sexta-feira, 19 de setembro de 2014

PRA A HABANA! / CANTAR DE EMIGRAÇÃO




ROSALIA DE CASTRO



PRA A HABANA!


V

Este vaise i aquel vaise,
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
Rosalía de Castro
in 
Follas Novas, 1880


 




CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará



Repete 1ª quadra

Tradução: José NizaInterpretação: Adriano Correia de Oliveira 
Album: Cantaremos, 1970





Ficha de abordagem sobre o tema “Cantar de emigração”




1. Caracteriza a canção:
a) Quanto ao ritmo.
b) Quanto à melodia.

2. Estabelece uma relação entre a mensagem e a melodia.

3. Identifica a figura de estilo presente no verso: “Galiza ficas sem homens”. Salienta a sua expressividade.

4. Indica o verso que melhor exprime a problemática essencial da peça em estudo. Justifica.

5. Estabelece um paralelismo entre o tema desta canção e a obra Frei Luís de Sousa.

A Poesia Musicada de Intervenção em Portugal (1960-1974): a sua aplicabilidade no Ensino SecundárioJosé Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, p. 173.



Textos de apoio

A Simbiose Sinestésica Intertextual da Poesia Musicada em Sala de Aula: “Cantar de Emigração” (de Rosália de Castro. Interpretada por Adriano Correia de Oliveira)

Ritmo – Quaternário ao estilo de balada.

Melodia – predomínio de dedilhado da viola, tendo como resposta cristalina a flauta transversal em jogo dialógico – pergunta resposta. Numa segunda fase, a flauta estabelece um jogo com a voz num adágio suave mas pesaroso em agradável melopeia. Torna-se a malha de uma canção que evoca o sofrimento de quem se encontra isolado na solidão.

Harmonia – A combinação de sons entre a viola a voz e a flauta evoca o ambiente pastoril.

Análise Semântica ‑ Esta composição musical deixa antever de uma forma suave e cantante o êxodo de muitos portugueses que, vivendo em Portugal em condições de extremas dificuldades financeiras, abandonam o país e rumam em direção a um outro com todas as condicionantes previsíveis e imprevisíveis que ofereça melhores condições de vida. As pessoas vão em busca de uma sobrevivência que seja menos penosa, mais promissora.

Na primeira quadra a poetisa galega Rosália de Castro alerta para o perigo de todos os homens abandonarem as terras – Galiza. Aproveitando os seus versos, também Adriano, com a sua voz melodiosa, pressentia o despovoamento das zonas agrícolas do lado de cá da fronteira. Esse desequilíbrio social iria provocar consequências no tecido social das regiões abandonadas. Deixaria de haver a força dos trabalhadores para cortar o trigo, o pão de que a população necessitava.

A quadra seguinte ouve-se uma flauta em contra-canto com a voz, num jogo de perfeita harmonia suavizando as palavras dolorosas: “órfãos, órfãs, solidão, mães sem filhos, filhos sem mães”. O que resta da emigração condensa-se no simbolismo na expressão metafórica: campos de solidão. Esta espelha o consequente desmembramento da família por força de uma sociedade espartilhada com deficiências a nível dos tecidos: económico, social, político e cultural.

Este canto de intervenção pretende sensibilizar as pessoas pelo sentimento evocado na apóstrofe “coração”, para, de seguida, imbuí-lo de sofrimento resultante das longas ausências mortais. Surgem, nesta quadra, as viúvas angustiadas pelas ausências dos maridos ou em trabalho no estrangeiro ou na guerra colonial. “Quando os homens não vão para África combater pela pátria, vão para França lutar pela vida.Com a guerra a emigração é outro elemento da radical mudança da paisagem humana operada em Portugal nos anos sessenta.”.

A repetição da primeira quadra atenua a angústia das famílias destroçadas por um país sem condições quer económicas quer políticas. Resta deste poema musicado, a alusão ao mitologema português aqui presente: a vocação nostálgica do impossível. (“O Imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco”, Gilbert Durand. In: Cavalaria espiritual e conquista do mundo. Lisboa, Instituto nacional de investigação científica, 1986, p.15). O poema gera uma reação nostálgica de uma “esperança desesperada”, sendo este o significado da habitual expressão “saudade” tão característica dos portugueses.

[Este poema musicado encontra-se também explorado durante a abordagem da obra de Adriano Correia de Oliveira que se apresenta a seguir]
  
A Poesia Musicada de Intervenção em Portugal (1960-1974): a sua aplicabilidade no Ensino SecundárioJosé Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 126-127.


*


O Cantautor Adriano Correia de Oliveira (1942-1982)

Paralelamente à obra de José Afonso, surge o cantor Adriano Correia de Oliveira, cuja voz celebrizou o poema de Manuel Alegre “Trova do Vento que Passa” musicado por António de Portugal – considerada a primeira trova típica de Coimbra.Com evidente influência do fado, tornou-se o símbolo da inquietação patriótica que serviu de hino às lutas académicas: Pergunto ao vento que passa /notícias do meu país /e o vento cala a desgraça / e o vento nada me diz / (…) O poeta Manuel Alegre escreveu este tema num momento de superior inspiração. O silêncio da desgraça é simbolizado pelo vento que reprime, que abafa o sofrimento de alguém que vive um sentimento nostálgico. Contudo, o poeta assume-se como uma candeia, o porta-voz dos homens que, pelo seu simbolismo, no seio das agruras de um país, ilumina, irradia sons harmoniosos de esperança. Desse facto, resulta a tenaz resistência às adversidades tornando o poeta o herói de todos quantos contestam a situação política vivida na época da ditadura de Salazar: Mesmo na noite mais triste/em tempo de servidão /há sempre alguém que resiste /há sempre alguém que diz não! Quem disse: “não”! foi a voz eclética do cantor.

As mensagens, os poemas cantados por Adriano assumem uma autonomia tal que se tornam essenciais para a consciencialização dos cidadãos.

Não obstante, destaquemos uma vez mais a inequívoca importância das canções.

Para além de José Afonso, Adriano teve um papel fundamental no panorama musical português. A sua persistência, os seus demais valores, a sua coragem em defrontar as forças do regime, a sua aversão ao consumismo cultural fizeram dele uma personalidade incontornável no canto de intervenção. A propósito, refere-nos Manuel Alegre citado por Raposo (2000:20),

(…) A voz de Adriano era uma voz alegre e triste, solidária e solitária, havia nele ternura e mágoa, esperança e desesperança, amparo e desamparo, festa e luto, amor e luta. E também saudade e fraternidade (…) voz de fado e de destino herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate.

Adriano intervém como intérprete, compositor e participante em iniciativas de carácter estudantil. A sua coragem extravasou toda a sua vida académica e prosseguiu com a interpretação de temas que desafiavam a força da repressão tais como: a falta de liberdade e a consequente prisão dos opositores ao regime, a denúncia da guerra colonial e injustiças resultantes de uma realidade adversa. A “Canção Terceira” argumenta:

(…) quando desembarcarmos no Rossio/Vão vestir-te com grades /que é um vestido para todas as idades /na pátria dos poetas em Rossio triste.

Esta necessidade de apelidar o país de pátria dos poetas constitui-se como um apelo à pátria de pessoas livres. Tal como se encontrava o país, o poeta considerava-o um triste destino, o destino da gente do meu país, “como alude na canção “Pátria”. O lamento persiste sobre todos aqueles que pereceram em luta com “uma Lisboa”, sinédoque de Portugal, tão longínqua de um canto alegre, promissor, “Eu canto um mês com lágrimas /…em que os mortos amados batem à porta do poema …”. Apesar da morte de um amigo que tanto desejava estar em Lisboa expresso na “Canção com Lágrimas”, o cantautor revela um sentimento de esperança relativamente ao país:

Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve /que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro /eu canto para ti Lisboa à tua espera.”

A denúncia, a frontalidade sem restrições são apresentadas com a voz imbuída de coragem sob a forma de poema “em Porque” de Florbela Espanca. Apresentado numa estrutura antitética na qual os outros por oposição a um tu são considerados “hipócritas, cobardes e fracos”. Sofia de Mello Breyner de uma forma sub-reptícia pretendeu qualificar todos aqueles que se serviam do velho Regime desses defeitos, contrapondo as virtudes das vítimas inocentes que eram objeto de medidas persecutórias. É na voz de Adriano que este poema adquire uma maior projeção, um novo dinamismo:
Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros são os túmulos caiados /Onde germina calada a podridão /Porque os outros se calam mas tu não/ Porque os outros se compram e se vendem /E os seus gestos dão sempre dividendos…/Porque os outros vão à sombra dos abrigos /E tu vais de mãos dadas com os perigos/Porque os outros calculam mas tu não.”

O sofrimento do povo português persiste e é denunciado de forma metafórica, todavia, não menos objetiva. No tema de Manuel da Fonseca “Tejo que lavas as águas” o rio assume-se como a fonte regeneradora dos vícios de uma sociedade conspurcada de injustiças, de exploração dos mais poderosos sobre os miseráveis, os mais necessitados, uns nos palácios, outros nos bairros de lata:

Tejo que lavas as águas …/lava bancos e empresas/dos comedores de dinheiro/que dos salários de tristeza/arrecadam lucro inteiro/lava palácios vivendas/casebres bairros de lata/leva negócios e rendas /que a uns farta e a outros mata.

O poeta solicita ao Tejo que lave a cidade – entenda-se país - dos vícios, dos favores, do poder dos ricos e finalmente das grades, de tudo o que impeça a liberdade dos resistentes. E prossegue:

Lava avenidas de vícios /vielas de amores venais /lava albergues e hospícios /cadeias e hospitais /afoga empenhos favores/vãs glórias ocas palmas /leva o poder dos senhores/que compram corpos e almas /leva nas águas as grades …

Por seu turno, a liberdade é uma bandeira que Adriano nunca deixou de brandir, de desejar, desde o tempo da capa negra que se assemelhava a uma rosa negra, símbolo do desejo de liberdade, das lutas travadas com as forças da opressão. Tal é notório na composição “Capa negra rosa negra” ‑ capa negra, rosa negra sem roseira…/vira costas à saudade /bandeira da liberdade.”

Confessa-se, de seguida, livre cantador como as aves, que não pode viver na repressão.

O tema popular “Lira” confere a Adriano o estatuto de um verdadeiro poeta que na impossibilidade de sobrevivência da lira, símbolo da liberdade musical e poética, solicita, por analogia ao mito de Orfeu, a sua própria morte. Uma questão se impõe: como poderá o poeta exercer a sua missão se acaso não puder usufruir da sua própria liberdade?

Perante a morte da lira, ícone do encantamento quer da linguagem poética quer da linguagem musical, o poeta deixou de ter importância, de ter valor numa atitude de desafio, de coragem. Propõe-se morrer com o objetivo de se tornar mártir, apelando, deste modo, para a nobreza do ato poético. Pretende o poeta apelar à consciência e sucessiva mobilização das demais pessoas para o seu sofrimento:

Morte que mataste lira /mata-me a mim que sou teu /Morte que mataste lira /mata-me a mim que sou teu /mata-me com os mesmos ferros /com que a lira morreu …/o que mais sofre sou eu.”

O Tema do Ultramar foi motivado pelo forte descontentamento, não só dos homens mobilizados para combate como dos seus familiares e uma grande maioria dos portugueses da época. Vários foram os motivos evocativos da referida guerra, caso da canção “Pedro Soldado” que indica o caminho de tantos jovens que interromperam as suas aspirações para, segundo os preceitos da ditadura, defender “os interesses da nossa pátria”. Assim partiram com o nome bordado num saco cheio de ilusões, como refere a composição de Adriano:

Triste vai Pedro soldado numa rota de barcos que vai para a guerra,/ Já lá vai Pedro soldado/Num barco da nossa armada /…e leva o nome bordado num saco cheio de nada.

Outro dos temas musicais é a” Menina dos olhos tristes” de Reinaldo Ferreira que, à semelhança das nossas cantigas de amigo, lamenta-se, chorando, a ausência de um soldado, ente querido, que jamais regressará do Ultramar. A mensagem recebida pela Lua, sempre companheira, confidente em momentos de profundo sofrimento, informa que ele, afinal, virá defunto, num caixão eufemisticamente referido como caixa de pinho:

“Menina dos olhos tristes/O que tanto a faz chorar /O soldadinho não volta /do outro lado do mar / Anda tão triste um amigo /uma carta o fez chorar/O soldadinho não volta /do outro lado do mar/O soldadinho já volta /está mesmo quase a chegar/vem numa caixa de pinho/do outro lado do mar/desta vez o soldadinho nunca mais se fez ao mar/.

Este tema, sinédoque de um problema sociológico que perpassou transversalmente toda a sociedade portuguesa entre 1961 e 1974, infligiu milhares de vítimas mortais e feridos com marcas físicas e traumáticas que perduram até nossos dias, aliás como já foi referido no capítulo referente ao tema.

O argumento é repetido na canção: “As balas”. Adriano e Manuel da Fonseca estabelecem uma dicotomia entre a vida e a morte. Em todos os três primeiros versos de cada quadra, à exceção da última, os poetas tecem um elogio à vida por oposição ao último verso de cada quadra onde alertam para o sofrimento das balas que derramam sangue. De destacar a última quadra que reforçam as razões e as consequências da utilização das balas:

“Dá o Outono, as uvas e o vinho, /Dos olivais, azeite nos é dado. /Dá a cama e a mesa o verde pinho, /As balas deram sangue derramado. (…) Essas balas deram sangue derramado, /Só roubo e fome e o sangue derramado. /Só ruína e peste e o sangue derramado, /Só crime e morte e o sangue derramado.”

A “Canção do Soldado” satiriza, recorrendo a uma metáfora cabalística – das sete balas, sete flores de limão p’ra lutar até morrer. Desta afirmação subjaz a violência atroz de uma luta fratricida. O conceito de guerra é satirizado por uma pretensão absurda de lutar até vencer como se a guerra se vencesse, única e exclusivamente, através das armas. Para contestar essa ideia, os poetas, numa atitude pacifista, entregam o estandarte como renúncia à guerra:

Sete balas só na mão/ Já começa amanhecer. /Sete flores de limão/P’ra lutar até vencer. / Sete flores de limão/P´ra lutar até morrer. /Já o rouxinol cantou/Tomai o nosso estandarte. / No seu sangue misturado/Já não há desigualdade. /No seu sangue misturado/Já não há desigualdade.
Sete balas só na mão/ Já começamos a amanhecer. /Sete flores de limão/Para lutar até vencer.

Um outro grande tema de Adriano, e simultaneamente de carácter relevante para a nossa identidade como povo, é a Emigração. O papel de Adriano foi fundamental para que as pessoas se interrogassem sobre as causas do êxodo de muitos portugueses. Para tal, interpretou um poema da galega Rosália de Castro: “Cantar de Emigração”. Neste poema, a poetisa referindo-se à sua região da Galiza tece um panorama, que na perspetiva de Adriano Correia de Oliveira, se repete em Portugal. Na impossibilidade de o poder referir livremente por razões políticas, Adriano recorre a este tema musical com o objetivo de confirmar mais um estigma da sociedade portuguesa para além do referente à guerra do ultramar – a saga da emigração. É estabelecido um paralelismo entre as regiões da Galiza e a do Norte de Portugal pelas suas afinidades socioculturais e geográficas.

Esta composição musical deixa antever, de uma forma suave e cantante, o êxodo de muitos patriotas que, vivendo em Portugal em condições de extremas dificuldades económicas, abandonam o país e rumam em direção a um outro, com todas as condicionantes previsíveis e imprevisíveis, que ofereça melhores condições de vida. As pessoas vão em busca de uma sobrevivência que seja menos penosa, mais promissora.

Na primeira quadra, a poetisa alerta para o perigo de todos os homens abandonarem a terra – os desvalorizados espaços rurais, deixando de haver a força humana para cortar o trigo, o pão de que as populações necessitam. Para Vieira (2000:25)

(…) os campos despovoam-se ainda mais e cava-se um grande fosso estrutural entre o litoral e o interior do país. A agricultura estagna, com uma taxa de um por cento ao longo da década …a população ativa nos campos decresce, entre 1960 e 1970 de 44% para 32% do total. Este é o momento em que Portugal, contrariando a vontade mais íntima de Salazar, perde a identidade rústica assumindo um perfil de país industrial.

Na quadra seguinte ecoam as palavras dolorosas: órfãos, órfãs, solidão, mães sem filhos, filhos sem mães. O que resta da emigração condensa-se no simbolismo da expressão metafórica ‑ campos de solidão. Esta espelha o consequente desmembramento da família por força de uma sociedade espartilhada com deficiências a nível dos tecidos económico, social, político e cultural.
Este canto de intervenção pretende despertar nas pessoas o sentimento evocado na apóstrofe: “coração” para, de seguida, imbuí-lo de sofrimento resultante das longas ausências mortais. Surgem, nesta quadra, as viúvas angustiadas pelas ausências dos maridos ou em trabalho no estrangeiro ou na guerra colonial. A este propósito, Vieira (2000:25) explica:

(…) quando os homens não vão para África combater pela pátria, vão para França lutar pela vida.Com a guerra a emigração é outro elemento da radical mudança da paisagem humana operada em Portugal nos anos sessenta.

A repetição da primeira quadra atenua a angústia das famílias destroçadas por um país sem condições quer económicas quer políticas. De acrescentar neste poema musicado, a alusão ao mitologema português aqui presente: a vocação nostálgica do impossível como refere Durand (1986:15). O poema gera uma reação nostálgica de uma esperança desesperada, sendo este o significado da habitual expressão “saudade” tão característica dos portugueses.(1) A resignação, o sofrimento de “longas ausências até mortais que transparecem da composição, ao estilo de balada, evoca as autóctones cantigas de amigo:

Este parte, aquele parte /e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens /que possam cortar teu pão
Tens em troca /órfãos e órfãs
Tens campos de solidão /tens mães que não têm filhos
Filhos que não têm pai
Coração /que tens e sofre
Longas ausências mortais /viúvas de vivos mortos
Que ninguém consolará

Por sua vez, na canção de Rosália “Emigração” interpretada por Adriano, assistimos a uma réplica de situação real. Na verdade, a poetisa apresenta a sua mãe em discurso direto. Esta suplica a Deus a proteção para a filha. A cantora prossegue, enfatizando a infelicidade de um outro homem ter nascido e não dispor das mínimas condições para se realizar tanto profissional como economicamente.

Finalmente, a compreensão da poetisa por quem abandona a sua terra “coitado”. Ela considera que terá razões plausíveis para trocar a sua vida de aparente bem-estar na sua terra, por uma situação desconhecida, diferente, contudo, mais promissora em termos financeiros. Salientamos o epíteto de “coitado”, de alguém que não se conforma com um possível destino que lhe estaria “predestinado”. Deste modo, aventura-se numa luta, num esforço que lhe poderá suscitar uma vida melhor quer a nível económico, quer social, quer político.”(2) Esse sofrimento nostálgico, de separação relativamente à família e ao país está vincado, uma vez mais, no tema cantado por Adriano ”Quando no Silêncio das noites de luar”(3)

Quando no silêncio das noites de luar, /Ia uma estrela pelos céus a correr, /
Dizia minha mãe de mãos erguidas. /Dizia minha mãe de mãos erguidas.
Deus, te guie por bem. /Deus, te guie por bem.
Desde então quando vejo que um homem, /Deixa a terra onde infeliz nasceu, /
E fortuna busca noutras praias, digo. /E fortuna busca noutras praias, digo
Deus, te guie por bem. /Deus, te guie por bem.
Desde então quando vejo que um homem, / Deixa a terra onde infeliz nasceu,
E fortuna busca noutras praias, digo. / E fortuna busca noutras praias, digo.
Não o culpo coitado não o culpo, / Nem lhe rogo pragas nem castigos,
Nem de que é dono de escolher, me esqueço. Nem de que é dono de escolher, me esqueço
Porque quem deixa o seu torrão natal, / E fora dos seus caminhos põe os pés,
Quando troca o certo pelo incerto. /Quando troca o certo pelo incerto.
Motivos há-de ter. / Motivos há-de ter. / Motivos há-de ter.”

Para finalizar, Manuel Alegre, citado por Barroso (2000:169), conclui sobre a importância dos dois cantautores no canto de intervenção, destacando o valor da interpretação musical na divulgação dos textos poéticos,

Importa salientar a importância que tiveram as trovas do Adriano e as baladas do Zeca como estímulo e fatores de mobilização da luta estudantil. Importa ainda sublinhar que essa junção da poesia e da música constituiu na altura o verdadeiro vanguardismo estético português (…) Pela voz de Adriano Correia de Oliveira os poemas chegavam ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa memória comum e do nosso canto coletivo. Eu já não sinto como meus alguns poemas que Adriano cantou”.
  
   
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(1) A consciencialização conseguida através das canções de intervenção foi reconhecidamente eficaz como destaca Sá Viana, Ministro da Defesa citado por Raposo (2000:21) “os efeitos demolidores no moral das tropas que certas canções produziam.”
(2) Adriano confessa in Raposo (2000:21) que a canção antes do 25 de Abril, desempenhou um papel importante, um papel complementar da outra luta, a luta política junto das massas populares e da classe operária. Ela foi o estímulo, o grito de alerta, a denúncia da ausência de liberdade, da exploração na terra e na fábrica, de guerra e da emigração. Pela minha parte insisti muitas vezes em fazer canções que pudessem tocar de certo modo, as pessoas naquilo que elas pudessem compreender mais facilmente”.
(3) Poema de Curros Henriquez, musicado por José Niza .
  
José Manuel Cardoso Belo. Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2010, pp. 66-74.



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“El tema de la emigración en la poesía de Rosalía de Castro y su proyección en dos poetas gallegos”, María del Carmen Porrúa. Actas do Congreso Internacional de estudios sobre Rosalía de Castro e o seu tempo (III). Santiago de Compostela: Consello da cultura Galega / Universidade de Santiago de Compostela, 403-411. Reedición en poesia-galega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura. http://www.poesiagalega.org/arquivo/ficha/f/2342, 2012 [1986].



    


  


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/09/19/cantar-de-emigracao.aspx]
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