terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

VISÃO (Antero de Quental)


      
        
VISÃO
A J. M. Eça de Queirós
      
Eu vi o Amor ‑ mas nos seus olhos baços 
Nada sorria já: só fixo e lento 
Morava agora ali um pensamento 
De dor sem trégua e de íntimos cansaços. 

Pairava, como espectro, nos espaços, 
Todo envolto num nimbo pardacento... 
Na atitude convulsa do tormento, 
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das asas destroçadas 
A uma e uma as penas maculadas, 
Soltando a espaços um soluço fundo, 

Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes 
Caíam lentamente sobre o Mundo!
Antero de Quental
        
       
                                                                           * 
           
[…] Como ilustração duma atitude ainda mais discreta do «eu», vejamos outro soneto ["Visão"].
Bem sabemos que o lirismo ‑ ao contrário do que por vezes se tem apressadamente afirmado ‑ não é necessariamente um cântico de amor, nem sequer do amor vivido (pois o vivido pertence, antes de mais, ao nível documental). Enquanto posicionamento do «eu» perante uma objetualidade ‑ neste caso, a personificação do Amor ‑, este soneto é, explicitamente, um testemunho do olhar. O segmento inicial ‑ «Eu vi o amor» ‑atira-nos imediatamente, não para o âmbito do lirismo, mas para um universo potencialmente ficcional. «Eu vi o Amor» é sintagma que pouco difere, semanticamente, de «No meu sonho» ou de «Sonho que sou... » ou de «Num sonho todo feito de incerteza». A partir do testemunho inicial, o soneto «Visão» é uma narrativa com uma só personagem, sujeita a variações de focalização. Enquanto os «olhos baços» do Amor são ficticiamente observáveis, a «dor sem trégua» que os habita representa a intromissão do «narrador» na interioridade da criatura. Na 2.ª quadra a exterioridade é descrita nos dois primeiros e no último verso, ocupando a focalização interna apenas uma comparação («como espectro») e o 3.º verso, que é uma comparação implícita: «Na atitude convulsa do tormento». O 1.º terceto, no entanto, é todo composto por indicações que diríamos cénicas, se se tratasse globalmente de teatro sem palavras. E, no último terceto, só o primeiro verso interpreta o estado de espírito dessa espécie de estátua viva que é o Amor. Os dois versos finais são espetaculares: o Amor-fantasma chora «lentamente sobre o Mundo». Não cabe nos meus propósitos confrontar as lágrimas da segunda geração romântica com as vertidas por pré-românticos e românticos. Direi somente que este choro do próprio Amor ‑ em vez do choro do poeta ‑ é um choro objetivamente ficcionado, ou seja, entregue aos olhos da personagem, deixando lucidamente enxutos os olhos do «narrador» ‑ pois, de outra forma, a pupila não seria anotadora a ponto de avistar, não só o Amor com maiúscula, mas também aquele gesto com que Amor arranca «A uma e uma as penas maculadas».
Os traços ficcionais da poesia anteriana, correndo a par da expansão lírica e, por vezes, como revestimento imaginístico do pensamento filosófico, revelam-nos uma conceção híbrida de poesia, segundo a qual Antero-poeta ultrapassou em larga medida a programática fórmula atestada na «Nota» das Odes Modernas. Longe de constituir menor valia, o referido hibridismo traduz diversidade ‑ e diversidade é muitas vezes marca de tumulto íntimo, de inquietação e de intensa vida espiritual.
     
Ler mais: "As «ficções» de Antero de Quental", José Martins Garcia. Congresso Anteriano Internacional – Actas [14-18 outubro 1991]. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1993.
       

   

A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/18/visao.aspx] 
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