sábado, 18 de janeiro de 2014

EM UM RETRATO (Camilo Pessanha)


dedicatória de EM UM RETRATO (Camilo Pessanha)  
      
    
    
EM UM RETRATO

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há de inumar,

E depois de já muito ter chovido, 
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar 
há de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido, 
Como o de um pobre cão agradecido.
  
Camilo Pessanha
  
    
    
  
Autógrafo de 1916, que se conserva no espólio da Biblioteca Nacional de Lisboa.
  
  
      
    
«Em um retrato» ‑ como em «Porque o melhor, enfim», o poeta projeta-se no post mortem, mas aqui, sem qualquer ponta de ironia ou revolta e, sim, numa afirmação de amizade agradecida. Como imagina, aqui, antecipadamente o que será odepois, também vive a dor antes de a sofrer, a dor do que não terá ou será (e recordamos Álvaro de Campos em vários momentos, em especial ‑ Pecado Original ‑«Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?» e Tabacaria) e por isso é um isolado, um vencido. Esta dor perante o sonho fracassado ou se exterioriza passivamente como em «No Claustro de Celas», e «Voz débil que passas», ora levemente revoltado (a lembrar algumas vezes Pessoa) ‑ «O meu coração desce, / um balão apagado... / Melhor fora que ardesse, Nas trevas, incendiado. /…/». E em ‑ «Na cadeia os bandidos presos!», a serenidade é forçada, ele está inibido, aniquilado, como os presos ‑ serenos, porque entre grades – eles a quem os soldados e as algemas assustam. Também procura acalmar a ânsia que nasce do «Campo florido das saudades» que tenta rebentar tumultuário. A serenidade é imposta por ele próprio para conseguir sossegar.
  
Lilás Carriço, Literatura Prática 11º Ano. Porto, Porto Editora1986 (4ª ed.) (1ª ed. 1977), p. 352.
  
  

EM UM RETRATO (Camilo Pessanha)
     
     
  
IMAGENS E IDENTIDADE
[…] o estudo a que me proponho é pautado pela temática da Imagem do Corpo enquanto forma de reconhecimento da Identidade de um sujeito. Sabemos que um dos momentos fulcrais da criação da nossa identidade passa por uma secundarização da nossa própria imagem e pelo reconhecimento da imagem do outro: assim, o momento em que descobrimos que os nossos simulacros imagéticos (sombra e reflexo) são parte de nós é um momento de construção de identidade e quando apreendemos visualmente o corpo do outro, tomamo-lo como identidade alheia.
O que é que há, então, nas obras em questão que sirva de veículo à temática da Imagem e Identidade? Encontramos, em “Em Um Retrato” de Pessanha, o que poderia ser um discurso ecfrástico sobre um retrato ou autorretrato, que na verdade não passa de uma objectificação artística da imagem de um sujeito e assim, da parte física e visualmente apreensível da sua identidade.
[…]
As Imagens do Simbolismo em “Em Um Retrato”
A estética do simbolismo é formulada através de híbridos de palavras e imagens que contaminam o processo de leitura com o da imaginação (no sentido da criação de imagens). Pessanha, expoente máximo do simbolismo português, cria, em Clepsidra, um mundo onde procura espelhar a sua subjetividade através da virtualidade e visibilidade do seu discurso poético-simbólico: “O visualismo de Pessanha, o seu poder de associação, levam-no a conceber sob formas sensíveis as realidades interiores, abstratas e a encontrar analogias entre os próprios objetos concretos” (Lemos, 1981: 125).
Os poemas simbolistas são descritos como quadros e esculpidos como estátuas, são passíveis de diversas interpretações devido ao caráter fluído dos seus símbolos que são tomados como puros significantes “libertadores de imagens”. A fluidez semântica destes símbolos afasta a estética simbolista de uma ordem da representação para a aproximar de uma ordem de pura figuração (Guimarães, 2004: 20). Estes símbolos são demarcados por um devir-múltiplo, tão semanticamente discutíveis que apontam para o vago, uma característica do Simbolismo que se aproveita do caráter diferido da linguagem, criando perturbações semânticas e levando a situações de exegese aleatória, ilibadas pela ambiguidade significacional, pela sugestão ou pelo vago (Guimarães, 2003: 524). Os símbolos de Camilo Pessanha vivem de uma autonomia representacional e não visam confundir signo com referente mas criar uma virtualidade independente.
A poética simbolista cruza diversos regimes sensoriais, como podemos notar em “Em Um Retrato”, onde o adjetivo atribuído à palavra «terra» é «fresca», remetendo para uma sensação táctil e no mesmo poema temos sensações visuais e metáforas que apelam à subjetividade do sujeito poético que descreve o quadro e que provocam no leitor sensações sinestésicas. A sinestesia é outra das características da poética simbolista e, como protótipo, posso referir “Correspondances” de Charles Baudelaire onde é enunciado “Les parfums, les couleurs et les sons se répondent”. Relativamente a este caráter sinestésico do signo, podemos dizer que estas imagens do simbolismo se aproximam da ideia de metáfora, no sentido em que ambos têm ou aparentam ter uma parte sensível e uma parte significacional, quais signos. A metáfora movimenta o significado para um outro veículo significante e joga com um “coletivo de binómios – sensível/inteligível; próprio/figurado – (...) [elegendo] um em detrimento do outro” (Babo, 2011:30)
Assim, apesar de usarmos o termo “imagens” para descrever uma poética de predomínio visual, o que ocorre no Simbolismo é, deveras, um desdobramento sinestésico dos símbolos que, na sua maioria, apela a mais do que uma ordem sensorial.
  
Tema
No poema “Em Um Retrato”, primeira instância comparativa deste trabalho, um sujeito poético trata de prometer que o seu olhar irá navegar pela transcendência do tempo, dirigindo-se a cada novo observador e atualizando-se a cada momento em que é observado.
Em “Olhando o Olhar no Retrato”, Maria Augusta Babo escreve que “o punctumdo retrato é o olhar” (Babo, 2003: 96); em “Em Um Retrato”, o olhar é duplamente opunctum do poema: não só é um elemento fulcral do poema, sendo seu sujeito, como também é o ponto focal de acesso do leitor ao poema e da mimesis de observar um retrato: o olhar de que se fala no poema pode ser o olhar do referente do retrato, que está “De sob o cômoro quadrangular”, que pretende eternizá-lo através do seu duplo registo literário e, hipoteticamente, pictórico. Lendo “Em Um Retrato” tornamo-nos duplos observadores pelos regimes de leitura e imaginação a que somos apelados pela sinestesia do simbolismo.
  
  
EM UM RETRATO (Camilo Pessanha)  
  
                
         
Forma de Conteúdo
A preposição do título do poema aponta para um topos dicotómico: “Em Um Retrato” pode ser tanto o tema sobre o qual o poema é escrito, como também o local onde o poema está escrito. Referindo-se a um retrato, o próprio poema apresenta-se como o sujeito emoldurado, primeiro pelo incipit (já referido) e em segundo lugar pela mancha textual quase “quadrangular”, apenas obstruída pelos cortes estróficos. Os símbolos utilizados por Pessanha contribuem para a projeção da sua subjetividade na criação de uma natureza virtualizada; esta é uma característica da sua poética, como explica Esther de Lemos:
Uma imagem não é geralmente em Pessanha uma representação direta, fantasia a substituir uma realidade. É o ponto de partida para um sem número de construções fantasiosas, é uma visão que deslumbra por si mesma, é, às vezes uma realidade tão real como aquela que vai substituir. (Esther de Lemos, A «Clepsidra» de Camilo Pessanha2.ª ed., Lisboa, Ed. Verbo, 1981, pp. 126-127 (1ª edição: Porto, Livraria Tavares Martins, 1956)

O poema organiza-se em torno da expressão de uma promessa: “(...) o mesmo meu olhar / Há de ir humilde, atravessando o mar, / Envolver-te de preito enternecido, / Como o de um pobre cão agradecido” (Pessanha, 1997: 74). Tomando o mar (e toda a água na poética de Pessanha4) como símbolo do tempo, esta promessa parece-me análoga ao devir-fantasmático da imagem, que tende a confundir presença com ausência, visando eternizar o sujeito. No poema, o sujeito poético promete que o seu olhar (desde o outro lado do retrato) “há de ir, (...) atravessando o mar”, eternizando-se. Deste modo, a imagem retratada sobrevive às chuvas do tempo e ao olvido, e reencontra-se com cada novo leitor ou espectador.
Recordo o caráter sinestésico da poética simbolista: deparamo-nos aqui com uma tensão entre os regimes semióticos textual e pictórico, analisamos um poema que no seu estar-escrito, constantemente se reatualiza em memória5 e simultaneamente se refere a uma imagem que tensionaliza presença e ausência.

Forma de Expressão
O poema está construído numa só frase dividida em quatro grupos sintáticos que correspondem quase perfeitamente à divisão estrófica. Os primeiros dois dísticos são complementos circunstanciais, o primeiro de espaço (“De sob o cômoro”, “Da terra”) e o segundo de tempo (“E depois de”, “Quando a erva”).
Na terceira estrofe surgem os intervenientes do poema: um recetor demarcado pelo vocativo “amigo” a quem o poema é dirigido6, retomado na quarta estrofe mediante uma marca de segunda pessoa sobre a qual o verbo flexiona; e um emissor, um sujeito sintático em função do qual surgem os predicados: “o meu olhar”; este olhar surge subordinado ao sujeito poético mediante o uso do pronome possessivo “meu”.
É também na terceira estrofe que surge uma primeira predicação que remete para o futuro mediante a conjugação perifrástica “há de ir”, primeiramente conjugada com “atravessando”, que utiliza o gerúndio para implicar a continuidade da ação: o seu olhar há de ir atravessando o mar do tempo.
A quarta estrofe trata da efetivação discursiva da promessa, revelando o verbo principal da frase no infinitivo, com flexão na segunda pessoa: “envolver-te”; conjugado com o auxiliar da terceira estrofe; esta ação é relegada para o futuro, cristalizando-se numa promessa enquanto ato performativo da linguagem. A promessa realiza-se na sua enunciação e registo escrito, corporizando no poema as tensões da representação, presença/ausência e presente/memória, eternizando o olhar.
A conjugação perifrástica do futuro é predominante no poema, colocando a ação numa situação de afastamento temporal mas, simultaneamente, com a certeza de que será concluída. Esta ação é a promessa que parece jogar com o poder das palavras; o sujeito poético visa imortalizar o seu olhar, quer no texto, quer no retrato, através desta promessa de que irá transcender o mar-tempo e envolver cada novo observador “de preito enternecido”.

Substância da Expressão
O poema “Em Um Retrato” é composto por quatro dísticos. Em cada verso está presente a métrica decassilábica e a sua musicalidade advém do ritmo concedido pelas pausas das vírgulas e pela rimática emparelhada de cada dístico.

Algumas Contaminações entre “Em Um Retrato” e “Metamorfoses de
Narciso”
[…]
“Em Um Retrato” indicia através do registo escrito a existência de um retrato sobre o qual o sujeito poético discorre. Neste poema também são evidenciadas algumas das propriedades inquietantes da representação como a fantasmagoria da imagem e a sua distorção tensional entre presença e ausência e, do lado da escrita, presente e memória para com o olhar que é eternizado pelo registo.
  
Trabalho académico realizado por Tiago Filipe Clariano para a cadeira de Literatura Portuguesa e Artes, 
Universidade de Évora – Escola de Ciências Sociais Línguas, Literaturas e Culturas, 2013.
  
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(4) Sobre a simbologia da água em Camilo Pessanha, conferir O Simbolismo na Obra de Camilo Pessanhade Barbara Spaggiari ou Dicionário dos Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbant (este último transversal à generalidade da Literatura). Também o termo Clepsidra que titula a única obra deste poema refere-se a um instrumento de medição do tempo do discurso político utilizado desde os tempos do Egito Antigo.
(5) Sobre a escrita enquanto memória conferir Fedro de Platão ou “A Memória Arquival e Memória Figural” de Herman Parret in Revista de Comunicação e Linguagens n.º 40 – Escrita, Memória, Arquivo, organização de Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão.
(6) Não podemos saber ao certo a quem se refere Pessanha neste poema; a minha interpretação, no entanto é de que se dirige diretamente ao leitor, numa aproximação mediada pelo uso da segunda pessoa do singular e pelo vocativo “amigo”.
  
  
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