domingo, 16 de março de 2014

DE PERFIL (Natália Correia)


                      
      
      
O meu perfil é a última esperança de existir um deus que não limita. Fitar o indemonstrável é a minha paisagem preferida. Por isso de perfil me vedes, infatigavelmente proporcionando-me a liberdade de um deus adormentado na cãibra da vossa fé.
Até hoje os deuses foram estupidamente demonstráveis na imagem e semelhança das vossas mandíbulas de devoradores do além. E assim morreram de estupidez.
A minha descrença é a última camada de ar de que dispõe o deus que sufocastes com a vossa fé, ó teocidas de excessivamente acreditardes em deuses! A minha descrença é o meu perfil gravado na suspeita de um deus que me trespassa como a dúvida de um cão atravessando uma rua.
Acaso já vistes uma árvore que se mostrasse de frente? De todos os ângulos que tenteis captar a eternidade suspensa numa árvore ela é um perfil, uma coluna de puro silêncio dessa qualquer outra coisa que é a árvore que julgais ver de frente. Contudo não duvidais de que as árvores existem e que num futuro inscrito no calendário do vosso terror elas sairão de si mesmas como labaredas cantantes, arrancando-vos a língua com a sua música. E então sim tereis a guerra, não a que o ar empesta com o mau hálito das coisas separadas, não a que, selando o mal com as requebradas afetações do bem, as formas embriagadas do ser imobiliza no tempo hábil do estar. Mas a guerra do homem com o deus que no homem se ignora, até cessar a obscena oposição entre a verdade e o mito.
Com isto tento dizer-vos que o meu perfil é uma canção esmagada na minha boca frontal e ferida; a largada de um navio carregado de nomes habitados que enrouquece na travessia, o derradeiro e fabuloso esforço para desnudar o delírio de um deus que a minha epiderme subjuga.
      
Natália Correia, A mosca iluminada, 1972
        


.
      



DE PERFIL
Poesia com dor já comprei
ou algo que de poesia
tinha a cordial dissipação
dos poemas que eu não escrevia.

Agora pela romântica
retórica de não ter dinheiro
a vendo avulso mas roubo
no peso como o merceeiro.

Esse pequeno furto é o meu quarto
(de alva) indicador insone
que disca o número de deus
num sub-reptício telefone

deus movediço que é uma rede
de linhas interrompidas
onde caio morta de sede
de jogar comigo às escondidas.

Escondendo o que de frente vejo
de perfil me vedes como os egípcios
não por vício de esconder um deus
mas o deus de esconder um vício.

Se um grama de mim sonego
a que chamo deus por ínvio rito
perdoai-me porque só vos roubo
aquilo em que não acredito.
      
Natália Correia, A mosca iluminada, 1972
      

      

                    


      

Do mesmo modo que “Num dia demasiadamente raivoso”, em “Fragmentos de um itinerário” encontram-se “O meu perfil é a última esperança” e o poema “De perfil” (1993, v. 1, p. 436-438).
Em ambos os textos, o eu lírico tenta construir sua imagem desvinculada do “mito” em relação a Deus, ou seja, da visão que os homens têm de Deus. Para isso, recorre ao perfil (focalização da parte lateral de uma imagem) e a uma analogia com as árvores, pelo facto de elas serem circum-áxeis e não terem, portanto, a parte frontal, atribuída a esse “mito”.
A perspetiva oblíqua em relação à imagem do ser, posicionamento observado em “Autogénese” (1993, v. 1, p. 319), revela a construção de uma anamorfose, um termo advindo das artes plásticas e que significa desvio em relação à parte frontal, uma espécie de obliquidade. Adaptando o conceito à literatura, para Natália, tal como ela mesma escreve no prefácio de O surrealismo na poesia portuguesa (1973, p. 11), a anamorfose almeja a “depravação da perspetiva lógica”. Nos dois textos anteriores, a anamorfose é composta não no âmbito da palavra, mas no da estrofe ou, no caso do texto em prosa, na abrangência do parágrafo, o que reforça a tese do enredamento. Ao longo não só dessas partes, mas do texto inteiro, estão presentes uma articulação entre signos hiperbólicos e imagens surreais compondo uma sátira a uma convenção em relação a Deus, à fé tal como praticada pelo senso comum (“A minha descrença é a última camada de ar de que dispõe o deus que sufocastes com a vossa fé, ó teocidas de excessivamente acreditardes em deuses!”, “cãibra da vossa fé”, “mandíbulas de devoradores do além”, “deus movediço”) e à lógica (“o meu perfil é a largada de um navio carregado de nomes habitados que enrouquece na travessia”).
Assim como a anamorfose pode se manifestar por meio de uma atitude discursiva reveladora do mecanismo de desvio da parte frontal de um objeto, realizada pelo próprio texto literário, ela também pode ocorrer por uma única expressão que torna oblíqua ou vista por um outro ângulo uma determinada imagem. É o que se nota nos dois textos, em que o signo “perfil”, isoladamente, já resume o sentido de visão oblíqua. Iniciando o texto escrito em prosa e intitulando o poema, significa delineamento pelo lado, em contraste com uma focalização da frente. Além disso, também pode significar a síntese das características do eu lírico, que, mais uma vez na poesia de Natália, afirma-se de modo intenso, porém não apenas como enunciador, compondo um mero narcisismo, mas como uma figura de linguagem para enaltecer a própria poesia e o ofício de poeta, valorizando-se, assim, o princípio da especificidade da arte.
No que concerne à possibilidade de realização de metáfora e/ou de surrealismo na anamorfose, no texto em prosa ocorrem os dois procedimentos, pois, se o período “o meu perfil é uma canção esmagada na minha boca frontal e ferida” apresenta uma metáfora, a continuação do período, “a largada de um navio carregado de nomes habitados que enrouquece na travessia, o derradeiro e fabuloso esforço para desnudar o delírio de um deus que a minha epiderme subjuga”, revela um tom de surrealismo na obra de Natália. No poema, por sua vez, a anamorfose é construída mais pelo viés do surreal.
Tanto em “O meu perfil é a última esperança” como em “De perfil”, a mudança da perspetiva frontal para a oblíqua é problematizada essencialmente na penúltima parte do texto. O ser renega por completo a frente, exaltando o perfil para demonstrar a existência de algo escondido nele e que precisa ser visto: a impossibilidade de se comparar Deus com a imagem do homem. Para reforçar a necessidade de enxergar o lado, o eu lírico faz uma comparação entre ele e as pirâmides do Egito e entre a entidade “vós” e os egípcios.
A invocação da segunda pessoa, possivelmente o leitor, realiza a função conativa, promovendo a tessitura literária pela relação apelativa eu-vós. As três vezes ao longo do texto pelas quais o ser conversa com a segunda pessoa (primeiro, quarto e quinto parágrafos) alimentam a hipótese de enredamento, construído a fim de persuadir o leitor. A extensão, juntamente com o referido contato, mostram-se, pela persuasão, como recursos para obter o tom enérgico com o qual Natália identifica-se poeticamente para exaltar, entre outras, a condição do poeta. O caráter discursivo de sua poesia é, então, uma preferência estética para chegar a esse tom.
Em virtude de o eu sugerir que seu espaço particular de criação poética é o quarto, a expressão “de perfil”, mais no poema do que no texto em prosa, leva à possibilidade de o eu estar diante do espelho, conversando com o leitor. Todas as críticas são direcionadas à visão humana a respeito de Deus, rebaixada já pelo facto de ser chamada de “mito” e por criar um “deus” falso, inscrito com inicial minúscula.
As frases em avesso nos dois últimos versos da quinta estrofe, “não por vício de esconder um deus/ mas o deus de esconder um vício”, não são apenas uma tentativa barroca de apresentar um mundo às avessas, mas deixam clara a opinião do eu sobre a posição de se submeter Deus à imagem e semelhança dos homens. Tal posição, ao ser chamada de “vício”, é considerada autoritária, até pelo facto de esconder “um deus”.
Percebe-se que Natália realmente pratica em sua poesia a anamorfose comentada por ela em O surrealismo na poesia portuguesa. Ao afirmar: “as coisas simplificam-se para o poeta quando começam a ser absurdos para os outros”, a poeta (1973, p. 11) está teorizando um aspeto desenvolvido por ela em sua obra, quando resulta, mais uma vez, pelo desvio da lógica tradicional, o tom agressivo que demonstra a superioridade do poeta.
Além da anamorfose, as construções que colocam certos dados em avesso e também outros procedimentos descritos na referida antologia de Natália são recursos para desvio da lógica buscados pelo surrealismo, cujo verdadeiro objetivo era estabelecer o desvio completo. Aristóteles (1951, p. 122) já dizia algo identificável com a obra de Natália: “em poesia, é de preferir o impossível que persuade ao possível que não persuade”. Isso quer dizer que, para o filósofo, imitar, representar, criar imagens é natural ao ser humano e, sendo a forma imanente ao objeto, a obra de arte é uma realidade ela própria, podendo ser mais importante do que a história, contrariamente a Platão, para quem a realidade humana é basicamente imitativa e distante da essência do ser.
A recorrência às árvores como exemplos de seres vivos que fogem à obrigatoriedade da semelhança com o ser humano, em virtude de elas, sendo circum-áxeis, não terem a parte da frente, mas somente o perfil, também é outro detalhe do pensamento surrealista com o qual Natália dialoga: a “mágica da desocultação” empreendida por Théofile Viau. Assim como para esse poeta as árvores e as hemoptises provinham dos rochedos, para Natália, “elas sairão de si mesmas como labaredas cantantes”, arrancando “com a sua música” a língua da entidade “vós”. O facto de as árvores saírem de algum lugar e de não se parecerem com o ser humano exprime o desejo surrealista de romper com o “mito” e os “Dragões da Lógica”.
Uma idealização do perfil muito próxima à de Natália também pode ser encontrada na pintura do belga René Magritte (1898-1967), mais especificamente no quadro Alice no país das maravilhas (109 x 84,7cm; 42,9 x 33,3’’) de 1945:
     
     
De tendência surrealista, embora avesso a tal classificação, Magritte deixou vários quadros que ainda desafiam a compreensão do observador, pelo facto de, analogamente aos poemas de Natália, suas pinturas não requererem apenas um olhar que apreende, mas que depreende. Alice no país das maravilhas de Magritte revela, nononsense, um teor satírico próximo ao de Natália, e ambos os elementos também estão presentes na narrativa homônima (1865) de Lewis Carroll (1832-1898), considerada por Octavio Paz (1976, p. 15) um poema, em virtude de nela a prosa negar-se a si mesma, já que as frases não se sucedem obedecendo a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são presididas pelas leis da imagem e do ritmo, compondo um fluxo e refluxo de imagens, acentos e pausas, sinal inequívoco da poesia.
O quadro, bem como o poema, ao tomar como objeto o afastamento em relação à natureza e a contradição da realidade como o Ideal, executa a depravação da perspetiva lógica por meio de uma sátira “jocosa”, aproximando-se do que diz Schiller (1991, p. 64) em relação ao que ele chama de “poeta sentimental” (romântico). A realidade, para Schiller, é um objeto necessário de aversão, mas tudo o que importa é que essa própria aversão tem de nascer, de novo necessariamente, do Ideal oposto à realidade.
Focalizando “De perfil”, quanto à tentativa do eu lírico de identificar sua imagem e de estabelecer uma relação com Deus, pode-se correlacioná-lo ao poema “Fui eu” de Orides e ao quadro para o qual foi escrito, que também apresenta um rosto sugerindo um ser em questionamento a respeito de sua identidade. Verifica-se um estado de jacência em “Fui eu” e uma impulsividade em “De perfil”.
Se no poema de Natália a anamorfose é apresentada rapidamente, projetando no eu lírico o exemplo do perfil, no texto em prosa essa visão oblíqua é ampliada, então, para o caso das árvores, expondo mais claramente “a guerra do homem com o deus que no homem se ignora, até cessar a obscena oposição entre a verdade e o mito”. O que se estabelece no texto em prosa acerca do indivíduo, principalmente no primeiro e no último parágrafos, acaba desenvolvendo-se no poema, pela focalização do eu lírico e pela restrição do espaço ao ambiente do quarto. A obliquidade torna-se, portanto, um escape para o ser humano livrar-se do “mito”, ou seja, do senso comum. Estando presente na maior parte da poesia de Natália, conforme apontado anteriormente, o narcisismo é outro aspeto considerável no interior do enredamento. A voz em primeira pessoa conduz um poema e, para se autoafirmar, recorre ao tom agressivo de palavras hiperbólicas e imagens surreais, que, juntas, ao longo de uma estrofe e de um parágrafo, constituem um estranhamento: às vezes anamorfose às vezes metáfora, por meio de desconexões semânticas dentro de uma estrutura sintática regular.
Segundo Natália (O surrealismo na poesia portuguesa. S. l., Europa-América, 1973, p. 10-12), a anamorfose realiza-se tanto pela imagética plástica quanto pela depravação da perspetiva lógica. Na primeira situação, há “um sistema de formas que, vistas de frente, são uma mistura confusa de figuras esticadas e insignificativas, mas que, quando observadas obliquamente, apertam-se em proporções justas”. Na rutura com a perspetiva lógica, “as coisas têm significações aberrantes quando vistas de frente, recuperando gradualmente a sua essência à medida que o pensá-las se desloca para o outro ponto, o ponto cândido da perspetiva poética”.
Nos dois casos, compõe-se uma distorção de imagens, em um primeiro momento, hermética ou obscura. A diferença é que, se no sistema plástico, tem-se uma imagem cujas redefinições não são comentadas, na depravação, a mudança de perspetiva de focalização do elemento já é “dita” no poema.

                                      NATÁLIA CORREIA 

[…]
Voltando a “De perfil”, quanto à referida demonstração da superioridade do poeta, ela não poderia ser obtida sem o enredamento, porque, se para Natália, exibir eloquência é condição fundamental para evidenciar a importância do poeta, do ponto de vista ideológico, articular as partes do poema por meio de uma trama, de um envolvimento semântico-formal, torna-se um apoio encontrado na própria linguagem verbal, enquanto fonte de possíveis representações do perfil de um eu lírico, que, no caso de Natália, pode ser, de certo modo, identificado com a autora.
Portanto, de maneira contrastante a fragmento, a funcionalidade interna que não permite ler isoladamente um verso está sendo chamada aqui de “enredamento”. É esse aspeto o que molda a eloquência de Natália, em uma escrita na qual é recorrente a fusão entre voz lírica e poeta.
Conclui-se que a linguagem poética é alcançada, no interior do enredamento, por meio de uma perspetiva crítico-literária voltada para a desvinculação com a lógica, fruto da identificação da poeta com o movimento surrealista. Frente a isso, uma particularidade da autora é a busca de um fazer literário que possibilite demonstrar, pelo estilo eloquente, entre outras questões, o valor do poeta. O que se buscava no Romantismo por meio da afirmação intensa do eu, Natália obtém pela força da eloquência.
O narcisismo, a ideia de fechamento tematizado ou não e a visão oblíqua como possibilidade de romper com a lógica e com o senso comum em relação a Deus buscam no enredamento um recurso de linguagem para compor um tipo de texto que, seja em prosa seja em verso, é acima de tudo persuasivo, tanto assim que a inserção do eu no discurso é outra maneira de persuadir o leitor.
O prefácio a O sol nas noites e o luar nos dias confirma algumas especificidades encontradas nos textos analisados, principalmente a de que o estilo eloquente possibilita a construção da linguagem poética por favorecer uma “força unificadora” ao texto, identificada com o eu lírico, diversas vezes consubstanciado com a poeta.
A “força unificadora”, expressão particular de Natália, pode ser interpretada como enredamento e sustenta o facto de que, em “Fragmentos de um itinerário”, os textos ou fragmentos apresentam-se, na verdade, no âmbito da ligação entre as partes, tanto inter quanto intratextualmente, sob o ponto de vista do preenchimento pela escrita eloquente. A perspetiva poética da autora é, então, a de um envolvimento textual que, para ela, é mais significativo entre as partes da obra do que se a poeta recorresse a espaços em branco ao longo do objeto.
    
 São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista 
 Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, 2006, pp. 166-177
        
           

PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:
        
  

 [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/16/de.perfil.aspx]
Enviar um comentário