sexta-feira, 4 de abril de 2014

PÔS-TE DEUS SOBRE A FRONTE A MÃO PIEDOSA (Antero de Quental)


Odilon Redon, MULHER COM VEU, 1895

         
          
A M.C.

Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vai, filha, sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste neste solo angustiado,
Estrela envolta num clarão sagrado,
Do teu límpido olhar na luz radiosa...

Mas eu... posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! deu-te o Senhor um Mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me há dado?
Voz que te cante e uma alma para amar-te!
Antero de Quental
         
          

Antero canta os seus amores, espiritualizados como os de Petrarca. Neles não há sensualidade à vista, como nas poesias de Anastácio da Cunha ou Garrett; há de preferência uma adoração abnegada do Eterno Feminino.
António Barreiros, História da Literatura Portuguesa
         
          
Analise o poema, tendo em conta os elementos seguintes:

• o tom narrativo das duas quadras; o tom dramático dos dois tercetos;

• o destinatário:
- percurso de raiz platonizante;
- caracterização conforme à origem divina (beleza, excecionalidade, luz – “Anjo”);

• programa de relacionamento possível estabelecido pelo sujeito poético:
- os olhos/visão;
- a voz/canto;
- a alma/amor.

• recursos estilísticos e sua expressividade.
        
E. Costa, V. Baptista, A. Gomes, Plural 12, Lisboa Editora, 1999
        
           
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 Audição do poema “Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa

               


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/04/04/amc.aspx]
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