sábado, 11 de janeiro de 2014

QUANDO SE ERGUERÃO AS SETEIRAS (Camilo Pessanha)

          

    
     
Quando se erguerão as seteiras, 
Outra vez, do castelo em ruína, 
E haverá gritos e bandeiras 
Na fria aragem matutina?

Se ouvirá tocar a rebate
Sobre a planície abandonada?
E sairemos ao combate
De cota e elmo e a longa espada?

Quando iremos, tristes e sérios, 
Nas prolixas e vãs contendas, 
Soltando juras, impropérios, 
Pelas divisas e legendas?

E voltaremos, os antigos 
E puríssimos lidadores, 
(Quantos trabalhos e perigos!) 
Quase mortos e vencedores?

E quando, ó Doce Infanta Real, 
Nos sorrirás do belveder? 
— Magra figura de vitral, 
Por quem nós fomos combater...
Camilo Pessanha
   
   

   
   
RETORNO
O poema [“Quando se erguerão as seteiras”] nos lança numa dimensão cronológica (ou anacrônica) em que o futuro desejado espelha o passado épico das “prolixas e vãs contendas” dos lidadores de antanho. A dissonância temporal — verbos no Futuro do Indicativo evocando bravuras passadas de feição medieval — é introduzida pelo obsessivo advérbio interrogativo Quando?, irremediavelmente sem resposta ao longo das estrofes.
Lê-se em todo o texto um nós em que, evidentemente, se inclui o eu-poemático, o que leva Esther de Lemos a ver no poema um princípio de epopeia falhada (que é falhada justamente porque o herói não se esqueceu de si, e, quis à força ser herói),(LEMOS, 1956, p. 176).
Já José Carlos Seabra Pereira faz do poema uma aproximação contextual:
“Castelo de Óbidos” contrapõe simbolicamente o “castelo em ruína”, que figura toda uma geração e toda a nação portuguesa, ao desejo de superação evolando-se do exotismo medieval. É tomando como incentivo a hierática e cândida beleza (“E quando, à doce Infanta Real…”), ou a cavaleiresca força de viver (de que aquela é prémio), que o poeta, deixando a sedução tomar largamente passo à subterrânea ironia, se impaciente no “Quando?” (título original) da sua remissão. (José Carlos Seabra Pereira, Decadentismo e Simbolismo na Poesia Portuguesa,Coimbra, Centro de Estudos Românicos, 1975p. 104)
Finda a leitura, suspeita-se que tal interesse por um passado coletivo seja ainda uma tentativa pessoal de maior penetração em si mesmo, como forma de obter autoconhecimento a partir do sentir-se ligado a um grupo — grupo de predecessores combatentes/viandantes.
Camilo Pessanha em dois temposGilda Santos e Izabela Leal, Rio de Janeiro, 7Letras, 2007, p. 69
   
   
   
   
RECORTES GROTESCOS NA HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA: IMAGENS ESTRANHAS OU O IMAGINATIVO E QUIMÉRICO
O poema [“Quando se erguerão as seteiras”], tal qual o anterior [“Na cadeia os bandidos presos!”], é octossílabo e também é heterorrítmico, porém as variações são menores. Afora a primeira estrofe, que possui variantes rítmicas diversas das que aparecem nas outras estrofes, temos no restante do poema apenas cesuras na terceira ou na quarta sílaba métrica. A segunda e a quarta estrofes apontam para um ritmo similar nos versos que rimam entre si, ou seja, o hermistíquo é 3, 4, 3 e 4; e, 4,3,4 e 3, respetivamente. A terceira estância ritma o poema com versos paralelos e a última estrofe possui apenas o último verso com acento na terceira sílaba, enquanto todos os outros estão acentuados na quarta.
Dada a construção fragmentária da poética de Pessanha, percebemos que separando os versos de acentuação igual temos outra possibilidade de leitura para o poema. Como se a leitura fosse determinada não pela ordem escrita, mas pelo ritmo sonoro. Ressaltamos, no entanto, que é apenas uma leitura conjetural e que o último verso do poema deve permanecer no lugar de origem, pois funciona como uma espécie de chave de ouro que conclui sonoridade e entendimento. Outro elemento de interesse é que à exceção da última estrofe, todas as outras são interrogativas. A quem a pergunta se dirige? Inclusive, em quase todas as versões do poema, ele possui um título interrogativo, Quando?. As questões são todas direcionadas à “Doce infanta real”, que aparece na última estrofe, e será analisada posteriormente.
De maneira geral, o poema apresenta vária perspetiva de análise. Por exemplo, podemos interpretá-lo como uma referência ao castelo raro e sua torre de marfim simbolista; por outro lado, pode ser uma referência às donzelas românticas de outrora; ou então a uma simples imagem; ainda, aludir a fatos históricos anteriores à feitura do poema, por exemplo o vitral da Real Ordem da Rainha Santa Isabel; por fim, uma referência à rainha d. Maria II, de Portugal, ou a Amélia de Orleães, numa leitura histórica. O texto é absolutamente polifônico, tal qual o ideário simbolista exigia.
A versão do poema que Paulo Franchetti coloca no livro não tem as linhas pontilhadas na quarta estrofe, o que acatamos aqui, no entanto, com elas, o texto ganha uma pausa, uma estrofe reticente à qual afasta os “soldados” da “magra figura do vitral.” A questão do distanciamento é fundamentalmente a que nos interessa. A diferença entre os soldados e a infanta está na voz. Os soldados têm voz, enquanto a infanta parece ser uma imagem vitral.
O poema parece não ter uma voz poemática até a terceira estrofe, mas mesmo assim é parte do grupo de soldados que questionam a nobre, ou seja, uma voz figurativa, perdida na multidão, absolutamente polifónica. O estabelecimento da relação entre o eu e o outro ocorre, então, na tentativa de comunicação através das interrogações. No entanto, a interlocução não prescinde de um recetor, a não ser que seja um solilóquio ou a resposta, no caso de uma interrogativa, esteja no próprio emissor da mensagem. Os soldados, vivos, agentes da história, interrogam da necessidade de uma futura batalha para defender a nobre (ou será donzela?) que necessita de ajuda: “E haverá gritos e bandeiras / Na fria aragem matutina?”; Se ouvirá tocar a rebate/ Sobre a planície abandonada?”; “E sairemos ao combate./ De cota, e elmo, e a longa espada?”, mas na terceira estrofe os soldados “Quase mortos e vencedores?” são “os antigos” que voltarão.
A infante, recetáculo de todas as interrogativas, mostra-se absolutamente impassível. Não é por isso que temos uma presença do grotesco aqui. A ideia, no entanto, de se ter um exército aguardando ordens e um “comando” que não as dá é estranhamente lírica, dentro da inércia característica da poesia de Pessanha. O questionamento rememora dois episódios da história de Portugal, anteriores a Pessanha: primeiramente, a fuga da família real para o Brasil. A população, que num primeiro momento desejava revidar a investida francesa, fica com a exata sensação interrogativa que o poema nos passa.
Outro episódio, este contemporâneo de Pessanha, é o do Ultimatum britânico. Portugal, flébil país com uma monarquia decadente, abre mão de parte de terras africanas apenas para não entrar em conflito. A fraqueza imperial pode ser visualizada na imagem adotada pelo poeta para caracterizar a infante: vitral. Os soldados, apesar de representarem a virilidade, a ação, não demonstram qualquer atitude reflexiva. A ação só ocorre quando há alguém para determiná-la. A reminiscência histórica vista aqui demonstra a exata situação de Portugal no final do século XIX, como indica Antero de Quental alguns anos antes em seu “As causas da decadência dos povos peninsulares” já no trecho inicial: “A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história.” Então, os soldados que perguntam, esperam uma reflexão que motive a ação da nobreza. Os versos heterorrítmicos não contribuem para que essa leitura se torne plausível, mas a cesura dos versos sim, com uma variação constante que caracteriza também os soldados e a monarquia portuguesa.
Em Mitologia da saudade, Eduardo Lourenço nos coloca a psique portuguesa do período da seguinte maneira:
(…) Depois do crepúsculo da geração estoicamente épica de 70 e acompanhando-a no seu adeus ao sonho de um país realmente transfigurado e senhor de si mesmo, a paisagem da cultura portuguesa é um deserto de ruínas, um Alcácer-Quibir de heroísmo virtual.
O país real só pode ser imaginado. O indivíduo empírico, seja ele soldado, nobre ou poeta, é idealizado. Se num viés cultural essa crise de identidade é belíssima e gera produções artísticas primorosas, a vida social do país é de espectadores, na expressão de Eduardo Lourenço. Todos os guerreiros não são nada mais do que um reflexo mal acabado da nobre infante vitral. A infante não pensa a si, nem aos outros, como os soldados. Um ser é muitos e todos são um, inertes e complacentes com a história.
O último verso do poema, como transposição temporal, questiona o porquê dos passadinos guerreiros e descobridores construírem um império. Por quem? Através de nossa leitura histórica, corroboramos um aspeto que permeia toda a poética de Pessanha já ressaltado por P. Franchetti: a inutilidade da ação. Tudo o que o passado fez pode ser desfeito em incompetência, inércia, seja lá o que for. Então, para que fazer? Eduardo Lourenço, em “Portugal como destino”, explica:
(…) Nunca tivemos, a sério, autênticos movimentos revolucionários, (…). Tivemos em vez disso grandes ou pequenas ‘revoluções culturais’ que pela força das coisas elevamos a acontecimentos míticos. Que mais não seja porque foi nelas e por meio delas que pensamos o destino de Portugal e, por tê-lo pensado, o criamos.
A inércia física, a ausência de grandes revoluções, que aparece no poema sob a forma de pequenos questionamentos, estes como construtores de pequenas revoluções “míticas”, transforma o pensamento em ação. No caso de Pessanha, a inércia é criação. A crítica ao outro subjaz não da forma canônica do grotesco. Não há xingamentos, críticas, comparações. Não se exagera o outro fisicamente, não se constrói o outro como um ser repulsivo, nem quimérico. Então, tanto na construção do eu quanto na do outro não há uma existência repleta, pois o que se destaca é o não-ser.
O poeta, imerso na cultura e na filosofia oriental, entende o existir de maneira absolutamente diversa da do Ocidente, pelo menos neste poema. Existir é também não agir e não existir. Ser é estar e permanecer enquanto criação. Pensar em algum tipo de relação entre seres é um tipo de equivocatio. As relações humanas não acontecem neste poema. Eu X outro é uma impossibilidade tangenciada pela criação poética em si, o que toma o poema uma metalinguagem, apesar de um corpo ausente, vitralizado. O poema é ainda um ser coletivo fantástico-grotesco, pois é um exército que age em inércia. Além da modernidade que caracteriza o poema, temos um corpo insólito e coletivo ou corpos normais estranhamente individuais. Apenas desta maneira temos um corpo grotesco absolutamente moderno e intangível. Os guerreiros do presente-futuro são o passado.
Essa impossibilidade temporal marca o estranhamento. Além disso, uma princesa caracterizada como “magra figura de vitral” indica a atmosfera espectral em que todos os seres se inserem no poema. Ademais, ela representa aquilo que Kayser chama de o-que-não-deveria-existir. Apesar de não haver uma inversão paródica, os soldados e a princesa se deificam em signos-em-si, existentes apenas em construções grotescas, justamente por não existirem.
Novamente, os seres do poema ganham uma especulação metafisica distante daquilo que Bakhtin caracteriza como grotesco. Todavia, a poética de Pessanha adota como elemento central de sua construção uma especulação sobre o ser que não é. Esse caráter existencial contraditório beira o bestial por ser autômato, como vimos anteriormente. Ainda que Georges Minois não reconheça esse sem sentido como grotesco, ele tem um vínculo íntimo com o intuitivo cômico absoluto de Baudelaire, a nós absolutamente grotesco.
            

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