sexta-feira, 12 de setembro de 2014

ELES COMEM TUDO (Zeca Afonso)


     

 

OS VAMPIROS


No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 
(Refrão)

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei (Refrão)

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos

Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo

E não se esgota
O sangue da manada·

Se alguém se engana
Com o seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada (Refrão)
       
José Afonso

        
        
Ficha de abordagem sobre “Os vampiros “ de José Afonso
        


1. Elabora uma apreciação à canção apresentada:
a) Ao ritmo
b) À melodia
c) À harmonia
2. Que sugestão te oferece o título?
3. Salienta na 2ª estrofe duas expressões que demonstrem crueldade.
4. Identifica duas expressões reveladoras de um clima repressivo.
5. Recordando-te da data do aparecimento deste tema pela voz de José Afonso em 1963, justifica o recurso a tal alegoria.
6. Estabelece um paralelismo temático entre esta canção e o capítulo IV do “Sermão de Santo António aos Peixes” do Padre António Vieira.
        
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, p. 168.
         

            
Textos de apoio
        
Os cantautores de referência na Música de Intervenção
Importa salientar a importância que tiveram as trovas do Adriano e as baladas do Zeca como estímulo e fatores de mobilização da luta estudantil. Importa ainda sublinhar que essa junção da poesia e da música constituiu na altura o verdadeiro vanguardismo estético português (…) Pela voz de Adriano Correia de Oliveira os poemas chegavam ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa memória comum e do nosso canto coletivo. Eu já não sinto como meus alguns poemas que Adriano cantou.”
Manuel Alegre
            
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José Afonso (1929-1987)
Cantautor de referência na Música de Intervenção
       
Nesta época crucial da vida académica coimbrã, surge, então, José Afonso com as “canções de réplica “como ele as apelidou. Letria (1999:36) referiu
(…) que elas são a réplica necessária e possível à inércia, à alienação, ao conformismo. Eram a resposta corajosa ao marasmo, o saudável abanão numa juventude que começava a ter nas suas próprias mãos a possibilidade real de construir o futuro à medida dos seus anseios e objetivos.
A crise académica de 1962 reforça a persistência dos estudantes das Universidades em não se deixar manipular pelas forças opressoras do poder, da recusa em aceitar acriticamente a sua integração quer nas diversas repartições, quer nas diferentes empresas, quer nas fileiras do exército que se encontra nas colónias há já um ano.
Na “Balada de Outono” José Afonso evoca a violência do seu sofrimento que confessa não cantar mais, provocando uma forte compaixão de todos quantos se deliciam com a sua maviosa voz:
Água das fontes/ calai/ó ribeiras chorai /que eu não torno a cantar / Rios que vão dar ao mar //deixem meus olhos secar /águas das fontes/calai/ó ribeiras chorai /que eu não volto a cantar/.
Estando no início de carreira, José Afonso ameaça não usar mais a sua voz para cantar. Poderemos argumentar que o cantautor pretende acalmar os seus detratores políticos recorrendo à ironia. Como constataremos, o poeta-cantor jamais parará de “incomodar “os senhores do lápis azul” da censura. Com o canto “Menino do Bairro Negro” dava início a uma nova trajetória de um movimento imparável, levando os estudantes e trabalhadores a trautearem os temas nas lutas que protagonizavam. Era a prova cabal que todos partilhavam das revoltas, das alegrias, das esperanças, dos desejos plasmados nas canções do destemido cantor.
Menino sem condição /irmão de todos os nus /tira os olhos do chão /vem ver a luz/ Negro Bairro Negro Bairro Negro /Onde não há pão, não há sossego /- Menino pobre o teu lar /queira ou não queira o papão /há-de um dia cantar esta canção.
A pobreza, a miséria e a referência a um “papão” impelem o cantautor à denúncia da injustiça.
José Afonso prossegue a nova vaga com a alegoria dos “Vampiros” reforçando a ideia de que é urgente combater a sinistra atmosfera gerada pela velha política opressiva e repressiva do regime ditatorial.
No céu cinzento sob o astro mudo /batendo as asas pela noite calada /Vêm em bandos /com pés de veludo /chupar o sangue/ fresco da manada / …Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada/…São os mordomos do universo todo /Senhores à força mandadores sem lei /enchem as tulhas / (….)No chão do medo tombam os vencidos /ouvem-se os gritos na noite abafada /jazem nos fossos/vítimas de um credo /e não se esgota o sangue da manada. /,
Já Mário Correia (1984:42) argumenta relativamente ao cantautor:
Ninguém, melhor do que ele transmite os seus desesperos e raiva, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza, a recompensa e glória de José Afonso.
A viragem histórica acontece em 1971.Como refere o próprio José Afonso, citado por Correia (1984:43),
Cada intérprete terá com certeza algumas coisas para dizer. Resta saber se é de facto nova a maneira como o faz e importante e urgente que o faça. De qualquer forma, não creio que uma geração de cantores populares possa subsistir sem uma forma que os impulsione, sem uma raiz genuína, originada na nossa tradição oral na qual se apoiem para não caírem em importações. Essa raiz existe mas é, em grande parte ignorada ou, o que é pior menosprezada.
Este argumento é comprovado com os temas populares recolhidos e cantados por José Afonso “Maria Faia, O Entrudo, O Resineiro, entre outros.
Convém não esquecermos as sucessivas fases da evolução da Música Portuguesa: desde o Fado, dito de Lisboa, passando pelo Cante Alentejano, pelo fado de Coimbra, pela Balada e por diferentes formas musicais do meio urbano, todos contribuíram para o aparecimento de uma raiz genuína.
Importa estabelecer, nesta fase, a diferença entre música tradicional e música popular, assunto que apoquentava todos quantos se dedicavam à música neste período. Segundo Eduardo Paes Mamede citado por Mário Correia (1984:43)
Música Tradicional é aquela que é criada pelo povo anónimo, transmitida, em geral, por tradição oral ou auditiva e que se encontra ligada a aspetos lúdicos, cerimoniais ou religiosos das comunidades. É sempre a expressão musical de culturas diferenciadas, denotando sensibilidades específicas e identificadora e identificada do povo que a cria. Trata-se de formas musicais muitas vezes antiquíssimas que sobreviveram, por isolamento das comunidades que lhes deram origem à atual bipolarização dos modos maior e menor, resistindo desta forma por tradição oral, a construção na antiga ordem modal só possível em comunidades rurais afastadas da diluição dos grandes centros urbanos.
São normalmente temas bastante antigos que chegaram até nós por tradição oral, com todas as possíveis variações, passível de adulterações porquanto passaram de geração em geração, sem registos escritos.
Por sua vez, Mário Correia (1984:44) propõe uma definição de música popular:
(…) É aquela que é feita por indivíduos cuja autoria é devidamente assinalada e inspirada direta ou indiretamente pela tradição musical do seu país de origem, num trabalho de estilização de ritmos, harmonias e melodias em simbiose com as suas próprias influências musicais urbanas e universais. Trata-se quase sempre de um trabalho com preocupações culturais e que espelha, duma forma ou de outra, temas de cariz social numa evolução da poesia popular ou adaptada à linguagem do quotidiano.
Vai ser a partir deste novo conceito de nova música portuguesa que surgirão os cantores que marcarão o futuro panorama artístico do canto de intervenção. José Afonso prossegue a sua inspiração com temas como “Coro da Primavera” evocando o estilo das “Heroicas” do maestro Lopes Graça, com um ritmo, cadenciado e enérgico, denunciando um poder temporal que é contestado.(1)
Comprovando a influência do maestro, num processo de intertextualidade, José Afonso compôs e interpretou “O Coro da Primavera” no qual, em estilo de coro, convida os corajosos cantores da matinal canção a assumir o combate com a finalidade de obterem a tão almejada libertação:
“Cobre-te canalha na mortalha hoje o rei vai nu /os velhos tiranos de há mil anos dormem como tu /...Sempre à tua frente viste gente de outra condição /…Ergue-te ao sol de verão /somos nós os teus cantores /da matinal canção /ouvem-se já os rumores /…Ouvem-se já os tambores/”
Após esta acusação ao poder, o cantautor pretende motivar os seus companheiros a libertarem-se do medo e a reagir, vigilantes, à fome, ao medo e à morte. Esta revolta, este apelo à indignação pretende despertar as pessoas da resignação pungente e complacente. Para tal, propõe a união do povo para, de mãos dadas, com os mesmos ideais, poder semear o amor cantando o tema que o libertará:
Ouvem-se já os tambores /…Livra-te do medo /que bem cedo há-de o sol queimar / e tu camarada põe-te em guarda que te vão matar /venham lavradeiras /mondadeiras deste campo em flor /venham enlaçadas, de mãos dadas/ semear o amor.
Este tema assume a linha de um poema-hino apelando aos oprimidos para que em grupo consigam superar as maiores adversidades. O espírito de união, o apelo à insurreição, à revolta parte da energia proveniente da junção música e letra. Esta composição à semelhança com as Heroicas pretende obter a libertação de um povo do seu jugo, da sua força opressora:
Ergue-te ao sol de verão /somos nós os teus cantores /da matinal canção /ouvem-se já os rumores /ouvem-se já os clamores /.
A criatividade de José Afonso prossegue com o tema tétrico “A morte saiu à rua”. Esta canção assume a pretensão de homenagear todos quantos sofreram com a repressão, com a tortura, com as agruras infligidas pelo regime fascista. A inspiração partiu do assassinato do escultor antifascista, membro do Partido Comunista Português ‑ José Dias Coelho, pela Polícia política – PIDE - em plena rua de Lisboa em 19 de dezembro de 1961:
A morte saiu à rua num dia assim /naquele lugar sem nome para qualquer fim /uma gota rubra sobre a calçada cai/ e um rio de sangue /dum /peito aberto sai/ Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu/teu sangue pintor reclama outra morte igual/.
A denúncia da lei assassina, exaspera com a anunciada vingança que partilha do provérbio popular “‑ rirá melhor quem rir por fim…”.
O ambiente de mal-estar, de desânimo é combatido pelo “cantador alegre “da canção “Fui à beira do Mar” do LP “Vou ser como a toupeira.” O Poeta põe em causa o esforço na noite fria. É-lhe exigido tanto esforço que só poderá superar tal dificuldade através da alegria. É esta que lhe possibilita vencer o medo simbolizado na metáfora do frio:
(…) ó cantador alegre que é da tua alegria /tens tanto para andar /e a noite está tão fria (…) desde então a bater /no meu peito em segredo /sinto uma voz dizer /teima, teima sem medo.
José Afonso, usando a comparação com a toupeira no tema “Eu vou ser como a toupeira”, defende que mais vale tombar a uma sarjeta ao abandono que cair na mão, como, de quem nos pode eliminar a vida. A sua resistência, a sua tenacidade, o seu orgulho na luta por um ideal patriótico é tão forte que não se imagina a entregar-se a quem lhe inflige sofrimento com a agravante de ainda lhe roubar o alimento. O poeta está consciente de que o esforço que tem de fazer é grande, contudo, a razão que o sustém é mais consistente. “… mais vale dar numa sarjeta que na mão de quem nos inveja a vida e tira o pão. No tema “Venham mais cinco ”‑ canção do álbum do mesmo nome, o poeta reage da mesma forma, “A bucha é dura /mais dura é a razão que a sustém…”. Numa terra em que a lei privilegia aquele que “ de espada à cinta /já crê que é rei d’Aquém e d’Além-Maras pessoas terão de reagir e de … vir para a rua gritar que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar. Perante este clima de repressão física e de opressão psicológica, perante um país que não oferece as condições mínimas tanto políticas como económicas, milhares de portugueses optaram como solução abandonar o país. A perseguição política e a falta de emprego condigno impossibilitavam uma estabilidade económica da família. Para exprimir tal inquietude, José Afonso exclama: ”E as vozes embarcam /num silêncio aflito /quanto mais se apartam /mais se ouve o seu grito /.Do tema “Que Amor não me engana” do Álbum: Venham mais cinco”)(2)
Os portugueses, fustigados pela insegurança e pelo mal-estar pessoal e social, lançam-se pelos quatro cantos do mundo na busca de um ideal irrealizável na sua terra:“…vem da sua terra um homem /tentar a ventura /põe a roupa/ na maleta/lá vai de abalada /não pensa em voltar /faz como a formiga /fura fura /fura sem parar /Composição “Fura Fura” do Álbum “Fura Fura” (1979). O paradigma da formiga laboriosa, subentenda-se o português que luta pela vida para obter arduamente frutos do seu penoso trabalho, está presente também neste tema, denominado “A formiga no carreiro” identicamente metafórico para expressar as dificuldades de todos quantos se opunham ao regime, que se regiam por outros caminhos que os conduzisse à democracia, à liberdade de expressão:
A formiga no carreiro /vinha em sentido diferente /caiu à rua no meio de toda a gente /buliu, buliu/abriu as gâmbias /para trepar às varandas /e de cima de uma delas /virou-se pró formigueiro /mudem de rumo /mudem de rumo /já lá vem outro carreiro.
A mudança de rumo forçou, como já referimos, milhares de portugueses a procurarem destinos, países com culturas e modos de vida diferentes, em condições, por vezes de extrema dificuldade de adaptação:
Adeus ó Serra da Lapa /Adeus que te vou deixar /ó minha terra ó minha enxada/não faço gosto em voltar / …Companheiros de aventura /vinde comigo viajar /a noite é negra a vida é dura /não faço gosto em voltar /... O meu caminho está traçado/não faço gosto em voltar / moirar a terra insegura? / Fugir da serra e do mar?
A repulsa em regressar a um país que ama é enorme. A falta de trabalho, a “negra noite” e a “vida dura” afastam todas as pretensões de exercer o direito de cidadania, na sua plenitude, permanecendo no país de acolhimento. O cantautor, para contrariar esta vaga de desolação, de asfixia, cantou o tema “Utopia” do Álbum: “Como se fora seu filho” na defesa de uma sociedade livre, democrática, solidária e assertiva:
Cidade /sem muros nem ameias /gente igual por dentro gente igual por fora /onde a folha da palma /afaga a cantaria /cidade do homem /não do lobo mas irmão /capital da alegria.
O empenho e a atividade criadora de José Afonso abriram portas a intérpretes que partilharam os mesmos ideais, caso de Adriano Correia de Oliveira.
        
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(1) Para desgaste e descredibilização da ditadura, muito contribuiu o papel fundamental do programa televisivo: Zip Zip entre Maio e Dezembro de 1969, ao lançar, na sua programação, a maioria dos cantores de intervenção. O programa de Fialho Gouveia, Carlos Cruz e José Nuno Martins com a colaboração saudosa de Raul Solnado tornou-se, apesar do papel da censura, um êxito nacional.
Este programa conseguiu congregar, pela primeira vez, um grupo de cantautores que, inicialmente, se encontravam dispersos e desconhecidos do grande público.
(2) Apraz destacar o papel cultural da revista Mundo da Canção (MC), de Avelino Tavares, que divulgava, na medida do possível, estes temas musicais os protagonistas da canção de intervenção.
        
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 60-66.
            
     
        

        
A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula: “Os Vampiros” (letra e música de José Afonso)

Ritmo ‑ ternário
Melodia ‑ predominantemente marcada pelo dedilhado da viola, atribuindo um carácter repetitivo e melancólico de acordo com a atmosfera repressiva do tema.
Harmonia ‑Simples, pouco relevante, dando primazia à mensagem da qual sobressai o refrão.
Análise semântica ‑ O tema “Os vampiros” é uma paradigmática alegoria do cantautor para exprimir, de uma forma velada, a funesta imagem deixada pela opressão, concretamente pelos agentes da polícia – PIDE-DGS. A primeira estrofe contextualiza o ambiente cinzento medonho dos vampiros em noite calada, opressiva, com o objetivo de se alimentarem dos privilégios das pessoas – “vêm em bandos com os pés de veludo/chupar o sangue fresco da manada.” O ambiente persecutório é expresso, a nível musical, pelo ritmo ternário e pelo harpejo repetitivo da viola a dois acordes. A segunda estrofe reitera as críticas aos opressores, caracterizando-os de agentes sem escrúpulos e sem remorsos dos crimes que cometem: “trazem no ventre/ despojos antigos/ mas nada os prende às vidas acabadas”. O refrão acentua um ritmo ternário à melodia mais intensa e de uma cadência repetitiva. A alegria esfusiante dos opressores contrasta, de uma forma deliberada, com todos os que são vítimas criando um novo espaço de revolta entre os ouvintes. “São os mordomos do universo todo /senhores à força/ mandadores sem lei/ enchem as tulhas/ bebem vinho novo/ dançam a ronda no pinhal do rei”. O sofrimento atinge o seu estado final com a morte dos resistentes que acreditavam numa vida melhor – em liberdade. “No chão do medo/ tombam os vencidos/ ouvem-se os gritos/na noite abafada/ jazem nas fossas/ vítimas de um credo/e não se esgota o sangue da manada.”
A alegoria, apesar de plasmar o sentimento de tristeza, de angústia, deixa antever uma réstia de esperança porquanto “o sangue da manada não se esgota”, ou seja, por mais vítimas que provoquem os opressores não conseguem eliminar tantos resistentes, tantos seguidores, tal é a força da razão que lhes assiste. Poder-se-á acrescentar que este tema se tornou histórico não só por se revelar a imagem de sofrimento mas por ser o espelho da resistência tal o efeito provocado pela injustiça que gera nos prosélitos da liberdade. A composição musical, pela sua orquestração simples, pobre, que resume-se a uma voz e a uma viola em harpejo somente com duas variações. O poema apela a valores tais como a coragem e a capacidade de resistência.
       
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 128-129
        
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VAMPIROS
Esta canção tornou-se muito conhecida na luta contra «os vampiros» e uma forma de reconhecimento de muitos males que atingiam a população.
Alguns vocábulos selecionados para análise, retirados da letra desta canção, podem apontar para a seguinte interpretação:
O vocábulo Noite aponta a época de obscurantismo, envolta no mistério da escuridão. É o símbolo da ignorância, o potencial inconsciente e latente, numa relação direta com os sonhos, o prazer sexual e a morte. A expressão noite calada refere-se ao silêncio em que se calava o que se sentia e em que não havia liberdade para traduzir ideias e sentimentos, numa noite abafada, porque sufocava e em que faltava o ar da liberdade.
céu era cinzento, porque o ambiente que se vivia no país era triste e melancólico.
astro mudo era sombrio e taciturno, numa alusão a uma época em que o Sol não brilhava para a maioria das pessoas. 
Os vampiros eram todos aqueles que dominavam o cenário que se vivia no país, pois o regime apoiou-se neles: membros do governo, pessoas que enriqueciam à custa de outras e exploravam o sangue alheio (grandes proprietários rurais, industriais e comerciantes) e os elementos da PIDE que perseguiam em silêncio e apareciam de surpresa (Batendo as asas pela noite calada).
Esses indivíduos Vêm em bandos com pés de veludo, isto é, atuavam e agiam em grupo e com mansidão, e dominavam e controlavam a gente indefesa (Chupar o sangue fresco da manada).
Apesar de todo este envolvimento, continuavam com a antiga vontade de exercer o seu domínio, sobre as camadas mais baixas da população (Trazem no ventre despojos antigos) e não se julgavam responsáveis pelas mortes e pelos maus-tratos que provocavam nas pessoas (Nada os prende às vidas acabadas).
Eram indivíduos possuidores de muito poder, de prestígio e de um status, impondo a sua condição, muitas vezes pela força, daí a expressão (Mordomos do universo/senhores à força/ mandadores sem lei).
Estavam de bem com o regime, comiam do melhor e não davam hipótese àqueles que exploravam, nem àqueles que perseguiam (Enchem as tulhas/ bebem/dançam/ comem tudo e não deixam nada).
 Se alguém era franco, sincero e cumpridor, podia tornar-se vítima, pois não podia resistir (Se alguém se engana/lhes franqueia as portas).
E eram os vencidos, as vítimas daquilo em que acreditavam e das suas práticas sociais, por isso, sofriam as consequências: medo, sofrimento, miséria e más condições humanas (no chão do medo tombam os vencidos/ ouvem-se os gritos/jazem nos fossos/vítimas de um credo).
Apesar do sofrimento, não se esgotava a vivacidade mantida pelos elementos sociais na luta contra o regime, pois outros viriam para os render (Não se esgota o sangue da manada).
       
A simbologia das palavras: os sentidos implícitos nas canções de Zeca Afonso e a revolução silenciosa”,  Albano Viseu. In: Revista 3 do CEPHIS (Centro de Estudos e Promoção da Investigação Histórica e Social de Trás-os-Montes e Alto Douro), setembro de 2013. Coimbra, Terra Ocre edições/Palimage.
        
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/12/os-vampiros.aspx]
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