![]() |
| Parque Terra Nostra, Furnas, ilha de São Miguel |
É um outono que não é outono.
Tampouco a estação por que se espera
na dor de nos deixarem ao abandono
as ninfas que são flores na primavera.
No entanto nas coisas o segredo
de uma só alma põe a sabedoria
dando à terra repouso no arvoredo
de que o cedro é a sagrada biografia.
Tampouco a estação por que se espera
na dor de nos deixarem ao abandono
as ninfas que são flores na primavera.
No entanto nas coisas o segredo
de uma só alma põe a sabedoria
dando à terra repouso no arvoredo
de que o cedro é a sagrada biografia.
Natália Correia,
“A recusa das imagens evidentes – III”
in Dimensão encontrada (1957)
in Dimensão encontrada (1957)
No
blogue Horas Extraordinárias, de
Maria do Rosário Pedreira, dialogou-se sobre a escolha do vocábulo “cedro” na
composição do último verso do poema III da série “A recusa das imagens evidentes”
de Natália Correia:
Artur Águas ‑ Porquê o "cedro" e não qualquer outra
árvore?
António Luiz Pacheco ‑ A escolha do cedro, por ser uma árvore que à
semelhança do cipreste é associada a cemitérios (sepulturas)? Cipreste seria
demasiado longo... cedro é curto e tem esse significado. Será?
Joaquim Jordão ‑ “O cedro é a sagrada biografia do arvoredo”.
Na minha interpretação, Natália consagra a longevidade própria dos cedros e as formas caprichosas que eles vão assumindo ao longo dos tempos, como que homenageando e perpetuando partes de outras árvores, entretanto desaparecidas – consagrando-lhes a biografia.
Talvez tenha andado pela mente de Natália o facto de a variedade lusitana do cedro, o cipreste, estar na nossa cultura associado aos cemitérios – e daí a conotação com o sagrado.
O cemitério é o sítio onde vai parar a nossa biografia – e, com os ciprestes, onde se eterniza a biografia de todas as árvores.
Na minha interpretação, Natália consagra a longevidade própria dos cedros e as formas caprichosas que eles vão assumindo ao longo dos tempos, como que homenageando e perpetuando partes de outras árvores, entretanto desaparecidas – consagrando-lhes a biografia.
Talvez tenha andado pela mente de Natália o facto de a variedade lusitana do cedro, o cipreste, estar na nossa cultura associado aos cemitérios – e daí a conotação com o sagrado.
O cemitério é o sítio onde vai parar a nossa biografia – e, com os ciprestes, onde se eterniza a biografia de todas as árvores.
Paulo Oliveira ‑ Eu tenho uma explicação talvez mais prosaica. O som
"ê" de cedro está relacionado com o de duas outras palavras
importantes no poema: segredo e arvoredo. Cedro está ali muito bem e desse ponto
de vista não se arranjaria melhor.
PO ‑ Interpretação que não invalida as restantes.
Anónimo ‑ Pronúncia de Cedro.
A pronúncia correcta, aliás de esperar porque em latim o e da palavra era breve, sempre foi com vogal tónica aberta, como em leve ou pé. Portanto: /cédru/.
A pronúncia correcta, aliás de esperar porque em latim o e da palavra era breve, sempre foi com vogal tónica aberta, como em leve ou pé. Portanto: /cédru/.
Paulo Oliveira ‑ Assim sendo, cairá pela base a minha leitura que no
entanto não pretendia ser mais do que isso. Radica no facto de toda a vida ter
dito cedro com som ê, provavelmente mal, à semelhança por exemplo de joelho que
em Lisboa (ou Lesboa) ouço sempre
dizer joeilho. Vá-se lá saber como
diria Natália?!...
Anónimo ‑ A palavra cedro (em inglês, "cedar") vem
do Hebreu "qatar", significando "manchar", indicando que a
madeira de cedro era utilizada em rituais de purificação e limpeza. No
Himalaia, o cedro é chamado de "deodar", da palavra do Sânscrito
"devdar", significando "timbre dos deuses".




Sem comentários:
Publicar um comentário