quinta-feira, 13 de março de 2014

POEMA LIMO (Natália Correia)


Shumskaya Lubov


          
      
POEMA LIMO


De não ser deus nem bicho 
nem sossego de pedra 
de refletido lixo 
faz-se o homem poeta 

se de algo se de alga 
a origem lhe é incerta 
se bruscamente breve 
qual círculo na água 
o homem para que serve?
       
Natália Correia, O vinho e a lira, 1966
       
       
       
Mãos feridas na porta dum silêncio” mostra que em Natália também está presente uma preocupação de ordem existencial, embora voltada um pouco mais para a relação com o poeta.
Essa relação pode ser melhor observada em “Poema limo” (1993, v. 1, p. 335) da obra O vinho e a lira (1966), que instiga a uma reflexão sobre o papel do homem-poeta no mundo.
Já lançando diretamente uma indagação sobre “para que serve” o homem no mundo, o poema não apresenta marcações de uma voz específica. Na primeira estrofe, tenta-se distinguir o lugar do ser humano entre “deus”, os “bichos”, os seres brutos ou inanimados (a pedra) e o lixo, para afirmar, na segunda estrofe, a incerteza da origem humana e, deste modo, conduzir o poema à pergunta existencial. O percurso traçado pela primeira estrofe leva a pensar que o facto de não se encaixar em nenhuma das categorias mencionadas força o homem a tornar-se algo (poeta), provavelmente em razão de tal ofício possibilitar-lhe refletir sobre sua condição.
O sentido de aderência atrelado ao substantivo “limo” (lama, lodo), que adjetiva o poema, transcende o nível morfossintático e articula-se à ideia de inerência entre a condição incómoda e inquietantemente indefinida do homem e o homem. A presença do lodo também persiste no signo “alga”, que, associado a “algo”, intensifica aliterativamente a incerteza quanto à origem do homem. O incómodo e a inquietação causados pela incerteza alimentam um questionamento sobre o valor da vida, sendo ela breve tal qual uma gota na água.
A aparente redundância aliterativa de “bruscamente breve” reforça o sentido de brevidade porque revela, na verdade, uma complementação, unindo um advérbio que exprime a ideia de início e um adjetivo que remete à finalização de algo. O ritmo do poema reflete toda essa indagação, sendo conduzido por uma estrutura condicional, favorável à construção de contraposições, que promovem o questionamento. A lógica criada nessa estrutura induz a pensar que a perspetiva diante da vida (um vasto mundo pela frente) não corresponde ao que a vida é (demasiadamente curta, uma gota na água).
Se a primeira estrofe, afirmativa, apresenta seis sílabas poéticas, a segunda, interrogativa, mostra uma diferenciação entre as duas frases condicionais, na composição de sete sílabas nos dois primeiros versos, que constituem a primeira condicional, e de seis no terceiro e quarto, constituintes da segunda, para que, ao retomar, no último verso, as sete sílabas iniciais, (con)forme o percurso de incertezas.
*
[…] o “Poema limo” apresenta aliterações que, articuladas ao nível sintático, mais especificamente à alternância entre frases condicionais, dialogam com a problemática instaurada, no caso, a origem do homem(-poeta) e seu papel no mundo.
As aliterações aparecem duas vezes, entre “algo” e “alga” e “bruscamente” e “breve”, e coincidentemente com as frases condicionais, marcadas pela conjunção subordinativa “se”. Juntamente com essas frases, as aliterações criam uma insistência melódica quanto ao papel do homem, vinculado a disforias, entre elas a incerteza de sua origem e a brevidade de sua vida.
      
São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista - Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, 2006, pp. 112-114, 143-144
        
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/13/poema.limo.aspx]
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