quarta-feira, 2 de abril de 2014

LITERATURA AÇORIANA


              
JOSE CARREIRO, Sete Cidades, 2011-10-01
José Carreiro. Sete Cidades, 2011-10-01
  



As definições de literatura açoriana são vastas, por isso restringimo-nos às palavras de Machado Pires ("O homem açoriano e a açorianidade", 1995), José Martins Garcia (Diário de Notícias / suplemento «Cultura», 1983/06/16), Onésimo Teotónio de Almeida ("A questão revisitada", 1983) Almeida Pavão ("Constantes da insularidade numa definição de literatura açoriana", 1988) e Vitorino Nemésio ("Açorianidade",1932) que introduziu a problemática da identidade da literatura açoriana, com base no termo da açorianidade.


 



Embora haja quem ponha em causa a existência de uma literatura propriamente açoriana, pelo facto de os Açores constituírem um arquipélago que pertence, geograficamente, a Portugal e que partilha do mesmo idioma, também há quem afirme que, efetivamente e, por várias circunstâncias, existe uma literatura açoriana.
No Diário de Notícias, Suplemento da Cultura de 1983, Garcia afirma que
É uma literatura de autonomia em relação à literatura Portuguesa. (…) o conjunto de obras literárias que veiculam a mundividência típica do Homem Açoriano. (…) esta mundividência corresponde a um condicionalismo geográfico e histórico (…) essa mundividência não comporta limites temáticos, nem se liga a questões de diferenciação linguística, nem a questões essencialmente políticas, nem (muito menos) a qualquer tipo de regionalismo.(1983:2).
Em 1988, no seu artigo intitulado Constantes da Insularidade na Definição da Literatura Açoriana, Pavão refere que
Embora haja quem suponha estéril o debate sobre a existência ou não de uma literatura açoriana, pessoalmente vejo nele uma riquíssima mina de elementos, dados, ideias, perspetivas, conceitos, especulações, interpretações, explicações, análises que refletem mundividências, posições teóricas sobre estética, pontos de vista sobre uma realidade humana num espaço geográfico específico (os Açores) de muitos dos melhores nomes das letras dos Açores. Seria injustificável ignorar-se simplesmente a recorrência dessa questão sem se ver nela algo mais profundo do que um mero debate semântico. Ainda que se queira negar-lhe a importância das consequências, há causas e motivos para o seu aparecimento e ressurgimento cíclico que nenhum observador atento ou estudioso minimamente interessado poderá desdenhar. (1988:2)
Aqui, põe-se em questão uma identidade própria de uma literatura, cunhada de uma mundividência própria, onde só há registo no locus da sua própria construção, por circunstâncias ambientais, vividas pelo autor que as presencia e as transmite, pelas letras, da sua língua individual e própria.
Aguiar e Silva (1989:114) esclarece:
A literatura strictu sensu, ou “literatura” sem qualquer modificador, é entendida como a “literatura superior”, a “literatura elevada” ou a “literatura canonizada”, isto é, aquele conjunto de obras consideradas como esteticamente valiosas pelo “milieu” literário – escritores, críticos, professores, etc. – e aceites pela comunidade como parte viva, fecunda e imperecível da sua herança cultural.
Reis (2001:19) afirma que
qualquer reflexão preambular sobre a literatura e a sua existência enfrenta, de início, a questão de saber se é possível (ou até que ponto é possível) estabelecer fronteiras que delimitam o fenómeno literário; ou por outras indagar o que cabe e o que não cabe dentro do campo literário.
Imediatamente reconhece que essas fronteiras são «algo fluidas», na medida em que, por exemplo, há textos que comungam das duas naturezas (literários e não literários, como por exemplo as crónicas, algumas, pelo menos), outros que, ao longo dos tempos, foram considerados, numa época, como literários, noutra, foram completamente desvalorizados ou esquecidos. Tarefa difícil e inglória, portanto, a de delimitar essas fronteiras.
Entre essas «fronteiras algo fluidas» estão as fronteiras de uma literatura nacional. Ora, se não há consenso em relação à definição de literatura, mais difícil ainda é definir uma literatura adjectivada de açoriana. Por outro lado, percebemos que os limites de uma literatura nacional terão de ser sempre estabelecidos em relação a outra literatura nacional.
Ainda no artigo sobre Constantes da Insularidade na Definição da Literatura Açoriana, Pavão (1988:3) refere que
Foi o atributo de autonomia que, a nosso ver, pretensamente aposto a tal Literatura, a transformou em pomo de discórdia, suscitando a oposição formal de Gaspar Simões e de Cristóvão Aguiar, entre outros. Pensamos, sim, que poderá persistir a designação de Literatura Açoriana, sem que ela se reclame de autónoma. Neste particular, teremos de dar razão aos dois autores referidos na medida em que, utilizando idênticos argumentos, poderíamos abranger dentro do mesmo conceito os casos de Raul Brandão, Pascoais e Agustina Bessa Luís, que trazem marcas de «algo de inconfundivelmente duriense, autónomo», não obstante, até ao presente, ninguém se haver lembrado de proclamar a «autonomia» duma Literatura de Entre Douro e Minho.
Acrescenta ainda no mesmo artigo que,
Há, porém, em nosso entender, nos seus assertos equívocos que convém analisar. Para aquele crítico (Gaspar Simões), a definição de «literatura açoriana» estará ligada aos «escritores que nasceram, viveram e morreram em terras do Arquipélago», muito embora admita que "muito mais fortemente" do que a gente do torrão Continental, a gente do torrão insular contraia, mesmo por pouco tempo com ele em contacto, caracteres diferenciados. (1988:4).
O que equivale, da parte do autor, a confessar que, em relação ao Continente, existem caracteres diferentes nas obras dos autores insulares, a despeito da exiguidade do tempo em que viveram na terra de origem. Mas então há ou não há diferenças, em relação à literatura açoriana?
Isto é, não basta, como fez Simões, atentar no «isolamento físico - geográfico» para caracterizar a insularidade. Mais do que isso, são esse isolamento e essa distância que, uma vez interiorizados numa mundividência e, numa mundividência, geram esse sentimento de angústia metafísica, presente, por exemplo, em Roberto de Mesquita.
Os génios e os talentos não se forjam pelas ambiências culturais, as quais apenas os detetam e divulgam. Roberto de Mesquita foi grande por razões de ordem intrínseca, mas deve muito da sua descoberta a Nemésio. A causa de muitos valores literários insulares permanecerem no olvido reside, uma boa parte das vezes, na ignorância ou no menosprezo que lhes votam os autores e os areópagos das Letras Continentais.
Sobre a condição do homem açoriano, diz Nemésio (1932:59) «como homens estamos historicamente soldados ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. A geografia, para nós, vale outro tanto como a história»
De facto, a vivência num pedaço de terra limitado, cercado pelo vasto oceano, define um modo particular de pensar, sentir e agir, enfim, um modo particular de ser. A temática da literatura açoriana encontra-se, pois, intimamente relacionada com peculiaridades de mundividência.
           

“Acerca da Literatura Açoriana” in Da Presença da Literatura Açoriana nos Manuais Escolares de Português Língua Estrangeira no Contexto da Aprendizagem dos Luso-Descendentes nos Estados Unidos (EUA)Ana Isabel do Couto Medeiros. Tese de mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012.

            
          

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/04/02/literatura.acoriana.aspx]
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