimbaud)

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville,
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

O bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie
O le chant de la pluie!

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi! nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi,
Sans amour et sans haine,
Mon coeur a tant de peine!
   
Verlaine, Romances sans paroles, 1874
       
         



       


         
CLEPSIDRA, UMA VIA DE LEITURA

Novamente o fluir da água conduzindo à morte – como o tempo, como a clepsidra – surge num poema de musicalidade declaradamente verlainiana.
A epígrafe de Verlaine revela de imediato a homologia pranto/chuva a ser ampliada sobretudo nos versos finais. Primeiramente, a voz lírica, desdobrada no vocativo de “meus olhos apagados”, impõe a esses a insistente contemplação da chuva que cai, que morre, como que prenunciando e preparando o irremediável futuro; por fim, igualando olhos e águas na mesma aniquilação (“afogai-vos”), faz emergir a tristeza já antes pressentida.

Camilo Pessanha em dois tempos, Gilda Santos e Izabela Leal, Rio de Janeiro, 7Letras, 2007, pp. 42.
       
         
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[SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE OS POEMAS “IL PLEURE DANS MON COEUR” DE VERLAINE E “MEUS OLHOS APAGADOS” DE PESSANHA]

O que há de comum entre os dois poemas é sobretudo o motivo da chuva posta em relação com um estado de alma, e também o carácter musical da expressão, reforçado em Verlaine pela repetição de palavras (croeur) e de sons em parónimos (pleure/pleat; coeur/écoeure) e em Pessanha pela reiteração não só de palavras como de versos inteiros, num deixar e retomar que pode ser sucessivo ("Das beiras dos telhados, / Cair, sempre cair. / Das beiras dos telhados, / Cair, quase morrer...) ou distanciado (há cinco versos de intervalo entre o primeiro verso “Meus olhos apagados” e o seu aposto, em eco obsessivo, "Meus olhos apagados, / E cansados de ver.”) Música dolente, branda.
As diferenças são todavia evidentes ‑ e cheias de significado. Tirando partido da semelhança entre as formas pleure e pleut, Verlaine explora a afinidade que existe entre os sentidos respectivos: a imagem implícita da água que cai. Mais abstracto e sentimental que o de Camilo Pessanha, o seu poema desenvolve-se em torno dum termo-pivot, pleurer, de que decorre a ideia de peine. O poeta sofre tanto mais quanto ignora a causa da sua pena; o ruído da chuva, porém, é doce, é um "canto" que o consola. No poema de Camilo Pessanha, mais visual e também mais patético na sua concentração, vê-se a chuva que cai. Os dois primeiros versos (Pessanha utiliza, como Verlaine, versos de seis sílabas, organizados em quadras) encerram três palavras-chave: olhos, apagados e cair; e é do termo cair, repetido, note-se, quatro vezes, que derivam semanticamente morrer e morrente ("Cair, quase morrer»): A Imagem da queda sugere a da morte. Em Verlaine, o estado de alma define-se por languidez, tédio, melancolia; em Pessanha, à fadiga extrema associa-se a consumpção: o poeta desdobra-se, dirigindo-se aos próprios olhos personificados, “olhos apagados, / E cansados de ver”, olhos que não querem ver mais; convida-os (convida-se) à morte, por uma série de imperativos: afogai-vos, caí, derramai-vos. O adjetivo vão, em “vã tristeza ambiente”, deixa transparecer a conceção da vida como desfile de imagens vazias. E tudo isto me parece bem típico do universo poético de Camilo Pessanha, da "maneira” e do estilo que lhe são habituais. Ousaria dizer que o poema influenciado, embora mais breve (apenas três quadras), é mais complexo, mais perturbante, que o de Verlaine, nada lhe ficando a dever na melodia verbal.

Jacinto do Prado Coelho, Ao Contrário de Penelope, 1976, pp. 210-211.
       
         
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A CONSTRUÇÃO DO SUJEITO POÉTICO E A NOÇÃO DE TEMPO NA POESIA DE PAUL VERLAINE E NA DE CAMILO PESSANHA

Não há algo preciso que provoque o sentimento de crise no sujeito poético, na verdade, é toda sua existência: a sociedade da reificação, a transitoriedade e ao mesmo tempo o cansaço da espera, enfim, os novos valores do mundo moderno. Esse sentimento indefinido do interior do sujeito contamina o exterior, como expressam esses versos de Pessanha [in “Crepuscular]:
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.
Tristeza indefinida assim como o poente, tristeza que o sujeito poético sente e não sabe exatamente de onde vêm parece-nos justamente expressa na epígrafe apensa ao poema “Meus olhos apagados”, de Camilo Pessanha. […]
Na epígrafe de Verlaine, além da relação semântica através da qual o poeta associa a chuva que cai na cidade ao choro, ou seja, às lágrimas “do seu coração”, percebemos que há também jogo sonoro com os verbos “pleurer” et “plevoir”. Esses recursos contribuem para a noção de que o sujeito poético está imerso numa sensação de melancolia e tristeza e não sabe exatamente porque sofre, pois na verdade, toda a sua existência é sofrimento, por isso, o choro é algo tão natural como a chuva que cai.
Em linhas gerais, poema de Pessanha tematiza um sujeito que fica contemplando a chuva que cai dos telhados. Embora formalmente muito diferente do poema “Langueur” de Verlaine, causa no leitor a mesma sensação de angústia e tédio. Os dois poetas utilizam-se de elementos formais diferentes para construir o sujeito poético desencantado e entediado que se recolhe em si mesmo enquanto o tempo passa; por isso, ambos conseguem produzir o mesmo efeito de angústia no leitor.
A forma utilizada por Verlaine é mais clássica, visto que é um soneto com versos alexandrinos. Em “Meus olhos apagados”, temos três quartetos com seis sílabas poéticas em cada verso; o ritmo no poema é bem marcado, as sílabas poéticas acentuadas são as 2 a e 6 a nos versos ímpares e as 3 a e 6 a nos versos pares. Essa acentuação contínua, em versos curtos, imita a cadência do pingo de água que escorre do telhado e cai no chão. Os enjambements contribuem para o “escorregar” dos versos: a forma do poema, contínua e fluida, assemelha-se a água que se derrama, como mostram os versos da primeira estrofe:
Meus olhos apagados,
Vede a água cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.
As aliterações presentes no poema contribuem para a questão semântica. A aliteração da sibilante /s/ imita o barulho da chuva e aliteração da líquida /l/ dá a sensação de molhado, de água que escorre. Esses recursos reproduzem a liquidez e fluidez da água da chuva e também do tempo.
De facto, o poema de Pessanha é extremamente musical. Os efeitos musicais, segundo Álvaro Cardoso Gomes, visam a criar sucedâneos da duração”, ou seja, a música cria imagens de permanência. Nesse poema, podemos ver dois métodos diferentes para relacionar poesia e música, um deles característico de Verlaine e outro de Mallarmé.
As repetições de versos e palavras causam efeito visual e tonal no poema. Para Mallarmé, a poesia deve simular uma sinfonia e, assim, diminuir o grau de descontinuidade entre uma mudança e outra. Portanto, as repetições de palavras e versos do poema dão certa continuidade às estrofes que se organizam e fluem como uma sinfonia. Já o apelo ao ouvido, isto é, as repetições de sons idênticos ou semelhantes, é recurso muito utilizado por Verlaine. Nesse caso, a continuidade é sugerida pela alternância de sons idênticos e semelhantes, tal método pode ser percebido no poema em estudo pelas aliterações.
A água na poética de Pessanha é elemento constante e aparece das mais variadas formas: chuva, mar, rio, fonte etc. Embora ela tenha várias simbologias, a mais marcante, a nosso ver, é a água como metáfora de tempo, pois é a projeção no plano fônico e visual do fluir inexorável do tempo. Essa relação tempo/ água aparece já no título da obra de Pessanha, visto que Clepsidra é, como já foi mencionado, ampulheta movida à água. Como podemos perceber nos versos, a água pode marcar o passar do tempo exterior em oposição ao tempo interior do sujeito: as águas passam, ou seja, a chuva escorre pelos telhados e o Eu apenas observa, cansado e estático.
No primeiro verso de “Meus olhos apagados”, o poeta refere-se aos olhos apagados que vêem a chuva; essa mesma expressão é repetida na segunda estrofe. Já na terceira estrofe, temos a presença dos olhos, porém não é a mesma expressão. Os olhos e o olhar aparecem constantemente na obra de Pessanha e ajudam na composição do íntimo do sujeito poético na medida em que são, quase sempre, qualificados com adjetivos que expressam sentimentos humanos como tristeza e cansaço. Visto que os olhos podem ser entendidos como comunicação entre o interior do Eu e o exterior, o olhar em Pessanha é forma de comunicação, ponte entre a objetividade, o que o poeta vê, e a subjetividade, o que ele sente, ou seja, o que as imagens provocam nele.
O olhar, lembremos, também está presente no soneto analisado de Verlaine: tem-se um indivíduo que contempla um mundo com o qual e no qual não consegue se ajustar, por isso fica alheio à realidade. De modo diferente dos poemas de Pessanha, em Verlaine, muitas vezes, a questão do olhar aparece implícita, é o leitor que precisa concluir que por trás da descrição das paisagens existe um sujeito poético que observa e analisa constantemente o mundo ao seu redor.
No poema “Meus olhos apagados”, apesar da alusão freqüente aos olhos apontar para um sujeito que contempla o mundo ao seu redor, as referências espaciais são mínimas. Constantemente, nos poemas de Pessanha, as questões do intimismo são tão fortes que o espaço externo apenas reitera o que é da ordem do interior do eu. Ao contemplar a realidade exterior, a importância dos objetos desaparece e o foco volta para o interior do eu – sobretudo porque o que se sabe do exterior é pela via do olhar do eu e pela projeção do seu íntimo na conjuntura observada.
Nos versos “Meus olhos apagados/Vede a água cahir”, o poeta vale-se do recurso da sinédoque quando se serve do elemento olho para se designar todo o eu do sujeito poético. Essa técnica de qualificar uma parte significativa como os olhos, o coração, a alma para designar todo o indivíduo e auxiliar na construção da imagem do sujeito poético é recorrente nos poemas de Clepsidra. Ora, os olhos apagados são parte de um sujeito que está inteiramente apagado e a falta de luz sugere a ausência de vida. Na segunda estrofe, os últimos versos (“Meus olhos apagados,/E cançados de ver”) também qualificam os olhos como cansados; na verdade, é todo o sujeito poético que está cansado, pois tem de esperar o transcorrer do tempo para morrer e, assim, deixar de sofrer.
A segunda estrofe retoma e desenvolve a primeira. O poeta utiliza-se de um recurso estilístico muito comum em sua obra que é a iteração, ou seja, repete as palavras ou até os mesmos versos em posições diferentes. Os únicos elementos novos inseridos são apenas “quasi morrer” e “cançados de ver” – que, entretanto, dizem muito – como podemos observar abaixo:
Meus olhos apagados,
Vede a água cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.

Das beiras dos telhados,
Cahir, quasi morrer...
Meus olhos apagados,
E cançados de ver.
A repetição causa monotonia e ilustra o tédio do sujeito poético que enxerga tudo sempre igual. O advérbio de tempo “sempre”, que aparece no quarto verso, aponta para esse pesar: o sujeito que tem a noção temporal deturpada, enxerga nas coisas o presente contínuo, um período temporal longo que nunca acaba. Sem dúvida, a percepção temporal é subjetiva e tal subjetivação agudiza-se mais pelo fato de o sujeito poético estar sofrendo e também estar cansado da realidade circundante.
As reticências, que aparecem no segundo verso da segunda estrofe, “Cahir, quasi morrer...”, são significativas; elas prolongam a languidez dos versos, pois dão a impressão de que não há forças para completar uma frase ou um pensamento. Além disso, depois de morrer não há muito o que dizer ou esperar pois o eu alcançou o que desejava. Portanto, nos dois primeiros quartetos, estamos diante de um indivíduo com olhar enclausurado, entediado e cansado da realidade. O sujeito poético é formado, quer pelos elementos formais que sugerem languidez, quer pela repetição do léxico, como alguém que não participa da realidade; ao contrário, mantém-se alheio a ela e recolhe-se em si mesmo. Essa apatia do sujeito poético aparece constantemente na obra de Pessanha, como já evidenciado no capítulo dedicado à sua obra.
Tendo em vista a falta de forças, o cansaço e o tédio do sujeito poético de “Meus olhos apagados”, podemos dizer que este ele está imerso no langor, o mesmo sentimento do sujeito poético ilustrado no poema de Verlaine. Em ambos, o eu permanece à distância, à margem, apenas contemplando o tempo passar. Portanto, embora os poetas utilizem procedimentos estético-formais diferentes, o tema da transitoriedade, do cansaço da espera e do distanciamento do homem em relação ao mundo está presente tanto no poema de Verlaine como no de Pessanha.
A última estrofe de “Meus olhos apagados” ilustra o auge da apatia do sujeito poético que não tem forças sequer para chorar:
Meus olhos, afogae-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramae-vos
Como a água morrente.
Os verbos estão no imperativo, portanto, é o sujeito poético que ordena aos seus olhos que chorem, que se derramem como a água da chuva derrama-se no e do telhado. O campo lexical dessa ultima estrofe é todo aquoso, até mesmo os verbos “afogar” e “derramar” trazem em si a idéia de água.
A caracterização da água como “morrente” é singular no poema e fundamental para construção da imagem do sujeito poético desencantado, pois o desencanto com a realidade e a abulia são tão intensos que ele mesmo encontra-se num estado de quase morto, ou seja, morrente. A água é qualificada como morrente, pois está a caminho da morte, mas ela ainda não vai morrer, pois não completou o seu ciclo. A chuva cai, escorre dos telhados, alcança os rios e chega ao mar, este é o símbolo da reintegração, a união da gota com o mar. Assim como a água, o indivíduo precisa esperar o transcorrer do seu ciclo, ou seja, da sua vida, para poder se reintegrar, ir ao encontro do cosmos através da morte, assim como a gota de chuva vai ao encontro do mar. Por isso, a qualificação “morrente” – que indica aquele que está a caminho da morte, “indo morrer”.
Em relação à contemplação da água, Gaston Bachelard afirma que “contempler l’eau c’est s’écouler, c’est dissoudre, c’est mourrir” (BACHELARD, Gaston, L’eau et les rêves, citado por Álvaro GOMES, in A metáfora Cósmica em Camilo Pessanha, p. 80) podemos dizer que a própria ação do sujeito poético em contemplar aquilo que esvai, em contemplar a água é, ao fim e ao cabo, desejar ser como ela, é deixar-se ir, esvair-se, o que significa morrer.
Na última estrofe, a epígrafe é retomada, uma vez que, assim como Verlaine, o poeta relaciona o choro à chuva. As lágrimas devem derramar-se dos olhos do sujeito poético assim como a água da chuva cai do telhado. A tristeza ambiente desse poema de Pessanha nos remete ao “sol lânguido” do soneto de Verlaine e, desse modo, temos, além de mais uma aproximação entre o vate português e o francês, outro exemplo de impressionismo, ou seja, das sensações íntimas do Eu transpostas e impressas no ambiente descrito. O tédio e o desencanto do sujeito que imperativamente diz aos seus olhos “Cahi e derramae-vos / Como água morrente” remetem-nos ao sujeito poético de “Langueur”, que afirma: “Seul, un ennui d’on ne sait quoi qui vous afflige!”
A possibilidade de aproximação das obras de Paul Verlaine e de Camilo Pessanha aponta, a nosso ver, para convergências de pensamentos de uma época, como afirma a crítica Anna Balakian:
com o Simbolismo a arte deixou realmente de ser nacional e assumiu as premissas da cultura ocidental. Sua preocupação maior era o problema não temporal, não sectário, não geográfico e não racional da condição humana: o confronto entre a mortalidade humana com o poder de sobrevivência, através da preservação das sensibilidades humanas nas formas artísticas. (BALAKIAN, Anna, O Simbolismo. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1995, p. 15)
Assim o que mais importa para nós não é a questão da recepção da obra de Verlaine, ou seja, se Pessanha foi leitor de Verlaine, porém como eles lidaram com os preceitos simbolistas, cada um a sua maneira, já que as particularidades, especialmente nas poéticas de modernidade, são naturais, pois, como afirma Edmund Wilson,
Cada poeta tem uma personalidade única; cada um de seus momentos possui seu tom especial, sua combinação especial de elementos. É tarefa do poeta descobrir, inventar, a linguagem especial que seja a única capaz de exprimir-lhe a personalidade e percepções. Essa linguagem deve lançar mão de símbolos: o que é tão especial, tão fugidio e tão vago, não pode ser expresso por exposição ou descrição direta, mas somente através de uma sucessão de palavras, de imagens que servirão para sugeri-lo ao leitor (...) E o Simbolismo pode ser definido como uma tentativa, através de meios cuidadosamente estudados – uma complicada associação de idéias, representa por uma miscelânea de metáforas – de comunicar percepções únicas e pessoais. (WILSON, Edmund, “O Simbolismo”, O Castelo de Axel. São Paulo: Ed. Cultrix, [s.d.], p. 22)
Desse modo, a nosso ver, a denominação de “Verlaine Português” a Camilo Pessanha, que se deve justamente ao uso que Pessanha faz das estruturas formais e da musicalidade, soa como simplista e reducionista, pois é diminuir o valor da obra do poeta português em relação ao francês. Além disso, tal denominação não leva em conta as características da obra de Verlaine e de Pessanha, resumindo-se a classificá-los apenas pelo uso dos elementos formais.
A aproximação entre esses dois poetas é pertinente, mas não deve ser simplista e nem reducionista. O exame atento da obra dos dois autores, através da análise de poemas, permite estabelecer que o diálogo entre a obra dos dois poetas é possível, mas constrói-se de semelhanças e diferenças. A relação de diálogo, como apontamos, ultrapassa as camadas superficiais do poema, mais do que a possibilidade de aproximação pelo emprego dos recursos que imprimem sonoridade à poesia, parece-nos permitido aproximá-los também quer pelos temas quer pela maneira de apresentá-los, pois como vimos na análise dos poemas, muitas vezes os recursos formais utilizados pelos poetas são divergentes, nesse caso, como quisemos mostrar, a convergência revela-se na construção do sujeito poético desajustado e desencantado e na noção de tempo.

A construção do sujeito poético e a noção de tempo na poesia de Paul Verlaine e na de Camilo Pessanha, Melissa Andrea Marietti. São Paulo, USP - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2008, pp. 100-109.
       
         
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LANGUEUR
A Georges Courteline.

Je suis l’empire à la fin de la décadence,
Qui regarde passer les grands Barbares blancs
En composant des acrostiches indolents
D’un style d’or où la langueur du soleil danse.

L’âme suellete a mal au coeur d’un ennui dense.
Là-bas on dit qu’il est des longs combats sanglants.
O n’y pouvoir, étant si faible aux voeux si lents,
O n’y vouloir fleurir un peu cette existence!

O n’y vouloir, ô n’y pouvoir mourrir un peu!
Ah! tout est bu! Bathylle, as-tu fini de rire?
Ah! tout est bu, tout est mangé! Plus rien à dire.

Seul, un poème um peu niais, qu’on jette au feu,
Seul, un esclave um peu coureur qui vous néglige,
Seul, un ennui d’on ne sait quoi qui vous afflige!

VERLAINE, “Langueur”, Jadis et Naguère





LANGOR

Eu sou o Império no fim da decadência,
Que olha passar os grandes Bárbaros brancos
Compondo acrósticos indolentes
Num estilo de ouro onde o langor do sol dança.

A alma solitária sofre no coração de um denso tédio.
Além se diz que é por causa de grandes combates sangrentos
Oh não ser capaz disso, sendo tão frágil, de votos tão lentos,
Oh não querer florir um pouco esta existência!

Oh não querer, oh não poder morrer um pouco! Ah! tudo foi bebido!
Bathylle, terminaste de rir? Ah! tudo foi bebido,
tudo foi comido! Nada mais a dizer!

Somente um poema um pouco simplório que se lança ao fogo,
Somente um escravo um pouco libertino que vos negligencia,
Somente um tédio por não se saber o que vos aflige!

Tradução de Álvaro Cardoso Gomes
http://noigandres.net/textos/lpcontemp/GOMES-Alvaro-C_O-SIMBOLISMO.pdf




LANGOR

Agora sou o Império ao fim da decadência,
Que contempla passarem Bárbaros poentos
Enquanto vai compondo acrósticos cinzentos,
De estilo áureo em que o sol é langor e cadência.

A alma no coração é só tédio e dormência.
Diz-se uivarem além os combates sangrentos.
Oh, não poder, frágil que se é nos votos lentos,
Oh, não querer florir um pouco esta existência!

Oh, não querer, oh, não poder morrer um pouco!
Bátilo, já não ris! Não mais há o que beber!
Tudo é comido enfim! Não mais o que dizer!

Só, um poema infantil que se atira ao fogo,
Só, um criado que não mais se te dirige,
Só, um tédio ignorado e que tanto te aflige!

VERLAINE, Paul, “Arte Poética”, Verlaine - Passeio Sentimental – Poemas 
( tradução de Almansur Haddad), São Paulo, Círculo do Livro, [s/d], p. 150

      

            

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/01/03/agua.morrente.aspx]

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