domingo, 9 de novembro de 2014

COMO NARCISO SE PERDE - Uma história fundadora da representação do EU


  



ÍNDICE
Sobre os espelhos, Umberto Eco (1989)
Narciso, Dicionário dos símbolos (1982)
O mito de Narciso, Ovídio (1?2? d. C.)
O mito de Narciso como representação da escrita autobiográfica, Clara Rocha (1992)
Narciso, o belo suicida – (re)leituras do mito a partir de um novo papiro, Carlos A. Martins de Jesus (2008)
Máscaras de Narciso ‑ leitura orientada de poemas:
Soneto CXXVII (Vendo Narciso em uma fonte clara), Diogo Bernardes (1597)
Narciso, Gentileza, Soror Maria do Céu (século XVIII)
Imagem, Manuel Bandeira (1917)
Narciso, José Régio (1929)
Ninguém a outro ama, Ricardo Reis – Fernando Pessoa (1932)
Epigrama, Cecília Meireles (1942)
Lago Turvo, Miguel Torga (1956)
O Narciso, Miguel Torga (1950)
Mergulho, Miguel Torga (1951)
Narciso, Sebastião da Gama (1967)
Narciso, Jorge de Sena (1970)
Quem educo quando a ti educo?, Joaquim Manuel Magalhães (1974)
Sampa, Caetano Veloso (1978)
Contranarciso, Paulo Leminski (1983)
Narciso, Federico Garcia Lorca (1986)
Narciso e Narciso, Ferreira Gullar (1987)
Eco e Narciso, Nuno Júdice (1990)
Poema narcisista, Linaldo Guedes (1998)
A Bela Adormecida no espelho, Alice Ruiz (2010)
            
            







         SOBRE OS ESPELHOS
Umberto Eco

O espelho reflete a direita exatamente onde está a direita e a esquerda onde está a esquerda. É o observador (ingénuo, mesmo quando faz de físico) que por identificação imagina que é o homem dentro do espelho e, vendo-se, se dá conta de que traz, por exemplo, o relógio no pulso direito. Mas o facto é que só o traria se ele, o observador, fosse aquele que está dentro do espelho (Je est un autre?). Quem, no entanto, evitar comportar-se como a Alice e não penetrar dentro do espelho, não cairá nessa ilusão.
Umberto Eco, Sobre os espelhos e outros ensaios, Lisboa, Difel, 1989, p.15


Cameron Gordon is a modern narcissus for the peak




NARCISO
Dicionário de símbolos

A etimologia (narké), donde provém narcose, ajuda a compreender a relação desta flor com os cultos infernais, com as cerimónias de iniciação, segundo o culto de Deméter em Elêusis. Plantam-se narcisos sobre os túmulos. Simbolizam o entorpecimento da morte, mas duma morte que talvez não seja mais do que um sono.
Oferecem-se grinaldas de narcisos às Fúrias, as quais, julga-se, entorpecem os facínoras. A flor nasce na Primavera, em zonas húmidas: o que a liga à simbologia das águas e dos ritmos sazonais e, por conseguinte, da fecundidade. Isso significa a sua ambivalência: morte-sono-renascimento.
Na Ásia, o narciso é um símbolo da felicidade e serve para exprimir os votos de ano novo.
Na Bíblia, o narciso, tal como o lírio, caracteriza a Primavera e a era escatológica Cântico dos Cânticos, 2, 1).
Esta flor faz lembrar também ‑ mas num grau inferior de simbolismo ‑ a queda de Narciso nas águas onde se mirava com prazer: daí o facto de se fazer dela, nas interpretações moralizantes, o emblema da vaidade, do egocentrismo, do amor e da satisfação de si próprio.
Os filósofos (L. Lavelle, G. Bachelard) e os poetas (Paul Valéry) estudaram largamente este mito, geralmente interpretado duma forma um tanto simplista. A água serve de espelho, mas um espelho aberto sobre as profundezas do eu: o reflexo do eu que se vê trai uma tendência para a idealização. Diante da água que reflete a sua imagem, Narciso sente que a sua beleza continua, que não está acabada, que é preciso completá-la. Os espelhos de vidro, na clara luz do quarto, dão uma imagem muito estável. Tornar-se-ão vivos e naturais quando se puder compará-los a uma água viva e natural, quando a imaginação renaturalizada puder receber a participação dos espetáculos da fonte e do rio (BACE, 35).
G. Bachelard insiste no papel desse narciso idealizador. Isso parece-nos tanto mais necessário, escreve, quanto a psicanálise clássica parece subestimar o papel dessa idealização. Com efeito, o narcisismo nem sempre é neurótico. Desempenha também um papel positivo na obra estética (principalmente)... A sublimação nem sempre é a negação de um desejo; não se apresenta sempre como uma sublimação contra os instintos. Ela pode ser uma sublimação por um ideal (BACE, 34-35). Essa idealização liga-se a uma esperança, duma tal fragilidade que desaparece ao menor sopro:

Le moindre soupir
Que j' exhalerais
Me viendrait ravir
Ce que j'adorais
Sur l' eau bleue et blonde
Et cieux et fôrets
Et rose de l'onde.
      
Paul VaIéry, Narcisse
O menor suspiro
Que eu exalasse
Viria arrebatar-me
O que eu adorava
Sobre a água azul e dourada
E céus e florestas
E rosa da onda.
     
     

A partir destes versos e do estudo de Joachim Gasquet, G. Bachelard descobre também um narcisismo cósmico: é a floresta e o céu que se miram na água com Narciso. Ele já não está sozinho, o universo reflete-se juntamente com ele e envolve-o, anima-se com a própria alma de Narciso. E como diz J. Gasquet: O mundo é um imenso Narciso ocupado em pensar-se a si próprio. Onde se pensaria ele melhor senão nas suas imagens? pergunta G. Bachelard. No cristal das fontes, um gesto perturba as imagens, o repouso restitui-as. O mundo refletido é a conquista da calma (BACE, 36 s).
Foi o perfume do narciso que enfeitiçou Perséfone, quando Hades, seduzido pela sua beleza, quis raptar a jovem e levá-la com ele para os Infernos: A flor brilhava com uma luz maravilhosa, e deixou impressionados todos os que então a viram, tanto Deuses imortais como homens mortais. Crescera da sua raiz um caule com cem cabeças e, com o perfume desta bola de flores, todo o vasto Céu sorriu lá do alto, e toda a terra, e a acre turgidez das ondas do mar. Admirada, a criança estendeu ao mesmo tempo os dois braços para agarrar no belo brinquedo: mas a terra de vastos caminhos abriu-se na planície de Nisa, e dali surgiu, com os seus cavalos imortais, o Senhor de tantos hóspedes, o Cronos invocado sob tantos nomes. Raptou-a e, apesar da resistência dela, arrastou-a, toda em prantos, no seu carro de ouro (HYMH: Hino a Deméter, v. 4-20).
Para os poetas árabes, o narciso simboliza, em virtude da sua haste reta, o homem de pé, o servidor assíduo, o devoto que quer consagrar-se ao serviço de Deus. O mito grego é aqui estranho à interpretação que desenvolve em muitos poemas todas as metáforas evocadas pela sua aparência graciosa e pelo seu perfume penetrante.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos. Lisboa, Editorial Teorema, 1994. (Edição original: © 1982, Éditions Robert Laffont S.A. et Éditions Jupiter, Paris).



John William Waterhouse, Eco e Narciso, 1903.

Narcissus", posted by Dan Cretu, 2015-10-16






         O MITO DE NARCISO
         Ovídio (escritor latino, 43 a.C.-17?18? d.C.)

Narciso era filho da bela ninfa Liríope e de Cefiso. Ao nascer, os pais consultaram o adivinho Tirésias, perguntando-lhe se o filho teria uma vida longa. Tirésias respondeu: "Sim, se não se conhecer”. Durante muito tempo as palavras do profeta pareceram desprovidas de sentido. Seriam, porém, justificadas pela maneira como as coisas vieram a acontecer, com a morte de Narciso e a sua estranha loucura.
Aos dezasseis anos, Narciso tinha o aspeto de uma criança e, simultaneamente, de um jovem adulto. A sua beleza delicada despertava paixões sem fim e a todas ele respondia com um frio desdém. Eco e muitas outras ninfas nascidas nas ondas e nas montanhas acalentaram, assim, um amor sem esperança por Narciso. Então, uma das vítimas dos seus desdéns, erguendo as mãos ao céu, lançou sobre ele uma maldição: "Possa ele amar e jamais possuir o objeto do seu amor!" A deusa de Ramnunte1 acolheu favoravelmente esta justa prece.
Um dia, Narciso, fatigado da caça e do calor, veio deitar-se junto de uma nascente de água límpida. Era um lugar de encanto: nem os pastores, nem as cabras que pastam nas montanhas, nem qualquer outro tipo de gado, se tinham jamais aproximado dessas águas brilhantes e prateadas; cercadas de relva, a floresta em volta protegia-as do calor dos raios de Sol. Narciso debruça-se sobre a água, tentando apaziguar a sede, mas, ao fazê-lo, uma outra sede cresce dentro dele: enquanto bebe, fica seduzido pela imagem que vê refletida na água. Fica em êxtase diante de si próprio e, sem se mexer, com o olhar fixo, parece uma estátua de mármore de Paros. Contempla, estendido no solo, dois astros, os seus próprios olhos, os seus cabelos dignos de Baco, dignos também de Apolo, as suas faces imberbes, o seu pescoço de marfim, a sua boca singular, o rubor que tinge a brancura nevada da sua tez. Admira tudo aquilo que nele inspira admiração. Deseja-se, ignorando-o, a si próprio. Os desejos que sente, é ele próprio que os inspira. É ele o alimento do fogo que o incendeia. Quantas vezes atirou beijos à onda enganadora! Quantas vezes, para agarrar o pescoço que estava a ver, mergulhou os braços na água, sem conseguir enlaçá-lo! Para quê esses esforços vãos para agarrar uma visão fugidia? O objeto do teu desejo não existe! Afasta-te, e tu farás desaparecer o objeto do teu amor! Essa sombra que vês é o reflexo da tua imagem. Ela não é nada em si própria. Foi contigo que ela apareceu, é contigo que persiste, e a tua partida dissipá-la-ia, se tivesses a coragem de partir.
Mas nem a necessidade de comer nem a de repousar o arrancam dali. Estendido sobre a erva espessa, contempla, sem se cansar, a enganadora imagem, e torna-se ele próprio o causador da sua perda. Soerguendo-se levemente, estende os braços para a floresta que o cerca: "Já alguém, ó florestas, experimentou mais cruelmente o amor? Entre tantos amantes que, ao longo dos séculos, procuraram o vosso refúgio, algum sofreu tanto como eu? Aquele que vejo seduz-me, mas não posso tocar-lhe e, no entanto, não nos separa a imensidão do mar, nem um longo caminho, nem a montanha, nem uma muralha de portas cerradas. Uma fina camada de água é tudo o que se interpõe à nossa união. Ele próprio também me deseja, pois sempre que estendo os lábios para estas ondas límpidas, ele procura também, com a boca estendida, tocar na minha. Julgaria quase tocar-lhe, tão frágil é o obstáculo aos nossos desejos. Quem quer que sejas, sai, vem! Porquê, ser sem igual, porque troças de mim? Quando te procuro, onde te refugias? Não é, certamente, pelo meu aspeto, nem pela minha idade que te faço fugir! Muitas ninfas me amaram. No teu rosto querido deixas-me ler não sei que esperança e, quando estendo os braços, tu também mos estendes; ao meu sorriso responde o teu sorriso e, muitas vezes, vi correr as tuas lágrimas, quando deixava correr as minhas; com a cabeça respondes aos meus sinais e, tanto quanto o adivinho pelos movimentos da tua boca encantadora, dizes-me palavras que não chegam aos meus ouvidos!"
‑ Entendo agora: tu não és senão eu próprio. É por mim que ardo de amor, e este fogo, sou eu que o ateio ao mesmo tempo que o sinto.
O que eu desejo, trago-o em mim, a minha miséria vem da minha riqueza. Oh! Se eu pudesse separar-me do meu corpo! Voto insólito num amante: o que eu amo é o mesmo de que quero separar-me. A dor tira-me as forças; já não me resta muito tempo de vida, extingo-me na flor da idade. Mas não é o morrer que me aflige, pois, ao morrer, libertar-me-ei do fardo da minha dor; para aquele que é o objeto da minha ternura, teria desejado, porém, uma vida mais longa. Agora, nós dois, unidos pelo coração, exalaremos em conjunto o último suspiro.
Perde a cor da tez, perde o vigor e as forças, nada resta desse corpo que outrora fora amado por Eco. As últimas palavras de Narciso, com os olhos mergulhados na água tão familiar, foram: "Pobre de mim! Criança querida, meu vão amor!”. As suas irmãs, as Náiades, choraram-no longamente mas não puderam prestar-lhe as honras fúnebres: o corpo de Narciso tinha desaparecido. No seu lugar, encontraram urna flor amarela tom de açafrão, com o centro rodeado de folhas brancas.

Ovídio, As Metamorfoses, 1?2? d.C..
Traduzido e adaptado do francês (Les métamorphoses, Paris, Garnier, 1996) por Ana Garrido, Cristina Duarte, Fátima Rodrigues, Fernanda Afonso e Lúcia Lemos, in Antologia. Português. 10º Ano / Ensino Secundário. Lisboa Editora, 2007


_______________________________
(1) Némesis: deusa da vingança divina.








O MITO DE NARCISO COMO REPRESENTAÇÃO DA ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA
Clara Rocha

O mito de Narciso é naturalmente a representação mais evocada a propósito da escrita autobiográfica. Narciso que se contempla nas águas e se apaixona pela sua imagem é também um duplo ser: simultaneamente o eu que olha e o outro que é olhado, o sujeito e o objeto do desejo. Narciso é, ao mesmo tempo, realidade e ilusão: tem um corpo verdadeiro, e enamora-se desse corpo refletido. Jorge de Sena fala num poema de Narciso, "que em limos se fundiu com a sua imagem vácua". (…)
Narciso contempla a sua imagem refletida, e essa imagem é, ao mesmo tempo, ele próprio e uma reprodução: eu e o outro estão ligados por uma identidade fantástica. Este desdobramento tem o seu equivalente manifesto na escrita do eu, onde a dupla corpo e letra mantêm idêntica relação.
O outro motivo do mito de Narciso é a fuga. A imagem refletida caracteriza-se pela mobilidade, pela oscilação, porque a água em que Narciso se revê é matéria em movimento. Ora tal como a água, a linguagem é um espelho traiçoeiro: a projeção narcísica é um reflexo que tanto deseja como receia a cristalização da linguagem, e que tanto se deixa seduzir pelo caudal das palavras como procura defender-se dele. Há assim na escrita confessional um jogo de fuga e cristalização, pois o sujeito quer eternizar-se na escrita, mas teme a irremediável fixação e nem sempre se reconhece nela. Lembre-se que a cristalização está também presente no mito de Narciso: no lugar onde o jovem morre, os deuses fazem nascer uma flor.
Desdobramento do sujeito, condição ilusória da imagem, mobilidade do reflexo, desejo de fixação e eternização da figura refletida são, pois, os principais motivos do mito de Narciso, tantas vezes evocado a propósito da escrita autobiográfica.

Clara Rocha, Máscaras de Narciso Estudos sobre a Literatura Autobiográfica em Portugal, Coimbra, Almedina, 1992, pp. 50-51 (excerto).






NARCISO, O BELO SUICIDA
(Re)leituras do mito a partir de um novo papiro99

Deve ser o cristal que viu Narciso:
água de um poço de ilusões pequenas
onde morra e renasça o Paraíso.
Miguel Torga, Mergulho
(Diário 6, 1953: 36)

Nas águas se contempla Narciso, nas águas límpidas que, cristalinas, lhe revelam uma beleza que pode não ser a sua. Até que um dia, maldição divina ou de um amante preterido, não são tão límpidas as águas, e a imagem que do homem dá esse espelho natural não é já pintada com os tons de perfeição de outrora. Afinal, o retrato era mais belo (falsamente belo) do que a essência desse homem. E no momento da morte, retrato e essência são uma e a mesma realidade, em tudo coincidentes. O desespero assim o determina. A beleza de Narciso era, afinal, resultado da ausência de visão. Conhecida a realidade, pela sua representação, ela não é mais agradável à vista. E o herói tomba, para o lago, ou para o fundo de si. Só a morte é lenitivo para a desilusão decorrente da visão do eu, um esforço cognitivo que seguiu o caminho da aparência e não o da essência, e que por isso se revelou trágico.
Um dos textos recentemente encontrados em Oxirrinco (P. Oxy. 69. 4711 = “Apêndice Iconográfico”, figs. 7-8) permite ler três mitos à partida distintos, mas que o editor W. B. Henry considerou pertencerem a um conjunto de Metamorfoses, por exclusão de hipóteses atribuídas a Parténio de Niceia, poeta do século I. a.C. de quem preservamos um conjunto de histórias de amor, em prosa, baseadas na poesia grega, além de alguns fragmentos poéticos. O papiro apresenta-nos, na frente (↑fr. 1), parte da narrativa de Adónis (ll. 1-6) e, aparentemente sem qualquer relação, o mito de Astéria (ll. 7 sq.), que sofreu também uma metamorfose. Filha do titã Ceu e de Febe, irmã de Leto, transformou-se em codorniz para escapar às perseguições de Zeus, que por ela se apaixonara, e lançou-se ao mar, onde se transformou na ilha Ortígia (literalmente, “a ilha das codornizes”), mais tarde conhecida pelo nome de Delos. No verso do papiro (→ fr. 1) encontramos o que parece ser a parte final da narrativa do mito de Narciso, que nos ocupará a partir deste momento. Nada parece confirmar que Parténio tenha tratado este mito, mas possuímos relíquias que acusam o tratamento da i-gura de Adónis (SH. 641, = fr. 23 e SH. 654 = fr. 37), e daí também a atribuição do achado a este autor. (Para as referências a Parténio, seguimos a edição de J. M. Edmonds e S. Gaselee 1978.)
Vejamos agora o texto, que traduzimos a partir da edição de W. H. Henry no volume 69 dos Oxyrhunchus Papyri (págs. 46-53), para logo de seguida estabelecer um conjunto de reflexões sobre o mito, as suas diferentes versões e o seu aproveitamento em diferentes registos semióticos.

(faltam 5 versos)
………………………(julgando que) é um imortal[
………………… de aparência semelhante aos deuses.
um inquebrantável] coração ele tinha, odiado por todos,
(Narciso então) se apaixonou pela sua própria figura
……………...] mas lamentava o prazer de um longo sonho
…………………………...] chorou pela sua beleza
(e então) derramou (o seu sangue) sobre a terra
………………………………] suportar


A principal fonte para o mito de Narciso, que ao longo dos tempos se impôs quase como única, é como para muitos outros casos Ovídio (Metamorfoses, 3. 339-510), um longo passo que demonstra o interesse do poeta latino pela história. Muito brevemente, aqui se conta que Narciso era filho de Cefiso, rei da Beócia, e da ninfa Leríope. Ao nascer, um oráculo predissera-lhe que viveria bem até ao momento em que se visse a ele próprio (v. 348). Ao atingir a juventude, a beleza do herói granjeava-lhe a paixão de um sem número de donzelas e mancebos, entre as quais a ninfa Eco que, impedida de estabelecer diálogo com alguém – pois que apenas repetia os finais do que ouvia – foi também por ele preterida, retirando-se para morrer solitária. Quantos havia desprezado, unidos pelo mesmo abandono, lhe lançaram uma maldição: que enfim pudesse amar alguém e não possuir o objeto do seu amor. Havia de ser por si próprio que nasceria a paixão, nesse coração onde paixão alguma havia já nascido. Um dia, cansado de uma caçada, acerca-se de um lago para matar a sede e, ao ver o seu reflexo, apaixona-se pela sua figura, não mais saindo desse local, até morrer. No fundo, o ser que amava estava mesmo ali, perto de si, do outro lado do espelho (a água cristalina), mas não podia de forma alguma atingi-lo. Pior do que a distância, para Narciso, era a proximidade intransponível daquele regato de água. Conta ainda Ovídio que, no momento em que as Dríades preparavam o seu funeral, em vez do corpo encontraram uma flor amarela, que em sua homenagem passou a chamar-se Narciso.
A metamorfose não é, por conseguinte, explicada em Ovídio. A transformação de homem em flor é algo que ocorre como que por magia, pela substituição de um cadáver (homem morto) por uma flor (um ser vivo), no fundo um ressurgir do herói dos mortos que, sob outra forma, regressa à vida. Os deuses, ao certo, não permitiram que um homem tão belo desaparecesse por completo, transformando-o em flor, para que toda a humanidade, até ao fim dos tempos, pudesse contemplá-lo.
Ora, no que concerne à parte final do mito, a metamorfose de Narciso em flor, parece claro que não é esta a versão que Parténio segue, no texto que acima transcrevemos e traduzimos (a admitir a atribuição do papiro). Na versão de Ovídio, como se viu, a morte é também voluntária, não infligida por outrem, mas este suicídio é lento, decorrente da inanição. Narciso, simplesmente, deixa-se ficar, preso à contemplação de si mesmo, até que lhe falecem as forças e acaba por morrer. A visão do seu reflexo exerce sobre ele um efeito mágico, um encantamento que o faz esquecer as mais vitais necessidades humanas.
No texto preservado do papiro que vimos comentando, até ao verso 11, nada de diferente nos é permitido ler. Temos a expressão da beleza do herói, semelhante na aparência aos próprios imortais (vv. 7-8), o preterir de todos os pretendentes, motivo do ódio por parte destes (v. 10) e o enamoramento pela própria figura (v. 11). O verso 12, contudo, merece já mais atenção. O sonho a que se alude pode muito bem ser entendido como a ilusão (da beleza) que foi toda a vida de Narciso, algo que agora se lamenta amargamente, contemplada que foi a verdade (a fealdade) nas águas do lago. Esta hipótese parece confirmar-se no verso 13: a beleza chorada seria, no fundo, uma beleza que não há, e que, em boa verdade, se percebe nunca ter existido de facto. Talvez consequência dessa amarga descoberta, o ato de dar a morte (v. 14) é extremamente violento e imediato. Se aceitarmos, como parece credível, que o sujeito do verso é o próprio Narciso, e que o objeto direto é o sangue, estamos então a falar de um suicídio consciente e cruel. As coordenadas do final do mito estão então, e tendo como referência Ovídio, completamente subvertidas. Narciso ter-se-á suicidado ao perceber ser uma ilusão a beleza que sempre julgou possuir. Precisamos assim, como parece claro, de encontrar uma outra versão do mito que tenha eventualmente servido de modelo à composição de Parténio.
Dos demais autores que trataram o mito de Narciso,101 o testemunho que nos parece mais semelhante é o de Cónon (FGrHist. 26. 24), numa versão originária da Beócia, miticamente a terra do próprio herói. O que nos refere o autor é, a início, o mesmo que podemos ler em Ovídio: Narciso, jovem, preterindo todos os seus pretendentes. Depois, contudo, a situação muda. Um dos jovens negados, ao suicidar-se, pede aos deuses que amaldiçoem Narciso, que há de pôr termo à vida de forma violenta, trespassando o peito com um punhal. Do sangue derramado sobre a terra explica Cónon (FGrHist. 26. 24. 3) o surgimento do narciso, pelo que não se trata, em boa verdade, de uma metamorfose, antes de um fenómeno telúrico, da terra que absorve o sangue derramado e reage com a criação de um novo ser, fenómeno em tudo semelhante à origem das erínias:
Pensam os autóctones que a primeira flor de narciso nasceu daquela terra, derramado sobre ela o sangue de Narciso.
Estamos então, com o texto do papiro e com a versão de Cónon, no âmbito de uma versão mais pessimista do mito. O espelho, no momento final da vida do herói, resulta na desilusão e no desengano, na constatação da não existência de uma beleza em que toda uma vida tinha assentado. Daí que a morte não seja calma, fruto de um apagamento sucessivo das forças vitais pela inanição, antes dada pelo mais violento dos suicídios. Ela vem pelo sentimento de solidão, causado pelo afastamento do convívio social e amoroso, ciente de que só em si próprio existe o belo, um belo que torna indigna a aproximação de qualquer outra pessoa. É este, no fundo, o aproveitamento que deste mito fez a moderna psicologia, bem como, a outro nível, o senso comum, que não raro confunde as noções de narcisismo e egoísmo. Ao longo dos tempos, e já desde a Antiguidade, muitos foram os que interpretaram o mito de Narciso, baseados essencialmente numa receção nem sempre rigorosa do Platonismo. Já Luciano, vulto da segunda sofística (c. 120-190 d.C) o relacionara com a vaidade, crítica que seria aproveitada pelo Cristianismo. Clemente de Alexandria (Paedagogus 2. 8. 71. 3), por exemplo, estabelecia a ligação entre a vaidade narcísica e o culto da imagem exterior, que devia ser, pelo contrário, desprezada em prol da beleza espiritual. Do mesmo modo Plotino (Enneades 1. 6. 8) olhava para Narciso como o mais perfeito exemplo do herói que havia ignorado que o seu corpo (o que vira refletido) não era ele próprio mais do que um reflexo (imperfeito e limitado) da sua alma, e que, desejando o que não merecia ser desejado, com isso se afundara nas águas, metáfora tanto para a negra noite do Hades como para o Inferno cristão. É isto prova suficiente de que o mito era já lido em termos simbólicos, dele se retirando ensinamentos filosóficos e morais. Para Plotino, de resto, é o processo de reflexão de um espelho que explica a criação de todo o mundo sensível, o que torna o caso de Narciso ainda mais paradigmático. E neste sentido seguiram, regra geral, os restantes neoplatonistas. O próprio Marsílio Ficcino, no seu comentário ao Banquete de Platão, entende ainda o episódio de Narciso como uma confusão do eu (essência, verdade) com a imagem reletida (aparência, ilusão).
Muitos foram também, entre nós, os poetas contemporâneos a tratar o mito de Narciso, tantos e de forma tão rica que aqui não cumpre mencioná-los.102 Preferimos, por isso, enveredar por um outro registo semiótico, a pintura, analisando, com base nas reflexões suscitadas pelo texto do papiro, de que forma elas terão estado presente na mente do artista. Já Filóstrato (Imagines 1. 23) nos dava a descrição de um quadro onde se podia ver um verdadeiro jogo de espelhos. O rosto de Narciso que se reflete na fonte, a fonte que se reflete nos seus olhos, os olhos que se refletem no quadro e, por fim (para completar o ciclo) o próprio quadro que se reflete nos olhos de quem o vê. Um jogo de espelhos onde, por entre reflexos e reflexos de reflexos, muita essência se pode perder. Na pintura, Caravaggio (Narciso. Óleo sobre tela, 110x92 cm: Galeria nacional de Arte Antiga, Roma) pintou de forma admirável a expressão de desespero no rosto de Narciso, no momento em que se curva sobre as águas e vê o seu reflexo. E é este reflexo, precisamente, que se mostra revelador. Ele é um rosto feio, disforme, em nada similar ao do indivíduo que o contempla. A dicotomia que o artista bem exprime é a da realidade / aparência ou, de outro modo, essência / suplemento. O reflexo do eu (suplemento) é, no fundo, a visão que esse eu tem da sua própria essência, no momento da morte, precisamente o inverso da que cultivara ao longo de toda a vida. Daí que, entendido este curvar sobre o lago como um exercício de autoconhecimento, este esforço tenha seguido os trilhos errados.


"Narciso", Caravaggio
  
Link permanente da imagem incorporada
"Narciso", Stas Svetlichnyy


Como diria Platão, Narciso procurou a verdade onde não cabia alcançá-la; buscou a essência no mundo das aparências (simbolizado no lago), e não poderia de forma alguma contentar-se com o resultado, fosse ele belo ou feio. De outro modo, podem a disformidade e a fealdade ser, elas próprias, a essência desse Narciso homem, só percebidas quando se curvou sobre as águas, quando olhou para o fundo do lago, o fundo de si próprio, para aí ver a verdade. E, assim sendo, só pelo suplemento, pela imagem refletida, pode o homem conhecer, ainda que imperfeitamente, a sua essência, que é deste modo relegada para o campo do incognoscível. Seja o reflexo verdadeiro ou enganador, não pode de facto o indivíduo olhar-se senão através dele. Estas as limitações mais básicas da autognose.
Belo ou feio – essencialmente belo ou essencialmente feio – qualquer que seja a leitura do mito ou a versão antiga por que optemos, Narciso traz-nos o mistério do outro lado do espelho. Do outro lado, todo o mundo que imagina Alice antes de entrar no país das maravilhas; do outro lado do espelho, por vezes, um ser em tudo igual a nós que estende a mão quando nós próprios a estendemos, de uma aparente similaridade desconcertante; do outro lado do espelho a verdade, a que se não quer aceder, por medo (Narciso disforme), ou a mais doce das mentiras (Narciso belo). A avaliar pelo texto do novo papiro, do outro lado do espelho vem a causa imediata para a morte: a desilusão, seja pela realidade, seja pela ilusão de uma imagem enganadora. Na versão de Ovídio, o encantamento provocado pelo reflexo fora a única causa de morte: um ser que se apaixona por uma imagem (que não é ele próprio) e que desse modo se esquece de si.
Do outro lado do espelho, no fundo das águas, não pode enfim estar o verdadeiro Narciso. O Narciso que lá mora é um eidolon, uma ilusão de ótica, ou simplesmente um reflexo individualizado do sujeito aí refletido. Do outro lado do espelho mora o medo, o terror que representa a descida ao fundo de si, o pavor de aí encontrar a mentira, ou a pior das verdades. Narciso tombou. Resta só saber o que viu ele, do outro lado.

Coimbra, Fluir Perene, 2008, pp. 117-125.


_____________________________
(99) Artigo originalmente publicado no Boletim de Estudos Clássicos 45, 2006: 11-18.
(101) As fontes principais para o mito, por ordem cronológica, parecem ser a) Hino Homérico a Deméter (v. 6 sq.), Cónon (FGrHist. 26. 24), Pausânias (9, 31, 7-9) e Ovídio (Metamorfose 3. 339-510).
(102) Tanto mais que este assunto foi já tratado por A. Veloso 1975-1976: 167-190 e José Ribeiro Ferreira 2000: 95- 124.



Adrian Kissing, 2007.




MÁSCARAS DE NARCISO
(leitura orientada de poemas)


SONETO CXXVII

Vendo Narciso em uma fonte clara,
A sombra só da própria formosura,
De si vencido (Amor quis por ventura
Vingar as Ninfas qu'elle desprezara.)

Todo enlevado na beleza rara,
Que seu peito abrasou em chama pura,
Chorando disse, à sua vã figura,
Por quem perdeu em fim a vida chara:

O Ninfa destas águas moradora,
Surda em ouvir-me, muda em responder-me,
Não vês a quem não ouves, nem respondes?

Não vês que sou Narciso? ah que por verme,
Mil Ninfas d’Outras fontes saem fora,
Ε tu por me não ver, nesta t'escondes.

Diogo Bernardes (1530-1605), Rimas Várias: Flores de Lima, 1597



[…]
No soneto de Diogo Bernardes, que vamos aqui analisar, o esquema das quadras é precisamente do tipo quiástico ABBA, enquanto os tercetos apresentam três rimas cruzadas CDE DCE.
No decassílabo, o verso heroico (acentos na 6.ª e 10.ª sílaba) alterna com o verso sáfico (acentos na 4.ª,8.ª e 10.ª sílaba), sendo as duas variantes repartidas em proporções iguais: dos catorze decassílabos, sete são heroicos e sete sáficos, mas o primeiro tipo de verso domina nos tercetos (vv.6, 8, 9, 11-14) e o segundo prevalece nas quadras (vv. 1-5,7 e 10).
A mesma repartição harmoniosa e equilibrada encontra-se no ritmo dos versos, metade dos quais não tem cesura, enquanto os outros estão todos fortemente pausados. Veja-se, por exemplo, o incipit («Vendo Narciso em uma fonte clara»), ou também o v. 8 «por quem perdeo em fim a vida cara» ‑ aqui, a cesura é quase impercetível, ao contrário do que acontece no verso 10 «surda em ouvirme, | muda em responderme» ‑ ou no verso 14 «e tu por me não ver, | nesta t’escondes», onde a pausa entre os dois hemistíquios está bem marcada.
Ainda em relação ao ritmo, cabe aqui sublinhar a presença de quatro cavalgamentos (ou transportes, para usarmos esta palavra antiga e talvez erudita mas, ao mesmo tempo, elegante e sugestiva): transportes que anulam, de facto, a pausa final do verso nos nexos 1-2, 3-4, 5-6 e 7-8 (isto é, nos pontos nodais das quadras).
Na primeira estrofe, o desrespeito da pausa final produz-se em correlação com um sintagma oracional «(Vendo... a sombra») e com outro locucional («quis... vingar»). Na segunda, o transporte coincide com uma oração relativa (precisamente, uma subordinada adjetiva de valor restritivo).
À falta de transportes nos tercetos corresponde o predomínio, já assinalado, do decassílabo heroico sobre o sáfico, isto é, a programática moderação do ritmo, pela qual o poeta refreia a velocidade do verso, respeitando tanto a cesura no meio, como a pausa no final.
Se nos detivermos, agora, no facto de o ritmo de um poema estar necessariamente ligado à construção sintática dos seus períodos, poderemos constatar que, neste soneto, não há senão uma oração subordinada causal, que vai do primeiro até ao oitavo verso: uma única frase ocupa totalmente as duas quadras. Nela o poeta descreve tanto a cena atual (o presente), como o seu antecedente lógico-temporal (o passado).
Ao contrário, os tercetos apresentam um diálogo fictício (que é, na realidade, um monólogo de Narciso), constituído por uma série de orações interrogativas e exclamativas que vêm alternadas.
Toda a parte inicial do poema, sintaticamente enleada, gravita em torno da forma verbal disse, bem destacada pela forte cesura do verso. O período sintático enrola-se em forma de espiral em torno deste dissílabo, como um sorvedouro, sugerindo a imagem do ambiente aquático em que o mito situa Narciso (trata-se mais exatamente da fonte em que ele se debruça).
A mesma sugestão nasce da presença constante da líquida r na série das rimas (-ara, -ura, -ora, -erme): cria-se assim uma rede vertical de correspondências que liga, sem interrupção, toda a sequência das rimas ABCD até à última (-ondes), que ‑ mesmo faltando-lhe o fonema r – evoca contudo o substantivo onda, reforçando o sistema fonossimbólico do soneto.
Ao lado do elemento aquático, aparece bem clara a natureza silvestre do lugar: o bulício da folhagem, o murmúrio do arroio, o sussurro da brisa, a voz do bosque, imitada e até recriada pelos valores fonossimbólicos do f, do s, do v, do ch. Note-se o uso da aliteração nas séries seguintes: 1 fonte 2 fermosura; 2 sombra só 3 si; 3 vencido ventura 4 vingar 1 vendo 7 8 vida 11 ves 12 ves verme 14 ver (e também 10 ouvirme 11 ouves no interior da palavra); até ao par 6 chama 7 chorando, que sugere o pranto, e ao sintagma 14 nesta t'escondes. em que o som ch alude ao repentino desaparecimento da Ninfa dentro da folhagem.
Seguidamente ‑ e passando da segunda para a primeira articulação da linguagem (conforme a tese funcionalista de André Martinet), quer dizer dos fonemas para os monemas, dos sons para as palavras ‑ convirá realçar o papel essencial desempenhado pelos verbos ver e ouvir (1 vendo 11 não ves 12 não ves... por verme 14 não ver; 10 ouvirme 11 não ouves).
O verbo ver apoia-se numa tradição que é mais ideológica do que literária, remontando aos filósofos gregos (Platão e Aristóteles): o Amor só pode nascer pelos olhos, quer dizer pela vista da pessoa amada (gr. 'ap' ommàton'). O valor que ainda tem este princípio na Idade Média pode ser facilmente avaliado pelas palavras de Andreas Capellanus, autor do célebre tratado De Amore: «Caecitas impedit amorem, quia caecus videre non potest, unde suus possit animus immoderatam suscipere cogitationem, ergo in eo amor non potest oriri» (trad.: 'um cego ‑ privado, como é, da vista ‑ não pode amar, porque não tem a faculdade de ver').
No soneto de Diogo Bernardes, o antigo lugar-comum adquire mais força ligando-se ao mito de Narciso: aquele jovem de beleza excecional que Narciso vê, nas águas da fonte, não é senão a sua própria imagem refletida na superfície aquática como dentro de um espelho. Assim, o ato de ve, que constitui o verdadeiro começo do amor, sendo ao mesmo tempo o seu princípio e a sua causa, converte-se em cruel desengano. E o próprio objeto do amor não é mais do que uma imagem ilusória.
A distribuição das formas do verbo ver no soneto sublinha a sua natureza de eixo lexical do texto: vendo é a primeira palavra que se encontra no poema, com a função manifesta de introduzir o antecedente lógico e temporal da ação indicada na frase principal (disse). Narciso vê «a sombra só da própria fermosura» e, portanto, fala «à sua vã figura».
A forma verbal disse, no final das quadras, introduz o tema lexical dos tercetos, todo concentrado na oposição entre ouvir e responder: Diogo Bernardes alude, com muita elegância, ao mito da Ninfa Eco, cujo amor não era retribuído por Narciso. Quando Narciso morre, encantado pela sua própria beleza, a Ninfa Eco repete as últimas palavras que ele profere: «Ó jovem que amei com esforço vão, adeus!». É precisamente a partir desta fábula grega que Eco passa de nome próprio a substantivo comum, para indicar aquele fenómeno acústico devido à reflexão de uma onda sonora por um obstáculo e percebido como a repetição de um som emitido por uma mesma fonte.
Paralelamente, o nome de Narciso vai designar uma flor solitária, de cheiro intenso e penetrante, com pétalas alvas e o interior da corola vermelho escuro. O branco simboliza a pureza virginal, o vermelho representa o sangue que saiu do peito, quando Narciso ‑ desanimado ‑ deu a si mesmo a morte. […]

Ler mais: “O mito de narciso num soneto de Diogo Bernardes”, Barbara Spaggiari. Humanitas. Vol. 51 (1999).







NARCISO, GENTILEZA

Tem o Narciso tanta gentileza,
Que na fonte o rendeu sua beleza,
E hoje, por que o conte,
Há Narciso do espelho, e não da fonte.
Homem, que sem concelho,
Como dama te alinhas ao espelho,
O cristal à mulher, a ti o aço,
Abraça o que te é próprio,
Que ser homem e flor está impróprio
Se és belo, procede de tal arte,
Que quem te vê Narciso, te olhe Marte!

Soror Maria do Céu (1658-1753),
Antologia da Poesia Feminina Portuguesa,
António Salvado. Edições do Jornal do Fundão, 1973.




Thomas Dodd





IMAGEM

És como um lírio alvo e franzino,
Nascido ao pôr-do-sol, à beira d’água,
Numa paisagem erma onde cantava um sino
A de nascer inconsolável mágoa...
A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...
Hás de amar e sofrer incompreendido,
Triste lírio franzino, inquieto, ansioso,
Frágil e dolorido...

Manuel Bandeira, A cinza das horas, 1917.



A leitura deste poema inicialmente traz uma sensação de melancolia, tristeza, fragilidade diante da vida. Porém, numa leitura mais atenta, pode-se perceber que o poema traz a reatualização do mito de Narciso de forma implícita. O título “Imagem” já aponta para a questão do reflexo, um dos principais mitemas do mito de Narciso. Ainda mais, o título terá este sentido na medida em que se interpreta o primeiro verso. Outros mitemas que remontam a Narciso aparecem no poema, tais como o eu-lírico se autocontemplando, nascido à beira d’água, o cenário de floresta, o amor impossível e o sofrimento diante do desejo inalcançável de si mesmo. Deve-se salientar que os mitemas estão de forma implícita, o que não impede a afirmação de que o poema traz, em si, o mito de Narciso.
O poema é composto por dois quartetos, observando-se versos polimétricos, com rimas externas ABAB, na primeira estrofe, e CDCD, na segunda estrofe. O primeiro verso, “És como um lírio alvo e franzino”, remonta, conforme mencionado anteriormente, à questão do reflexo. Aqui, neste momento inicial, o eu-lírico observa a sua imagem e analisa a sua beleza, se descobre. Os adjetivos “alvo” e “franzino” evidenciam a admiração, assim como Narciso se comparou aos deuses quando se reclinou na fonte. Pode-se depreender que “alvo” significa puro e inocente, e “franzino”, frágil e delicado – tem-se, então, uma beleza fina, pura, intocável. O substantivo “lírio” indica uma metonímia com a própria planta narciso, já demonstrando o final trágico do personagem. Portanto, no primeiro verso, o eu-lírico se vê e se admira. O conector “como” revela o nível de comparação que ele está tendo ao se surpreender com a sua própria imagem.
O segundo verso, “Nascido ao pôr-do-sol, à beira d’água”, revela a origem deste eu-lírico. O verso inteiro indica um dos mitemas fundamentais de Narciso, ou seja, sob o crepúsculo, na beira da fonte, o sujeito poético nasceu. A “água”, neste verso, não aparece gratuitamente, pois o vocábulo aponta diretamente para a reatualização do mito. O encadeamento do primeiro verso com o segundo registra todo o contexto de Narciso, o seu nascimento e o cenário póstumo: “A imagem nunca é um elemento: tem um passado que a constituiu; e um presente que a mantém viva e que permite a sua recorrência” (BOSI, 2000, p. 22).
Conforme a proposta de interpretação que se vem desenhando, o terceiro e o quarto versos possuem uma lógica de sentido, assim como os dois primeiros. O terceiro verso, “Numa paisagem erma onde cantava um sino”, mostra a situação em que se encontra o personagem do poema, o seu cenário e os acontecimentos. A “paisagem erma” revela que apenas o eu-lírico está ali, sozinho, se admirando. O canto do sino são as ninfas, sobretudo Eco, chamando a persona lírica, pois quando um sino toca, significa um chamamento a distância. O quarto verso, “A de nascer inconsolável mágoa...”, descreve o interior emocional que o eu-lírico irá conhecer pela ação de se apaixonar por si. Narciso foi condenado pelas ninfas do mesmo modo. A inconsolável mágoa que virá consiste no sofrimento sem solução, dor eterna de uma paixão não-recíproca.
Interessante observar que o eu-lírico, nascido nas águas, descobre a gênese do sofrimento na mesma água. O verbo “nascer” aparece duas vezes nesta estrofe: no segundo verso, indica a origem do eu-lírico; no quarto, esclarece a raiz da sua dor emocional.
A segunda estrofe legitima os factos da primeira e mostra um desfecho trágico para o eu-lírico, semelhante ao do mito de Narciso. O quinto verso traz: “A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...”. No mito original, Narciso fazia parte do programa de formação do efebo para atividades militares em grupo. Porém, o personagem segue um rumo oposto ao destino imposto pela cidade. Ele escolhe a solidão dos campos, vivendo sozinho, sem as atividades militares dos grupos. A primeira parte do quinto verso, “A vida é amarga”, aponta para um sujeito descontente com a experiência vivida, assim como Narciso.
Devido ao facto de ser condenado pelas ninfas, o amor que Narciso descobre será raso de afeto, conforme se vê em “O amor, um pobre gozo...”. No poema, o eu lírico, mesmo tendo consciência da efemeridade do amor de si, segue tentando uma aproximação da sua imagem. No sexto verso, “Hás de amar e sofrer incompreendido”, volta a questão do seu destino, que é o mesmo de Eco. As antíteses “amar” e “sofrer” começam a delinear a trajetória do eu-lírico.  O amor por si  mesmo lhe trará um sofrimento indelével.
O sétimo verso, “Triste lírio franzino, inquieto, ansioso“, descreve todas as sensações  percebidas  pelo  eu-lírico.  A  imagem  causa-lhe  inquietação e entorpecimento. A  tristeza  começa  a  vir  pelo  facto  do  reflexo  não  corresponder inteiramente ao que ele desejara. Os movimentos do reflexo e a sua não-nitidez, em alguns momentos, deixam o eu-lírico ansioso e triste.
O  oitavo  verso,  “Frágil  e  dolorido...”,  revela  um  desfecho  interpretativo semelhante ao do mito de Narciso. O adjetivo “frágil” indica a situação emocional, no sentido da paixão entorpecida, como também demonstra as consequências físicas e o estado biológico do eu-lírico. Com o isolamento prolongado, a fome lhe traz dor, mas a admiração não se encerra, pois ele vai até o fim do sofrimento. Portanto, este último verso  registra  o  término  do  poema  e  o  do  eu-lírico;  aqui,  Narciso.  De  um  amor incompreendido, restam a fragilidade e a dor, seguidas pela morte, com as reticências sugerindo algo penoso para este personagem apaixonado.
Por fim, resta apontar que o título – “Imagem” – remonta ao contexto de reflexo, já que se pode interpretar que a segundo estrofe é o reflexo turvo da primeira, uma vez  que  o  poema  tem  apenas  estas  duas,  compostas  de  versos  com  tamanhos semelhantes.

O mito de Narciso no poema ‘Imagem’, de Manuel Bandeira”, Bruno Marques Duarte.
Revista Iluminart – ISSN : 1984-8625 – Número 5 – Agosto de 2010 - IFSP – Campus Sertãozinho





Dead Narcissus, with wasting Echo in the background




NARCISO

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!...

Assim me desejei nestas imagens,
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio, Biografia, 1929.



Trata-se de um soneto decassílabo onde se observa uma linha de raciocínio lógico nas escolhas dos vocábulos que garantem as rimas externas dos dois quartetos e tercetos: tremia/escondia; poço/arcabouço; fria/melancolia; ouço/moço; imagens/selvagens; vermelho/espelho e estranha/tenha. Com a liberdade que o leitor goza, no ato de leitura, de organizar os signos de forma a compreendê-los e interpretá-los, uma nova frase se constrói no elenco dessas rimas: Tremia e escondia nesse poço, arcabouço, dessa fria melancolia, que moço ouço, essas imagens selvagens que no espelho vermelho estranhas tenha.
No poema, tem-se a presença de dois sujeitos, Eu/Tu, que, como o próprio título do poema deixa entrever, representam um só Eu cindido em dois. A dualidade do sujeito já vem marcada na forma eleita pelo poeta, o soneto, pois que ela é simétrica. Outro detalhe a ser observado refere-se às aliterações dos encontros consonantais nos dois quartetos: Dentro – tremia – Dobrado – próprio; fria – sôfrego – fronte. A presença da consoante vibrante /r/ reforça a ideia do medo, do sentimento da experiência religiosa de se estar diante do numinoso, é a sensação do tremendum – do terror místico. O tremendum (pavor sacer) é uma sensação de apagamento do ser ante o objeto numinoso, é a sensação do nada. O numinoso é sempre aquilo de que não nos aproximamos sem morrer. O que significa dizer que essa relação de tremendum ou de veneração, que é estabelecida pelo homem diante do numinoso, coloca em xeque o conhecimento de si, o cosmos interior do recetor. Rudolf Otto definiu esse conhecimento de si como o sentimento da criatura que se abisma no seu próprio nada e desaparece perante o que está acima de toda a criatura (O sagrado. Trad. João Gama. Rio de Janeiro, Edições 70, Ltda. p.19). Essa experiência religiosa da aniquilação do sujeito que se reencontra no outro Eu só parece ser possível no espaço eleito, o da poesia, que possibilita o acesso ao silêncio esfíngico que bem ouço. Somente em dois momentos temos a presença de reticências no poema, que se apresentam no primeiro quarteto e no segundo terceto, como se representassem a abertura e o fechamento da frase, do poema e da experiência religiosa: Dobrado em dois sobre meu próprio poço... Lá no fundo do poço em que me espelho. Há dois poços, o próprio poço e o poço em que me espelho e o que propicia esse encontro é o desejo do eu lírico em fazer de sua poesia a expressão de seu desejo, o da junção dos dois Eus: Assim me desejei nestas imagens/ Meus poemas requintados e selvagens,/ O meu Desejo os sulca de vermelho:/ Que eu vivo à espera dessa noite estranha,/ Noite de amor em que me goze e tenha. Esse poema introduz, neste estudo, uma característica forte da poesia regiana, a metapoesia. E, enquanto tal, essa poesia apresenta o par dicotômico “fundo e forma”, os dois elementos coexistem e, contudo, não anulam o conflito, que é, em verdade, um conflito humano, o da eterna busca pelo autoconhecimento que não se dá sem pathos.

As encruzilhadas de Deus: uma leitura da estética e da religiosidade na poesia de José Régio”,
Adna Candido de Paula (Profª. Adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD)










NINGUÉM A OUTRO AMA

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
        Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
        De penas.

10-8-1932
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  - 145.




Narcissus languishing by his reflection, Nicolas Bernardt Lepicie




EPIGRAMA

Narciso, foste caluniado pelos homens,
por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor,
a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso.
Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro
da onda:
sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que
sonhava
gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso,
a estátua de cristal que, sobre a tarde, a contemplava,
florindo-a para sempre, com o seu efêmero sorriso...

Cecília Meireles, Vaga Música, 1942



Nessa peça de longos versos, o sujeito lírico dialoga solidariamente com Narciso retomando o relato mítico e a hermenêutica dos homens que o condenaram. Tal retomada ocorre mediante delicada subversão dos elementos em jogo no mito. Na primeira terça, de modo metonímico, a poeta alude à queda do sorriso, “desfeita grinalda vermelha”, na “água incolor” para falar, em verdade, da queda do moço nas águas, o que é um modo eufemizado de sugerir que sua morte não foi intencional, por suicídio conforme dispõe o mito, mas por uma queda inevitável.
Na segunda apóstrofe a Narciso, o eu lírico, ainda em declarada cumplicidade, afiança saber que o sorriso do jovem não é para o seu reflexo, o “vulto, dentro da onda”, mas para a onda posta em relação com ele. Essa onda insurge como o outro da relação e é antropomorfizada na loucura de sonhar uma criação a partir do belo corpo do rapaz. Note-se a variante do mito na transposição da loucura de Narciso para a onda, porquanto a fixação patológica não é dele por seu reflexo, mas da onda por ele. Ao transferir a fascinação perturbada para a onda, a poeta acrescenta a não indiferença do moço, já que a onda é alvo da contemplação sorridente de Narciso, “sorrias para a onda”. Há aqui, portanto, o encontro, certa comunhão, do jovem com um terceiro que também não se manifesta no original do mito.
O dístico final do poema revela o louco sonho da onda: ela desejava conceber uma “estátua de cristal” com o corpo de Narciso, “sonhava / gerar no ritmo do seu corpo”. Por isso, ela precisava do seu belo sorriso para enfeitar sua obra: “florindo-a, para sempre, com o seu efêmero sorriso...” Desse modo, a poeta desloca a ênfase do relato mítico — a fraqueza de Narciso em apegar-se a própria imagem — para a ambição insana da onda, metonímia das águas, tornando-a a grande responsável pela desdita do rapaz. E, por fim, a poeta chama Narciso para dizer que, embora os homens o caluniem, ela sabe o alcance da injustiça, pois conhece a verdade, uma verdade que destoa da oficial, na qual o jovem foi seduzido pela onda das águas e, por essa paixão votada a ela não a si mesmo, também foi arrebatado para a morte.
Por essas incursões, pode-se constatar a recorrência ao arquétipo de Narciso tanto no texto poético de García Lorca como no de Cecília Meireles. O espanhol e a brasileira empreendem um mergulho ontológico, nas águas ancestrais do mito, selando o encontro vivo da poesia defronte o espelho, onde, de posse dessa fonte não contaminada, refundem a palavra poética das suas lições e, do caos ao cosmo, tentam superar a atomização restaurando sua integralidade na esfera do poético. Assim, a bela figura de Narciso deve continuar inspirando os poetas e, conforme considerou Jung, sua sombra ou seu reflexo — a imago perdida do triste moço — deve também perdurar acesa em nós (BRANDÃO, 2005, p. 189).

Cecília Meireles e García Lorca entre os espelhos de Narciso”, Soraya Borges Costa,
Revista Crioula nº 8 – novembro de 2010.


Ler também: A poeta ao espelho(Cecília Meireles e o mito de narciso), Jose Carlos Zambolli. Dissertação (Mestrado). Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2002.







Echo and Narcissus, por Pier Francesco Mola




Vejamos então um poeta que se autoperscruta no lago cujas águas, no poema apresentado, estão turvas.


LAGO TURVO

Angústia marginada,
Meu canto é um lago turvo
Que devolve a paisagem, como um eco
Silencioso.
Um lago onde me afogo
Sem vontade,
Puramente impelido
Por não sei que fatal necessidade
De me sentir poeta e possuído.

Mar sem nascente e só do meu tamanho,
A doçura que tem é um sal sem gosto.
E a estranha inquietação de que se anima,
E o céu olha de cima,
São rugas que se agitam no meu rosto.

Coimbra, 28 de Abril de 1956
Miguel Torga, Diário VIII, 822.



Julgamos pertinente referir o contexto de produção deste poema, pois, como já sucedeu anteriormente, a sua inserção num registo que se pretende diário permite-nos fazê-lo. Os versos foram escritos após a morte e enterro do pai do poeta (26 de Abril de 1956). Momento de passagem, de transição para uma nova etapa da vida, o diarista regista que “O número um da família passei a ser eu, e quando alguém perguntar pelo dono da casa, ou a morte vier de novo, terei de aparecer à porta e dizer: Aqui estou.”(Diário VIII, 821) Analisando o seu percurso de vida, acrescenta ainda: “Acabou definitivamente a minha infância, e olho com terror este insólito fantasma adulto em que subitamente me transformei.” (Diário VIII, 821). Muito ao seu jeito, sentindo-se irmão da fauna e da flora que bem conhece, denuncia o desconcerto, o pânico e a impotência perante a situação: “Pareço uma rês enfragada, a que ninguém pode acudir. Gemo no fundo do abismo, com a alma partida, e só no desespero encontro conforto.” (Diário VIII, 821).
Não admira, portanto, que surja o momento de auto-observação, para se atingir a autognose, seguindo os preceitos délficos. Contudo, o reflexo não é nítido, o lago é turvo e não permite o autoconhecimento, o eco185 que transmite é silencioso. Impelido / por não sei que fatal necessidade / de se sentir poeta e possuído, o sujeito poético afoga-se no lago, embora sem vontade. Tantas linhas de leitura, tantas possibilidades de interpretação… Tantas talvez como as dúvidas do sujeito poético, poeta, uma vez mais.
José Ribeiro Ferreira diz-nos que
“Em Miguel Torga, Narciso simboliza sobretudo o desejo de introspeção do homem (…) Outras vezes o mito aparece como símbolo do desejo do artista em rever-se na sua própria obra – quer seja o poema, o quadro, a estátua ou a sinfonia – que é «espelho de cada Narciso» (Diário VI, 1953, p. 36). É esta conceção do mito como introspeção da alma humana – do homem que deseja «ver-se» por inteiro e que «denodadamente se procura», quer seja artista, poeta ou pensador (…)”.186

Narciso nasce para a cultura ocidental por intermédio das Metamorfoses de Ovídio. Sem dúvida a versão mais conhecida do mito (até porque as fontes mitográficas mais conhecidas dos artistas, como os poemas homéricos, a Teogonia ou os trágicos gregos, não o referem), foi através dela que também Torga acedeu a este mythos. A figura mítica é descendente de Cefiso e da ninfa Liríope, que pergunta a Tirésias se o filho viverá muitos anos. O “fatidicus uates” responde-lhe, elíptica e enigmaticamente: “Si se non nouerit”187. Embora aparentemente inofensivo, este “Se não se conhecer a si próprio” vai determinar todo o mythos narcísico.
Passando diante de um apelativo lago, Narciso pára para beber, contudo esta sede dá origem a outra, conotativa, metafórica, mais difícil de matar: “dumque sitim sedare cupit, sitis altera crevit, / dumque bibit, visae correptus imagine formae”188 Enamorado de si, “Quantas vezes beijos vãos não deu àquela fonte enganadora! / Quantas vezes não mergulhou os braços no meio das águas / para abraçar o pescoço que vê, e não se abraçou a si mesmo!”189. Conjuga em si, simultaneamente, o amador (probat / petit) e a cousa amada (probatur / petitur) camonianos190. Deste modo, não conseguindo unir-se a si próprio, decide que “nunc duo concordes anima moriemur in una”191 (atente-se na expressividade de una anima).
Contudo, ao fazer esta afirmação, derramando lágrimas, turva a superfície da água, que lhe devolve uma imagem desfocada, “obscura”, no original: “Dixit et ad faciem rediit male sanus eandem / et lacrimis turbauit aquas, obscuraque moto / reddita forma lacu est”192.
A análise do texto ovidiano permite-nos inferir que Torga o conhecia bem, que leu a fonte mitográfica e que partiu dela para (se) (re)criar mythos. Também o sujeito poético, cujo canto é um lago turvo, terá movido as águas com as suas lágrimas de angústia e de inquietação. E também ele mergulha no lago, afogando-se, no mar sem nascente que, paradoxalmente, possui uma doçura que é um sal sem gosto.
Debruçando-se sobre este poema, Maria Fernanda Afonso afirma que a “referência espacial do mundo de Baixo (cf. «lago», «onde me afogo»)” “nos remete para um Narciso ctónico ou, melhor dizendo, para a outra face do poeta que se consubstancia em Orfeu.”193 Ou seja, uma vez mais, o mythos é poiesis e metapoiesis. Narciso é também o poeta que, à semelhança do Orfeu que desceu dentro de si, mergulha e se afoga em si mesmo, numa tentativa de se conhecer, à Poesia e ao seu canto.

O filho de Cefiso, na obra de Torga, obviamente não se esgota neste poema. Contudo, a insistência no movimento das águas, que não permite a autoperscrutação, mantém-se. Vejamos o poema “O Narciso”, de Cântico do Homem (1950).


O NARCISO

O desenho impreciso
De cada rosto humano, refletido!
Mas o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro…
Por que não há de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?
Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!
À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia… 194

Narciso é o artista, o sábio, o pensador, que procura as respostas em si, desejando ver-se inteiro, todo revelado. Contudo, uma vez mais, as águas turvas tornam a imagem fugidia.
Torga produziu um outro poema que faz referência a esta figura mítica. “Mergulho” foi motivado pela visita ao Poço do Inferno, na Serra da Estrela:


MERGULHO

Tirem o Céu da sua altura triste;
Olhem a cor do inferno aqui no chão:
Verde-esmeralda que, se não existe,
É um milagre de luz em cada mão.
Anjos de barro, o nosso espelho apenas
Deve ser o cristal que viu Narciso:
Água dum poço de ilusões pequenas
Onde morra e renasça o Paraíso. 195

Serra da Estrela, Poço do Inferno, 22 de Julho de 1951


Em tom disfórico, o poema reflete sobre o Céu e o inferno e, uma vez mais, sobre o Homem, anjo de barro. Embora a água já não seja turva, mas cristal, o lago é simplesmente um poço de ilusões pequenas.
Terminando, pretendemos demonstrar novamente como o texto fundador de Ovídio foi recebido, acolhido e (re)criado por Torga. Concluindo a narrativa de Narciso, o poeta latino remata com a sua metamorfose, ocorrida após a morte: “croceum pro corpore florem / inveniunt foliis medium cingentibus albis”196. Torga recupera esta transfiguração, aplicando-a ao povo português, no ensaio sobre “Lisboa”, parte integrante de Portugal:
“Enamorado de si, morreu Narciso à beira dum regato onde se mirava. E as ninfas, compadecidas da sua desgraça, pediram aos deuses que o transformassem numa flor.
Narcisos que fomos também um dia, esperava-nos um destino igual ao do filho de Cefiso. Lisboa é essa flor em que o destino nos transformou; o Tejo, o rio onde nos perdemos a contemplar a própria imagem.”197
Verificamos, deste modo, as multímodas e plurissignificantes leituras que o autor faz dos mitos.


A influência clássica na obra poética de Miguel Torga: o caso particular do ‘Diário’
Ana Sofia Sequeira Madeira de Albuquerque e Aguilar, Lisboa, FLUL, 2010.


______________________
(185) Reconhecemos aqui uma outra vertente do mito de Narciso, que, segundo Ovídio (Metamorfoses, III, 356-401), terá rejeitado a ninfa Eco, eterna duplicadora das últimas sílabas das palavras pronunciadas por outros.
(186) FERREIRA, José Ribeiro, “O mito de Narciso na poesia portuguesa contemporânea”, in AA. VV., A Mitologia Clássica e a Sua Recepção na Literatura Portuguesa. Braga: Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Filosofia, 2000, 109.
(187) Metamorfoses, III, 348.
(188) Metamorfoses, III, 415-416. Tradução, op. cit., 96: “Enquanto procura acalmar a sede, uma outra sede cresce; / e enquanto bebe, arrebata-o a imagem da figura que vê.”)
(189) Tradução de Metamorfoses, III, 427-429: “inrita fallaci quotiens dedit oscula fonti, / in mediis quotiens visum captantia collum / bracchia mersit aquis nec se deprendit in illis!”.
(190) Metamorfoses, III, 425-426: “se cupit inprudens et, qui probat, ipse probatur, / dumque petit, petitur, pariterque accendit et ardet”.
(191) Metamorfoses, III, 473. Tradução (op. cit., 97): “Agora morreremos os dois juntos, num só último sopro”.
(192) Metamorfoses, III, 474-476 (o destacado é nosso). Tradução (op. cit., 97-98): “Assim dizendo, em delírio, volta-se para aquela mesma face, / e com lágrimas turvou a superfície da água: estremecendo, / a lagoa devolveu a imagem desfocada.”.
(193) AFONSO, Maria Fernanda, Escrita e Mito em Miguel Torga: Espelhos do Eu Poeta, tese de Mestrado em Literatura Portuguesa apresentada à FLUL (Lisboa, 1995) 33.
(194) Cântico do Homem, 1950: 407.
(195) Diário VI, 1953: 602.



Narciso, Erika Mériaux (2010)



NARCISO

Curvei, sobre o regato, o corpo todo...
Porém, mal entrevi o meu retrato,
que foi olhar e as águas do regato
se turbaram, manchadas do meu lodo.

Depois, cavei cá dentro com denodo;
perfumei-me de flores azuis do mato;
e, quando cri expulso o lodo inato,
mais uma vez curvei o meu corpo todo.

E as águas tardaram em toldar...
Mas debruço-me ainda, pois espero
que me hão de um dia, claras, espelhar.

Tanto faz ver-me belo ou feio, então;
só cristalinas, límpidas, as quero,
prà tua sede antiga, meu Irmão.

Sebastião da Gama, Itinerário Paralelo, 1967





Caravaggio, Narcissus 1598-99 Darren Hasson recreation
Caravaggio, Narcissus 1598-99 Darren Hasson recreation




NARCISO

De n'água contemplar-se onde se vê Narciso
se inclina sobre si para beijar-se e a imagem
avança em lábios trémulos que o respirar
ansioso escrespa o espelho prestes a partir-se.

Não foi de contemplar-se ou de a si mesmo amar-se
que em limos se fundiu com a sua imagem vácua
mas de não ter sabido quando não de olhar
nem só de húmidos beijos se perfaz o amor.
Jorge de Sena, 1970-07-09






[QUEM EDUCO QUANDO A TI EDUCO?]

Quem educo quando a ti educo?
A lenta corrupção.
Pego em objetos e educo-te.
Olho para ti
e estás longe
que vou ao teu encontro.
   
Aprendo de ti o aprendido de mim.
   
Joaquim Manuel Magalhães, Envelope, 1974



DONJUANISMO INVERTIDO, O NARCISO MODERNO E O VAZIO

Parece evidente o narcisismo típico da pós-modernidade. O «Eu», alvo de todos os investimentos, «torna-se um espelho vazio à força de “informações”, uma questão sem resposta à força de associações e análises, uma estrutura aberta e indeterminada» (Lipovetsky, 1989:53). O afastamento do outro é, por um lado, a constatação de que o outro é o vazio, por outro lado, e ainda que inconscientemente, é um modo de preservar as suas próprias opções: «Estar sozinho é o preço / duma vida?» (J. M. Magalhães, Uma Luz com toldo vermelho, Lisboa, Editorial Presença, 1990, p. 21).
O Narciso pós-moderno cultiva o «flight from feeling» (Lipovetsky, 1989:72), encontrando-se assim num estado de apatia, indiferença, desencanto, «não só a fim de o indivíduo se proteger contra as deceções amorosas, mas também contra os seus próprios impulsos, que podem sempre ameaçar o seu equilíbrio interior» (idem, ibidem). Esta indiferença cultivada acaba também por gerar vulnerabilidades.

(...) De ti
que nem reconhecer-me poderias
não imagino sequer o teu rosto de agora.
Algum intervalo, então, de dinheiro ou de temor,
Fez de nós este visco que tombou
Em distantes poços muito fundos.
               
(J. M. Magalhães, A Poeira levada pelo vento, Lisboa, Editorial Presença, 1993, p. 32)

A relação com o outro é dolorosa, pois falta-lhe a ingenuidade de acreditar na veracidade dos sentimentos. Passando o paradoxo, o eu que habita o outro é ninguém.
A este amor falta a esperança, falta a ilusão, falta o encanto, é somente uma entrega desenganada: «O corpo aceita o quase nada do amor.» (idem, ibidem:38). É um desamor.

Restos - O exercício crítico e poético de Joaquim Manuel Magalhães,
Paula Cristina Oliveira da Cruz, Universidade do Minho, outubro de 2001, pp. 75-76.



“Donna”, da série “Unadorned” (2012), Julia Fullerton-Batten




SAMPA

Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende depressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
da força da grana que ergue e destrói coisas belas
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
mais possível novo quilombo de Zumbi
e os novos baianos passeiam na tua garoa
e novos baianos te podem curtir numa boa

Caetano Veloso, LP Muito Dentro da Estrela Azulada, 1978



Em 1978 Caetano Veloso gravou a canção Sampa. Embora seu lançamento tenha ocorrido quase dez anos após o fim do Tropicalismo, a canção conserva marcas temáticas e estilísticas do movimento. Sampa poetiza uma cidade de contrastes: a modernização socioeconômica acelerada e excludente, a vitalidade cultural, a convivência da diversidade. São Paulo é vista sob o olhar do migrante e sua tomada de consciência ante a metrópole carregada de vitalidade e contradições. Conquanto estampando uma primeira impressão negativa da cidade, algo incompreensível (“porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”), ao final da canção, o eu poético incorpora o espaço, passando a fazer parte dele, podendo entendê-lo, admirá-lo, aceitá-lo (“E os novos baianos passeiam na tua garoa/E novos baianos te podem curtir numa boa”).

Comunicação & educação • Ano XV • número 3 • set/dez 2010.



O compositor apropria-se do mito de Narciso para explicar, simbolicamente, o que lhe ocorreu quando conheceu a cidade de São Paulo.

Ler também:
Passando por um filtro chamado São Paulo: isto é Brasil”, Luiz Gonzaga Falcão Vasconcelos e Cláudia Maria de Freitas. Uberlândia, Olhares & Trilhas, 2002. ISSN: 1983-3857
Sampa, um exercício intertextual”, Zemaria Pinto, 2005-10-20
Por trás da letra: Sampa”, Luís Pini Nader, 2009-09-08
Da cidade moderna à pós-moderna: uma análise da construção de imaginários sobre a cidade nas canções Sampa e A cidade”, Ana Carolina Costa Porto, Luziana Marques da Fonseca Silva eMayrinne Meira Wanderley. Conferencias.cies.iscte, Second International Conference of Young Urban Researchers, 2011-10-14
Do difícil começo à boa garoa – análise da música Sampa, de Caetano Veloso., Poliana Jacqueline Queiroz e Leonardo Yamamura Bueno. Revista Café com Sociologia, Vol.2, Nº3. Outubro de 2013.












CONTRANARCISO
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Paulo Leminski, Caprichos e Relaxos. São Paulo, Editora Brasiliense, 1983



“Narciso morre de sede, ao beber sua imagem” (Paulo Leminski)

No poema “contranarciso” Leminski desenvolve de forma poética o conceito psicanalítico de narcisismo como função essencial na formação do Eu. […]
Leminski faz no opúsculo “Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego”, uma leitura pós-moderna e concisa do clássico “Metamorfoses” de Ovídio. Reconstrói ali grande parte dos mitos descritos no clássico, sem se ater às divisões temáticas e ao rigor estilístico do texto ovidiano. Chega mesmo a cruzar alguns personagens dando-nos uma panorâmica talvez mais coerente com o amplo escopo do que se agrupa hoje em uma denominada mitologia grega.
Essa pequena digressão pelas “metaformoses” leminskianas é para situar o mito de Narciso na sua obra, e que está sintetizado na frase aqui em epígrafe e que termina o livro citado [“Narciso morre de sede, ao beber sua imagem” (Paulo Leminski)]. Leminski tem arguta percepção do papel da mitologia no estudo da condição humana, e no poema “contranarciso” parece mostrar, por uma inversão do mito, sua necessidade de constantemente beber em outros lagos, mesmo tendo que viver a angústia de não beber em si mesmo.

Ler mais: “Metamorfoses do Eu na poesia de Leminski”, Ruy Perini. Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid, 2006.


Franz von Stuck - v.Stuck / Narcissus / c.1926
"Narciso", Franz von Stuck (1926)



NARCISO

Niño,
¡Que te vas a caer al río!

En lo hondo hay una rosa
y en la rosa hay otro río.

¡Mira aquel pájaro! ¡Mira
aquel pájaro amarillo!

Se me han caído los ojos
dentro del agua.

¡Dios mío!
¡Que se resbala! ¡Muchacho!

…Y en la rosa estoy yo mismo.

Cuando se perdió en el agua
comprendí. Pero no explico.
NARCISO

Menino,
Vais cair no rio!

No fundo há uma rosa
e na rosa há outro rio.

Olha aquele pássaro! Olha
aquele pássaro amarelo!

Caíram-me os olhos
dentro d’água.

Deus meu!
Ele escorrega! Menino!

... E na rosa estou eu mesmo.

Quando se perdeu na água
compreendi. Mas não explico.

Federico Garcia Lorca, Canciones. Madrid, Espasa-Calpe, 1986









NARCISO E NARCISO

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira. 

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
                 E se amam mentindo
                            no fingimento que é necessidade
                            e assim
                 mais verdadeiro que a verdade. 

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
                       E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
                       se odiando. 

O espelho
                   embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
                         que o inferno de Narciso
                         é ver que o admiravam de mentira.

Ferreira Gullar, Barulhos (1980 1987).
Rio de Janeiro, José Olympio, 1987


A retomada ao mito de Narciso, além de promover uma reflexão sobre a “ilusão” da imagem especular e desta duplicidade inerente ao ser humano (a “outridade” de que fala Octavio Paz), permite tratar o tema dos espelhos enquanto uma qualidade reflexiva que possibilita ao poeta pensar seu próprio ato poético, ou seja, o processo de criação literária.

Ler mais: Sueli Aparecida da Costa e Antônio Donizeti da Cruz “O Mito de Narciso e a Imagem Especular na Lírica de Ferreira Gullar” in Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários, Volume 11 (2007) – 1-131. ISSN 1678-2054










ECO E NARCISO

Nela, vive o som que os deuses roubaram
ao fugitivo amante; sem destino, consome-se
no fundo de um espelho que repetiu o choro
da amada. Não o ouviu; nem viu essa
cuja beleza a terra sepulta, solitária,
condenada ao jogo da natureza. Olha-se,
fixamente, despindo-se da folhagem
que as chuvas acumularam no abrigo dos vales;
cobrindo-se com o brilho húmido que ofuscou
o furtivo aceno; dançando, enfim, quando
o vento envolve os arbustos com o desvelo
de um murmúrio de flauta. Aqui,
engana-o a imagem de que fogem as águas
que o seu reflexo suspende, detendo
o inelutável tempo; nenhuma súplica, porém,
restituirá um corpo à sombra
que persegue. Tão perto, no entanto, dos seus
braços que imitam a realidade!, procura
o seu conforto no fundo das fontes. «Quem és?»
«És», repete, sem que a voz se distinga
- e os seus lábios se revelem, turvos
de ânsia, num rigor de verso.

Nuno Júdice, As regras da perspectiva, Quetzal Editores, 1990.




Narciso, Anthony Gayton (2006)





POEMA NARCISISTA

(o espelho é minha alma…)

sou narcisista
estupidamente narcisista
não nazista
nem stalinista
nem collorista
ou qualquer outro “ista”
irritante e exibicionista
sou apenas narcisista

(o espelho é meu guia…)

sou narcisista
politicamente narcisista
não comunista
nem monarquista
nem capitalista
ou qualquer outro “ista”
desnecessário e alienista
sou apenas narcisista

(o espelho me acalma…)

sou narcisista
ingenuamente narcisista
não umbandista
nem adventista
nem catolicista
ou qualquer outro “ista”
religioso ou contritista
sou apenas narcisista

(o espelho me alicia…)

sou narcisista
literariamente narcisista
não concretista
nem positivista
nem parnasianista
ou qualquer outro “ista”
complicado e radicalista
sou apenas narcisista

(o espelho é minha alma
o espelho é meu guia
o espelho me acalma
o espelho me alicia)

sou narcisista
pretensiosamente narcisista
e quem não for
atire a primeira pedra...
...no espelho.

Linaldo Guedes, Os zumbis também escutam blues e outros poemas
Textoarte Editora, 1998







A BELA ADORMECIDA NO ESPELHO

Há uma mulher mais bela que eu?

olhar doce
azul turquesa
abertos à força do rímel?
olhos que não vêem
coração que não sente
fotografia em movimentos
suaves, suaves, suaves.
Do outro lado
pano de fundo
o mundo.
Retorno
contorno a boca
por dentro, catatonia
não se transparece
na aparência oca.
Ombro reto
sobrancelha arqueada
falta pouco
para ser amada
caricatura, minha cara
ranhura na moldura
essa ruga
não devia estar aí
se multiplica
contra a vontade
no tempo gasto
para não deixar
aparecer o tempo.
me diga espelho meu

Alice Ruiz, Dois em Um. São Paulo: Iluminuras, 2010.

No poema há jogo de sentidos, entre o conto de Branca de neve e a Bela Adormecida, pois embora o título aluda à historia da Bela Adormecida, no primeiro verso “Há uma mulher mais bela que eu?” a reminiscência é à Madrasta de Branca de neve mirando-se no espelho.
[Note-se o] dúbio sentido que o refletir-se no espelho pode trazer: o tempo perdido sem notar-se como mulher, sem reconhecer e ter sua identidade ou o despertar da consciência dessa feminilidade.

Ler mais: “O mito de narciso na poética de Alice Ruiz S.”, Helena Maria Medina Marques, Revista Memento V.5, n.1, jan.-jun. 2014 Revista do mestrado em Letras Linguagem, Discurso e Cultura – UNINCOR ISSN 2317-6911





Em "Back to Back" de Michael Leonard (1999),
 Narciso desencantado consigo próprio vira as costas ao espelho.






PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:

O mito de Narciso na poesia portuguesa contemporânea”, Aida Maria Lima Medeiros Marques Veloso. Separata de Hvmanitas, 27-28, 1985. Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos, 1975-76.

Literatura para jovens: O palco do Eu”, Teresa Mergulhão. Comunicação apresentada no I Colóquio Ibérico de «Literatura Infantil e Interculturalidade»/III Simposium da Red de Universidades Lectoras. Castelo Branco: ESECB. 16-17 de Novembro de 2009.

Narciso em sacrifício: a poética de Mário de Sá-Carneiro, Fernando Paixão. Cotia: Ateliê Editorial, 2003.

Cameron Gordon is a modern narcissus for the peak”, /



Creative photo art by Thomas Dodd
Thomas Dodd







"Narciso", Pierre et Gilles (2013)




Fotografia de Eric Guichaoua Serra










[Publicação simultânea em: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/11/09/COMO-NARCISO-SE-PERDE.aspx]
Enviar um comentário