quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A CANTIGA É UMA ARMA (José Mário Branco)


  
           
        
A cantiga é uma arma
e eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

há cante por interesse
há quem cante por cantar
há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
para não perder o lugar

O faduncho choradinho
de tabernas e salões
semeia só desalento
misticismo e ilusões
canto mole em letra dura
nunca fez revoluções

a cantiga é uma arma· (contra quem?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

Se tu cantas a reboque
não vale a pena cantar
se vais à frente demais
bem te podes engasgar

a cantiga só é arma
quando a luta acompanhar

     refrão
Uma arma eficiente
fabricada com cuidado
deve ter um mecanismo
bem perfeito e oleado
e o canto com uma arma
deve ser bem fabricado

a cantiga é uma arma  (Contra quem camaradas?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria

a cantiga é uma arma
de pontaria (Bis)
        
Compositor: José Mário Branco
Interpretação: GAC – Grupo de Acção Cultural
1975
        
        
Ficha de abordagem do canto de intervenção “A cantiga é uma arma ”
I
Classifica o tema musical quanto:
a) Ao ritmo
b) À melodia
c) À harmonia
II
1. Qual é o tema da composição?
2. Explica a importância da conotação presente nas palavras “bala” e “pontaria”.
3. Depois de elencar alguns tipos de cantor, qual será a opção assumida pelo próprio?
4. Qual é a opinião do poeta acerca do fado? Concordas?
5. Identifica o estado de espírito do poeta. Justifica
6. Qual é a tua opinião sobre o título da canção?
7. Estabelece um paralelismo entre a cantiga e o sermão.
        
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, p. 171.
         
            
Textos de apoio
        
Grupo de Acão Cultural (GACé um grupo musical nascido do período revolucionário em Portugal, após o 25 de Abril de 1974. Apesar de uma breve existência, fez história, influenciando musicalmente grupos posteriores como a Brigada Victor Jara, etc.
Participam no Festival RTP da Canção de 1975 com Alerta. Os primeiros singles são editados em 1975. Os singles foram reunidos no LP "A Cantiga É Uma Arma".
Em 1976 foi lançado o álbum "Pois Canté!".
José Mário Branco abandona o grupo. O GAC editará ainda os álbuns "Vira Bom" e "Ronda da Alegria" e terminaria em 1978.
Os quatro álbuns gravados pelo Grupo de Ação Cultural (GAC) ‑ Vozes na Luta foram remasterizados e editados em Abril de 2010.
http://pt.wikipedia.org/wiki/GAC, consultado em 2014-09-11.
        


        

A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula: “A Cantiga é uma Arma” (letra de José Mário Branco e interpretação do GAC – Grupo de Ação Cultural, 1975)
Ritmo ‑ Quaternário, vigoroso, marcial, concedido pela viola
Melodia ‑ Apresenta como base a viola, dominante em todo o tema. Destaque-se a presença de um coro a uma só voz, terminando em apoteose a duas vozes.
Harmonia ‑ Rica, com distinção entre as quadras e o refrão com subida de tom e de assimilação fácil. Sugere características próprias de um hino.
Análise semântica ‑ Este tema de ritmo vivo, marcado unicamente pela intensidade de um ritmo marcial de viola, testemunha a energia da estética do trecho musical. Quanto à melodia, apresenta-se rica com variações sonoras agradáveis facilmente memorizáveis. Na parte das quadras, a voz do cantautor assume o tom de comando de um grupo revolucionário que se opõe ao “status quo” de uma sociedade conformada. É contra o conformismo que esta canção se propõe lutar ao considerar a cantiga uma forma inteligente de contestar situações de injustiça. Não oferecerá dúvidas se considerarmos que a cantiga exprime uma vitalidade própria “tudo depende da raiva e da alegria”. O seu carácter pragmático ressalta dos objetivos que o autor do poema se propõe alcançar. O cantautor menospreza através do recurso estilístico – ironia, evidente na segunda estrofe, os cantores de entretenimento e os cantores hipócritas e por oposição valoriza todos quantos contestam pelo facto de não se conformarem com os atropelos de uma sociedade injusta “há quem cante por interesse, há quem cante por cantar”. Eivado de frases irónicas, José Mário Branco desvaloriza o fado pelo facto de contribuir unicamente para nos iludirmos já que lhe falta a dureza das palavras para, por um lado, atacar a burguesia, o poder instituído e, por outro, motivar as pessoas menos favorecidas: “a cantiga é uma arma contra a burguesia”. Este dístico é repetido várias vezes, dado o seu relevo na mensagem. “A cantiga é uma arma” que, para além de poder combater a injustiça, as guerras, as perseguições, o mal-estar, também pode anunciar alegrias, gerar momentos de júbilo, satisfação, de prazer. “A cantiga é uma arma depende da raiva e da alegria”. O cantautor adverte tanto o cantor que se limita a repetir os outros como aquele que se lança sozinho na aventura. Este poderá ter graves dissabores. A solução que apresenta é de que a canção, segundo o seu ponto de vista, só atinge o seu verdadeiro objetivo quando todas as pessoas efetivamente se mobilizam em torno da mensagem propalada pela cantiga, tornando-se esta, uma bandeira indicando o rumo correto a trilhar: “Se tu cantas a reboque/ não vale a pena cantar/ Se vais à frente demais/ bem te podes engasgar/ a cantiga só é arma/ quando a luta acompanhar.”
Esta apologia à luta política está patente na energia que ressurge das harmoniosas e possantes vozes do coro que motivam sinergias resultantes da união dos esforços de um povo.
Com este tema, pretende-se alertar os alunos para a importância da canção como símbolo do poder interventivo de um povo.
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 126-127.
        
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/11/a-cantiga-e-uma-arma.aspx]
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