terça-feira, 11 de março de 2014

O POETA E AS VÍBORAS (Natália Correia)



         
         
O POETA E AS VÍBORAS

Baile de corpos intermédios
com luas mortas nos braços
sem desenlace e sem consequência.

Dança da solidão de mim e de outros
comigo no centro ignorada.
Bailado das palavras
com suportes de morte imediata.

Rio sem águas e sem fundo
com margem numa boca emudecida.
Silvo de serpentes que rastejam
famintas para o vértice da vida
onde me aparto de cansaços inúteis.
         
Natália Correia, “Biografia”, segunda parte de Poemas, 1955.
         
         
         
Compreendendo o poeta como um profeta ou um ser iluminado (“mosca iluminada”) na captura e configuração de um mundo particular, a maioria dos poemas da portuguesa [Natália Correia] tem uma linguagem ousada, por vezes fechada em seu hermetismo. Não é que se baste em si mesmo, mas um poema de Natália pode tornar-se incompreensível pela tendência a associações surreais e, sobretudo, pelo obscurecimento dos sentidos reforçado pela escolha lexical.
[…] em “O poeta e as víboras”, o ser, que é o próprio eu lírico, nesse caso, feminino, exprime em tom disfórico uma situação desfavorecida de solidão por encontrar-se ignorado no centro do “baile”, tentando lidar com as “víboras” que rastejam. Por revelar no terceiro verso da segunda estrofe uma relação com as palavras e, no começo da quarta estrofe, uma associação entre rio e margem, possivelmente espaço de criação literária e suporte (“boca emudecida”) que liga à concretude da criação (“vértice da vida”), o eu feminino sugere ser uma poeta e, as víboras, as palavras, que, por se apresentarem na posição horizontal, “rastejam”. Com esse poema, Natália expõe um certo hermetismo mais uma vez fixado na imagem do eu feminino […].
D’A República (1965) de Platão, Natália conserva a ideia de que o poeta é “coisa leve, alada e sagrada”, não a ideia de ser irresponsável ou nefasto à coisa pública. Uma das mais significativas dimensões de sua poesia é a sistemática reabilitação da mulher vidente e pacificadora, capaz de levar a sociedade à recuperação de valores esquecidos e junto dos quais vive, desde o princípio dos tempos. Ignorado pela conjunta nobreza do amor e do desejo, pela força geradora do feminismo profundo, o mundo (a Europa, o Ocidente, a Lusitânia) entrou em desequilíbrio, levado pela “masculina” embriaguez de uma cisão que só poderia ter conduzido ao olvido dos “nutrientes da vida”, à mutilação do corpo e dos sentidos, ao jugo da racionalidade, dos despotismos e da besta nuclear (a força do mal).
Natália critica o sonho papal de uma Europa reunificada pelo cristianismo, adotando uma atitude pluralista no pensar o regresso da religião. Ao elogiar o politeísmo, em nome de um sagrado remanescente, a proposta de Natália é ultrapassar a alternativa do ateísmo e do monoteísmo. Seu combate é contra o totalitarismo e o judeu-cristianismo. Para ela, o paganismo sacraliza a vida, o múltiplo, o segredo maternal da terra, o recomeço perpétuo do jogo do mundo que Heráclito, Proclo e Spinoza adivinhavam em suas reflexões metafísicas e teológicas.
José Augusto Mourão (“Literatura e cristianismo” in Jornal Letras & Letras. Lisboa, n.º 26, fevereiro de 1990. Dossier, p. 11) sustenta que o sonho da “casa comum europeia” passa pela relativização das ideologias e das religiões e pela aceitação de um “mínimo comum” não certamente religioso. Na opinião do crítico português, a poeta parece ser a única protagonista de um debate inexistente a respeito de qual é o ideal para a sociedade. Tentando justificar uma possível posição anacrónica de Natália, Mourão volta-se para a literatura, afirmando que o mundo das letras é um mundo possível, aberto, entreaberto a todos os milagres, partindo da radicalidade do desejo humano, do debate com inumeráveis cristalizações idolátricas de cultura. Estas questões serão retomadas em momento posterior do trabalho e, em especial, nas reflexões finais. […]. Em Natália, o questionamento de temas ligados à cultura histórico-literária, sobretudo portuguesa, é inevitável […].
A linguagem de Natália […] é caudal, com versos longos que variam em sua métrica e com uma oscilação na presença de rimas, dispostas alternadamente entre ricas e pobres, toantes e consoantes. […]
De um modo geral, a poesia de Natália apresenta muitas faces quanto ao posicionamento lírico, mas pode-se elencar como embasadores de sua obra alguns aspetos configuradores de uma pessoalidade ou subjetividade intensas na escrita poética. Há uma vocação lírica ou desejo de autoafirmar-se pela poesia, que, rememorando Os Lusíadas, é motivo de orgulho em relação à terra de origem, mas tensionando as imagens pelo viés sarcástico. O narcisismo com que se recorta a voz lírica é um sentimento de superioridade da poeta, mas também sua aguda ilusão.
O apego de Natália à terra de origem, apesar de ela não ser natural do continente, mas da Ilha de São Miguel, faz despontar um sentimento de “natalidade”, cuja ambiguidade mescla misticismos saudosistas e irreverência amarga. O sentimento doloroso da existência, gerando uma inquietação permanente voltada ao desejo de recriação da vida, faz brotar os poderes instituídos e os sistemas racionalistas enformadores do conhecimento do mundo.
A escrita que conduz a poesia de Natália (e não a voz lírica, de intuito semântico, estudo realizado por Melo e Castro, “O dom da poesia e a sua dona: a propósito da poesia de Natália Correia”. In: Voos da fénix crítica. Lisboa, Cosmos, 1995. p. 157-162) é compreendida pela crítica sob, pelo menos, três óticas: a que vê na ironia, no sarcasmo e nas associações fónicas e imagéticas traços do estilo surrealista; a que considera a recorrência a ambiguidades, passagens obscuras, antíteses e hipérboles e também ao perspetivismo (perceção multifacetada) como uma identificação com o barroco; e a que focaliza a tentativa de recriar a vida como uma preferência literária de base romântica.
[...]
Das três óticas apontadas pela crítica para caracterizar a escrita de Natália, a que se volta para o barroco é a mais coerente com a estrutura pela qual se arranja a obra da poeta, porque, atentando aos procedimentos semânticos de construção, como as associações criadas pela linguagem poética, eles mostram afinidade com a escrita barroca: antíteses, hipérboles, repetições, cultismo imagético, ambiguidades, perspetivismo. Destacam-se, também, aproximações com motivos temáticos: pessimismo, descontentamento cósmico, sentimento trágico referente à existência, exagero da individualidade e do engenho pessoal, refúgio na “torre de marfim” da arte obscura. Por outro lado, há ligações com o surrealismo, predominantemente no plano semântico. Mas não cabe identificar tais traços à luz dessas estéticas, pois não é essa a questão de que a presente dissertação se ocupa. O insulamento e o hermetismo da poesia de Natália não se explicam em função de seu engajamento em programas estéticos estabelecidos a priori. Seria mais adequado perceber os procedimentos estéticos como impulsos próprios de uma poética desafiadora de moldes e modelos. Falta à crítica, portanto, a capacidade de estabelecer distinções quanto à natureza da particularidade focalizada no objeto do estudo.
Com relação à lírica do século XX, sabe-se que, da modernidade até a contemporaneidade, ela tem como um dos traços principais a fragmentação do verso e o culto ao silêncio, iniciados por Stéphane Mallarmé (1842-1898). Apesar disso, tais direções de cunho experimental marcadas pela ousadia formal não interessam a Natália Correia, cuja poesia atende mais a necessidades internas (da própria linguagem e do próprio espaço cultural) para se fazer construir. […]
Se a presença de elementos culturais mistura-se à posição rebelde e transgressora do ser em Natália Correia, tal “subjetividade” ganha concretude graças ao tratamento crítico dado à linguagem.
*
[…] em Natália há um distanciamento entre o eu lírico (“o poeta”) e as palavras (“as víboras”), aspeto reforçado pela ideia de solidão no primeiro verso da segunda estrofe e, principalmente, pelo segundo verso, “comigo no centro ignorada” […].
Destaca-se um procedimento estratégico em Natália, para aumentar a sensação de distanciamento: o isolamento da expressão “comigo no centro isolada” em um só verso. O sentimento de desilusão pelo facto de que escrever resulta em “cansaços inúteis” é intensificado pelo adjetivo que fecha o poema, “inúteis” […]
[…] o eu lírico apresenta-se como poeta em uma relação tensiva (e intensa) com as palavras, em Natália […]
[…] em “O poeta e as víboras”, […] a “palavra” é considerada elemento disfórico, […] é excrescência quase desnecessária, mas fatal […].
      
São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista - Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, 2006, pp. 48-54, 105-106.
        
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/11/poeta.viboras.aspx]
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