domingo, 9 de março de 2014

DO SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA (Natália Correia)



        

 ORIDES FONTELA

       

         

 

         

          

DESTRUIÇÃO

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.

    

Orides Fontela (1940-1998)
Transposição, 1969









    

DO SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

   

Natália Correia (1923-1993)
"Apontamentos", Poemas, 1955
      





ANÁLISE COMPARATIVA DOS POEMAS
    
As noções de apagamento do eu, inquietação existencial quanto à vida e à morte e equilíbrio semântico-formal encontram-se nos poemas “Destruição” (1988, p. 36), de Orides e “Do sentimento trágico da vida” (1993, v. 1, p. 100), de Natália, os quais, ao trazerem uma mesma questão lírica, um sentimento de destruição da vida, expõem um modo de escrita que reforça o projeto poético de cada autora.
O que permeia os dois textos é uma inquietação concernente à vida e ao seu fim, de maneira que, se por um lado a morte é explicitada como um momento almejado pelo homem para ele saciar sua curiosidade em relação ao que causa o fim da vida, por outro, ela é apenas sugerida ao longo do poema “Destruição”, alcançando uma maior indiciação nesse título, que lembra a cultura hebraica, para a qual “destruição” é uma metáfora da morte, conforme o “Livro das lamentações” da Bíblia sagrada cristã (1978, p. 911).
Em “Destruição”, não há um eu lírico manifesto explicitamente por meio de marcações da primeira pessoa e de gênero, mas uma voz que, ao não se mostrar, expressa diretamente as idEias referentes à temática enfocada. A impessoalidade contribui para intensificar uma construção sintática recorrente na poesia de Orides: a nominalização, que ocorre em expressões desprovidas de verbo e no emprego de orações subordinadas adjetivas. Nas três estrofes, não se fazem afirmações transparentes, mas apontamentos genéricos que retomam e renovam o embate entre duas forças desconhecidas: “a coisa contra a coisa”, “a vida contra a coisa” e “a vida contra a vida”.
“Do sentimento trágico da vida” apresenta construções mais específicas do que “Destruição”, deixando mais claro o facto de o adjetivo “trágico” do título corresponder à morte. A revolta e a rebeldia do homem para saber o que o mata justificam a especificidade mencionada porque, assim definidas, apresentam relações mais pontuais do que os elementos do poema de Orides. Nas cinco estrofes, a estrutura sintática em forma de períodos que, cortados, configuram os versos de toda uma estrofe, diminui a opacidade do texto se comparado com “Destruição”.
A diferença entre o posicionamento lírico do poema de Orides, mais enigmático, emblemático, metafórico, e o do poema de Natália, uma voz que se autoidentifica, leva ao reconhecimento de dois tipos coexistentes de textos: um no qual o problema é generalizado, outro em que é particularizado. No de Orides, mesmo no embate, há um distanciamento aparente da vida; no de Natália, uma inserção do eu lírico na problemática referente às etapas da vida.
Posicionamentos coexistentes refletem-se na linguagem poética: no primeiro poema, não se apresenta uma total delimitação precisa de diferentes sintagmas de um verso para o outro ou um em cada verso, como se observa na maior parte do poema da escritora portuguesa, em que se verificam oração constituinte (“que se revolta calçado”), no caso, subordinada adjetiva restritiva, separada de oração matriz (“Não há revolta no homem”), por exemplo, mas, assim como no distanciamento em relação à vida, em Orides, em que se nota, quanto ao conteúdo, a inevitabilidade do fim da vida e de circunstâncias desagradáveis para isso, na forma das estrofes da brasileira, de um verso para o outro, depreende-se uma quebra de sintagmas, como se, no próprio encadeamento visual do poema já se estivesse demonstrando a “quebra” da vida. Na primeira estrofe, “a inútil crueldade/ da análise. O cruel/ saber que despedaça/ o ser sabido”, o sintagma nominal “o cruel saber”, sujeito agente da oração, foi dividido em dois versos, figurativizando no texto escrito o “despedaçar” da vida, despedaçar este colocado entre aspas por advir de uma palavra do poema, a forma verbal conjugada “despedaça”, do quarto verso, a qual já marca a ideia de destruição, título do poema.
Em Orides, conforme observado, a posição de cada palavra nos versos tem um sentido específico correspondente à temática enfocada pelo texto. Ao longo das três estrofes, coincidências sonoras não ocorrem no fim dos versos, mas apenas sob a forma de aliterações, no interior de alguns desses versos. Na primeira estrofe, a aliteração se manifesta no primeiro verso com o fonema /k/ (“coisa”, “contra”, “coisa”); no quarto verso, o fonema é /s/ (“saber”, “despedaça”); e, no quinto verso, novamente /s/ (“ser”, “sabido”). Na segunda estrofe, a aliteração ocorre no primeiro verso, em /k/ (“contra”, “coisa”), e entre o primeiro e o segundo versos, em /v/ (“vida”, “violentação”). Na terceira, a recorrência encontra-se no primeiro verso, em /v/ (“vida”, “vida”), no terceiro verso, em /s/ (“se”, “consome”), e no quarto, em /s/ (“essência”). As marcações sonoras ocorrem, deste modo, ao longo de todas as cinco posições de versos, desde o primeiro até o quinto, o que significa, em relação aos outros versos sem aliterações, a existência de uma rutura com a sequência equilibrada de diferentes sons distribuídos ao longo do texto. Sugere-se a possibilidade de a quebra ou o fim da vida ocorrer também em qualquer momento do percurso.
No primeiro verso de cada estrofe, há a reiteração de dois extremos permeados pela preposição “contra”: a força maior a destruir a vida e o ser mortal. Na primeira estrofe, a força é vista como “coisa”, pois vem para provocar um acontecimento indesejado: a destruição. Também introduzido como “coisa”, o ser destruído é apenas uma matéria física passível de destruição. Na segunda estrofe, a força passa a ser identificada como “vida” e repete-se, assim, no último conjunto de versos, pois a partir do momento em que se chegou à essência da força, não é necessário sair dela, mas ao contrário, reforçá-la pela reiteração. Por outro lado, o ser mortal ainda é tratado como “coisa”, porque, no meio do caminho, insiste em não perder a matéria física (o corpo) e assumir apenas a forma da essência, a “vida”. Por fim, na terceira estrofe, o corpo é vencido, destruído e insurge-se como “vida”.
Considerando tais relações, entende-se que o “ser sabido” é o ser da coisa conhecida, resultado do ato de cognição analítica, pois saber equivale a matar, por meio da análise, o ser sabido. Nomear é mutilar e matar o ser porque, entre todas as escolhas (todos os seres), fez-se uma. Paradoxalmente, nomear é também dar vida.
Há, conforme o encadeamento textual, uma transformação das entidades configuradoras dos dois extremos que se embatem no poema. No último verso, por meio do advérbio “inutilmente”, a voz do poema manifesta um juízo de valor negativo em relação à transformação do ser mortal: a morte não é bem-vinda, pois a desintegração parece não melhorar a condição do ser. Repetidos no poema, os signos “inútil” e “inutilmente” vinculam-se à ideia de gratuidade da vida, revelada em sua condição absurda pela inteligência e pela morte.
À página 16 do livro Poesia e filosofia por poetas-filósofos em atuação no Brasil, de Alberto Pucheu (1998), quando reconhece haver muita poesia na filosofia, Orides faz uma referência a Heidegger, confessando tê-lo considerado como poesia. Estabelecendo uma aproximação com a filosofia, o poema “Destruição” leva a Heidegger, para quem o homem é um ser para a morte, a qual surge como uma conclusão da existência. O que o poema “Destruição” acrescenta a essa visão filosófica é que o conhecimento dos limites, das possibilidades e impossibilidades incita o homem à busca da essência da verdade, mesmo tendo consciência da inutilidade das descobertas para a mudança no ciclo vital.
A partir de tais correlações, é possível reconhecer, em “Destruição”, um posicionamento de base hegeliana referente ao embate entre a coisa e a vida e à consciência de que matar é dar a vida. Para Hegel, o que realmente existe é o verbo divino, chamado “Espírito”, e ele se realiza como um sujeito que se exterioriza no predicado Natureza, isto é, manifestando-se como “coisa” (substância, qualidade, relações de causa e efeito etc.). Ele é terra, água, ar, fogo, céu, astros, mares, minerais, vegetais, animais. Para conservar-se vivo, o ser natural (a coisa) precisa consumir os seres que o rodeiam: o espírito como Natureza nega-se a si mesmo consumindo-se a si próprio (os animais consomem água, plantas, outros animais, ar, calor, luz; as plantas consomem calor, água, luz; os astros consomem energia e matéria, etc).
Essa negação pelo consumo não é transformadora, pois ela se realiza para conservar as coisas. Entretanto, o Espírito se manifesta em outro predicado: a “Consciência”, que também busca conservar-se, porém o faz não pelo simples consumo das coisas naturais, mas pela negação da mera naturalidade delas. Um exemplo disso é que as apreciações humanas sobre uma árvore tornam-na não coisa, fazendo com que o Espírito negue-se como Natureza e afirme-se como Cultura. Negou-se o “ser-em-si”, tornando-o “ser-para-si”. A negação dialética não significa necessariamente a destruição empírica ou material de coisas empíricas ou materiais, mas a destruição de seu “sentido” imediato, que é “superado” por um sentido novo, posto pelo próprio Espírito.
“Destruição” admite essa leitura hegeliana, no entanto, apresenta uma visão da existência mais dura do que a do filósofo alemão, pois os signos “inúteis” e “inutilmente” transmitem não a idéia de um olhar que simplesmente supera um sentido anterior, conservando-lhe a vida, mas a de uma crítica intensa ao movimento dos seres, possivelmente crédulos na validade de seu esforço para superar uma força que age sobre eles. Para Orides, o importante é o conhecimento analítico (saber), e saber é nomear. A nomeação é, de acordo com Nietzsche (1953, p. 19-20), um “ato de autoridade”, portanto, incontestável. Mais do que isso, assim como as “sínteses humanas”, que, embora “sábias”, são “inúteis”, a “luz” consome-se, “desintegrando a essência”, mas “inutilmente”, o que revela um posicionamento poético cruel por parte de Orides, diferenciando sua poesia, neste ponto, da filosofia de Hegel. Identifica-se uma argúcia na poesia de Orides, na visão analítica da validade de todas essas relações.

Circle Of Life, Rob Herr Photography
Retomando o poema de Natália, também há uma particularidade quanto à forma no que concerne à temática focalizada: da primeira à última, as estrofes decrescem e depois crescem em número de versos. A primeira começa com seis, a segunda tem cinco e, a terceira, três; já a quarta recomeça o encadeamento, apresentando quatro versos, seguida pela quinta, que fechará o poema com seis versos. Trata-se, também, de um percurso desenhado no texto poético, já que, na primeira etapa, começa-se com a questão do que se revolta no homem, passa-se para a noção de nascimento (“fruto que nele nasce”) e chega-se ao meio do poema, justamente na questão do “fim da vida”; em seguida, tem-se o esclarecimento daquilo que passa da revolta à rebeldia, até a explicação da verdade sobre a morte (o que antes não se revelava), finalizando o texto. Portanto, a ideia central de curiosidade em relação à morte é posta na própria configuração das estrofes, cujo centro, a terceira, contém justamente o esclarecimento sobre tal curiosidade.
Nessa perspetiva, existem coincidências sonoras concernentes a rimas, tanto no fim como no interior de alguns versos, e as palavras daqueles que não rimam, unidas, formam o percurso da vida particularizado no poema: “homem”, “nasce”, “põe”, “punhal”, “morte”, “saber”, “sabe”. Isso quer dizer que o homem nasce, sente a curiosidade de saber o sentido do que o matará, toma um punhal, crava-o na morte, mas não consegue vencê-la, morre e “fica sabendo” de tudo. No entanto, o fim do poema é incisivo: já “não se pode contar”. Somente depois de morto é que o ser humano realmente sabe a causa da morte; entretanto, a partir desse momento, ele já não mais pode revelar o que passou a saber. É a “ironia de saber” de que trata a voz lírica de Natália.
As rimas apontam para o número de sílabas poéticas, sete em cada verso, formando, portanto, uma redondilha maior, com exceção do terceiro verso da quarta estrofe, que, com oito, é justamente o que apresenta a imagem mais forte do texto: “para vibrar naquela morte”. Assim como “Do sentimento trágico da vida”, “Destruição” também segue uma métrica e apresenta uma quebra específica de sílabas poéticas. Todos os versos têm seis sílabas, com exceção de três deles, o último de cada estrofe, os quais, diferentemente de trazerem uma imagem forte, exprimem, conforme observado anteriormente, a consciência sobre a inutilidade da descoberta do sentido da destruição, consciência essa por trás da qual está o “ser sabido”, objeto do conhecimento e não sujeito dele.
Em Natália, há, também, uma reiteração significativa: a palavra “revolta” liga-se, diretamente, ao título do texto, apresentando e reforçando o “sentimento trágico da vida”, transformado, na quarta estrofe, em “rebeldia”, e acrescentando uma ação ao que era apenas um sentimento: a de vibrar o punhal para saber o que é a morte. Outra reiteração há na última estrofe: “só depois de”, que marca a finalização de uma etapa no conhecimento do fim da vida. A repetição é irônica à insistência do homem, porque intensifica a inutilidade do conhecimento.
Dos dois sentimentos destacados no desejo do homem de conhecer o fim da vida, a revolta e a rebeldia, o primeiro deles liga-se à passividade da ignorância; o segundo, à ousadia da vontade de chegar ao conhecimento. Há uma condução de etapas: até a terceira estrofe, a ignorância que leva à revolta; a partir da quarta estrofe, a ousadia causadora da morte. Na segunda etapa do poema, o crescimento do número de versos entre os dois conjuntos acompanha a intensificação da consequência da ousadia.
Analogamente à ideia de um percurso na vida, com início e fim, o arranjo dos signos em ambos os poemas leva a concordar com Nunes (1986, p. 278) quanto ao facto de que “tudo começa e termina na linguagem, o topos por excelência do ser”. Em “Destruição”, os signos “vida” e “coisa” alternam-se de uma estrofe para a outra, dispondo-se “vida” no início do primeiro verso da segunda e terceira estrofes e no fim do primeiro verso da última, enquanto “coisa” está no início e no fim do primeiro verso da primeira e no fim do primeiro verso da segunda, construindo, assim, dois polos e reforçando a tensão entre as duas forças. Esses detalhes, ao revelarem, em cada poema, uma articulação entre o percurso configurado pelos signos e a constituição semântica dos poemas, levam-nos a concordar com o ponto de vista de Paul Verlaine de que “a forma deriva do conteúdo”.
      
Discurso crítico e posicionamento lírico em Orides Fontela e Natália Correia, Priscila Pereira Paschoa. São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista - Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, 2006, pp. 88-97
        
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 [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/09/do.sentimento.tragico.da.vida.aspx]
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