segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

NO TURBILHÃO (Antero de Quental)


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NO TURBILHÃO
A Jaime Batalha Reis
          
No meu sonho desfilam as visões, 
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos, 
Arrebatado em vastos turbilhões... 

Numa espiral, de estranhas contorções, 
E donde saem gritos e lamentos, 
Vejo-os passar, em grupos nevoentos, 
Distingo-lhes, a espaços, as feições... 

‑ Fantasmas de mim mesmo e da minha alma, 
Que me fitais com formidável calma, 
Levados na onda turva do escarcéu, 

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes? 
Quem sois, visões misérrimas e atrozes? 
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...
   
Antero de Quental
   
       
         
No soneto de Antero de Quental (1842-1891) «No Turbilhão» incluído em Sonetos Completos (1886), obra esta organizada por Oliveira Martins, assistimos a uma experiência onírica na qual o poeta empreende uma queda vertiginosa.
Esta catábase dá-se através duma «espiral de estranhas contorções», através de um percurso espiralar num universo de trevas que provoca sentimentos de estranheza, de inquietação sugerida pela evocação das lamentações lúgubres na expressão «donde saem gritos e lamentos», de vaguidade traduzida pela imagem «grupos nevoentos» e de perplexidade expressa nas interrogações «Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?/ Quem sois vós, visões misérrimas atrozes?».
A espiral, símbolo carregado de significações, aparece vulgarmente associada ao labirinto e, portanto, ao Caos, à confusão, à ininteligibilidade. O turbilhão traduz geralmente evolução no seu movimento helicoidal a partir do centro ou de involução no regresso ao centro. São estes dois movimentos contraditórios que encontramos no último terceto deste soneto de Antero - o poeta interroga-se sobre o que vê, «Quem sois vós [ ...] ?», distanciando-se dos seus próprios pensamentos numa dinâmica evolutiva, mas também se questiona «Quem sou eu ?», interrogação esta dirigida ao centro traduzindo, assim, uma dinâmica involutiva. Apesar de contrários estes dois movimentos são um só, são simultaneamente queda e ascensão. Pela simbólica do turbilhão, a violência deste movimento é dirigida por forças superiores representando uma intervenção extraordinária no rumo da vida, um momento extático.
Isabel Branco de Mascarenhas, “A problemática do sonho na literatura” in http://ceclu.tripod.com/m.htm
          
          
Jessica Harrison

             
          
[…] Antero, no entanto, está longe de nos transmitir, ao longo da sua obra poética, apenas uma doutrina, ou apenas o lado filosófico do seu espírito. Há neste poeta ímpetos de lirismo, momentos em que o «eu» prevalece e a subjetividade se impõe ao objeto do seu discurso, e até momentos em que o poeta, mergulhando no mais profundo do seu ser, se sente à beira da dissolução da personalidade. O seguinte soneto constituirá um exemplo desta última atitude: “No Turbilhão” […]
O que acontece neste soneto ‑ cujo título é, aliás, bem sintomático ‑ é um processo que possui algumas analogias com a criação ficcional. Se, em outro soneto, esse muito mais divulgado, Antero afirma «Sonho que sou um cavaleiro andante» para prosseguir narrando urna aventura fantástica de ilusão e desilusão, no soneto transcrito o «ficcionista», igualmente criador de fantásticas visões, recorre ao «sonho» como a uma justificação para esse desfile de criaturas imaginárias. Dir-se-ia que em Antero de Quental coabitam o lírico e o ficcionista, ambos um tanto inibidos, ambos debatendo-se nas malhas profusas das crenças inseguras e das filosofias pouco animadoras. Ora o lírico se refugia no «sonho» para extrair personagens fabulosas à inquietação do «eu», ora o «ficcionista» se retrai reabsorvendo as suas fantásticas criaturas, chamando-lhes «fantasmas de mim mesmo e da minha alma» (como acontece no 1.º verso do 1.º terceto de «No Turbilhão»).
É esta reabsorção pelo «eu» (num soneto que começa pela subjetiva declaração «No meu sonho») que mitiga a autonomia das criaturas que o «ficcionista» põe em circulação: «visões» que desfilam, visões que lançam «gritos e lamentos», visões que, em dado momento, se tornam exteriores ao «narrador», que os vê passar «em grupos nevoentos», fugazmente identificados: «Distingo-lhes, a espaços, as feições...». São, é certo, fantasmas, projeções duma consciência atormentada, mas fantasmas tãocorporizados (passe a hipérbole!) que o poeta declara «que me fitais», e com eles dialoga, como um fantasma entre fantasmas («meus irmãos e meus algozes») e acaba, por via da identificação com tais fantasmas, por questionar-se sobre a realidade (ou pelo menos, sobre a natureza) do seu «eu». E assim o «eu», à primeira vista dotado do poder que normalmente se atribui ao «eu lírico», não é fundamentalmente lírico, mas um «eu» que se estilhaça sob o impacto de criaturas, seres ficcionais, ou quase, ou seres em vias de ocupação dum espaço fictício onde o «eu» se vai diluindo.
       
Ler mais: "As «ficções» de Antero de Quental", José Martins Garcia. Congresso Anteriano Internacional – Actas [14-18 outubro 1991]. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1993.
        
A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/17/no.turbilhao.aspx]
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