terça-feira, 9 de setembro de 2014

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES


           
            
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança; 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades.
Refrão
E se todo o mundo é composto de mudança 
Troquemos-lhe as voltas que o dia é uma criança!
Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança; 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem, se algum houve, as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto. 

E, afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto: 
Que não se muda já como soía.
Refrão
E se todo o mundo é composto de mudança 
Troquemos-lhe as voltas que o dia é uma criança!
         
Soneto de Luís de Camões adaptado pelo cantor José Mário Branco em 1971.
              
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Notas:
José Mário Branco para além de compor musicalmente “Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades”, acrescentou-lhe um refrão, o que provocou uma alteração substancial na sua interpretação. Como iremos constatar, o cantautor utilizou esta composição clássica de Luís de Camões para, de uma forma subtil, apelar às pessoas, uma vez mais, à necessidade da mudança do regime político então vigente.
Ouvir o canto de intervenção em: http://www.youtube.com/watch?v=tTTdJ5FM1mY
v. 16: soía – costumava.
             
             
Questionário
               
Após uma leitura atenta do texto responde às seguintes questões:
1. Qual é o tema da composição? Justifica.
2. Divide ideologicamente o poema em partes.
3. A composição revela em toda a sua extensão um paralelismo. Explicita-o.
4. O que constata o poeta no último terceto? Avalia a sua importância no contexto do poema.
5. Qual é o estado de espírito predominante do poeta? Comprova com duas expressões do texto.
6. Interpreta a introdução do refrão na canção de José Mário Branco, tendo em conta a análise que efetuaste do soneto de Camões.
              
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010.
             
                  
Textos de apoio
            
A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula:“Mudam-se os tempos mudam-se as vontades” (Luís de Camões com adaptação de letra e música José Mário Branco)
                
Ritmo – Binário, com a noção de marcha em aumento de intensidade expresso pela viola
Melodia ‑ Em crescendo nas quadras até ao refrão em coro. Apresenta-se mais rica na parte das quadras com uma ligeira variação no refrão. Este, contudo, é mais marcante para o ouvido pois é facilmente memorizado. A intervenção do flautim e dos timbales emprestam-lhe um ar festivo
Harmonia - As vozes, a viola, o piano, os timbales e o flautim proporcionam um tema elaborado.
Análise semântica – Embora este soneto seja do século XVI, da autoria de Luís Vaz de Camões foi um tema musicado por José Mário Branco no ano de 1971. Proceder-se-á inicialmente à análise do soneto original, para numa segunda fase, adiantar as razões que motivaram o interesse do cantor em musicar e divulgar esta nova interpretação musical.
O soneto renascentista, de influência greco-latina, cujo tema é a mudança, está disposto, em termos temáticos, numa dualidade entre a natureza e o próprio sujeito poético. Destaca-se o carácter positivo da natureza – o verde manto da Primavera substitui a neve fria do Inverno que se opõe ao doce canto que se converte em choro. Encontramos um poeta cético, sem perspetivas futuras ‑ a mudança, as transformações, no tempo do discurso, tornam-se diferentes em tudo da esperança, ou seja, acontecem numa ótica negativa, cada vez mais pessimista.
Numa análise pormenorizada concluímos que a primeira quadra aborda a tese da mudança em termos gerais – os tempos, as vontades, o ser, a confiança – são reforçados os eixos quer da temporalidade quer da espacialidade num ritmo insistentemente binário através da acentuação na 6ª e 10ª sílaba. O mesmo complementa-se com o paralelismo musical entre as quadras e o refrão.
Na segunda quadra, o poeta por experiência própria utiliza o verbo “vemos “ comprovando a observação direta do mundo. Desta forma, a mensagem adquire outra dimensão – Todos testemunham, de uma forma universal, tais mudanças. De seguida Camões apresenta o sentido negativo da mudança – o mal persiste e intensifica-se enquanto o bem desaparece. A frase que exprime a condição reforça a ideia da dúvida na existência de algum bem. A mudança, como já se referiu, faz-se para um estado ainda mais negativo. O poeta exemplifica o mundo objetivo da Natureza com as expressões antitéticas – o que era neve fria passou a verde manto. Por outro lado, ao nível da subjetividade o sujeito poético revela o doce canto transformado agora em choro. O tempo é o agente responsável pela mudança. O último terceto reforça a ideia de para além desta situação implacável, para a qual não há remédio, surge algo também de incontornável ‑ o Destino que já não permite a mudança como era hábito. A mudança torna-se motivo de instabilidade porquanto ela provocará um constante agravamento. Contudo, José Mário Branco acrescenta o seguinte refrão “ …
E se todo o mundo é composto de mudança 
Troquemos-lhe as voltas porque ainda é uma criança!
Este refrão é repetido após as duas quadras seguintes; todavia, é iniciado pela adversativa “Mas” que contraria o conformismo da versão camoniana. O autor da nova versão revela nestes dois versos a sua verdadeira intenção: para evitar a censura própria da época da ditadura do antigo regime, serve-se da mensagem conformista do soneto de Camões para com este “artificioso” acrescento, alterar o espírito inicial da composição e reivindicar “a troca das voltas”, do destino que parecia ser adverso aos portugueses. Destaque-se o inconformismo, a contestação de um “status quo” que urge corrigir. Como justifica o músico porque o mundo, entenda-se país ainda é muito jovem, todos incluindo-se o próprio, podem inverter o clima de repressão, de medo, de censura vivido nos anos 70 de ditadura e ambicionar uma “adolescência” e “uma idade adulta” em Democracia e em Liberdade. Para manifestar musicalmente este contexto, o músico recorre ao coro em uníssono, ao estilo revolucionário, vigoroso numa atitude corajosa, de rutura com o “status quo“. É um desejo de mudança que o cantor exprime numa dupla variação de tons com o intuito de salientar a importância do refrão que se tornou com profunda alteração do tema clássico de Luís de Camões, o verdadeiro “leit-motiv” do tema.
Por último, de destacar que primeiro verso do soneto foi utilizado como título do Álbum do músico publicado em Novembro de 1971.Pode-se,desde já, inferir a importância crucial que ele atribuía a este soneto agora aplicado, como se constatou num contexto cultural e político diferente.
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 124-126.
            
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O Cantautor José Mário Branco
          
José Mário Branco iniciou a sua juventude inscrevendo-se como membro dos jovens estudantes católicos. Contudo, a sua crença no General Humberto Delgado, candidato à Presidência da República, motivou-o a inscrever-se no Partido Comunista Português. Este facto implicou a participação em encontros clandestinos com a finalidade de manifestar oposição face ao regime vigente. Preso, foge de seguida, para França a fim de prosseguir a sua luta antifascista. Irá dedicar-se à canção de intervenção participando em variados recitais, por diversos países da Europa com temas contra o regime, entre os quais a guerra do Ultramar. Consideramos abordar algumas canções sobretudo do primeiro e segundo álbum que foram publicados antes do 25 de Abril de 1974-em 1971 e 1973, respetivamente: “Mudam-se os tempos Mudam-se as vontades” e “Margem de Certa Maneira.” Temos ainda a acrescentar um tema considerado emblemático da sua filosofia de vida: “Le Déserteur”de Boris Vian. Apesar de não ser de sua autoria, José Mário Branco interpretou-a diversas vezes sobretudo nos seus espetáculos em França, como forma de revelar a sua viva contestação ao regime ditatorial no que concerne à guerra colonial.
O tema original: “Le Déserteur” foi interpretado, várias vezes, por Boris Vian autor da carta original dirigida ao Presidente da República Francesa no contexto da guerra da Indochina. A adaptação do tema por parte de José Mário Branco teve como objetivo sensibilizar todos os portugueses para a necessidade de resistir a ordens belicistas proclamadas pelo regime em favor da guerra do Ultramar. Tornava-se urgente, segundo o cantor português, espalhar a notícia da renúncia à guerra. O propósito revelado na carta assentava no direito à indignação, à recusa na participação da guerra tornando-se um desertor, um objector de consciência. Após ter sofrido várias contrariedades familiares com mortes, sofrimento dos irmãos e dos filhos, o autor como desertor, incentiva todos os portugueses a recusar a guerra. Prossegue com o conselho de ser o próprio Presidente a oferecer o seu sangue na defesa do que considera os interesses nacionais. Finalmente, adverte o mesmo Presidente de que ele possui armas e que os seus agentes poderão disparar sobre ele. Está implícita a mensagem da não violência, do incentivo ao diálogo, ao entendimento entre os povos. A canção: “Le Deserteur” …traduzida por José Mário Branco, é um desafio de uma filosofia de vida de um pacifista:
Ao senhor presidente e chefe da nação /escrevo a presente /p’ra sua informação. /Recebi um postal/um papel militar/com ordem p’ra marchar/p’rà guerra colonial /diga aos seus generais /que eu não faço essa guerra/porque eu não vim à Terra/pra matar meus iguais /e aqui digo ao senhor/queira o senhor ou não/tomei a decisão/de ser um desertor / desde que me conheço/já vi meu pai morrer/vi meus irmãos sofrer/”
vi meus filhos sem berço /…à guerra dizei 'não!'/a gente negra sofre/e como nós é pobre/somos todos irmãos/ e se quer continuar/a matar essa gente/vá o senhor presidente/tomar o meu lugar…”
        
O Tema “Perfilados do Medo”, “do álbum “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, aborda a temática do sofrimento perante a repressão vivida. Resta aos portugueses a tábua de salvação cómoda da loucura, ou seja, as pessoas que pensam são consideradas loucas, subterfúgio para evitar a morte. A coragem não é valorizada. O cantautor ironiza o conformismo de alguns patriotas resumido nas afirmações:
Perfilados de medo agradecemos /O medo que nos salva da loucura. Decisão e coragem valem menos /e a vida sem viver é mais segura.
             
Apelidado de rebanho, perseguido pelo medo, o povo, incluindo-se o próprio autor, viveu de tal forma em comunidade, mas de maneira acéfala e isolada do resto da Europa e do Mundo que já não sabe dar sentido à vida:
Perfilados de medo sem mais voz /o coração nos dentes oprimido /os loucos os fantasmas somos nós. / Rebanho pelo medo perseguido /já vivemos tão juntos e tão sós /que da vida perdemos o sentido.
          
O tema da Emigração é também de primordial importância para este cantautor porquanto viveu essa experiência de emigrante exilado desde 1963 até 1974. Como alude na canção: “Por Terras de França” – “Não foi por vontade nem por gosto/que deixei a minha terra. A fuga em busca de uma viela de esperança representa, uma vez mais, todos aqueles que não acreditavam no seu país para se realizarem quer económica, quer política, quer socialmente. O tema musical imprime um ritmo vivo e simultaneamente irónico que perpassa toda a mensagem enquanto o Zé-povinho não descansa, há sempre uma França /Brasil do operário /…na miragem da abastança /roendo a nossa grade. José Mário Branco enaltece o valor de um país como a França, paradigma de todos os países que albergaram os nossos compatriotas e constituiu-se como um “Brasil “símbolo da salvação tanto das famílias implicadas como do país. A França assumiu uma importância relevante na oportunidade de propiciar empregos, de concretizar sonhos que, de outra forma, não seriam realizáveis. A França, sobretudo Paris, a grande capital cultural da Europa, tornou-se um refúgio, não somente para o próprio cantautor, como para outros ilustres resistentes casos do Dr. Mário Soares, do poeta Manuel Alegre, dos cantores Luís Cília e Sérgio Godinho entre outros.
A actividade de José Mário Branco, em França, foi bastante profícua. Segundo Eduardo M. Raposo (Canto de Intervenção. Lisboa, Público, Comunicação Social, SA, 2007, p. 92),
(…) o cantautor faz recitais frequentes em que denuncia a guerra e o fascismo, por vários países e cidades de Europa. Mas paralelamente continua a cantar para a comunidade portuguesa. É todavia com o Maio de 68 que se dá a viragem total, o travar de conhecimentos iniciando então um relacionamento com artistas franceses, começando a cantar em cabarés…
        
Citado por Raposo (2007:93) José Mário Branco confessa as suas influências:
(…) a maior de todas é o Ferré, embora também tivesse muito marcado por muitas outras coisas, o Brel, a canção brasileira, a balada romântica do pós-guerra em França, a Juliette Gréco […] os portugueses sobretudo o Zeca e as músicas dos povos – etnomusicologia.
          
No entanto, a situação em Portugal, como aponta Sérgio Godinho na composição “Cantiga do fogo e da guerra”, alegoria cantada por José Mário Branco, era “escaldante”, ou seja, repressiva
Em Portugal há um fogo enorme no jardim da guerra /e os homens semeia fagulhas na terra /os homens passeiam co’s pés no carvão/que os deuses acendem luzindo um tição.
        
O ambiente é de muita tensão a ponto de dar lugar à sátira antitética entre os mortos que já não têm sede e os embaixadores e pirómanos e senhores importantes “que engolem sangria dos sangues fanados e enxugam os beiços na pele dos queimados.”
O poeta Sérgio Godinho utiliza certas expressões, que poderíamos apelidar de “humor negro” para denegrir a imagem de sobranceria deixada pelos homens do poder e de desprezo para com os soldados, vulgarmente conhecidos de “carne para canhão “.
Por outro lado, para atingir o espaço democrático, os portugueses terão, segundo José Mário Branco, de esquecer a ideia saudosista de pensar na vinda de um D. Sebastião presente na canção: ”Onde vais ó caminheiro” – “ Era príncipe herdeiro, nevoeiro, príncipe agoireiro, o príncipe mal esperado.” Neste poema o poeta estabelece um diálogo com o caminheiro a fim de abordar a célebre temática para os portugueses – D. Sebastião. Torna-se uma crítica a todos aqueles crentes no mito sebastianista que acreditavam na vinda de um Salvador da Pátria que viria resolver os problemas do país.
A abordagem cíclica desta temática está, desta vez, pejada de ironia para destroçar qualquer veleidade na crença dos sebastianistas: Ver o rei Sebastião primeiro /há tanto tempo esperado /voltou no seu veleiro //no nevoeiro /sem glória, nem dinheiro num lençol amortalhado /…Vou ao cais para ficar bem certeiro /de que é morto e enterrado.
É nesta crença de mudança que surge:” Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”
Embora o soneto seja do século XVI, da autoria de Luís Vaz de Camões, foi um tema musicado por José Mário Branco no ano de 1971. O cantor, aproveitando a composição original acrescenta-lhe um refrão que lhe altera o sentido inicial, transformando o soneto num canto de intervenção.
            
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 74-77.
            
             
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/09/mudam-se-os-tempos-Jose-Mario-Branco.aspx]                                                                                                        
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