sexta-feira, 19 de setembro de 2014

PRA A HABANA! / CANTAR DE EMIGRAÇÃO




ROSALIA DE CASTRO



PRA A HABANA!


V

Este vaise i aquel vaise,
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
Rosalía de Castro
in 
Follas Novas, 1880


 




CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará



Repete 1ª quadra

Tradução: José NizaInterpretação: Adriano Correia de Oliveira 
Album: Cantaremos, 1970





Ficha de abordagem sobre o tema “Cantar de emigração”




1. Caracteriza a canção:
a) Quanto ao ritmo.
b) Quanto à melodia.

2. Estabelece uma relação entre a mensagem e a melodia.

3. Identifica a figura de estilo presente no verso: “Galiza ficas sem homens”. Salienta a sua expressividade.

4. Indica o verso que melhor exprime a problemática essencial da peça em estudo. Justifica.

5. Estabelece um paralelismo entre o tema desta canção e a obra Frei Luís de Sousa.

A Poesia Musicada de Intervenção em Portugal (1960-1974): a sua aplicabilidade no Ensino SecundárioJosé Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, p. 173.



Textos de apoio

A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula: “Cantar de Emigração” (de Rosália de Castro. Interpretada por Adriano Correia de Oliveira)

Ritmo – Quaternário ao estilo de balada.

Melodia – predomínio de dedilhado da viola, tendo como resposta cristalina a flauta transversal em jogo dialógico – pergunta resposta. Numa segunda fase, a flauta estabelece um jogo com a voz num adágio suave mas pesaroso em agradável melopeia. Torna-se a malha de uma canção que evoca o sofrimento de quem se encontra isolado na solidão.

Harmonia – A combinação de sons entre a viola a voz e a flauta evoca o ambiente pastoril.

Análise Semântica ‑ Esta composição musical deixa antever de uma forma suave e cantante o êxodo de muitos portugueses que, vivendo em Portugal em condições de extremas dificuldades financeiras, abandonam o país e rumam em direção a um outro com todas as condicionantes previsíveis e imprevisíveis que ofereça melhores condições de vida. As pessoas vão em busca de uma sobrevivência que seja menos penosa, mais promissora.

Na primeira quadra a poetisa galega Rosália de Castro alerta para o perigo de todos os homens abandonarem as terras – Galiza. Aproveitando os seus versos, também Adriano, com a sua voz melodiosa, pressentia o despovoamento das zonas agrícolas do lado de cá da fronteira. Esse desequilíbrio social iria provocar consequências no tecido social das regiões abandonadas. Deixaria de haver a força dos trabalhadores para cortar o trigo, o pão de que a população necessitava.

A quadra seguinte ouve-se uma flauta em contra-canto com a voz, num jogo de perfeita harmonia suavizando as palavras dolorosas: “órfãos, órfãs, solidão, mães sem filhos, filhos sem mães”. O que resta da emigração condensa-se no simbolismo na expressão metafórica: campos de solidão. Esta espelha o consequente desmembramento da família por força de uma sociedade espartilhada com deficiências a nível dos tecidos: económico, social, político e cultural.

Este canto de intervenção pretende sensibilizar as pessoas pelo sentimento evocado na apóstrofe “coração”, para, de seguida, imbuí-lo de sofrimento resultante das longas ausências mortais. Surgem, nesta quadra, as viúvas angustiadas pelas ausências dos maridos ou em trabalho no estrangeiro ou na guerra colonial. “Quando os homens não vão para África combater pela pátria, vão para França lutar pela vida.Com a guerra a emigração é outro elemento da radical mudança da paisagem humana operada em Portugal nos anos sessenta.”.

A repetição da primeira quadra atenua a angústia das famílias destroçadas por um país sem condições quer económicas quer políticas. Resta deste poema musicado, a alusão ao mitologema português aqui presente: a vocação nostálgica do impossível. (“O Imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco”, Gilbert Durand. In: Cavalaria espiritual e conquista do mundo. Lisboa, Instituto nacional de investigação científica, 1986, p.15). O poema gera uma reação nostálgica de uma “esperança desesperada”, sendo este o significado da habitual expressão “saudade” tão característica dos portugueses.

[Este poema musicado encontra-se também explorado durante a abordagem da obra de Adriano Correia de Oliveira que se apresenta a seguir]
  
A Poesia Musicada de Intervenção em Portugal (1960-1974): a sua aplicabilidade no Ensino SecundárioJosé Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 126-127.


*


O Cantautor Adriano Correia de Oliveira (1942-1982)

Paralelamente à obra de José Afonso, surge o cantor Adriano Correia de Oliveira, cuja voz celebrizou o poema de Manuel Alegre “Trova do Vento que Passa” musicado por António de Portugal – considerada a primeira trova típica de Coimbra.Com evidente influência do fado, tornou-se o símbolo da inquietação patriótica que serviu de hino às lutas académicas: Pergunto ao vento que passa /notícias do meu país /e o vento cala a desgraça / e o vento nada me diz / (…) O poeta Manuel Alegre escreveu este tema num momento de superior inspiração. O silêncio da desgraça é simbolizado pelo vento que reprime, que abafa o sofrimento de alguém que vive um sentimento nostálgico. Contudo, o poeta assume-se como uma candeia, o porta-voz dos homens que, pelo seu simbolismo, no seio das agruras de um país, ilumina, irradia sons harmoniosos de esperança. Desse facto, resulta a tenaz resistência às adversidades tornando o poeta o herói de todos quantos contestam a situação política vivida na época da ditadura de Salazar: Mesmo na noite mais triste/em tempo de servidão /há sempre alguém que resiste /há sempre alguém que diz não! Quem disse: “não”! foi a voz eclética do cantor.

As mensagens, os poemas cantados por Adriano assumem uma autonomia tal que se tornam essenciais para a consciencialização dos cidadãos.

Não obstante, destaquemos uma vez mais a inequívoca importância das canções.

Para além de José Afonso, Adriano teve um papel fundamental no panorama musical português. A sua persistência, os seus demais valores, a sua coragem em defrontar as forças do regime, a sua aversão ao consumismo cultural fizeram dele uma personalidade incontornável no canto de intervenção. A propósito, refere-nos Manuel Alegre citado por Raposo (2000:20),

(…) A voz de Adriano era uma voz alegre e triste, solidária e solitária, havia nele ternura e mágoa, esperança e desesperança, amparo e desamparo, festa e luto, amor e luta. E também saudade e fraternidade (…) voz de fado e de destino herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate.

Adriano intervém como intérprete, compositor e participante em iniciativas de carácter estudantil. A sua coragem extravasou toda a sua vida académica e prosseguiu com a interpretação de temas que desafiavam a força da repressão tais como: a falta de liberdade e a consequente prisão dos opositores ao regime, a denúncia da guerra colonial e injustiças resultantes de uma realidade adversa. A “Canção Terceira” argumenta:

(…) quando desembarcarmos no Rossio/Vão vestir-te com grades /que é um vestido para todas as idades /na pátria dos poetas em Rossio triste.

Esta necessidade de apelidar o país de pátria dos poetas constitui-se como um apelo à pátria de pessoas livres. Tal como se encontrava o país, o poeta considerava-o um triste destino, o destino da gente do meu país, “como alude na canção “Pátria”. O lamento persiste sobre todos aqueles que pereceram em luta com “uma Lisboa”, sinédoque de Portugal, tão longínqua de um canto alegre, promissor, “Eu canto um mês com lágrimas /…em que os mortos amados batem à porta do poema …”. Apesar da morte de um amigo que tanto desejava estar em Lisboa expresso na “Canção com Lágrimas”, o cantautor revela um sentimento de esperança relativamente ao país:

Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve /que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro /eu canto para ti Lisboa à tua espera.”

A denúncia, a frontalidade sem restrições são apresentadas com a voz imbuída de coragem sob a forma de poema “em Porque” de Florbela Espanca. Apresentado numa estrutura antitética na qual os outros por oposição a um tu são considerados “hipócritas, cobardes e fracos”. Sofia de Mello Breyner de uma forma sub-reptícia pretendeu qualificar todos aqueles que se serviam do velho Regime desses defeitos, contrapondo as virtudes das vítimas inocentes que eram objeto de medidas persecutórias. É na voz de Adriano que este poema adquire uma maior projeção, um novo dinamismo:
Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros são os túmulos caiados /Onde germina calada a podridão /Porque os outros se calam mas tu não/ Porque os outros se compram e se vendem /E os seus gestos dão sempre dividendos…/Porque os outros vão à sombra dos abrigos /E tu vais de mãos dadas com os perigos/Porque os outros calculam mas tu não.”

O sofrimento do povo português persiste e é denunciado de forma metafórica, todavia, não menos objetiva. No tema de Manuel da Fonseca “Tejo que lavas as águas” o rio assume-se como a fonte regeneradora dos vícios de uma sociedade conspurcada de injustiças, de exploração dos mais poderosos sobre os miseráveis, os mais necessitados, uns nos palácios, outros nos bairros de lata:

Tejo que lavas as águas …/lava bancos e empresas/dos comedores de dinheiro/que dos salários de tristeza/arrecadam lucro inteiro/lava palácios vivendas/casebres bairros de lata/leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata.

O poeta solicita ao Tejo que lave a cidade – entenda-se país - dos vícios, dos favores, do poder dos ricos e finalmente das grades, de tudo o que impeça a liberdade dos resistentes. E prossegue:

Lava avenidas de vícios /vielas de amores venais /lava albergues e hospícios /cadeias e hospitais /afoga empenhos favores/vãs glórias ocas palmas /leva o poder dos senhores/que compram corpos e almas /leva nas águas as grades …

Por seu turno, a liberdade é uma bandeira que Adriano nunca deixou de brandir, de desejar, desde o tempo da capa negra que se assemelhava a uma rosa negra, símbolo do desejo de liberdade, das lutas travadas com as forças da opressão. Tal é notório na composição “Capa negra rosa negra” ‑ capa negra, rosa negra sem roseira…/vira costas à saudade /bandeira da liberdade.”

Confessa-se, de seguida, livre cantador como as aves, que não pode viver na repressão.

O tema popular “Lira” confere a Adriano o estatuto de um verdadeiro poeta que na impossibilidade de sobrevivência da lira, símbolo da liberdade musical e poética, solicita, por analogia ao mito de Orfeu, a sua própria morte. Uma questão se impõe: como poderá o poeta exercer a sua missão se acaso não puder usufruir da sua própria liberdade?

Perante a morte da lira, ícone do encantamento quer da linguagem poética quer da linguagem musical, o poeta deixou de ter importância, de ter valor numa atitude de desafio, de coragem. Propõe-se morrer com o objetivo de se tornar mártir, apelando, deste modo, para a nobreza do ato poético. Pretende o poeta apelar à consciência e sucessiva mobilização das demais pessoas para o seu sofrimento:

Morte que mataste lira /mata-me a mim que sou teu /Morte que mataste lira /mata-me a mim que sou teu /mata-me com os mesmos ferros /com que a lira morreu …/o que mais sofre sou eu.”

O Tema do Ultramar foi motivado pelo forte descontentamento, não só dos homens mobilizados para combate como dos seus familiares e uma grande maioria dos portugueses da época. Vários foram os motivos evocativos da referida guerra, caso da canção “Pedro Soldado” que indica o caminho de tantos jovens que interromperam as suas aspirações para, segundo os preceitos da ditadura, defender “os interesses da nossa pátria”. Assim partiram com o nome bordado num saco cheio de ilusões, como refere a composição de Adriano:

Triste vai Pedro soldado numa rota de barcos que vai para a guerra,/ Já lá vai Pedro soldado/Num barco da nossa armada /…e leva o nome bordado num saco cheio de nada.

Outro dos temas musicais é a” Menina dos olhos tristes” de Reinaldo Ferreira que, à semelhança das nossas cantigas de amigo, lamenta-se, chorando, a ausência de um soldado, ente querido, que jamais regressará do Ultramar. A mensagem recebida pela Lua, sempre companheira, confidente em momentos de profundo sofrimento, informa que ele, afinal, virá defunto, num caixão eufemisticamente referido como caixa de pinho:

“Menina dos olhos tristes/O que tanto a faz chorar /O soldadinho não volta /do outro lado do mar / Anda tão triste um amigo /uma carta o fez chorar/O soldadinho não volta /do outro lado do mar/O soldadinho já volta /está mesmo quase a chegar/vem numa caixa de pinho/do outro lado do mar/desta vez o soldadinho nunca mais se fez ao mar/.

Este tema, sinédoque de um problema sociológico que perpassou transversalmente toda a sociedade portuguesa entre 1961 e 1974, infligiu milhares de vítimas mortais e feridos com marcas físicas e traumáticas que perduram até nossos dias, aliás como já foi referido no capítulo referente ao tema.

O argumento é repetido na canção: “As balas”. Adriano e Manuel da Fonseca estabelecem uma dicotomia entre a vida e a morte. Em todos os três primeiros versos de cada quadra, à exceção da última, os poetas tecem um elogio à vida por oposição ao último verso de cada quadra onde alertam para o sofrimento das balas que derramam sangue. De destacar a última quadra que reforçam as razões e as consequências da utilização das balas:

“Dá o Outono, as uvas e o vinho, /Dos olivais, azeite nos é dado. /Dá a cama e a mesa o verde pinho, /As balas deram sangue derramado. (…) Essas balas deram sangue derramado, /Só roubo e fome e o sangue derramado. /Só ruína e peste e o sangue derramado, /Só crime e morte e o sangue derramado.”

A “Canção do Soldado” satiriza, recorrendo a uma metáfora cabalística – das sete balas, sete flores de limão p’ra lutar até morrer. Desta afirmação subjaz a violência atroz de uma luta fratricida. O conceito de guerra é satirizado por uma pretensão absurda de lutar até vencer como se a guerra se vencesse, única e exclusivamente, através das armas. Para contestar essa ideia, os poetas, numa atitude pacifista, entregam o estandarte como renúncia à guerra:

Sete balas só na mão/ Já começa amanhecer. /Sete flores de limão/P’ra lutar até vencer. / Sete flores de limão/P´ra lutar até morrer. /Já o rouxinol cantou/Tomai o nosso estandarte. / No seu sangue misturado/Já não há desigualdade. /No seu sangue misturado/Já não há desigualdade.
Sete balas só na mão/ Já começamos a amanhecer. /Sete flores de limão/Para lutar até vencer.

Um outro grande tema de Adriano, e simultaneamente de carácter relevante para a nossa identidade como povo, é a Emigração. O papel de Adriano foi fundamental para que as pessoas se interrogassem sobre as causas do êxodo de muitos portugueses. Para tal, interpretou um poema da galega Rosália de Castro: “Cantar de Emigração”. Neste poema, a poetisa referindo-se à sua região da Galiza tece um panorama, que na perspetiva de Adriano Correia de Oliveira, se repete em Portugal. Na impossibilidade de o poder referir livremente por razões políticas, Adriano recorre a este tema musical com o objetivo de confirmar mais um estigma da sociedade portuguesa para além do referente à guerra do ultramar – a saga da emigração. É estabelecido um paralelismo entre as regiões da Galiza e a do Norte de Portugal pelas suas afinidades socioculturais e geográficas.

Esta composição musical deixa antever, de uma forma suave e cantante, o êxodo de muitos patriotas que, vivendo em Portugal em condições de extremas dificuldades económicas, abandonam o país e rumam em direção a um outro, com todas as condicionantes previsíveis e imprevisíveis, que ofereça melhores condições de vida. As pessoas vão em busca de uma sobrevivência que seja menos penosa, mais promissora.

Na primeira quadra, a poetisa alerta para o perigo de todos os homens abandonarem a terra – os desvalorizados espaços rurais, deixando de haver a força humana para cortar o trigo, o pão de que as populações necessitam. Para Vieira (2000:25)

(…) os campos despovoam-se ainda mais e cava-se um grande fosso estrutural entre o litoral e o interior do país. A agricultura estagna, com uma taxa de um por cento ao longo da década …a população ativa nos campos decresce, entre 1960 e 1970 de 44% para 32% do total. Este é o momento em que Portugal, contrariando a vontade mais íntima de Salazar, perde a identidade rústica assumindo um perfil de país industrial.

Na quadra seguinte ecoam as palavras dolorosas: órfãos, órfãs, solidão, mães sem filhos, filhos sem mães. O que resta da emigração condensa-se no simbolismo da expressão metafórica ‑ campos de solidão. Esta espelha o consequente desmembramento da família por força de uma sociedade espartilhada com deficiências a nível dos tecidos económico, social, político e cultural.
Este canto de intervenção pretende despertar nas pessoas o sentimento evocado na apóstrofe: “coração” para, de seguida, imbuí-lo de sofrimento resultante das longas ausências mortais. Surgem, nesta quadra, as viúvas angustiadas pelas ausências dos maridos ou em trabalho no estrangeiro ou na guerra colonial. A este propósito, Vieira (2000:25) explica:

(…) quando os homens não vão para África combater pela pátria, vão para França lutar pela vida.Com a guerra a emigração é outro elemento da radical mudança da paisagem humana operada em Portugal nos anos sessenta.

A repetição da primeira quadra atenua a angústia das famílias destroçadas por um país sem condições quer económicas quer políticas. De acrescentar neste poema musicado, a alusão ao mitologema português aqui presente: a vocação nostálgica do impossível como refere Durand (1986:15). O poema gera uma reação nostálgica de uma esperança desesperada, sendo este o significado da habitual expressão “saudade” tão característica dos portugueses.(1) A resignação, o sofrimento de “longas ausências até mortais que transparecem da composição, ao estilo de balada, evoca as autóctones cantigas de amigo:

Este parte, aquele parte /e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens /que possam cortar teu pão
Tens em troca /órfãos e órfãs
Tens campos de solidão /tens mães que não têm filhos
Filhos que não têm pai
Coração /que tens e sofre
Longas ausências mortais /viúvas de vivos mortos
Que ninguém consolará

Por sua vez, na canção de Rosália “Emigração” interpretada por Adriano, assistimos a uma réplica de situação real. Na verdade, a poetisa apresenta a sua mãe em discurso direto. Esta suplica a Deus a proteção para a filha. A cantora prossegue, enfatizando a infelicidade de um outro homem ter nascido e não dispor das mínimas condições para se realizar tanto profissional como economicamente.

Finalmente, a compreensão da poetisa por quem abandona a sua terra “coitado”. Ela considera que terá razões plausíveis para trocar a sua vida de aparente bem-estar na sua terra, por uma situação desconhecida, diferente, contudo, mais promissora em termos financeiros. Salientamos o epíteto de “coitado”, de alguém que não se conforma com um possível destino que lhe estaria “predestinado”. Deste modo, aventura-se numa luta, num esforço que lhe poderá suscitar uma vida melhor quer a nível económico, quer social, quer político.”(2) Esse sofrimento nostálgico, de separação relativamente à família e ao país está vincado, uma vez mais, no tema cantado por Adriano ”Quando no Silêncio das noites de luar”(3)

Quando no silêncio das noites de luar, /Ia uma estrela pelos céus a correr, /
Dizia minha mãe de mãos erguidas. /Dizia minha mãe de mãos erguidas.
Deus, te guie por bem. /Deus, te guie por bem.
Desde então quando vejo que um homem, /Deixa a terra onde infeliz nasceu, /
E fortuna busca noutras praias, digo. /E fortuna busca noutras praias, digo
Deus, te guie por bem. /Deus, te guie por bem.
Desde então quando vejo que um homem, / Deixa a terra onde infeliz nasceu,
E fortuna busca noutras praias, digo. / E fortuna busca noutras praias, digo.
Não o culpo coitado não o culpo, / Nem lhe rogo pragas nem castigos,
Nem de que é dono de escolher, me esqueço. Nem de que é dono de escolher, me esqueço
Porque quem deixa o seu torrão natal, / E fora dos seus caminhos põe os pés,
Quando troca o certo pelo incerto. /Quando troca o certo pelo incerto.
Motivos há-de ter. / Motivos há-de ter. / Motivos há-de ter.”

Para finalizar, Manuel Alegre, citado por Barroso (2000:169), conclui sobre a importância dos dois cantautores no canto de intervenção, destacando o valor da interpretação musical na divulgação dos textos poéticos,

Importa salientar a importância que tiveram as trovas do Adriano e as baladas do Zeca como estímulo e fatores de mobilização da luta estudantil. Importa ainda sublinhar que essa junção da poesia e da música constituiu na altura o verdadeiro vanguardismo estético português (…) Pela voz de Adriano Correia de Oliveira os poemas chegavam ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa memória comum e do nosso canto coletivo. Eu já não sinto como meus alguns poemas que Adriano cantou”.
  
   
________________
(1) A consciencialização conseguida através das canções de intervenção foi reconhecidamente eficaz como destaca Sá Viana, Ministro da Defesa citado por Raposo (2000:21) “os efeitos demolidores no moral das tropas que certas canções produziam.”
(2) Adriano confessa in Raposo (2000:21) que a canção antes do 25 de Abril, desempenhou um papel importante, um papel complementar da outra luta, a luta política junto das massas populares e da classe operária. Ela foi o estímulo, o grito de alerta, a denúncia da ausência de liberdade, da exploração na terra e na fábrica, de guerra e da emigração. Pela minha parte insisti muitas vezes em fazer canções que pudessem tocar de certo modo, as pessoas naquilo que elas pudessem compreender mais facilmente”.
(3) Poema de Curros Henriquez, musicado por José Niza .
  
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 66-74.



Poderá também gostar de:
 


“El tema de la emigración en la poesía de Rosalía de Castro y su proyección en dos poetas gallegos”, María del Carmen Porrúa. Actas do Congreso Internacional de estudios sobre Rosalía de Castro e o seu tempo (III). Santiago de Compostela: Consello da cultura Galega / Universidade de Santiago de Compostela, 403-411. Reedición en poesia-galega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura. http://www.poesiagalega.org/arquivo/ficha/f/2342, 2012 [1986].



    


  


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/19/cantar-de-emigracao.aspx]

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

OS DEMÓNIOS DE ALCÁCER QUIBIR (Sérgio Godinho)





O D. Sebastião foi para Alcácer Quibir 
de lança na mão, a investir, a investir, 
com o cavalo atulhado de livros de história 
e guitarras de fado para cantar vitória. 

O D. Sebastião já tinha hipotecado 
toda a nação por dez reis de mel coado 
para comprar soldados, lanças, armaduras, 
para comprar o V das vitórias futuras. 

O D. Sebastião era um belo pedante 
foi mandar vir para uma terra distante 
pôs-se a discursar: isto aqui é só meu 
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu. 

Mas o mouro é que conhecia o deserto 
de trás para diante e de longe e de perto 
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa 
o mouro é que jogava em casa. 

E o D. Sebastião levou tantas na pinha 
que ao voltar cá encontrou a vizinha 
espanhola sentada na cama, deitada no trono 
e o país mudado de dono. 

E o D. Sebastião acabou na moirama 
um bebé chorão sem regaço nem mama 
a beber, a contar tim por tim tim 
a explicar, a morrer, sim, mas devagar 

E apanhou tal dose do tal nevoeiro 
que a tuberculose o mandou para o galheiro 
fez-se um funeral com princesas e reis 
e etcetera e tal, Viva Portugal.
   
Sérgio Godinho, De Pequenino Se Torce O Destino1976
   



Ficha de abordagem do tema musical “Os Demónios de Alcácer-Quibir”



1. Caracteriza o ritmo da canção salientando a sua expressividade.
2. O autor pretende revelar a sua caracterização da personalidade de D. Sebastião.
a) Explicita-a.
b) Qual é a figura de estilo predominante da qual se socorre o poeta para a caracterização de D. Sebastião? Justifica.
3. Caracteriza a linguagem utilizada recorrendo a dois exemplos.
4. Estabelece um paralelismo entre a mensagem desta canção de Sérgio Godinho e a obra estudada: “Frei Luís de Sousa “.

José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, p. 181.

  

Textos de apoio

A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula: “Os Demónios de Alcácer Quibir” (letra e música de Sérgio Godinho)

Ritmo– Ternário, em clara imitação de cavalos a galope.
Melodia – Ao estilo do próprio cantautor, desconcertante, com alterações de ritmo e melodia.
Apresenta influências de música jazz, valorizando o pendor satírico do texto.
Harmonia – Complexa, rompendo com a rotina.
Análise semântica ‑ Este tema musical, segundo Gilbert Durand (“O Imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco”, in Cavalaria espiritual e conquista do mundo. Lisboa, Instituto nacional de investigação científica, 1986), tem como temática o imaginário profundo do povo português – O do Salvador D. Sebastião, rei que espera escondido a hora do regresso. Contudo, Sérgio Godinho refuta este mito e caracteriza com sarcasmo o arrojado desejo de vencer os mouros no seu próprio reduto. Utilizando uma linguagem oralizante, com expressões populares, o poeta pretende ridicularizar, abanando as consciências saudosistas que sempre aspiraram pela vinda do desejado e malogrado D. Sebastião.
Este Rei acreditava que uma vitória no Norte de África abriria novas alternativas para o alargamento territorial e consequente desenvolvimento financeiro do país. Seduzido por um projeto político sem limites e por ideais cavaleirescos, D. Sebastião lançou-se para a campanha de África coma ideia de engrandecer o Império Português, como refere Fernando António Baptista Pereira (O Retrato do rei Sebastião como cavaleiro do Graal. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1986, p. 73)
“…Esta junção do imaginário cavaleiresco com propostas megalómanas de redenção do todo nacional informa a assunção final da sua imagem de salvador da pátria pela conquista de Marrocos, chave para todos os problemas imediatos da expansão portuguesa.
Para tal desígnio, contraiu empréstimos provenientes dos fundos dos cristãos novos e despendeu somas elevadas para apetrechar um exército que pudesse vencer todas as adversidades.
O cantautor imprime um ritmo vivo, bélico, apostando numa cavalgada musical que nos transporta até à batalha a fim de poder libertar os “demónios,” como forma de exorcizar a consciência colectiva do povo português. De salientar a linguagem utilizada: coloquial, moderna, descomplexada, com uma mescla de expressões familiares e populares que pretendem também com o recurso à ironia, desmistificar a lenda. De acrescentar que orquestração e letra estão interligadas por uma desenvoltura na interpretação própria de um “trovador” histórico da música portuguesa ‑ Sérgio Godinho.
A primeira quadra satiriza através da repetição do verbo “investir” a medida julgada correta ‑ a de apostar no Norte de África. O terceiro e quarto versos ridicularizam, por hipálage -“cavalo atulhado de livros de história” em alusão a D. Sebastião que, segundo o Padre Amador Rebelo (Idem p.72 nota de rodapé nº 16), seu mestre, gostava imenso de ler livros de feitos históricos. A introdução das guitarras de fado na guerra ameniza a violência que se perspetiva. A segunda quadra destaca o tom irónico da hipoteca do país resultante da atitude assumida. A quadra seguinte apelida o rei de” pedante”, vaidoso, autoritário –“…Quem manda aqui sou eu”. A quarta quadra apresenta uma das razões da derrota portuguesa – o desconhecimento do terreno. A aventura bélica está presente no tema musical com uma parte desconcertante, com sons soltos, desgarrados, projetando a ideia de desorganização, de violência que desemboca na imagem satírica do rei ter perdido a guerra e ainda ver como companhia na cama uma espanhola referência - à mulher de Filipe II de Espanha – Ana de Áustria. A sátira prossegue com a imagem da morte de um jovem a beber como se de uma taberna se tratasse a explicar a frase que historicamente lhe é reconhecida: de não ter aceitado rendição e ter respondido que “…morreria sim mas devagar!…”Sérgio Godinho conhecedor de tal frase atribuída ao rei utiliza mais uma vez o tom sarcástico para menosprezar o rei.
Finalmente, a última quadra culmina com o nevoeiro, arquétipo desprezado pelo poeta pela forma leviana com que aborda a questão:”…apanhou tal dose do tal nevoeiro “O poeta aproveitou o nevoeiro para inventar a doença da tuberculose e divertir-se, uma vez mais, com o argumento de ter tido, finalmente, um funeral digno homenageado, em presença, por princesas, reis e outros aristocratas. Este é, segundo Gilbert Durand (O imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco. Lisboa, Instituto nacional de investigação científica, 1986, p.16), um mitologema da sociedade portuguesa” o do salvador, do rei que espera, escondido a hora de regresso “Contudo, com este cantautor o mitologema surge de forma invertida, negando-o pela forma sarcástica. A expressão final “Viva Portugal” pretende evidenciar o desprezo que este mitologema desperta no autor – um cansaço de um país que persiste, até agora, adiado a viver sob a alçada de um sebastianismo (Machado Pires, E -utopia: Revista electrónica de estudos sobre utopia, 2005. Internet disponível em http:/www.letras.up./pt/upi/utopiasportuguesas/e-topia/revista.htm, consultado em 2010-06-25)
Símbolo da utopia de um povo infeliz e secularmente oprimido (pela coroa, pela igreja, pelo Estado, por ditadores, por potências estrangeiras, potentados económicos, etc.), mas também igualmente pouco ou nada habituado a ser dono do seu próprio destino e que se sente eternamente órfão de um líder iluminado que o encaminhe, num futuro mais ou menos distante, para um horizonte de glória (…) povo (…) que o leva a gostar de carismas, auras míticas, destinos de missão, promessas milagres salvações espetaculares …um povo (generoso mas imprevidente ?!) que pensa mais com o coração do que com a cabeça …só a verdadeira cultura e a educação darão mais autoconfiança coletiva.
Sérgio Godinho, com este tema, pretende denunciar o sintoma de decadência, endógeno do povo português em se iludir na “emergência cíclica do inconsciente cultural português, em períodos de crise, de viragem, de profunda mutação do mito sebastiânico (ou de tendências messiânicas que com ele se confundem). “O poeta insurge-se contra a mitogenia como força impulsionadora do pensamento e da arte (incluindo a literatura). Os portugueses gostam de mitos; não os enterram, glosam-nos, desenvolvem-nos.” (Ibidem)
Os portugueses fomentam este mitologema porquanto ele parece constituir-se como resposta patriótica do subconsciente coletivo.
Já Almeida Garrett, na obra de carácter dramático lecionada no programa do 11º ano do Ensino Secundário ‑ Frei Luís de Sousa, ao provocar a tragédia familiar, pretendia apelar para a necessidade de expurgar o sentimento patriótico do povo português. Como mensagem, transparece a ideia que o passado saudosista e todas as conotações daí advindas assombram e, consequentemente, impedem a regeneração da consciência coletiva do povo. Urge colocar, por isso, um final perentório, abrupto, tal com termina o tema musical, exprimindo a impaciência de quem acredita na mudança de mentalidade.
  
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 137-140.

SERGIO GODINHO


O Cantautor Sérgio Godinho
  
Sérgio Godinho, nascido em 31 de Agosto de 1945, empenhou-se desde a sua adolescência, por influência dos pais anti-salazaristas, em demarcar-se da política vigente ao negar os seus préstimos como militar ao serviço da guerra colonial. Como consequência, abandonou o país e após ter visitado a Suíça instalou-se em Paris na companhia de José Mário Branco e de Luís Cília. Nesta cidade, assistiu à célebre revolta dos estudantes franceses denominada “Maio de 68”. A experiência adquirida com esta luta, coadjuvada com a participação na propalada ópera rock “Hair” possibilitou abertura de novos horizontes essenciais para a escrita e composição de temas musicais. Como o próprio cantautor refere, a propósito da sua participação na citada ópera rock,

(…) Entrei no “Hair” em 69 porque uma das coisas que senti mesmo intuitivamente é que esses universos eram conjugáveis. Não foi por acaso que mais tarde faço uma canção: “a paz, o pão, habitação”, que é um rock puro sobre as palavras deordem, eu chamo aquilo um graffiti musical, portanto esses universos eram conciliáveis. Raposo (2007:96)

Apaixonado confesso de José Afonso, Sérgio Godinho considera-o “um melodista nato extremamente talentoso e criativo” (In Mundo da Canção, Volume 1, Lisboa, 2005).

Após ter composto canções em francês, iniciou o seu longo percurso musical com o L.P. ”Os Sobreviventes”. Deste trabalho, recebeu em 1972, o prémio da Casa de Imprensa como o melhor autor da letra e, em 1973, foi premiado como melhor disco do ano.

Em 1972, o cantautor grava o L.P. “Pré-Histórias”. São estes dois álbuns que, por precederem a data da Revolução de Abril de 1974, nos interessam para o estudo deste trabalho de investigação. Eles traçam aspetos marcantes que caracterizaram a identidade portuguesa da época.

No tema “Descansa a Cabeça (Estalajadeira)”, Sérgio Godinho destaca o facto de se considerar apátrida, sem quaisquer ligações ao país. Considera-se um cidadão do mundo que, por mera casualidade, nasceu neste canto – em Portugal. O poeta assume uma posição de perfeito desafio relativamente às autoridades políticas do país. Por outra via, valoriza, quer os elos familiares quer a sua liberdade. Salientamos a sua reiterada preocupação em considerar-se um cidadão livre, sem qualquer espécie de constrangimentos:

(…) Vim/ ao mundo/por acaso/Em Portugal não tenho pátria / 
Sou sozinho / e sou da cama dos meus pais 

Sou /donde vos apetecer 
sou do mar e sou do corpo /das mulheres estranguladas nos canais […] 

A sua contestação à guerra do Ultramar, facto que motivou o abandono do país, está evidenciada nos versos: 

“Sei /fazer a guerra à guerra /sei histórias verdadeiras 
sei resistir ao calor, aos temporais 

Sei /rasgar quando é preciso 
é preciso tantas vezes 
duas vezes, outras tantas, muitas mais.

O autor exprime uma forte clarividência que contrasta com o mal-estar resultante da hipocrisia de todos quantos usavam falsas palavras para ludibriar aqueles que pretendiam ser livres. O ambiente de repressão, de medo, pelo facto de nunca se saber quem são os confidentes ou os denominados “bufos” do regime, está patente na canção “Até Domingo”. Encontramos, neste tema, um apelo à união dos opositores contra a mentira. Caso assim não seja, não se poderá esperar outro desfecho senão a morte silenciada:

(…) E para aqui estamos em salamaleques /a lamber mãos feitas para abanar leques a pedir bis, a gritar bravo, /a aplaudir, muito bem
e até domingo que vem 
Nunca vivi nada em vão /vi muita palavra tornar-se 
em tanta gente em disfarce /e em muita boca traição
E em muita boca traição /e em cada de nós um olhar 
se nos vierem falar /sabemos quem eles são 
Sabemos quem eles são /como quem sabe de si mesmo 
o medo, a vida desfez-mo /a letra me tomarão 
Sabemos já d´antemão /quem nasceu p´ra viver de luto 
a flor de Junho dá fruto /o homem sozinho é que não/ 
O homem sozinho é que não /que diga quem quase morreu 
a perguntar "quem sou eu" /e a viver da solidão
E a viver da solidão /fomos pouco a pouco fazendo /
a nossa cova no vento /abrigados num caixão “

O tema “A-E-I-O” revela-se contra a tradição, os costumes que passam de velhas gerações para as novas, sem que esse facto se constitua algo de positivo, que se possa valorizar. O poeta constata que os portugueses sentem que as suas vidas não evoluem devido aos variados constrangimentos quer a nível económico, quer social, quer político. A repressão exercida sobre as pessoas é, de tal forma, que elas não se sentem motivadas para desenvolver as suas tarefas de uma forma construtiva. O ambiente de censura e de opressão geram tristeza, mesmo angústia. O poeta deseja o aparecimento de um novo dia, uma nova oportunidade sob um regime democrático. Em estilo próprio Sérgio Godinho revela a sua principal característica - a ironia, através de expressões populares, dialógicas, informais, irreverentes, com efeitos sonoros repetitivos a destacar a agressão de que o próprio, no final, se torna vítima:

“A-E-I-O vai para a neta o que foi d´avó 
/A-A-E-I-O vai para a neta o que foi d´avó (refrão)

A vida de quem anda /às ordens de quem manda 
já cheira que tresanda /não anda nem desanda 
não anda nem desanda /não anda nem desanda 

A vida de quem chora /à espera duma aurora /que leve a noite embora 
bem perde p'la demora /bem perde p’la demora /bem perde p´la demora . 
(A-A-E-I-O...) 
(A vida de quem anda...) 

-A-E-I-O bate na neta quem bateu n´avó /A-A-E-I-O bate na neta quem bateu n´avó 

A-A-E-E-I bate na neta quem bateu em ti /A-A-E-E-I bate na neta quem bateu em ti.

O mal-estar prossegue com o tema “Senhor Marquês.” Ao seu estilo frontal, Sérgio Godinho denuncia a pobreza, a miséria dos mais necessitados. O poeta serve-se da figura do Marquês para demarcar ainda mais o fosso entre o rico e o pobre que vive nos bairros de lata. A exploração é de tal forma, que uma vez assaltado, o Marquês não desperta qualquer preocupação e consequente proteção, tanto por parte das restantes pessoas bem como das autoridades. Comprova a passagem, que o povo manifesta desprezo para com o rico em caso de assalto. Tal é o desgaste da sua posição de superioridade e simultânea indiferença para com os demais. O cantautor, ao invés, assume uma posição de compreensão, de compaixão para com os explorados:

”Se nós somos ladrões /temos razões 
Que não são as suas, /são minhas, tuas/ 
E de outros mais /de muitos muitos mais / 
Olhe pra aqui uma vez /Senhor Marquês 
Do bairro da lata /Está A gente farta 
Senhor Marquês /E o nosso fim do mês 
Passe pra cá a carteira /Da sua algibeira 
Carteira em couro /Relógio de ouro 
Não lhe faz falta /E faz-nos jeito à malta 
Ó da guarda, ladrões /Pelos meus brasões 
Ai meu Deus socorro /Jesus que eu morro 
Grita o Marquês /Ninguém vem desta vez 
Venha por aqui ver isto /Senhor Ministro 
Que estes bandidos /Uns malnascidos 
Ainda sem dentes /E já delinquentes
Meta aqui o nariz /Senhor Juiz 
Nós somos bandidos /ou malnascidos? 
Senhor Ministro /Perdoe se insisto.”

A canção “Que Bom Que É” satiriza, recorrendo ao cómico de situação, presente em momentos vários. Sérgio ironiza os grandes males de que a sociedade, na sua ótica, padece e que urge alterar, nomeadamente o Sebastianismo: Qual faca enterrada nas costas e a consciência das implicações negativas daí geradas: a fome, a ineficácia da crença religiosa, a guerra colonial e a exploração laboral dos operários. A abordagem destes temas comprova a preocupação do cantautor perante uma sociedade anquilosada a necessitar de amplas reformas estruturais. Sérgio Godinho, para suavizar, mitigar as críticas, recorre, uma vez mais, à ironia, ao discurso hiperbólico, ao paralelismo, à repetição, características próprias do dialogismo utilizando expressões do quotidiano de forma a aproximar-se do mundo real. Torna-se uma estratégia com o objetivo de motivar, de se identificar, o mais possível, com as pessoas que se sentem abandonadas:

“Vivo com uma faca espetada nas costas, ai!

Que bom que é /que bom que é /que bom que é 
Sentado à espera de D. Sebastião /A cadeira nem é minha, é do papão 
Que bom que ele é, /que bom que ele é, 
- Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pra outra vez 

Vivo com a fome entalada na garganta /Que bom que é
Que bom que é /que bom que é 
Sentado à espera que o céu me dê pão 
A cadeira, emprestou-ma o sacristão 
Que bom que ele é /que bom que ele é 
- Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pra outra vez 

Vivo com a guerra a bater à minha porta 
Que bom que é /que bom que é 
Que bom que é /Sentado à espera do obus dum canhão 
A cadeira, emprestou-ma o capitão /que bom que ele é 
Que bom que ele é 
- Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pra outra vez 

Vivo a trabalhar nove dias por semana 
Que bom que é /que bom que é 
Que bom que é /Sentado à espera da revolução 
A cadeira, emprestou-ma o meu patrão /que bom que ele é 
Que bom que ele é 
- Um, dois, um-dois-três de Oliveira & quatro 
Vivo com uma faca enterrada nas costas, ai! 
Que bom que é /que bom que é 
Que bom que é /Sentado à espera de D. Sebastião 
A cadeira nem é minha, é do papão 
Que bom que ele é /que bom que ele é 
- Um, dois, um-dois-três, esta agora vai de vez “.

O tema: “O Charlatão” aborda a temática do enriquecimento do vendedor de ilusões numa sociedade estigmatizada por um grave problema social: a ausência dos maridos que, ou estão presos por crimes cometidos, ou cumprem serviço militar na Guerra do Ultramar, onde ou já faleceram ou se encontram feridos. Finalmente, a ausência do marido poder-se-á dever ao facto de ter ido para o estrangeiro à procura de uma ambicionada solução para a vida familiar, com as inerentes dificuldades de adaptação a uma sociedade que apresenta difíceis condições de adaptação: uma nova língua, um trabalho diversificado, uma outra habitação, em síntese, um emigrante a viver, isolado de sua família, uma experiência num país com costumes e tradições diferentes:

“Numa ruela de má fama /faz negócio um charlatão 
Vende perfumes de lama /anéis de ouro a um tostão 
Enriquece o charlatão 

No beco mal afamado /as mulheres não têm marido 
Um está preso, outro é soldado /um está morto e outro ferido 
E outro em França anda perdido”

O retrato do país apresentado pelo cantor no tema “O charlatão “testemunha o protótipo do político comparável ao vendedor da ” banha da cobra” que, com a sua mentira, consegue ludibriar as pessoas com as artimanhas utilizadas; contudo, a realidade é mais complexa:

“Como esta narração não bastasse: ”os catraios passam fome /têm os dentes enterrados no pão que ninguém mais come /os catraios passam fome /entre a rua e o país /vai um passo de um anão.

Destas imagens extraímos uma sociedade doente, perdida, sem rumo onde as pessoas aceitam a ilusão de um charlatão que ocupa “o trono”: Vai rei que ninguém quis/vai tiro de um canhão /e o trono é do charlatão.
Parece-nos que esta ideia de considerar o político um charlatão perdurou ao longo dos anos. Esta noção é reveladora de uma total descredibilização da classe política do regime salazarista.

Enquanto as crianças vivem em más condições de salubridade e passam fome, o charlatão exibe a sua ostentação ocupando a cadeirado poder. Concluindo, o Charlatão é o representante do governo fascista.

[…]
Na ruela de má fama /o charlatão vive à larga 
Chegam-lhe toda a semana /em camionetas de carga 
Rezas doces, paga amarga 

No beco dos malfadados /os catraios passam fome 
Têm os dentes enterrados /no pão que ninguém mais come 
Os catraios passam fome 

P’rá rua saem toupeiras /entra o frio nos buracos 
Dorme a gente nas soleiras /das casas feitas em cacos 
Em troca de alguns patacos […] 

Entre a rua e o país /vai o passo de um anão 
Vai o rei que ninguém quis /vai o tiro dum canhão 
E o trono é do charlatão 

Entre a rua e o país /vai o passo de um anão 
Vai o rei que ninguém quis /vai o tiro dum canhão 
E o trono é do charlatão.”

O Tema “Pode alguém ser quem não é” apresenta uma mulher que lamenta a partida do seu marido para o Brasil. É no jogo dos deícticos que se estabelece a dicotomia entre os dois países:
“-Senhora de preto aqui é quase Inverno/aí quase Verão 

Mês d’Abril, águas mil 
No Brasil também tem 
Noites de S. João e mar”

Contudo, o “leit motif” reside no facto de o poeta questionar-se como ele próprio poderá sentir-se livre no Brasil quando o seu compatriota se sente perseguido, preso impedido de emitir livremente a sua opinião:

Diga o que lhe dói, é dor ou saudade/que o peito lhe rói 
O que tem, o que foi/o que dói no peito? 
-É que o meu homem partiu 
[…] 
Pode alguém ser livre/se outro alguém não o é 
a algema dum outro/serve-me no pé 
Nas duas mãos, / sonhos vãos, pesadelos 
Diz-me: /pode alguém ser quem não é?”

O sofrimento persiste no tema “Já A Vista Me Fraqueja”. Neste, o cantautor enuncia que não tem medo da morte. O que mais o afronta é sentir o mesmo que o seu irmão.

 Na canção “O Barnabé”, Sérgio Godinho evidencia a inteligência e a experiência populares que perante pseudo-doutas pessoas não se deixam ludibriar. O cantautor pretende valorizar o realismo, a humildade, a experiência de um povo que já não se deixa seduzir por promessas vãs ou doces quimeras anunciadas pela classe dirigente:

Vieram profetas/vieram doutores 
Santos milagreiros, poetas, cantores 
Cada qual com um discurso diferente 

P'ra curar a vida da gente/e a gente parada 
Fez orelhas moucas/que com falas dessas 
As esperanças são poucas/mas quando o Barnabé cá chegou 
Toda a gente arribou 
Toda a gente arribou 
Que é que têm o Barnabé que é diferente dos outros…”

O único discurso que mobilizou as pessoas foi o do Barnabé; foi diferente dos outros visto que o seu objetivo era “falar verdade”. O discurso político não era credível aos olhos do povo.

O grito da canção ”Eh meu irmão” é um alerta para o medo de ter medo ou seja, pretende encorajar o homem a vencer as suas fobias. Destacamos a estrofe que anuncia um povo que se manifesta, nesse momento, sem receios na rua, espaço que lhe pertence e onde devia poder expressar livremente a sua opinião:

Eh, meu irmão, que é que tens, /parece que viste o diabo! 
Vi mesmo, bateu à porta/disse que o povo estava na rua 
E que a rua era do povo/que é pra quem ela foi feita 
E o povo somos nós todos/e eu, então gritei: 
Ai o diabo!

O irmão, apesar de ser incentivado a lutar contra o medo, não conseguiu ultrapassar essa barreira. Por essa razão, faleceu numa prisão qualquer, sem ter vivido verdadeiramente a sua vida contudo recebendo a respectiva e habitual bênção religiosa:

(…) Eh, meu irmão que é que tu tens/o que é que te pôs assim! 
Foi o medo da água fria/o medo da vida, o medo da morte 
O medo da lua cheia/o medo da lua nova 
O medo até de ter medo/que me faz gritar 
Ai, que medo! 

E assim com medo de tudo/perdeu meu irmão a vida 
E assim com medo de tudo/viveu-a e não foi vivida 
Meteram-no num caixão/às duas por três, num dia de Verão 
Desceram-no p’ra uma cova/deitaram terra por cima 
Espetaram-lhe uma cruz/ ita missa est, Ámen”.

Sérgio Godinho no tema: “Que Força é Essa” abandona o estilo irónico para optar por uma linha reivindicativa e denunciadora de uma exploração dos operários, classe dos mais desfavorecidos.

É uma canção que apela aos trabalhadores para reivindicarem os seus direitos perante um esforço que não é devidamente recompensado. O “amigo”, porque tem por obrigação agradar ao seu patrão, independentemente das condições familiares, sociais e económicas, sente-se revoltado.
A sua tarefa é, única e exclusivamente, obedecer ao seu superior de quem recebe o seu reduzido salário.

Vi-te a trabalhar o dia inteiro/Construir as cidades para os outros 
Carregar pedras, desperdiçar/Muita força p'ra pouco dinheiro 
Vi-te a trabalhar o dia inteiro/Muita força P’ra pouco dinheiro 

Que força é essa/que força é essa 
Que trazes nos braços/Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer/Que força é essa, amigo 
Que força é essa, amigo/Que te põe de bem com os outros 
E de mal contigo 
Que força é essa, amigo 
Que força é essa, amigo.

Finalmente, o poeta instiga o “amigo trabalhador” a exprimir a sua revolta, o seu poder reivindicativo a fim de debelar as injustiças de que é vítima.

Não me digas que não me compreendes/Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste/Uma força a crescer-te nos dedos 
E uma raiva a nascer-te nos dentes/Não me digas que não me compreendes 
Que força é essa…

Como corolário deste espírito de incentivo à coragem, a uma nova estratégia de esperança na transformação da sociedade há muito desejada, podemos analisar o poema musicado “Maré Alta”. O cantautor” concita metaforicamente o companheiro a aprender a nadar, ou seja, a estar atento aos movimentos que conduzem a uma nova realidade política, designada de democracia. Esta lançará por terra “a maré baixa” gerida sobre a pobreza, sobre a miséria, sobre a exploração e sobre a repressão. Destacamos o facto de o poema se apresentar em maiúsculas como forma de atrair todas as atenções para o grande momento que se perspetiva. É um alerta que prenuncia a vinda da democracia que terá lugar em 25 de Abril de 1974 (Registe-se o facto de a composição estar em maiúsculas em forma de grito):

“APRENDE A NADAR COMPANHEIRO 
APRENDE A NADAR COMPANHEIRO 

QUE A MARÉ SE VAI LEVANTAR 
QUE A MARÉ SE VAI LEVANTAR 

QUE A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR AQUI 
QUE A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR AQUI 

MARÉ ALTA 
MARÉ ALTA 
MARÉ ALTA”.
  

José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 87-96.


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 Os Demónios de Alcácer Quibir (1976) é um filme português de longa-metragem deJosé Fonseca e Costa que, na linha do cinema militante, se embrenha na ficção, misturando situações verosímeis com fantasia histórica.
  
  
Realizada por José Fonseca e Costa e rodada entre julho e agosto de 1975, a longa-metragem Os Demónios de Alcácer Quibir estreou a 9 de abril de 1977, em Lisboa. Refletindo a imagem de um país que mergulha na memória de um passado recente (a vivência do regime fascista) e no espaço mitológico dos fantasmas que povoam o inconsciente nacional, é um filme onde se destacam as interpretações de António Beringela, Ana Zanatti, Sérgio Godinho (que aqui se estreia no cinema português), João Guedes e Zita Duarte. Destacam-se também o trabalho de câmara e a fotografia.
Os Demónios de Alcácer Quibir. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-09-14]. Disponível na www:

  
   

      

[Post orignal: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/18/os-demonios-de-alcacer-quibir.aspx]